Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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terça-feira, 2 de junho de 2020

A casa grande já teme o caos

Terça, 2 de junho de 2020
Por

A casa grande já teme o caos
 

 Uma vez mais o caminho é iluminado pelas ruas e pelo que este país tem de melhor: o “povão”, tão bem representado pelas torcidas dos grandes clubes de futebol de São Paulo, que, lecionando o que precisa ser feito Brasil afora, sem pedirem audiência a partidos recatados e a lideranças cautelosas, tomaram para a democracia a avenida Paulista, até este último domingo (31/5) o santuário da elite bolsonarista, cantando de galo em terreiro abandonado pelas forças populares e democráticas. Cantando de galo exatamente por isso, porque estava só: quando não divisa adversário, todo covarde alardeia destemor.
Penso estar diante de fato histórico da maior importância para nosso destino imediato, certamente o mais relevante dos tempos recentes: a entrada na cena política do povo brasileiro, este ator mal querido pelos senhores do poder; ele chega em momento preciso, sem abre-alas, marcando seus próprios passos e fazendo seu caminho,  forçando espaço e impondo sua voz. Que amanhã possa impor sua vontade. Que ao movimento espontâneo de hoje siga-se a ação organizada em plano nacional. Se assim se der o desenrolar dos fatos, poderemos apostar que dias melhores virão.
Enfim descobrimos que a sociedade está viva e que o povo-massa não se acovarda.
O povo nas ruas – nas ruas como possível, em face da pandemia, e nas onipresentes redes sociais – alterará substantivamente a correlação de forças do jogo político, e pode fazer malograr o acordo de elites, a conciliação pelo alto, a velha solução prussiana tão presente em nossa História e já em curso, agora em nome da “pacificação” nacional, codinome da conservação do statu quo, depois que os direitos dos trabalhadores foram surrupiados. A casa grande já teme o caos; este não está mais sob a batuta do capitão, suas milícias e seus celerados, pois já caminha livre, alimentado pelo rotundo desastre da política econômica. Em face do imponderável, que são os riscos decorrentes de qualquer explosão social, o “mercado”, antes indiferente à crise institucional buscada pelo capitão (o Ibovespa fechou a semana em alta) cuida agora de proteger seus ganhos e trata de intervir e administrar a “saída”, assegurando-se de que, quaisquer que sejam as alternativas conjuradas por um processo sem prévio controle, elas precisam estar escoimadas da contaminação das pressões populares.
O acordo traficado pelas elites precisa ser denunciado para morrer na praia.
Em nome da “salvação nacional”, que a todos mobiliza, a casa grande propõe um pacto nacional que deságua na preservação de um bolsonarismo bem comportado, confundindo, para melhor fazer passar o contrabando, forma e conteúdo.
Com o risco de insistir no óbvio, é preciso lembrar que o que nos afeta, fundamentalmente, não são os métodos do capitão; no caso presente a forma é o outro lado de sua natureza política. Precisamos nos ver livres é de sua política, mais que de seus maus modos. O que se coloca como necessidade urgente e ingente, agônica, é livrar o país da ameaça representada pela presença do capitão na presidência da república e comandante–chefe de forças armadas com larga tradição de intervenção política e parca cultura histórica.
O que nos aflige, ademais do projeto golpista protofascista escancarado pelo capitão e seus íntimos, é a desmontagem da economia nacional, levada a cabo passo a passo, peça por peça, com imperturbável frieza, pelo agiota alçado ao posto de “superministro”. Por aí está sendo asfaltado o caminho que inevitavelmente construirá o caos: a  recessão, o desemprego e a fome têm encontro marcado para o segundo semestre. O establishment, talvez escaldado pelas revoltas que incendeiam os EUA de Trump, eriça as sobrancelhas, pois nem mesmo o capitão, nem mesmo as forças armadas, nem mesmo o império, nem mesmo todos juntos, podem garantir que, desencadeada a convulsão social perseguida pelos aprendizes de feiticeiros, seus interesses e privilégios de classe serão mantidos irrigados como hoje são.
 Mas nossas elites são mesquinhas, e agora se revelam tolas, elas que vêm sendo expertas em todos os golpes de Estado que entulham a república. Propõem à democracia uma composição com os inimigos da democracia, como se nós, os que sabemos o que significa a repressão, não conhecêssemos a novela do sapo que tentou salvar o escorpião, condenando-se à morte.
Os termos do acordo fatal são propostos pelo inefável O Globo em editorial  (“Os democratas precisam conversar”) do último domingo. Sua importância está não apenas em suas letras; elas se tornam relevantes quando sabemos que as organizações Marinho se orgulham de expressar os interesses das classes dominantes.
O editorial diz que “a sociedade precisa encontrar a saída de uma situação em que as crises provocadas pelo presidente se sucedem”. Ninguém discorda. Temente do caos (mais precisamente: temente que do caos se louvem as forças populares), pede a “reaproximação [na defesa das liberdades] das forças políticas que têm diferenças no campo da economia, na área social e outras, mas compartilham zonas de intercessão”. Dentre as forças chamadas não se encontram  os mais interessados – os trabalhadores. Mas indica o objetivo do ajuntamento: a pacificação nacional. Em torno de quê? Ora vejam! Do bolsonarismo: “Esta via política  não deve excluir Bolsonaro, que precisa fazer um gesto pelo entendimento”. Para quê? Para que, diz o editorial,  o presidente possa “executar  sua agenda”. Mas que agenda? Exatamente a agenda que precisa ser defenestrada, essa que desestrutura o Estado, abre as portas ao autoritarismo e aspira ao fascismo. Trata-se da agenda que destrói nossa economia, o neoliberalismo paleontológico do “posto Ipiranga” que já levou o país da estagnação à recessão e agora nos está levando da recessão à depressão, com a qual nos depararemos antes do final do ano e de cujas funestas consequências não nos livraremos antes de meados da década, ainda que não demoremos a nos livrar do bolsonarismo.
Para quem tem o mando o que interessa é sua conservação. Tanto faz se o regime é monárquico ou republicano, democrático ou autoritário, de esquerda ou de direita, corrupto ou não. O fundamental é a conservação do poder, se possível sem riscos. Nossas carcomidas elites, que prepararam a ascensão do capitão (conhecendo-o de perto), que fizeram do ex-juiz e ex-ministro um regra dois para 2022, que já admitiram mesmo trocar o capitão sem modos pelo general mais comedido, nem isso admitem: querem mesmo que nada mude. A “saída” da vez propõe o concubinato da democracia, das liberdades e da “governabilidade” exatamente com quem detona a democracia, investe contra as liberdades e inviabiliza, por método, a governabilidade – o capitão, coiteiro de criminosos, cúmplice de milicianos, o pivô aglutinador da súcia que tomou de assalto nossa história. Implícito está, na proposta veiculada pelo O Globo, que todos os crimes – delitos penais, civis, administrativos, políticos – cometidos pela horda bolsonarista serão varridos para debaixo do tapete, e tudo permanecerá como dantes no castelo de Abranches.
Esta “saída” pode até ser aceita tanto pelo congresso quanto pelo judiciário – pois o papel histórico de ambos, nas crises institucionais, tem sido homologar as soluções traficadas pelas elites civis, empresariais e militares com a assessoria dos procuradores do império; assim foi sempre e nesses termos é que se deu o pacto da redemocratização de 1985. Com o povo nas ruas cobrando a redemocratização, a sociedade mobilizada pela campanha das Diretas Já, a casa grande, um grupelho  de auto nomeados príncipes, meia dúzia de políticos conservadores e meia dúzia de generais, negociaram a “transição”, de que resultou a morte da constituinte autônoma e da revisão da anistia, com a consequente impunidade dos militares acusados dos crimes de tortura e assassinato. De que resultou a tutela militar sobre o primeiro governo da “nova república”. Deu no que deu: a emergência, tantos anos passados, da escória dos porões da ditadura. O ícone dos fardados no poder e fora dele não é o general Geisel, mas Sílvio Frota, quando não o facínora Ustra.
Não há e não pode haver negociação com o crime. Com a corrupção, com a traição aos interesses do país. Não há negociação possível, muito menos coabitação com o banditismo, com as milícias, com o armamentismo, com a tragédia social, com a dilapidação de nossas reservas, com a destruição de nossa riqueza ambiental. O adversário não é o capitão, essa execrável pessoa física, mas sua política, seu projeto e o que ele representa como atraso ideológico: a emergência dos valores políticos da extrema-direita com a qual a democracia não dialoga.
O pacto proposto é espúrio. A única esperança que nos resta de vê-lo abortado é a reação das grandes massas, os 70% de brasileiros que se opõem ao bolsonarismo e que, aos poucos, e animados pelos torcedores antifascistas, começam a sair da zona de conforto – espremida entre a pandemia e a ameaça fascista –  e descobrir que a ação não apenas é necessária e inadiável, como, principalmente, é possível.
O que o clã Marinho nos oferece é o acordo das elites, para salvarem-se na crise que elas mesmas ajudaram a criar, inclusive com seus jornais e a manipulação política e ideológica que tem seu ponto de partida na desestabilização do governo Dilma Rousseff, seguida pela posse do perjuro Temer, a eleição e o governo Bolsonaro, a consolidação do regime de golpe de Estado permanente. Ninguém – imprensa, judiciário,  congresso, forças armadas –  pode hoje posar de inocente.
 

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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

quinta-feira, 26 de março de 2020

O capitão precisa ser detido

Quinta, 26 de março de 2020
Por

O capitão da reserva remunerada Jair Messias Bolsonaro (condenado por haver atentado contra o decoro, a disciplina e a ética da carreira militar, da qual foi convidado a retirar-se) precisa ser detido, e de suas mãos precisam ser retiradas as condições atuais de intervenção política. Seu desequilíbrio (agravando inépcia e limitações cognitivas) requer a curatela das instituições que, até aqui  omissas, ou acovardadas,  aparentemente estão esperando o circo pegar fogo para só então chamar os bombeiros, esquecidas de que todos estamos sob as lonas. Elas inclusive, com seus mandatários e togados.

O desvio paranoide do capitão e as profundas lacunas de caráter – expostas em sua vida pregressa, que o bovarismo dos liberais não quis ver em 2014 – estiveram à vista nesse longo ano e pouco de permanência no palácio do planalto. Mas o cúmulo da irresponsabilidade e da ilicitude vieram à tona mais recentemente em treslouc
ado, desatinado e intolerável pronunciamento em rede nacional de rádio e TV na noite do passado dia 24.

Seu conteúdo é conhecido pelo país, o que dispensa qualquer resumo. Destaco que, ao contrário de seus rompantes matutinos na porta do Alvorada, a obra do dia 24 (pré-gravada) resulta de um concerto coletivo, pensado e maturado, foi elaborada por assessores, técnicos e assistentes (notadamente, registra a imprensa, pelos seus familiares), teve a consultoria do ministro da saúde, de quem se diz estar em lamentável recuo estratégico, após haver cogitado de pedir as contas.

Na sequência, isto é, nessa mesma triste noite, o comandante do exército rompe seu silêncio cautelar e somos surpreendidos por um pronunciamento aparentemente vocalizado para o que chamou de “família militar”. Como o capitão, o general lê, também com dificuldade, um texto no qual, na contramão do chefe (por sinal refere-se mais de uma vez ao ministro da defesa mas omite remissão ao presidente/comandante das forças) reitera recomendações de precaução e isolamento, na linha preconizada pela OMS. Ia tudo muito bem até que, nos últimos segundos, levanta o braço direito e nos pespega um “senão cairá nosso braço forte”. 

Os exegetas em militarismo estarão estudando o significado do gesto e da fala.

Enquanto atenta contra a saúde coletiva de nossa população, Bolsonaro  estica a corda do confronto político, ainda na expectativa de salvar-se mediante uma solução extra-constitucional, para o que, porém, não são suficientes o apoio de suas hordas, pois haveria de dispor da adesão (e não mais apenas o silêncio) das forças armadas, com o que não deve contar.

A permanência do capitão à frente dos negócios da república, consiste, como se vê, em um risco que o país não pode tolerar. O problema é encontrar uma saída que não implique ruptura da ordem constitucional – coisa que, a História nos mostra, nossos juristas de plantão são pródigos em encontrar (o invento mais recente foi afastar uma presidente por suposto crime de responsabilidade, sem contudo torná-la inelegível).

 Os desvios de curso institucional não interessam ao povo e devem ser rejeitados pelas esquerdas. Fora da ordem democrático-constitucional podemos caminhar para o caos e a irrupção social, que, nas condições objetivas de hoje – destaco a crise das organizações de esquerda e as notórias dificuldades de mobilização popular, agravadas pelo desgaste das lideranças partidárias e sindicais, e ainda, pelas condições de isolamento impostas à população pelas medidas de prevenção à pandemia – certamente mais beneficiarão aquelas “forças da ordem” que, “com braço forte” não titubearão em patrocinar um governo autoritário ou mesmo discricionário, realizando, sem ele, o sonho do capitão.

Espelho de nossa fragilidade é a ausência das lideranças de esquerda e centro-esquerda no epicentro da crise, onde só se movimentam quadros da direita e da centro-direita, insinuando o campo no qual as soluções serão negociadas.

Embora ninguém mais possa ter dúvida quanto ao adversário a ser combatido, sobrevive a dificuldade de estruturar – e fora dela não há alternativa – uma frente ampla (verdadeiro pacto pela salvação nacional), que unifique a nação na defesa da democracia, o que implica, de logo, a preservação do calendário eleitoral. Essa frente, a mais ampla possível, pode, com o respaldo da nação, restaurar a governança e a unidade do país contra a qual tanto tem atentado o capitão, seja  quando investe no golpismo,  seja na sustentação da pauta neoliberal, que empobrece o país e anula as possibilidades de recuperação econômica do país, pauta que, hoje, nem mesmo os economistas mais conservadores, e mesmo ligados ao dito “mercado”,  ousam defender.

Essa frente ampla, cujos contornos são determinados pela evolução do processo político, numa dinâmica que assusta os analistas, deve ser vista como embrião de um grande pacto de união nacional, que, vencida a epidemia, será construído para o comando da recuperação política e econômica do país, com a retomada dos investimentos públicos, um keynesiasmo atualizado que combaterá a pobreza e restaurará o papel do Estado desenvolvimentista. Poderá ser a oportunidade de elaboração coletiva de um verdadeiro Projeto nacional, de que tanto nos ressentimos.  

Qualquer que seja a duração e a profundidade da pandemia (independentemente da inépcia do atual  governo e dos crimes de responsabilidade cometidos em série pelo ainda presidente, agora atentando contra a saúde coletiva de nossa população), marchamos para inevitável depressão econômica, após dois anos de recessão, dois anos de PIB de 1,3%,  após um pibinho de 1,1% em 2019. O dito “mercado”, afinal assustado (por ele falou o presidente da XP Investimentos, braço do grupo Itaú), já estima em 40 milhões o número de trabalhadores desempregados. O ministro da saúde prevê para julho o pico da infestação e o início do achatamento de sua curva, que só em setembro chegará ao piso, e a ABIN projeta em 5,5 mil o número de mortos vítimas da “gripezinha” até 6 de abril próximo.  Até lá, economia congelada.

Com a ajuda do neoliberalismo (que desaparelhou o Estado), caminhamos – e lamentavelmente esta é a única certeza com a qual podemos contar – para uma profunda crise social, certamente a mais grave de nossa história, que nos surpreende em momento de refluxo da luta política e de notórias dificuldades de articulação social e esvaziamento das mobilizações populares.

Em nenhuma análise dos eventuais desdobramentos da crise identificam-se os papéis da centro-esquerda e de suas lideranças mais conhecidas, ensejando que os destinos do país, e de seu povo sejam mais uma vez decididos pelo pequeno comitê dos representantes da casa-grande, a minoria branca do 1% de rentistas que mandam e desmandam neste país desde a empresa colonial. 

Sem alternativa, as classes trabalhadoras, os pobres de um modo geral, as principais vítimas do caos econômico-sanitário, aguardam de seus líderes muito mais do que percucientes e oportunos conselhos de higiene, porque precisam, em igual dose, de orientação política diante do desafio que as circunstâncias nos legaram.

De uma forma ou de outra parece claro que caminha para seu cume a crise institucional que o bolsonarismo persegue desde o dia 1º de janeiro de 2019. Porque, como lembram as escrituras (Eclesiastes 3:1-3), tudo tem o seu tempo determinado. Como há o tempo de chorar e de rir, há, também, o tempo de colher tempestades, este que chega,  pena de quem planta ventos.

Da esquerda e de suas lideranças, presentes e futuras (pois o processo as cria), a classe trabalhadora espera determinação, urgência e eficácia. A hora é de avançar.

Crime de responsabilidade — Para o  procurador Álvaro Augusto Ribeiro da Costa, Advogado Geral da União no primeiro governo Lula, o capitão Bolsonaro comete mais uma ilicitude quando afirma que assinou sem ler a MP que ensejava a ruptura de contratos de trabalho, “por haver confiado na equipe de Guedes”. O capitão, observa Álvaro, pode estar mentindo, mais uma vez, ou dizendo a verdade. Se, por acaso, está dizendo a verdade, confessa a) que assina sem ler (nem saber) o que assina; e b) que deixa que outra pessoa – que o engana – decida no lugar dele. Assim, ou comete mais um crime de responsabilidade, ou não tem responsabilidade. Se não é verdade, ou seja, se mentiu mais uma vez, confessa a) que tem plena consciência e controle da própria vontade no que faz com inegável  intenção de produzir o resultado de sua conduta ilícita; e b) atribui falsamente a outra(s) pessoa(s) a autoria de seu erro. De qualquer modo, deve ser imediatamente afastado (ou interditado), como também afastado e punido quem o tenha enganado.

Roberto Amaral
Roberto Amaral é escritor e
ex-ministro de Ciência e Tecnologia

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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Podendo falar ao mundo, Bolsonaro dirigiu-se ao seu gueto ideológico

Segunda, 30 de setembro de 2019
Por


O capitão não surpreendeu. Na presidência continua sendo aquele deputado do baixo clero que se fez conhecido/notório pela defesa de abjeções como a ditadura e ditadores, a tortura e torturadores. Na tribuna da ONU não foi diferente: podendo e devendo falar ao mundo, dirigiu-se ao seu gueto ideológico, doméstico e provinciano, repetindo a toada da campanha eleitoral, da qual não se aparta. No oitavo mês de um governo que coleciona fracassos, se comporta como candidato à reeleição e fez da tribuna da ONU palanque eleitoral.

Não titubeou em mentir e distorcer os fatos. Seu texto expressa absoluto descompromisso com a realidade.

Mentiu quando se apresentou como líder de ações anticorrupção. Mentiu quando acusou os médicos cubanos ora de não terem formação profissional, ora de serem espiões de seu governo. Mentiu quando se autoproclamou negociador bem sucedido de acordo de livre comercio com a UE, quando chegou ao final de negociações que se desenrolaram durante mais de 20 anos. Mentiu e distorceu números quando se referiu à questão indígena e às reservas dos ianomâmi e foi despropositadamente grosseiro com o cacique Raoni, reduzido pelo capitão ao papel de “peça de manobra” nas mãos de potências estrangeiras com interesses na Amazônia. O velho líder paga o preço de haver sido recebido pelo presidente da França. Mentiu quando atribuiu à cultura de nossos índios as queimadas que ameaçam a Amazônia. Mentiu quando se disse representar a população brasileira querendo significar que seu discurso – que nos descreve como um país ultraconservador e de extrema-direita, de repente evangélico/pentecostal — expressava o pensamento nacional.

Mentiu quando afirmou que o Brasil usa apenas 8% de suas terras na produção de alimentos. Como observa Carlos Rittl, secretario-executivo do Observatório do clima (O Globo, 25.9.2019), nada menos de 33% dessas terras são destinados à agricultura e à pecuária. Também mentiu ao afirmar que a Amazônia está praticamente intacta, quando já perdemos 20% da floresta original.

Ele próprio um anacronismo político, insistiu no anacronismo da guerra fria, morta e sepultada há décadas, para apresentar-se como herói de uma guerra que não houve no Brasil, contra o socialismo.

Sob qual governo socialista vivia o Brasil que o viu eleger-se em 2018?

Seu discurso é velho, mofado, na temática e na forma. E falso. Na tribuna da ONU, num plenário que quanto mais o conhece mais deve ter saudade de seus antecessores, falou pequeno, preso à domesticidade provinciana, e mais uma vez contribuiu para desgastar a imagem do Brasil construída num esforço de muitos anos, muitos governos e muitos presidentes, particularmente na defesa da paz e do primado da sustentabilidade, que nos fez pousar entre as nações líderes da política mundial de proteção ambiental.

Seu discurso agressivo e belicoso serviu apenas para aumentar o isolamento do Brasil no convívio internacional, pondo em risco, inclusive, nossos interesses econômicos e nos afastando ainda mais da sociedade das nações ao voltar a tratar de forma irresponsável as questões ambientais. Quando devia falar à comunidade internacional sobre as garantias que podemos oferecer de que a floresta amazônica será preservada, repetiu bordões e se limitou ao esperado discurso soberanista, que deve ter bom eco junto aos militares mas todos sabem que é um discurso vazio. Posta de lado a declaração idiota do presidente Macron, a Amazônia não está sob ameaça de invasão e nossa soberania não está sob questão. O que o governo não enfrenta é o fato singelo de que a soberania transformar-se-á em mera retórica ao não se completar na proteção da Amazônia cuja ocupação não pode ser feita no rasto do boi ou dos garimpeiros, mas na exploração científico-tecnológica de sua rica biodiversidade.

O discurso da ameaça externa, das garras das grandes nações ameaçando a soberania brasileira sobre a Amazônia, porém, é muito bem vindo pelo capitão, pois o inimigo externo sempre facilita a composição interna e esta postura é o instrumento que lhe é oferecido para reorganizar sua base de apoio, começando pelos militares. Neste ponto ele deveria ser grato ao presidente Macron, pois lhe dá a oportunidade de fugir ao debate sobre a crescente desaprovação popular de seu governo. Segundo a última pesquisa CNI/IBOPE, 50% das pessoas consultadas disseram não concordar com a maneira do capitão governar, e 55% afirmaram não confiar no governo. A classificação de governo ruim/péssimo saltou de 27% em abril para 34% em setembro.

A floresta está realmente ameaçada, mas pela exploração predatória, como o agronegócio primitivo e a extração mineral que estimula o garimpo. A floresta está ameaçada pelas queimadas, no fundo incitadas pelo desaparelhamento do ICM (como é mesmo o nome do Instituo Chico Mendes…) e pelo discurso anti-protecionista do capitão.

A grande ameaça que paira sobre a floresta é o governo do capitão. Na ONU, não podendo apresentar um plano de efetiva defesa ambiental da Amazônia, tentou tampar o sol com a peneira: simplesmente negou os problemas, quando a questão ambiental passa a constituir tema de primeira ordem para as nações, condicionando, inclusive suas políticas e seu comércio, o que, amanhã, poderá reverter-se em prejuízo para nossas exportações. O discurso do capitão fortalece a política de muitas nações que advogam contra nós punições econômicas.

O capitão não reconhece problemas, tudo o que gira em seu torno é criação de esquerdistas, é fruto de um comunismo ou de um socialismo de indústria, invocado artificialmente para unificar suas tropas.

Quando a tradição do Brasil, na ONU, na abertura das Assembleias Gerais, era, até aqui, falar nas questões mais candentes do cenário mundial apontando para o entendimento, o multilateralismo e a solução pacífica dos conflitos, o fortalecimento dos organismos internacionais, o capitão, num discurso antagonista, investe contra a própria ONU, mas nem assim foi original. Mesmo contra o multilateralismo chega atrasado na disputa de uma liderança que já está de há muito ocupada por seu guia e ícone, o presidente Trump. Chega atrasado e nada acrescenta diante do espanto da comunidade internacional. Isolando-se — num mundo que já se viu livre de Salvani e se está despedindo de Macri e Netanyahu, seus grandes aliados ao lado do presidente dos EUA, já respondendo a processo de impeachment — cava o aprofundamento de nosso isolacionismo, transformando em passado longínquo aquele Brasil que Lula fez o mundo admirar. A política externa ativa e altiva se reduz a isso, a subalternidade aos EUA de Donald Trump e a submissão ideológica à nova direita que se diz soberanista.

As citações críticas à Alemanha e à França (país que está construindo nossos submarinos convencionais e vai construir os submarinos de propulsão nuclear) são, apenas, mais um desatino.

Autocrata livre de controle, seu discurso é avesso ao diálogo, às composições, ao entendimento, à tolerância. É porém pleno de reservas a liberdade de imprensa. É uma antidemocrática sequência de dictaks, como seu governo. Por isso o discurso que lhe foi dado ler é sincero, é Bolsonaro por ele mesmo.

Sinal dos tempos – Sob o título “Araújo e Bannon discutem fala de Bolsonaro na ONU”, o O Estado de S. Paulo (13.9.2019) informa que “Fora da agenda oficial, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, reuniu-se nos EUA com Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e agitador de uma onda nacionalista de direita”. Segundo a matéria, assinada pela correspondente do jornal em Washington, “Uma das pautas da conversa dos diplomatas brasileiros com o americano foi o discurso do presidente Jair Bolsonaro, no dia 24, em Nova York, na abertura da Assembleia da ONU”.

Um grito que não pode calar: Quando saberemos quem mandou matar Marielle Franco?

Roberto Amaral
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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A Amazônia e a metástase Bolsonaro

Sexta, 30 de agosto de 2019
Por

Chamuscado, o país chega ao oitavo mês de um governo velho e envilecido e todos se perguntam se teremos condições de suportar o que aí está até o final do mandato do capitão, que atua sem peias, irresponsavelmente, destroçando os mecanismos de controle republicano.
Sem limites éticos, Bolsonaro ignora os freios políticos ou jurídicos dos demais Poderes, desprestigiados aos olhos do que se convencionou chamar de opinião pública. E, seguindo um cardápio de ações aparentemente incongruentes para um governante, vem criando, desde a posse, sucessivas crises políticas. Esta de nossos dias, pelas suas repercussões, inclusive internacionais, é seu primeiro grande desafio politico, e é ainda em seu pleno desenrolar que o bolsonarismo dá os primeiros sinais de exaustação.