Muito
além das questões religiosas, os conflitos no Oriente Médio fulcram-se
na escassez de água regional. Apesar do inconcebível silêncio a respeito
do tema, o mundo sabe que são os recursos hídricos que provocam e/ou
contribuem para o acirramento dos conflitos. O exemplo clássico é a
invasão por Israel das colinas de Golã, na Jordânia, onde está a nascente do rio Jordão.
É sabido que israelenses, palestinos e jordanianos disputam os recursos hídricos do rio Jordão. Então, toda
vez que pensarmos em invasão de terras no Oriente Médio, devemos
relacioná-la com invasão de terras com água - superficial ou
subterrânea.
Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir o controle de água na região. Dentre estes:
- a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);
- nos anos 60, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e tomou da Síria as Colinas do Golã, para controlar os afluentes do Rio Jordão.
-
em 2002, a construção do ‘Muro de Segurança’ viabilizou o controle
israelense do Aquífero de Basin, um dos três maiores da Cisjordânia, que
fornece 362 milhões de metros cúbicos de água por ano. Antes do muro, o
Aqüífero fornecia metade da água para os assentamentos israelenses. A
destruição de 996 quilômetros de tubulação de água deixou a população
palestina do entorno do muro sem água para beber;
- antes de devolver (apenas simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu os recursos hídricos da região. A Faixa - o que foi estipulado como território palestino – conta com 1,5 milhão de habitantes para uma área de 360 km², sem água.
Por que a água nunca aparece de forma explícita nas discussões e negociações políticas da região?
A
água, na região, é vendida para o consumo humano e animal. É mercadoria
vital: ou se compra água do vizinho ou se morre de sede.
Imagino que não seja conveniente trazer este assunto à tona. Principalmente porque, ali, os rios ultrapassam fronteiras. A água sempre foi um bem precioso naquela região. Hoje, ela é mais preciosa do que petróleo. É questão de segurança nacional. Daí a disputa pelaposse de território que possua recurso hídrico.
As regras internacionais para o uso
compartilhado dessas águas, que são chamadas de transfronteiriças, não
são cumpridas porque os tratados existentes não prevêem mecanismos de
coação ou de coerção. Assim, os tratados que obrigam
Israel a fornecer água potável aos palestinos. O Acordo de Paz de Oslo
de 1993, por exemplo, estipulou que os palestinos deveriam ter mais
controle e acesso à água da região. Mas tais regramentos – lex partibus - não são cumpridos.
E o Tribunal Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso relacionado com águas internacionais.
Rio Jordão
Importante salientar que o conceito de bacia hidrográfica, segundo Ninon Machado, “é
relativamente recente: data da segunda metade do século passado e a
consolidação das regras ocorrem no âmbito da Internacional Law
Association, em especial tratando sobre águas compartilhadas ou
transfronteiriças, As famosas regras de Helsinki de 66”.
Das principais fontes de obtenção de água no Oriente Médio - as bacias dos rios Jordão, Tigre e Eufrates -, o foco principal é o rio Jordão, disputado por Israel, Líbano, Síria e Jordânia. Um rio, afetado pela seca e poluição, que supre em torno de 1/3 da água consumida por Israel, além do consumo da Jordânia, Síria, Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
A
falta de saneamento básico e o despejo de resíduos já poluiu o rio
Jordão de tal modo que os rituais de batismo serão impedidos ali,
conforme relatou a jornalista Jess Leber.
E, embora
Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, tornou-se - com as
sucessivas invasões -, o detentor do controle dos suprimentos de água;
tanto seu como da Palestina.
O detentor da água detem o poder
Além
de restringir o uso d’água, Israel luta pela expansão do seu território
para obter mais acesso e controle deste recurso natural. São suas as
águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e seus
tributários), o mar da Galileia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão; e
as águas subterrâneas formadas por 3 grandes sistemas de aquíferos: o
aquífero da Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma
pequena porção sob o Estado de Israel), aquífero de Basin e o aquífero Costeiro que se estende por quase toda faixa litorânea israelense, até Gaza.
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