“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."
(Millôr Fernandes)
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Fidel Castro em seu centenário: o homem que enfrentou os EUA e superou todas as dificuldades
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Defesa nacional, um imperativo existencial
Defesa nacional, um imperativo existencial
Brasil, enfim, acorda para a necessidade de investir em Defesa. Ataque dos EUA à Venezuela foi alerta. Não precisamos deixar de ser país pacífico. Mas, como mostra o Irã, é possível resistir a uma guerra assimétrica – mesmo sem armas nucleares

Antes de prosseguir, abro um rápido parêntese: parece que Nietzsche não disse isso, infelizmente. Mas poderia e deveria ter dito, a meu ver, pois a frase parece ilustrar bem, e com força, um aspecto central do seu pensamento. É impressionante, diga-se de passagem, como é grande o número de frases apócrifas interessantes. Poderia dar vários exemplos, mas isso tornaria a digressão longa demais.
sábado, 21 de março de 2026
Guerra impõe nacionalização da distribuição de combustíveis em nome do interesse público
Sábado, 21 de março de 2026
Do Pátria Latina
César Fonseca
A guerra está comprovando que a privatização da distribuição dos derivados do petróleo – gasolina e óleo diesel – foi erro estratégico, que prejudica a população, praticado pelos governos neoliberais Temer e Bolsonaro, vendilhões da pátria.
O presidente Lula, em nome do interesse público, tomou a decisão correta, nesta quinta-feira,12, de reduzir impostos sobre importação de combustíveis para evitar especulação dos preços em decorrência da guerra, como já ocorre em diversos pontos do território nacional.
Na ausência da distribuição estatal, que foi criminosamente privatizada pelos adeptos do neoliberalismo, adversários do consumidor, a saída lulista de emergência evita prejuízo maior para o poder de compra dos assalariados.
Ao mesmo tempo, ensina, didaticamente, que o mercado não se autorregula sem o controle do Estado na oferta do produto, como ocorria antes da privatização, evidenciando que se trata de pura fantasia esperar equilíbrio dos preços, quando o setor privado exerce a distribuição de forma monopolizada, especialmente, em tempo de guerra.
Em vez de defender o bolso do público, afetado pela guerra, os especuladores multiplicam os lucros privados, acelerando inflação, arrocho salarial, concentração de renda e desigualdade social.
REESTATIZAÇÃO JÁ
A BR Distribuidora, como empresa pública, exercia função essencial: defender o interesse público diante de situações críticas, como ocorre no momento: equilibrava os preços para evitar especulação e desorganização do mercado.
Nesses momentos, os consumidores são os maiores prejudicados, porque não têm quem os defenda da sanha especuladora que desperta como oportunidade única do setor privado para aumentar os preços na distribuição, de forma oligopolizada.
Não há, nessa hora, autorregulação do mercado, mas, simplesmente, anarquia e corrida para ganhar mais no prazo mais curto possível.
Pior: quando terminar a guerra, estará dada outra situação conjuntural, diante da qual o governo, desarmado, não terá força para revertê-la sob pressão dos neoliberais.
FUNÇÃO REGULADORA DO ESTADO
Conviviam, no Brasil, antes da privatização total da distribuição, monopólios público e privado para a distribuição do produto em todo o território nacional continental, impossível de ser fiscalizado e controlado sem a ação estatal.
O controle público da oferta era exercido pela Petrobrás, com sua famosa marca, Distribuidora BR, enquanto o privado era formado por empresas privadas nacionais e mistas, ou seja, capital nacional associado ao capital estrangeiro, presente, no Brasil, desde os anos de 1920.
O monopólio estatal, quando estabelecido com a criação da Petrobrás, na Era Vargas, mudou, qualitativamente, a situação em favor do interesse nacional: exercia a extração do produto, que servia para proteger os consumidores, quando havia especulação.
O governo, ou segurava os preços ou baixava os mesmos, quando necessário, de modo a evitar acumulação de lucros exagerados pelos capitalistas, como monopólio privado.
O consumidor ficava, relativamente, protegido, porque detinha o poder da escolha.
Se o preço do monopólio privado subisse, desequilibrando o poder de compra do consumidor, este tinha a opção, com a existência da BR Distribuidora estatal, de escolher o preço mais barato ofertado pelo distribuidor estatal.
Essa situação de equilíbrio foi criada, principalmente, depois das crises do petróleo nos anos 1970.
Os governos militares estatizaram a distribuição, por meio da BR Distribuidora, ao lado das concorrentes privadas, que já existiam desde antes da criação da Petrobras.
Dessa forma, o mercado era controlado quanto à oferta e demanda do produto, graças ao controlador/regulador Estado.
ANTIREVOLUÇÃO NEOLIBERAL
Os neoliberais no poder, a partir de 2016, quando, com apoio dos Estados Unidos, derrubaram o governo nacionalista de Dilma Rousseff, mudaram essa situação, e tudo se tornou instável com a mudança das regras do jogo.
Começou com a alteração no princípio básico de que a formação de preços deveria se basear nos fatores internos de produção para a composição dos custos.
O Brasil, especialmente, com os investimentos estatais realizados pelo Governo Geisel, tornara-se autossuficiente na extração, produção, refinação e distribuição do produto.
Portanto, o governo nacionalista ficara livre para formar os preços do produto a partir das vantagens comparativas internas, que lhe garantia supremacia diante dos concorrentes.
O Brasil, dispondo da capacidade de produção e consumo, alcançadas por políticas nacionalistas, que se iniciaram na Era Vargas, conquistou soberania nacional – do poço ao posto.
ENTREGUISMO NACIONALISTA
No poder, os neoliberais antinacionalistas entregaram o ouro aos bandidos.
Começaram por vender, na bacia das almas, a Distribuidora BR, enquanto facilitou as importações de derivados, ao mesmo tempo em que estabeleceram prioridade para exportação de petróleo cru, reduzindo, drasticamente, o refino, já que partiram, também, para privatização de refinarias.
Só ficou no mercado distribuidoras privadas, com direito a importar e refinar, o que prejudicou a política de investimento da Petrobrás, para favorecer, sobretudo, distribuição de dividendos.
Aí já viu, né!
Somente Papai Noel acredita na lenda de que existe o livre mercado, que ele é autorregulado pela concorrência.
Fantasia neoliberal.
Os preços dispararam – e, igualmente, a inflação, enquanto os salários caíram – com os capitalistas privados em regime de monopólio tomando conta do galinheiro como verdadeiras raposas rapinando consumidores.
CONSUMIDOR GANHA EM REAL, MAS PAGA EM DÓLAR
Para piorar a situação, a Petrobras, dominada pelo pensamento neoliberal, antinacionalista, mudou a regra segundo a qual a formação dos preços deveria basear-se nas vantagens comparativas internas, substituindo-a pela regra alternativa antinacional: os preços passariam a ser formados pela média da cotação internacional baseada em dólar.
Os consumidores deixaram de pagar o preço dos derivados em reais para pagarem em dólares, conforme a regra antinacionalista fixada pela Paridade de Preços de Importação (PPI)
Enterraram a moeda nacional em favor da moeda estrangeira mais valorizada.
Crime neoliberal de lesa pátria.
O presidente Lula, ao vencer eleições em 2022, mudaria essa regra criminosa, restabelecendo poder da Petrobrás de formar preços a partir das vantagens comparativas dadas pelo petróleo nacionalizado, embora a distribuição dele tenha deixado de ser controlada pela BR Distribuidora, privatizada pelos neoliberais.
HORA DE MUDAR A REGRA ANTINACIONAL
A guerra cria novas circunstâncias, e, diante delas, faz-se necessário alterar as regras, impostas de fora para dentro, à revelia do governo que se pretende nacionalista, removendo práticas neoliberais antipopulares.
A decisão do presidente Lula de proteger o consumidor dos efeitos das regras imperialistas impostas pelo governo Trump, dos Estados Unidos, que passou a desrespeitar todas as regras internacionais, afirmando-se como verdadeiro fascista, coloca em discussão a necessidade de proteção do consumidor, por meio da reestatização da distribuição.
Por que Trump pode desrespeitar as regras e os demais países são obrigados a aceitar esse status quo imperialista?
Não basta a Petrobrás, apenas, produzir, por meio de regras fixadas pelo Estado.
Trata-se, também, de colocar o domínio estatal, novamente, no campo da distribuição, para evitar a farra privada do boi, que se aproveita da guerra para cobrar preços extorsivos do consumidor, totalmente, desprotegido.
Faz-se necessário priorizar o interesse público, limitando o interesse privado.
Se não tivesse havido a privatização da distribuição, o governo controlaria a distribuição pela BR Distribuidora estatal, como acontecia antes, quando emergia crises de oferta, sem precisar diminuir impostos de importação.
O interesse privado, no contexto da guerra, eleva a inflação, incontrolavelmente, justificando, em nome do interesse público, a intervenção estatal, URGENTE.
Como inexiste a saída da distribuição estatal, sob domínio da distribuição privada, a saída opcional de redução de impostos, apenas, sangra as finanças públicas, contribuindo, decisivamente, para aumentar déficits orçamentários, que justificam, aos olhos dos neoliberais, aumento dos juros para evitar aumento da inflação.
Trata-se de alternativa inconveniente, pois, com mais inflação, aumenta o arrocho salarial, a concentração de renda nas mãos dos especuladores e a ampliação da desigualdade social, inviabilizando industrialização e desenvolvimento econômico sustentável.
GUERRA É GUERRA? PETRÓLEO, PODER, AMBIÇÃO? OU CABE NEGOCIAÇÃO?
GUERRA É GUERRA? PETRÓLEO, PODER, AMBIÇÃO? OU CABE NEGOCIAÇÃO?
Pedro Augusto Pinho*
As guerras de hoje não são as de ontem, certamente não serão as de amanhã. Mas há motivos que, por incrível que pareçam, permanecem; demonstrando que os estágios civilizatórios em que se encontram os países são bem distintos.
No entanto, estes diferentes estágios civilizatórios estão muito mais voltados para as governanças internas do que para as relações internacionais.
É uma situação complexa, que ultrapassa as melhores análises dos comentaristas das mídias, o que acaba por levar a torcidas, como se fosse um jogo em disputa, muito diferente das reações à fria análise dos fatos.
A mais contundente demonstração está nos bolsonaristas desfilando com bandeiras de Israel. Será que algum, um só, um único dos participantes da passeata, saberia nos explicar a razão de portar a bandeira do Estado de Israel numa manifestação política partidária brasileira na Avenida Paulista, na capital do Estado de São Paulo?
O Estado de Israel é um estado belicoso. Desde sua criação, em 14 de maio de 1948, está em guerra contra os vizinhos. É claro que ele trouxe um desconforto ou desalento para os habitantes da Palestina, que certamente almejavam sua independência do Reino Unido, que lá exercia o governo como mandatário da Liga das Nações.
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Marco Rubio expõe o projeto de recolonização
Sábado, 21 de fevereiro de 2026
Marco Rubio expõe o projeto de recolonização
Sob aplauso das elites europeias, o secretário de Estado dos EUA abre o jogo em Munique. A descolonização foi perversa; para livrar-se da decadência, o Ocidente deve impor sua ordem à China e Sul Global; Gaza e Venezuela são caminho a seguir
Do OUTRASPALAVRAS
Por Crismar Lujano, no Diário Red | Tradução Antonio Martins
MAIS:
O cinismo de Marco Rubio em Munique parece inacreditável, mas é real. Sua fala pode ser lida, na íntegra, no site do Departamento de Estado dos EUA.
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Cuba e as mentiras monumentais dos Estados Unidos
sábado, 24 de janeiro de 2026
Quando os loucos conduzem os cegos
Sábado, 24 de janeiro de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Especialistas dissecam ação dos EUA na Venezuela

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Brasil: a Defesa necessária contra Trump
SEGUNDA, 19 DE JANEIRO DE 2026
Brasil: a Defesa necessária contra Trump
A guerra chegou à América do Sul. Mas Forças Armadas brasileiras estão concebidas como extensão do Pentágono. Transformá-las, preparando-as à defesa da soberania e livrando-as do combate ao “inimigo interno”, precisa estar na agenda nacional
Publicado 16/01/2026 às 18:03 - Atualizado 16/01/2026 às 18:31
A capacidade militar do Brasil, desde a Segunda Guerra Mundial, é concebida como extensão do poderio do Pentágono. Uma nova conflagração generalizada se desenha e, seja qual for o seu desenrolar, obedecendo ou contrariando Washington, seremos afetados.
Se, na melhor hipótese, forem usadas armas convencionais a carnificina se prolongará por tempo indeterminável. Na pior, armas nucleares encurtarão a guerra e o resultado será inimaginável.
Nas últimas décadas, orientações de nossa Defesa Nacional (DN) foram reescritas sem novidades substantivas. Consistem em generalidades e truísmos sobre o quadro geopolítico acompanhadas de proposições rotineiras das Forças Armadas.
Esses documentos mostram a DN como matéria da alçada militar. Revelam que as armas mais complexas são importadas e o desenvolvimento de tecnologia própria não acompanha o ritmo frenético dos grandes atores internacionais. Parcerias tradicionais são preservadas. As fileiras estão prontas para preservar a Lei e a Ordem e cumprir múltiplas funções. Finalmente, concluem que a DN estaria melhor, não fosse a avareza do Estado.
quarta-feira, 16 de julho de 2025
Estratégias —China contorna caos tarifário de Trump, cresce 5,3% e tem recorde de exportações no 1º semestre
domingo, 30 de março de 2025
Star Trek, seriado comunista?
Domingo, 30 de março de 2025
Produzido quando EUA arrasavam o Vietnã, programa sugere o oposto, no século XXIV. Tripulação é anti-imperialista; zomba dos burgueses e do individualismo. Em seu planeta, a Terra, reinam a abundância e uma sociedade sem classes
Publicado 28/03/2025 às 20:20 - Atualizado 29/03/2025 às 08:03
Por Yanis Varoufakis | Tradução: Antonio Martins
Em 9 de fevereiro de 1967, horas depois de a Força Aérea dos EUA arrasar o Porto de Haiphong e várias bases aéreas vietnamitas, a NBC exibiu um episódio de Star Trek com um conceito que colidia brutalmente com o que acabara de acontecer no Vietnã: a Diretriz Primeira – uma proibição geral a seus capitães de nave estelar de usar tecnologia superior (militar ou não) para interferir em qualquer comunidade, povo ou espécie senciente, mesmo que a não-interferência custasse suas próprias vidas.
Ao transformar uma ideologia tão radicalmente anti-imperialista na regra cardinal da fictícia Federação Unida de Planetas – que o público norte-americano via como uma extensão lógica dos EUA –, não seria surpresa se o presidente Lyndon B. Johnson ou o Pentágono tivessem exigido o cancelamento imediato de Star Trek. Felizmente, não o fizeram. E assim, ao longo dos 939 episódios (em 12 séries diferentes) que se seguiram, a Diretriz Primeira permitiu que roteiristas e diretores explorassem suas repercussões políticas e filosóficas, incluindo conflitos éticos que levaram a suas frequentes violações, mas nunca a sua revogação.
Também permitiu outra inferência: essa Federação futurista jamais teria amadurecido o suficiente para adotar a Diretriz Primeira anti-imperialista antes que uma versão humanista do comunismo fosse estabelecida na Terra!
O comunismo libertário de Star Trekcontra o coletivismo autoritário
É cristalino que Star Trek retrata uma sociedade comunista, sem jamais nomeá-la como tal. Num episódio de 1988, a USS Enterprise encontra uma nave terrestre enferrujada, com câmaras criogênicas contendo plutocratas humanos que pagaram fortunas para serem congelados e lançados ao espaço, na esperança de que alienígenas os curassem de suas doenças, mortais no século XX.
Após a tripulação da Enterprise descongelá-los e curá-los, um deles, Ralph Offenhouse, um empresário, exige contatar seus banqueiros e escritório de advocacia na Terra. O capitão Jean-Luc Picard não tem escolha a não ser revelar que, nos trezentos anos que se passaram, muita coisa mudou.
— Picard: As pessoas não são mais obcecadas por acumular coisas. Eliminamos a fome, a carência e a necessidade de posses. Saímos da nossa infância.
— Offenhouse: Você não entendeu. Nunca foi sobre posses. É sobre poder.
— Picard: Poder para quê?
— Offenhouse: Para controlar sua vida, seu destino.
— Picard: Esse tipo de controle é uma ilusão.
— Offenhouse: Sério? Então por que estou aqui?
A alusão de Offenhouse ao pendor pela acumulação que sustenta a vontade de poder aponta o motivo pelo qual a Diretriz Primeira é incompatível com o espírito do capitalismo: enquanto a acumulação, alimentando a expansão dos mercados, for a força motriz e ideologia de nossa sociedade, o imperialismo será inevitável.
Para escapar disso, a humanidade deve primeiro eliminar a escassez de bens materiais – eliminação que, na Federação Unida de Planetas, foi alcançada graças à invenção e disseminação dos replicadores: máquinas que convertem energia verde abundante em qualquer forma de matéria desejada, de comida a gadgets a naves espaciais.
Esta não é exatamente uma ideia nova. Em 350 a.C., Aristóteles já previra que “…se cada instrumento pudesse realizar seu trabalho por si, obedecendo ou antecipando a vontade alheia, como as estátuas de Dédalo ou os trípodes de Hefesto que, diz o poeta, ‘por vontade própria entraram na assembleia dos Deuses’; se, da mesma forma, a lançadeira tecesse e o plectro tocasse a lira sem mãos que os guiassem, os mestres não precisariam de servos, nem os senhores de escravos.”
Ele próprio um ávido aristotélico, Karl Marx baseou sua visão de uma sociedade comunista libertadora – onde tanto o Estado quanto o mercado definham – em máquinas como os replicadores de Star Trek, que nos libertam do trabalho não-criativo, esmagador da alma.
Em um de seus escritos iniciais, ele imagina o que se seguiria à invenção de tais máquinas:
“Na sociedade comunista, onde ninguém está confinado a uma única esfera de atividade, mas pode se dedicar ao campo que desejar, a sociedade regula a produção total, e assim posso caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite e analisar teatro após o jantar – sem precisar ser caçador, pescador, pastor ou crítico.” [A Ideologia Alemã, 1845]
sábado, 1 de março de 2025
Frente Polisário preenche ‘vazio jurídico’ deixado pela Espanha no território saaraui, diz diplomata
terça-feira, 3 de dezembro de 2024
O feroz Estado de Israel e suas ações com britânicos e estadunidenses
O feroz Estado de Israel e suas ações com britânicos e estadunidenses
Artigo publicado originariamente no PÁTRIA LATINA de 2 de dezembro de 2024
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*Pedro Augusto Pinho
Só os muito ingênuos ou doutrinados pelos sionistas, ingleses e estadunidenses não conseguem enxergar que o Estado de Israel foi a vingança do Reino Unido contra as populações de suas antigas colônias no Oriente Médio e nordeste da África.
Em relação aos Estados Unidos da América (EUA) foi mais outra ação pelo domínio do mundo. Não pela ocupação territorial como colônias politicamente definidas, mas no novo modelo colonizador das dívidas (financeiro) e sujeição tecnológica e para apoio político e votos em fóruns internacionais.
Na geopolítica do século XXI, distinguem-se as alianças, no Oriente Médio, da Síria com o Irã, apoiados pela Rússia, e da inclusão nos BRICS do Egito e do Irã, antigas colônias/protetorados britânicos.
Sem dúvida forma-se, naquela área do antigo Império Otomano, nova realidade fruto da brandura com que aquele Império tratou as sociedades sob seu domínio. Países como a Síria, o Egito, o Iraque e o Líbano integram o passado otomano na história de seus estados árabes. Muito diferente do domínio britânico, que mesmo antes da criação com apoio brasileiro do Estado de Israel (1948), havia constituído o Kuwait, um satélite na então província otomana, para ser praça de guerra inglesa (1899).
Recorde-se que os otomanos tentaram, em vão, impedir que judeus imigrassem para Palestina e dessem ao sionismo o ponto de apoio demográfico, com a consequência que está nos noticiários destas últimas décadas.
A pilhagem sempre foi atividade cultivada pela aristocracia inglesa desde tempos imemoriais, e dos EUA, desde quando o petróleo alavancou seu modelo de financiamento estatal para desenvolver a industrialização privada naquela parte do continente norte-americano.
A Síria vem tendo seu petróleo roubado pelas tropas dos EUA, acantonadas em seu território. São fatos que a ideologia neoliberal financeira oculta pelo controle que tem das mídias e até mesmo dos currículos escolares (veja-se a respeito o leilão de escolas públicas promovido pelo governador bolsonarista Tarcísio de Freitas, em São Paulo – 29/novembro/2024).
O Oriente Médio está sendo preparado pelas decadentes finanças neoliberais para ruptura que conduzirá o Mundo à III Grande Guerra.
O significado do Oriente Médio é ser o maior polo petrolífero do mundo. Em meados de 2023, as reservas de petróleo globais eram estimadas em 1,6 trilhões de barris, aumento de 3,3% em relação ao ano anterior. Isso significa que, malgrado toda campanha pela “transição energética”, nenhum país está cogitando seriamente de dispensar o petróleo como sua mais importante fonte primária de energia.
Só quem não tem petróleo defende sua substituição.
Além das reservas da Arábia Saudita, com 290 bilhões de barris, lá se encontram as reservas do Irã (173 bilhões de barris), do Iraque (127 bilhões), do Kuwait (110 bilhões), dos Emirados Árabes Unidos (108 bilhões), do Catar (21,5 bilhões), do Omã (sete bilhões), do Iêmen e do Egito (cinco bilhões, cada), da Síria (4,5 bilhões), além do que se supõe na porção marítima da Faixa de Gaza. Ou seja, metade do petróleo líquido (óleo) e gasoso mundial.
E o segundo polo petrolífero está na América Latina, graças às reservas venezuelanas, as maiores em um mesmo país, ao Brasil do pré-sal, ao México, ao Equador, à Colômbia, à Bolívia e à Argentina. Considerando que o terceiro maior polo petrolífero está na Rússia e em países seus aliados (Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão), vê-se a dificuldade da antiga hegemonia ocidental (leia-se EUA e Reino Unido) manter seu poder. E fica ainda mais consistente quando um quarto polo está na África, onde se processa sua segunda luta pela independência, começando na região ocidental do Sahel.
A guerra, para países bélicos, que tem boa parte de seu Produto Interno Bruto (PIB) originado da produção e comercialização de artefatos e serviços militares, é sempre a opção preferencial. E, quando em decadência, como se observa após mais de quatro décadas de domínio, torna-se uma condição de sustentação para seu poder neoliberal financeiro.
Posicionemos, geograficamente, este local que EUA e Reino Unido, com a ação desumana de Israel, pretendem ser o Saravejo, o 28 de junho de 1914, estopim da I Grande Guerra, para a primeira guerra termonuclear.
O Oriente Médio compreende a área de 7,2 milhões de km² onde habitam cerca de 260 milhões de pessoas. Os países mais populosos são a Turquia e o Irã, ambos com cerca de 80 milhões de habitantes e o mais extenso, com área de 2,2 milhões de km², é a Arábia Saudita.
Muitas diferenças mais do que identidades se observam neste Oriente Médio.
As principais etnias lá encontradas são os árabes, os persas e os turcos. Os judeus estão concentrados no Estado de Israel e majoritariamente de imigrações recentes. Sob o ponto de vista religioso, lá se encontram as três maiores religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Estas duas últimas com diversificadas crenças, matizes dos cultos e interpretações, e, consequentemente, dos pastores e hierarquias religiosas.
O petróleo e sua importância como fonte primária de energia e como insumo industrial tem sido a mais relevante produtora de guerras neste oeste asiático. Ainda que surjam em todas as mídias não por interesses colonizadores dos EUA e da Europa Ocidental, mas pelos supostos conflitos culturais, sobressaindo as diversidades religiosas.
Assim vai sendo o mundo inteiro preparado para não ver como surpreendente este recanto, construído desde 1.300, que chega ao século XVII estendido pela Ásia Ocidental, norte da África e sudeste europeu, tolerante com a diversidade de povos sob seu domínio, capaz de deflagrar uma guerra nuclear.
No entanto, o que se verifica é o colapso de uma civilização calcada unicamente no lucro, que não carrega feridos, e tem a perspectiva de redução populacional em curto prazo, para que não cesse de concentrar renda e riqueza.
Neste momento de penúria econômica e cultural, a recomendação das finanças é reduzir ainda mais as despesas com a educação, a saúde e o trabalho, como se os robôs e a inteligência artificial pudessem substituir o que o grande cientista brasileiro, neurocirurgião Miguel Nicolelis, chamou “O Verdadeiro Criador de Tudo; como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos” (Editora Planeta, SP, 2020).
Nesta obra, Nicolelis discorre sobre a informação gödeliana (G-info), aquela devida ao lógico tcheco Kurt Gödel (1906-1978), que afiança quanto mais complexo é um ser vivo, mais informação gödeliana, aquela que não pode ser traduzida pela lógica digital, ele acumulou.
“Nos seres humanos”, afirma Nicolelis na obra referida, “esse processo alcança o ápice quando se usa G-info para gerar conhecimento, cultura, tecnologias e recrutar grandes grupos sociais para colaborações coletivas que melhorem em demasia as nossas chances de adaptação para as mudanças do meio ambiente”, erroneamente atribuídas aos combustíveis fósseis.
E prossegue Nicolelis: “a G-info pode, por exemplo, explicar por que a maior parte do processo neural é executada inconscientemente”. Ora, como então digitaliza-la?
Os EUA criaram o “11 de setembro de 2001” para invadir o Iraque (2003), a Líbia (2011), proclamar o Califado Islâmico do Iraque e da Síria (2014), sendo o Afeganistão uma derrota militar e econômica que saiu das manchetes mundiais.
Também sob o pretexto da corrupção, que vem desde a Idade Média sendo atribuído aos opositores do poder fundiário, comercial, financeiro, desde 2011, a Síria enfrenta violentos conflitos motivados por denúncias de corrupção do presidente Bashar al-Assad, oriundas dos EUA, Reino Unido e aliados europeus.
Há um núcleo de planejamento de ações desestabilizadoras a serem aplicadas em países ou movimentos opositores por todo mundo, coordenado por Washington, que nem sempre tem sucesso, como se observou na Coreia, no Vietnã, em Cuba, no Afeganistão e, mais recentemente contra a Rússia, a partir da Ucrânia, entre outros desastres estadunidenses.
Infelizmente, o Brasil é dos casos de sucesso desta aparelhagem golpista, como foi o Irã (1953) e o Chile (1973).
O atual Plano contra o Mundo parte dos conflitos entre a Turquia e o Irã, os mais populosos do Oriente Médio, que se conectam com a OTAN e os BRICS, dois polos da rivalidade pelo domínio global.
A questão que se coloca no entanto não interessa às partes agressoras: seria outro tiro no pé, como reconhece a Europa envolvida na agressão da OTAN à Rússia?
Não se pode esquecer que a China, grande potência econômica, tecnológica e civilizacional do século XXI dá apoio ao governo Assad e já incluiu a Síria na Iniciativa do Cinturão e Rota, a nova Rota da Seda. E a Rússia procura aproximar o Irã da Turquia, o que incluiu uma conferência trilateral para solução de divergências.
A Guerra portanto é objetivo do decadente ocidente unipolar, não do novo poder multipolar aberto pelos BRICS.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.
sexta-feira, 28 de abril de 2023
A atualidade do combate ao escravismo
Sexta, 28 de abril de 2023
Chegamos ao terceiro milênio do que conhecemos como mundo civilizado, quinhentos anos de terra, natureza e homens depredados, dois séculos de país independente, ainda em busca da dignidade: em 2023 navegamos na periferia do capitalismo a cujo anti-humanismo intrínseco acrescentamos a miséria de brutal concentração de renda e riqueza, ou seja, de desemprego e fome, uma espécie de escravismo em plena revolução tecnológica. Somos campeões de desigualdade mesmo entre os mais pobres: 1% dos brasileiros mais ricos controla 31% da riqueza nacional. O Brasil é o segundo país com maiores desigualdades dentre os membros do G20 (o primeiro é a África do Sul). A renda média nacional de nossa população adulta é R$ 43,7 mil, sendo que os 10% mais ricos, com renda de R$ 253,9, são donos de 58,6% da renda total do país (dados do World Inequality Lab).
Aqui a classe dominante festeja o desemprego, e um Banco Central autônomo em face dos interesses nacionais combate o desenvolvimento impondo ao país uma taxa de juros que sufoca a atividade produtiva, ao tempo que atribui a persistência inflacionária à queda das taxas de desemprego e aos reajustes salariais, que abjura.
Quando o Banco Central aumenta os juros, seu objetivo claro é reduzir os investimentos produtivos (aqueles que criam emprego e fazem girar a economia) e, na sequência, o consumo das famílias (cujo poder de compra cai), criando um círculo vicioso que termina por promover a recessão, como, aliás, vimos no experimento do ministro Joaquim Levy em 2015. A chamada “autoridade monetária”, dispensada de prestar satisfações à sociedade, usa a ociosidade mórbida da economia, de particular o freio na já agônica atividade industrial, como medida anti-inflacionária e lamenta (lamenta o BC e lamenta a Faria Lima) que o desemprego tenha caído menos que o projetado, e que menos que o projetado tenha caído o consumo das famílias, adiando a recessão também projetada.
O cenário, no curto e no médio prazos — os tempos que nos interessam, pois no longo prazo todos estaremos mortos, como lembrava o esquecido Lord Keynes — é o encontro da recessão com a política contracionista imposta pelo Banco Central, com seu rol inefável de perversidades: retração da economia, concentração de renda, desemprego e fome. No segundo ou terceiro maior produtor de alimentos mundo, nada menos que 61 milhões de pessoas passaram dificuldades para se alimentar em 2022, nada menos que 33,1 milhões não têm garantido o que comer (dados do Segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar). Nosso país, sob o reino do agronegócio, está, desde 2018, de volta ao Mapa da Fome.
Burocratas, empresários e prepostos de empresários e banqueiros pensam em uníssono (todos estudaram nas cartilhas da Escola de Chicago traduzidas pela Fundação Getúlio Vargas), e chegam às mesmas conclusões, porque em suas equações não há espaço para o elemento humano. Samuel Pessôa, escrevendo em julho de 2015 (“Luzes no final do túnel”) e comentando relatório do IBGE, comemora a queda dos rendimentos dos trabalhadores como fator deflacionário: “A ´boa notícia foi a queda de 5% do rendimento médio real. (...) A ´boa notícia`, portanto, foi que os salários nominais têm crescido a taxas cada vez menores (...)”.
Já em nossos dias, o Valor (24/4/2023), em coluna assinada pelo repórter Alex Ribeiro, registra que a inflação não cai, apesar da política de juros altos, porque “a taxa de desemprego não vem subindo, até agora, da forma esperada e os reajustes de salários estão mais fortes do que o Banco Central antecipava”. O governo se empenha na promoção de emprego e renda, o Banco Central se empenha em gerar desemprego. O governo precisa investir para promover o desenvolvimento econômico; o BC, expressando a vontade da Faria Lima, cobra a redução de gastos e impõe o “equilíbrio fiscal” — e, assim, e a um só tempo, desorganiza a produção, promove o desemprego e reduz o poder de compra da população. Confessadamente persegue a recessão e já nos deixa próximos do casamento da estagnação com a inflação. Segunda maior concentração de renda do planeta, convivemos com a maior taxa de juros reais: 9,1%, contra -0,7% do Canadá, 0% dos EUA, 4,4% do México, 2,2% da França, -4,2% da Itália, 4% da Rússia em guerra, 2,9% da China, -4,2% da Turquia e -3,2% do Japão (fonte: tradingeconomics.com).
Nada obstante a realidade, o presidente do BC reafirma que a meta da instituição é combater a inflação mediante a elevação dos juros, e sua vontade é, nas circunstâncias, imperial. Mas ainda não é tudo, porque a casa-grande é insaciável. Impõe o culto do ajuste fiscal, mantra do monetarismo que conquista almas à direita e à esquerda, sem necessidade de demonstração. Assim não se discute, nem no governo nem no Congresso, e muito menos na academia e nos sindicatos, o caráter do modelo econômico que nos é imposto pelo grande capital — sem que tenha por trás de si o amparo da soberania popular que é o arrimo do mandato do presidente Lula, a quem é imposto um modelo de país e de economia que nega o pronunciamento eleitoral do dia 30 de outubro do ano passado. E nega, acima de tudo, as necessidades de desenvolvimento do país, que requer gastos, investimentos em infraestrutura e saneamento, em saúde, em educação, ciência e tecnologia, além de incentivos à necessária e urgente recuperação da indústria manufatureira. O país, inerme, não se dá conta dessa violência contra a soberania popular e as bases da democracia representativa, que é a usurpação do poder pelo Banco Central.
A esquerda de um modo geral absorveu o discurso do “equilíbrio fiscal” defendido pelos donos do poder. Trata-se de um modelo verdadeiramente de fundo escravista, revela o ranço da casa-grande: um modelo baseado na manutenção de baixa atividade econômica, elevado desemprego e achatamento dos salários, tudo para garantir as taxas de lucro do capital. É o desespero do pobre que garante o "equilíbrio" exigido pelos donos do poder.
Abandonada a alternativa industrial-desenvolvimentista, pela qual oportunamente optaram as grandes potências de hoje, somos, lembrando a origem colonial, uma grande província agroexportadora das commodities requeridas pelo chamado “ primeiro mundo”. Os principais produtos comercializados pelo Brasil no último ano foram soja (14%), óleos brutos de petróleo ou de minérios betuminosos, óleos crus (13%) e minério de ferro in natura e seus concentrados (8,6%), reforçando o setor primário como protagonista da economia do país (https://www.
Padecemos os males essenciais do capitalismo e contribuímos com a iniquidade de monstruosa desigualdade de renda, que aumenta a pobreza e aprofunda o atraso, na mesma medida em que concentra o poder nas mãos de uma minoria mínima de biliardários desvinculados da produção de riquezas e da geração de emprego. Nossa burguesia, isto é, a burguesia aqui instalada, se conforma como procuradora da banca internacional. Naturalizamos a violência em todos os modelos imagináveis, desde o genocídio das populações nativas (recentemente reavivado pelo bolsonarismo), e o escravismo, larvar, ostensivo, da colônia e do império, até, na modernidade capitalista, as mais variadas formas de trabalho análogo à escravidão. Não me refiro apenas às formas clássicas de exploração do trabalho humano no campo, a corveia, a meação, a exploração do agregado, do morador. Mas já a formas de espoliação que a imprensa identifica como “similares à escravidão” encontradas nas modernas vinícolas do Sul desenvolvido de hoje.
A herança escravagista e colonial, a ocupação predatória da natureza e dos homens na terra achada, são essenciais na moldagem da sociedade brasileira de nossos dias, exacerbadamente excludente, mas não encerram a história toda. É preciso ter sempre em conta o papel crucial desempenhado pela classe dominante aportada e aqui criada. A renúncia a um projeto próprio de sociedade, a opção consciente pelo atraso, pelo agrarismo e pela dependência econômica, política e cultural, o império autoritário e a república sereníssima, sem povo, obra de nossas elites, são essenciais na moldagem da história presente.
Coloca-se para o governo de centro-esquerda a resistência, e para os socialistas a denúncia do modelo político-econômico que aí está. O modelo capitalista vigente, que, de um lado, exige a expansão da fronteira agrícola para garantir superávits das exportações no mercado global; de outro, tem como pré-condição a produção crescente de pobreza e miséria (pilar do “equilíbrio fiscal”), o que, por exemplo, empurra ribeirinhos e demais trabalhadores precarizados para dentro das reservas indígenas, em busca de sobrevivência — objetivo que a imensa maioria persegue.
A preservação do meio ambiente tanto quanto o combate à fome e ao desemprego está ameaçada pela simples continuidade do modelo — ainda que não tenhamos mais um facínora na presidência.
O grande tema da atualidade brasileira, neste 2023, portanto, é a abolição da escravidão.
Os textos de Roberto Amaral podem ser encontrados em www.ramaral.org. |


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