“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A viagem do Sol

Dezembro
25

A viagem do Sol

Jesus não podia festejar seu aniversário, porque não tinha dia de nascimento.
No ano de 354, os cristãos de Roma decidiram que ele havia nascido em 25 de dezembro.
Nesse dia, os pagãos do norte do mundo celebravam o fim da noite mais longa do ano e a chegada do deus Sol, que vinha para romper as sombras.
O deus Sol tinha chegado a Roma vindo da Pérsia. Era chamado de Mitra.
Passou a se chamar Jesus.

Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias (Um calendário histórico sobre a humanidade), 2ª Edição, L&PM Editores, 2012, página 403.

"PAPAI NOEL DE FAVELADO" —PH LIMA RAP

Quarta, 25 de dezembro de 2019

PH LIMA, RAP PAPAI NOEL DE FAVELADO



PH Lima

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

A CAMPANHA DA MULHER PELA DEMOCRACIA-CAMDE

Terça, 24 de dezembro de 2019
Do Jornal InfoCruzeiro
Por
Salin Siddartha
Várias organizações e movimentos originários da sociedade civil, conservadores e de extrema direita, agiram para derrubar o Governo de João Goulart. Muitos deles eram financiados pelos Estados Unidos, como foi o caso do “complexo IPEA-IBAD” (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que brecava as ações sociais reivindicadas pelos movimentos populares durante o período em que durou aquele governo.

A Campanha da Mulher pela Democracia-Camde foi um movimento de direita criado, preparado e financiado pelo IPES e pelo IBAD, a partir de 1962, com a função de mobilizar a maior quantidade possível de mulheres, seguindo uma ideologia conservadora da Igreja Católica. A função tática de suas militantes (apelidadas de “camdocas”) era incumbir-se da opinião pública, pois, naquela época, pressupunham que, sem que a opinião pública pedisse, os militares não agiriam para intervir na situação política nacional e, assim, estavam à espera de um amadurecimento da opinião pública.

Recebendo apoio do jornal O Globo, a Camde era uma associação vinculada a uma campanha de desestabilização do Governo Goulart a qual lutava a favor da manutenção de valores e instituições supostamente ameaçados pelo comunismo, como a família e a religião, e participava das articulações que levaram à queda do Presidente Jango, combatendo contra a orientação governamental janguista de cunho nacional-trabalhista, fazendo-se presente nas diversas manifestações contrárias àquele Governo. Era muito atuante nos Estados da Guanabara, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Empenhava-se em afirmar o lar como espaço preferencial de atuação feminina, promovia lutas anticomunistas por meio de comícios e da distribuição de panfletos, além de dedicar-se a trabalhos assistenciais junto à população desassistida e favelada. A Campanha da Mulher pela Democracia foi uma das promotoras na preparação da “Marcha com Deus pela Liberdade”, em São Paulo e no Rio de Janeiro, evento em que milhares de mulheres, com terços nas mãos, saíram em passeata “em defesa da democracia, da família e da moral cristã”, conforme afirmavam suas militantes. A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” era, em verdade, uma reação do segmento mais conservador da sociedade brasileira contra o comício de João Goulart, realizado dia 13 de março de 1964, ao lado do prédio da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, que reuniu mais de 300 mil trabalhadores.

A Campanha da Mulher pela Democracia apoiou o Golpe Militar que derrubou o Presidente João Goulart em 1º de abril de 1964 e foi a principal organizadora da “Marcha da Vitória”, realizada no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1964; durante essa demonstração, a Camde distribuiu um manifesto parabenizando o Exército pela deposição de Goulart. Em 1965, portanto um ano depois do Golpe Militar, as mulheres
da Camde colaboraram com a Superintendência Nacional de Abastecimento-Sunab numa campanha a favor do controle dos preços, dando início à “Campanha de Defesa da Economia Popular”, na qual serviu de intermediária entre órgãos governamentais, empresários e consumidores, lançando apelos às donas de casa para que agissem como “fiscais de preços” e não comprassem produtos que estivessem acima do valor divulgado pelas tabelas da Camde e da Sunab. Os comerciantes que aderiam à campanha recebiam um escudo para ser colocado nas vitrines de suas lojas a fim de indicar ao consumidor que aquele estabelecimento participava da campanha (duas décadas mais tarde, José Saney tentou uma nova versão dessa campanha, reeditando-a sob o título de os “Fiscais do Sarney”).

A Camde reivindicava a necessidade de uma propaganda oficial do regime militar que estabelecesse ligação direta entre o governo e o povo, mantendo vivos os ideais do Golpe Militar. A Campanha da Mulher pela Democracia representou bem os primeiros anos da Ditadura no Governo Castello Branco, porém o mesmo não ocorreu a partir de Costa e Silva, do qual divergiu por ter transformado o Movimento Militar em uma Ditadura.

Após a promulgação do AI-5, o regime militar passou a prescindir de organizações de massa, fazendo com que a mobilização feminina fosse paulatinamente perdendo força, levando as mulheres de classe média de volta ao seu papel tradicional no mundo doméstico, longe do espaço público, o que conduziu ao fim das atividades da Campanha da Mulher pela Democracia-Camde.

A Camde foi fundada por Amélia Molina Bastos, irmã do general Antônio Mendonça Bastos, do setor de informação e contrainformação do IPES, mas também tinha como líderes importantes a carioca Eudóxia Dantas, a catarinense e muito radical Edith Gama Ramos (esposa do Governador Celso Ramos), a paulista Antonieta Pellegrini (irmã de Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de São Paulo) e a carioca Regina Figueiredo da Silveira (irmã do banqueiro João Baptista Leopoldo Figueiredo, presidente do IPES e primo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo, que foi o último Presidente da República do ciclo da Ditadura Militar).

Cruzeiro-DF, 23 de dezembro de 2019

SALIN SIDDARHA

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O Gama Livre sugere a leitura de:

IBAD - A Sigla da Corrupção

Eu não gosto de você Papai Noel. Crônica do Natal Caipira

Terça, 24 de dezembro de 2017


Rolando Boldrin

Crônica do Natal Caipira
Monólogo do Natal - Aldemar Paiva 
Eu não gosto de vancê, Papai Noé! 
Tamém não gosto desse seu papé de vendê ilusão pra tar
da burguesia.

Se os meninu pobre da cidade soubessem o desprezo qui
o se tem, pelos humirde, pela humirdade eu acho que eles
jogava pedra em sua fantasia.
 
Você talvez vancê nem se alembra mais. 
Eu cresci, me tornei rapaz, sem nunca me esquecê,
daquilo que passô.
 
Eu lhe escrevi um biete, pedindo um presente a noite
inteira eu esperei contente, chegou o sor, mais vancê
num chegou.
 
Dias depois, meu pobre pai, cansado, me trouxe um
trenzinho véio, enferrujado, e me ponhou ansim na
minha mão e me oiando baixinho me falou: toma, é pra
vancê, foi papai noé que mandou. E vi quandu ele
adisfarçou umas lágrima cum a mão.

Eu alegre e inocente nesse caso, pensei que o meu
biete embora cum atraso tinha chegadu em suas mão, no
fim do mês.
 
Limpei ele bem limpado, dei corda, o trem partiu, deu
muitas vorta, meu pai então se riu e me abraçô pela
urtima vez.

O resto, eu só pude cumpreender quando cresci e
comecei a ver as coisa com a realidade.
 
Um dia meu pai chegou ansim, cum quem tá cum medo e
falou pra mim: me dá aqui aquele seu brinquedo daqui
vou trocá por outro na cidade . Entônce eu entreguei
pra ele o meu trenzinho quase a soluçá.

E, como quem não quer abandoná um mimo, um mimo que
lhe deu, quem lhe qué bem, eu supriquei medroso: ô
pai eu só tenhu ele! Eu num quero outro brinquedo, eu
quero aquele. Por favor pai, num vá levá meu trem?

Meu pai calô e pelo seu rosto veio descendo uma
lágrima que, inté hoje creio, tão pura e santa ansim
só Deus chorou!
 
Ele saiu correnu bateu a porta, ansim como um doido
varrido minha mãe gritou; pra ele: José! ele num deu
orvido. Foi embora e nunca mais vortô.
 
Vancê, Papai Noé, vancê me transformou num homem que
hoje a infância arruinô. Sem pai e sem brinquedo.
 
Afiná, dos seus presentes, num ai um que sobre da
riqueza do menino pobre que sonha o ano inteiro com a
noite de natá.
 
Meu pobre pai coitado, mar vestido, pra num me vê
naquele dia desiludido, pagô bem caro a minha inlusão,
num gesto nobre, humano e dicisivo, ele foi longe
demais pra me trazer aquele lenitivo, tinha robado
aquele trem do filho do patrão.
 
Quando ele sumiu, pensei que tinha viajadu, no
entanto, minha mãe despois deu grande, me contou em
pranto que ele foi preso coitado e tranformadu em réu.

Ninguém pra absolvê meu pai se atrevia. 
Ele foi definhando na cadeia, inté, qui um dia, Deus
entrou na sua cela e o libertô pro céu.

HÔ, HÔ, HÔ!

Terça, 24 de dezembro de 2019

HÔ, HÔ, HÔ!

Posto a seguir texto publicado em 24 de dezembro de 2013 no jornal Tribuna da Bahia, no Blog Bahia em Pauta, e também aqui no Gama Livre. Da lavra do jornalista Ivan de Carvalho, saudoso irmão do editor deste blog, fala do personagem ocultado do Natal, substituído por um tal de Papai Noel.

Terça, 24 de dezembro de 2013
Por Ivan de Carvalho
Amanhã, 25 de dezembro, é Natal, escolhido por convenção como o dia em que, mesmo tendo sido gerado em Nazaré da Galiléia, nasceu, em Belém da Judéia, Jeoshua, com nome traduzido para o latim de Iesus, posteriormente chamado mundialmente de Jesus ou Jesus Cristo, o fundador da igreja cristã. Por muitos outros nomes ele é também conhecido – e muito conhecido, sem dúvida a pessoa mais conhecida do mundo e da história, ainda que relativa e espantosamente pouco compreendido – mas esta não pretende ser uma nota religiosa.

      Em verdade, a data de 25 de dezembro foi fixada por convenção quando o cristianismo, após pesadas e prolongadas perseguições, não parava de ampliar o número de seus adeptos, o que levou o imperador Constantino a torná-lo a religião oficial do Império Romano. No entanto, não há registro e nem um cálculo preciso a respeito da data em que Jesus nasceu. Os autores dos Evangelhos não se preocuparam (ou preferiram evitar) a data exata, embora citando circunstâncias que certamente balizam um período.

      Não existe um Ano Zero da Era Cristã, ela começa com o Ano I. E hoje a grande maioria dos estudiosos do cristianismo e especialmente do nascimento de Jesus está convicta de que o Filho do Homem (denominação que ele mais gostava de aplicar a si mesmo) nasceu pelo menos quatro anos antes do Ano I e no máximo, sete anos antes. Assim, ao ser crucificado, Jesus não teria apenas 33 anos, mas 37 a 40 anos. (40, na Bíblia, é um dos números repetitivos, ligado a sacrifício, expiação, penitência, preparação; mas não estou tentando relacionar isso com a crucificação de Jesus à eventual idade de 40 anos, coisa que é, hoje, mera hipótese, entre outras).

      O nascimento de Jesus e o cálculo de que teria nascido no Ano I dividiu o tempo de existência da atual civilização. Em quase todo o Ocidente e partes expressivas do Oriente, o tempo da civilização foi divido em duas partes. A segunda, a Era Cristã.

A datação convencional do nascimento de Jesus Cristo também estabeleceu outras maneiras de divisão do tempo anterior e posterior a este evento. Antes de Cristo e Depois de Cristo (AC e DC). O tempo depois do nascimento de Cristo também recebe a denominação de Anno Domini (AD).

De algum tempo para cá, muitos (entidades jurídicas e pessoas) vêm substituindo a expressão Era Cristã por Era Comum, por preferirem evitar referências que poderiam ser consideradas religiosas, mas também poderiam ser consideradas apenas tradicionais.

Curioso é que com essa preocupação de importar o laicismo do Estado (onde ele é correto) para instituições privadas e até manifestações pessoais públicas (a manifestação de um apresentador de televisão, por exemplo), passa-se a usar não somente a inexpressiva e vaga expressão “Era Comum” e adota-se como proibição não escrita expressões até não muito tempo tão usadas quando “se Deus quiser”, “fiquem com Deus”, “esteja em paz” ou “Deus o acompanhe”, trocando-as pela anódina e insensível “boa sorte”, que nada acrescenta, nem mesmo sorte.

Bem, voltando mais especificamente ao Natal e passando a outros aspectos a ele relacionados. Nas últimas semanas e muito mais intensamente nos últimos dias as emissoras de televisão (principalmente), mas também outros veículos, divulgaram propaganda ligada ao Natal, quase que exclusivamente com o objetivo de levar o público consumidor a comprar produtos. Presentes para a família toda e tantos amigos quanto possível, além de “árvores de Natal” e produtos para a “ceia de Natal”.

Não vi nestes anúncios, uma vez sequer, referência alguma ao dono da festa. As agências de propaganda poderiam ter sido até menos monótonas, lembrando que ao nascer, Jesus ganhou presentes, ouro, incenso e mirra, levados pelos “reis magos” do Oriente e deixando ao público a especulação de que essa tradição de dar presentes no Natal tem algo a ver com isso, ou se é uma manifestação de alegria com o nascimento do Salvador ou, afinal, mera exploração comercial. Como está, elas fazem parecer que a alternativa acertada é a última, pois Jesus tem sido o personagem ocultado no Natal, substituído por um tal de Papai Noel.

Que saco! Hô, Hô, Hô.
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Ivan de Carvalho foi um jornalista baiano.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

STF: restabelecido mandato de conselheiros afastados do Conanda por decreto de Bolsonaro que frustra a participação das entidades da sociedade civil na formulação de políticas públicas e no controle da sua execução, como exigido pela Constituição

Segunda, 23 de dezembro de 2019
Do STF
Ministro restabelece mandato de conselheiros afastados do Conanda
O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), restabeleceu os mandatos dos antigos conselheiros do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), cuja composição e forma de escolha dos seus membros foi alterada por decreto do presidente da República, Jair Bolsonaro. “As novas regras que disciplinam o funcionamento do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda), a pretexto de regular, frustram a participação das entidades da sociedade civil na formulação de políticas públicas e no controle da sua execução, como exigido pela Constituição”, afirmou o ministro, relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 622).
Na ação, a Procuradoria-Geral da República (PGR) sustenta que a participação da sociedade civil no conselho foi esvaziada, em violação aos princípios da democracia participativa, da igualdade, da segurança jurídica, da proteção à criança e ao adolescente e da vedação ao retrocesso institucional.

MPF obtém decisão que restabelece funções gratificadas na Universidade Federal de Viçosa (MG) que foram extintas por decreto de Bolsonaro

Segunda, 23 de dezembro de 2019
Do MPF
Justiça considerou inconstitucional decreto presidencial que extinguiu os cargos
Fotografia de detalhe de uma mão segurando um martelo da justiça
Foto: Preepik
O Ministério Público Federal (MPF) obteve decisão favorável que suspendeu a extinção de 274 funções gratificadas da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A extinção ocorreu no fim de julho, após publicação do Decreto 9.725 [leia o decreto aqui], da Presidência da República, de março de 2019. A Justiça Federal, em decisão liminar do último dia 16, determinou à União que não considere extintas as funções gratificadas ocupadas, e que reconduza os exonerados e dispensados aos cargos em comissão e funções de confiança, garantindo os efeitos pecuniários correspondentes.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Defenda paz e harmonia, diz Guterres (ONU) em encontro com papa Francisco

Domingo, 22 de dezembro de 2019
Da ONU Brasil
Em um cenário de turbulências e dificuldades, todas as pessoas do mundo devem se unir para defender a paz e a harmonia. A afirmação foi feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, em encontro nesta sexta-feira (20) no Vaticano com o papa Francisco, a quem agradeceu pelo apoio à Organização.
A decisão do papa Francisco de abolir a política de sigilo da Igreja Católica Romana em casos de abuso sexual infantil é um passo bem-vindo — agora o Vaticano deve agir para garantir justiça e reparação para todas as vítimas, disse na quinta-feira (19) um relator especial da ONU.
“O véu de sigilo que cercava esses crimes abomináveis ​​e que impedia as vítimas de obter justiça e reparação foi levantado”, disse Maud de Boer-Buquicchio, relator especial sobre a venda e exploração sexual de crianças.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, em reunião com o papa Francisco na Cidade do Vaticano, em Roma. Foto: ONU/Rein Skullerud
O secretário-geral da ONU, António Guterres, em reunião com o papa Francisco na Cidade do Vaticano, em Roma. Foto: ONU/Rein Skullerud
O chefe da ONU elogiou o representante da Igreja Católica Romana por ser um “mensageiro da humanidade”, abordando em suas falas temas como a crise de refugiados, a pobreza, as desigualdades e a emergência climática.
“Essas mensagens vão ao encontro dos valores fundamentais da Carta das Nações Unidas — ou seja, reafirmar a dignidade e o valor do ser humano. Para promover o amor das pessoas e cuidar do nosso planeta. Para defender nossa humanidade e proteger nosso lar em comum. Nosso mundo precisa disso mais do que nunca”, disse o secretário-geral da ONU.

O Natal na favela (charge de Latuff)

Domingo, 22 de dezembro de 2019


O Natal na favela
“Botei meu sapatinho
Na janela do quintal
Papai Noel deixou
Meu presente de Natal
Como é que Papai Noel
Não se esquece de ninguém
Seja rico ou seja pobre
O velhinho sempre vem
Seja rico ou seja pobre
O velhinho sempre vem”
Como é linda a fantasia, e dura a realidade.

O adeus a Alaru, panafricanista, linha de frente contra o racismo

Domingo, 22 de dezembro de 2019
Da Ponte
21/12/19 por Kaique Dalapola

Se quiser beber direto na fonte, clique aqui 

Professor de história e fundador da União dos Coletivos Pan-Africanistas faleceu nesta sexta-feira (20/12), em decorrência de problemas cardíacos

Professor Alaru morreu em decorrência de problemas cardíacos | Foto: Reprodução/Facebook

O professor de história e ativista negro Alaru morreu, nesta sexta-feira (20/12), aos 43 anos. Fundador da UCPA (União dos Coletivos Pan-Africanistas), ele esteve na linha de frente em importantes manifestações contra o racismos.

O ativista morreu em decorrência de problemas cardíacos. Ele ficou internado no Hospital Geral de São Matheus, na zona leste da cidade de São Paulo, e morreu na tarde de sexta-feira. O velório aconteceu na manhã deste sábado (21/12), e o enterro à tarde, no cemitério da Vila Formosa, também na zona leste.

Formado em História desde 2007, dizia que sua faculdade era a luta, as ruas e as praças. Lecionou na zona leste paulistana em escolas municipais e estaduais, além de dar aulas em cursinhos comunitários pré-vestibular.

Em agosto de 2000, quando editava o jornal autônomo Filhos da África, juntou com membros de outros cinco movimentos para formar a UCPA com o objetivo de difundir o pan-africanismo e o fortalecimento do povo preto de forma autônoma, sem vínculo com ONGs, partidos políticos, sindicatos e empresas. 

“Na época, queríamos provar a possibilidade de fazer luta em prol da comunidade preta sem estar atrelado a outras instituições. Queríamos ter o controle de nossas narrativas e agendas”, conta o professor Abisogun Olatunji, de 37 anos, que esteve com Alaru desde o começo da UCPA. 

Companheiros de movimento destacam que Alaru foi responsável por ensinar uma geração de jovens pretos a ter autonomia na luta contra o racismo e atuar intransigentemente contra a supremacia branca.


“Alaru era um grito, um professor para cada preto e preta que luta diariamente pela dignidade de nosso povo. Foi uma perda irreparável”, diz o assistente jurídico Wesley Nascimento, 27 anos, que militou no mesmo movimento que ele por cerca de um ano.

O militante negro Jomo Akanni, de 46 anos, destaca que Alaru “sempre pautou a luta coletiva como o mais importante”. Parceiros de luta durante 17 anos, Akanni lembra que o professor “criou o termo pan-africanista por essência, que seria um reconhecimento a irmãos e irmãs que, apesar de não se denominarem seguidores do pan-africanismo, tinham o amor ao povo preto como pilar de vida”.

O ativista negro Kairu Kijani, de 22 anos, diz que Alaru “foi muito dedicado e com muita disposição na luta, acolhedor e carinhoso na forma de tratar os irmãos”. Afirma ainda que o professor “ensinou a amar o povo preto e lutar por todos os meios necessários”. 

Para Wesley, “era incrível observar os jovens por volta dos 18 anos que ficavam em silêncio para ouví-lo, pois todos tinham consciência do aprendizado que teriam com ele”. Eles se conheceram durante protestos pela liberdade do ajudante Igor Barcelos Ortega. 

Em uma manifestação pela liberdade de Igor, que também apontavam racismo nas prisões da modelo Babiy Quirino e do educador Marcelo Dias, em setembro do ano passado, Alaru foi o responsável por puxar um jogral no fim do protesto. 

“Nós não podemos acreditar em promessas de partidos políticos, a justiça não é cega, a justiça é branca e racista. Nós temos que nos organizar, entre nós, em nome de uma única bandeira, a bandeira do povo preto. Lutar por liberdade e poder para o povo preto”, disse na ocasião. 

Em outro ato que a Ponte cobriu e Alaru estava na linha de frente, militantes negros escracharam uma manifestação de brancos em frente ao Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, zona sul da capital paulista. Os moradores da região foram às ruas para apoiar os policiais militares que mataram o menino Ítalo Ferreira de Jesus Siqueira, de 10 anos. 

Enquanto os brancos entoavam palavras de ordem apoiando a morte do menino, na manhã de 11 de junho de 2016, Alaru usava uma caixa de som, acompanhado de outros militantes negros, para dizer que estavam lá “mais uma vez denunciando e prontos para o enfrentamento contra o povo que apoia o genocídio do povo negro”.

Em 2017, novamente o professor estava na linha de frente das manifestações denunciando racismo no caso do menino João Victor Souza de Carvalho, de 13 anos, que morreu em frente ao Habib’s da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte paulistana, em fevereiro. 

Depois de um dos protestos que terminou com o fechamento momentâneo de duas unidades da esfiharia, no dia 1º de abril, Alaru disse sobre a importância em “manter o enfrentamento contra esse gigante chamado Habib’s, que é uma forma de não cair no esquecimento o caso do João Victor e o genocídio que acontece com nossas crianças”.

Sempre preocupado com as crianças, sonhava em construir uma escola pan-africanista na periferia da zona leste paulistana, onde vivia. Ele deixa a companheira com quem tem dois filhos ainda criança e outro filho de 20 anos de um relacionamento anterior.

No Facebook, a advogada Dina Alves, que integra o IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), disse que “a luta pela educação e por uma sociedade antirracista perdeu um professor”, e destacou que “a luta segue e seus ensinamentos serão lembrados”.

Nos registros, Alaru deixa a frase que costumava puxar nas manifestações: “Racistas, otários, nos deixem em paz”. 

sábado, 21 de dezembro de 2019

Brasileiros de instituições federais, estaduais e municipais desenvolvem tecnologia de reconstrução craniana

Sábado, 21 de dezembro de 2019

Técnica poderá atender pacientes do Sistema Único de Saúde

Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil  Rio de Janeiro

Pesquisadores de oito instituições federais, estaduais e municipais desenvolveram uma tecnologia de reconstrução craniana, que poderá atender pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com o pesquisador da Fiocruz e neurofisiologista Renato Rozental, coordenador da equipe multidisciplinar, foi desenvolvida uma prótese para reconstrução de defeitos ósseos extensos da calota craniana.

O pesquisador disse que um paciente fica, às vezes, sete ou oito anos esperando por uma solução, porque as possibilidades que existem no mercado são muito caras, com uma prótese de titânio chegando a R$ 200 mil. Esse valor envolve somente a malha de titânio, disse. “É inviável”.

A solução que o grupo liderado por Renato Rozental desenvolveu é 20 vezes mais barata, ou seja, tem custo em torno de R$ 10 mil. O pesquisador salientou que esse preço é sem escalonar. “Quando nós escalonarmos o processo, vai ficar ainda mais barato e, além disso, tão eficaz ou mais do que o titânio”.

A alegria de dizer


Dezembro
21 

A alegria de dizer

Este dia poderia ser qualquer outro dia.
De Enheduanna, não se conhece os dias.
O que se sabe é que há quatro mil e trezentos anos, Enheduanna viveu no reino onde foi inventada a escrita, agora chamado de Iraque,
e que ela foi a primeira escritora, a primeira mulher que assinou suas palavras,
e foi também a primeira mulher que ditou leis,
e foi astrônoma, sábia em estrelas,
e sofreu pena de exílio,
e escrevendo cantou a deusa Inanna, a Lua, sua protetora, e celebrou a felicidade de escrever, que é uma festa,
como parir,
dar à luz,
conceber o mundo

Eduardo Galeano no livro ‘Os filhos dos dias’. 2ª edição —dezembro de 2012, página 399, Editora L&PM.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Os deserdados do capitalismo são a base social do autoritarismo

Sexta, 20 de dezembro de 2019
Por
 
Nos momentos de crise, e na antessala das rupturas históricas, setores ponderáveis das grandes massas desorganizadas e da chamada classe média tendem a procurar porto seguro para sua insegurança. O medo diante das dúvidas relativas ao futuro, quando o presente começa a ruir sob seus pés, estimula o apelo ao conservadorismo que lhes chega pelas mais diversas vias, todas elas conduzindo ao retrocesso político. Não é outra a lição das primeiras décadas do século passado.  A violência da sociedade de classes que mais atinge as populações das periferias urbanas, ceifando  jovens pobres, em sua maioria negros, extrai dessas massas desamparadas o que elas carregam de mais retrógrado. Os banidos pelo neoliberalismo, arcaísmo que no entanto prevalece entre nós, dão corpo e alma às forças do atraso e do autoritarismo, na busca da fantasia da segurança.

Os deserdados do capitalismo são  a base social do autoritarismo, e assim se dão as mãos oprimidos e opressores, pois o autoritarismo é o instrumento mediante o qual, na crise, a classe dominante conserva o poder.

As circunstâncias brasileiras pouco têm de especificidade, inserindo-se no quadro geral de retrocesso político que domina as democracias ocidentais, cujos espaços institucionais não são mais suficientes para a representação dos conflitos, que crescem na medida em que mais se afirmam as políticas neoliberais que, celeremente, vão derrogando o Estado do bem-estar engendrado pela social-democracia europeia para fazer face aos avanços do socialismo no pós 2a Guerra Mundial. 
 
O quadro comum da crise democrática é marcado pelo esvaziamento da democracia representativa, com o declínio dos direitos políticos e das liberdades civis e a crise de legitimidade das instituições republicanas ocidentais. Causa e efeito ao mesmo tempo, destaca-se a falência dos partidos políticos, os quais, na sua grande maioria, em quase todo o mundo e entre nós, foram reduzidos ao simples papel de  siglas  sem capacidade   de  mobilização social significativa.

Os fatos recentes, as verdadeiras irrupções sociais que unem, na revolta, o velho continente e a América do Sul – França, Espanha (e de certa forma o Reino Unido do Brexit) ao lado de Colômbia, Equador, Chile e Bolívia – desconheceram os partidos políticos, à esquerda e à direita,  e não produziram novas lideranças populares, nem mesmo lideranças empresariais, políticas ou religiosas, pondo em questão a sustentabilidade de suas conquistas.

Boris Johnson, o vitorioso premier britânico, é descrito pela The Economist como chefe do “governo mais impopular já registrado”, mas seu oponente, o líder trabalhista Jeremy Corbyn, é apontado, na mesma matéria, como o “líder mais impopular da oposição”, chefiando um partido trabalhista “cada vez mais sem identificação com os trabalhadores”.   

A quase falência da ordem partidária – nesse sentido as eleições brasileiras de 2018 oferecem um bom campo de estudo – não é, porém, um fato isolado, pois é preciso considerar a retração das instituições da sociedade civil, o recuo do movimento social e de suas organizações, e, certamente o quadro mais preocupante, a crise de representação, responsável pela anomia do movimento sindical brasileiro.

Entre nós, e em quase todo o mundo, a crise da representação tem funcionado como trampolim para o avanço das ações, das políticas e do pensamento de direita e de extrema-direita, galvanizando governos e avançando sobre segmentos populares tradicionais na sustentação do discurso trabalhista e  de esquerda de um modo geral.
Hoje, na Europa, são reconhecidos como de direita ou extrema-direita os governos da França, da Inglaterra, da Hungria, da Polônia, da Áustria e de quase todos os Estados do antigo Leste europeu. O gabinete conservador de Angela Merkel, em final de vigência, pode ser substituído por um governo de extrema-direita, e Itália e Espanha (esta às voltas com os pleitos separatistas) vivem frágil equilíbrio após a derrota da direita nas últimas eleições parlamentares. De direita é o governo da maior potência do mundo e na direita, qualquer que seja o resultado das eleições, permanecerá o governo de Israel, enclave dos EUA no Oriente.

Dado precioso na recente e acachapante derrota do Partido Trabalhista inglês – o pior desempenho desde 1935! – é o avanço dos conservadores sobre a classe operária e redutos tradicionais da esquerda inglesa, refazendo os passos da vitória de Donald Trump ao garimpar votos em colégios democratas. Esse movimento, aliás, já havia sido a base das vitórias de Ronald  Reagan e Margareth Tatcher.   A propósito deve-se a  Steve Bannon, um dos mentores do bolsonarismo, a afirmação segundo a qual o trumpismo  transformou “o Partido Republicano num partido da classe trabalhadora"  americana.

Para uma ilustração doméstica, lembremos a eleição de Bolsonaro, para a qual foi decisiva  a conquista de setores consideráveis da classe média e das grandes massas, setores que, em sua maioria,  ainda o acompanham no apoio ao governo.
O desafio com o qual o processo histórico põe em xeque os partidos se aplica de forma ainda mais  contundente para a ordem sindical. O fim da fábrica moderna e a introdução da robótica e de outras conquistas da tecnologia no processo produtivo, liberando a mão de obra (processo crescente e inevitável), reduzem a massa trabalhadora e por consequência a força política e estratégica dos sindicatos. Este é o preço arguido pela modernidade. Mas, de outra parte, agravando a crise sindical, o arcaísmo  do neoliberalismo, de par com o desemprego massivo, libera um novo lupemproletariado, ou subproletariado, um precariado formando  exércitos de reserva, trabalhadores “por conta própria” sem vínculo empregatício, sem vida  sindical, trabalhadores de aplicativos, uberistas e similares, determinando, de uma forma ou de outra, a expansão do número de trabalhadores atuando na informalidade, o que significa menos trabalhadores em fábricas e empresas e escritórios e mais trabalhadores nas ruas, mais motoristas autônomos, mais ambulantes, mais entregadores em motocicletas, bicicletas e patinetes. Ou seja, um exército disperso nas cidades, sem tradição de vínculo sindical ou associativo. 

Entre nós a crise do sindicalismo foi agravada,  ao lado de  outros fatores estruturais e políticos adstritos à vida sindical, pela reforma trabalhista e pelo fim da contribuição sindical, e poderá ser ainda mais atacada se o governo conseguir, como pretende, pôr fim à unicidade sindical.

O fato objetivo é que, apenas a um ano das reformas, nada menos do que 1,552 milhão de trabalhadores deixaram de ser sindicalizados, como revela a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE. A taxa de sindicalizados é de 12,5% do total de trabalhadores brasileiros (92,333 milhões), o menor indicador desde 2012, quando teve início a série histórica.

A tendência, em curso, na vigência da globalização capitalista e do neoliberalismo, é a precarização das condições de trabalho, desafiando partidos e sindicatos, o que passa a exigir das lideranças políticas e sindicais a invenção de novas formas de organização e de ação política, que requer a participação da cidadania nas mais diversas frentes de luta, a começar pela resistência ao bolsonarismo em suas diversas expressões, seja o autoritarismo político seja o projeto neoliberal de desconstrução do Estado nacional.  
 
Isso implica compreender que o país mudou – e mudou a correlação de forças – e que precisamos mudar para poder acompanhar, na vanguarda, o processo histórico.

Roberto Amaral
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Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia