Quinta, 4 de agosto de 2016
Da Tribuna da Internet
Bach sabia que o Rio não poderia sediar Olimpíada
Jorge Béja
Senhores membros do Comitê Olímpico Internacional. Em congresso
realizado ontem aqui no Rio, os senhores fizeram duras críticas ao
Comitê Rio-2016 relacionadas a problemas da organização dos Jogos,
poluição das águas, fila intermináveis na entrada do Parque Olímpico,
transporte, trânsito pesado, falta de decoração das arenas e muitas
outras reclamações. “Há muitos questionamentos sobre poluição da água,
na lagoa e na baía. Gostaria de saber onde estamos nessa situação”,
resmungou Albert, o príncipe de Mônaco.
“Faltando apenas dois dias para os Jogos, apenas 15% do look dos
Jogos (visual) foi colocado. O que podemos esperar?”, reclamou Camiel
Eurlings, representante da Holanda. Não adiantaram nem os apelos de
Thomaz Bach, presidente do COI, para que os membros do Comitê fossem
mais amenos. Só faltaram xingamentos explícitos. O clima foi
pesadíssimo.
UM PEDIDO AO COI – Como cidadão brasileiro, carioca e
advogado, tenho o dever de defender meu país e meu povo. E começo a
defesa com um pedido a todos vocês: vão embora. O Brasil e a Cidade do
Rio de Janeiro não lhes pertencem. Não aceitamos avacalhação. Temos
sentimento e muito brio. Os senhores são estúpidos e não estão em suas
casas, mas na casa do povo brasileiro.
Os senhores sempre souberam, de antemão, que nenhuma cidade
brasileira teria condições de sediar uma Olimpíada. E mesmo assim
aceitaram a arriscada candidatura do Rio para sediá-la em 2016. E após
muitas visitas do Comitê de Avaliação, decidiram em 2009 escolher a
minha cidade natal para sediar este grandioso evento.
Uma pessoa muito rica e poderosa que contrata com outra que sabe não
ter condições de cumprir o pactuado, caso não esteja cometendo o crime
de exploração de vulnerável, pratica, no mínimo, repugnante gesto de
maldade. Os agiotas, usurários e vigaristas agem assim. Se prevalecem da
fraqueza e da condição social e econômica do próximo para tirar
proveito econômico.
SEM CHUTE NO TRASEIRO – Não venham agora nos
repreender, nos desmoralizar, nem nos dar “um chute no traseiro”, como
recomendou o tal Jerôme Valcke da FIFA, porque nós não aceitamos e
repudiamos.
Sabem os senhores que a Olimpíada Rio-2016, cuja cerimônia de
abertura se dará amanhã, no Estádio do Maracanã, será o evento mais
rentável da história de todas as olimpíadas e de todo do Comitê Olímpico
Internacional, o COI, desde sua inauguração. Os senhores ganharão
fortunas de euros e de dólares. Terão mão de obra graciosa, que são os
voluntários. E a exemplo da vestal e honestíssima FIFA, os senhores
também estão isentos do pagamento da pesada carga de impostos que todos
nós brasileiros pagamos.
O Brasil editou duas leis para beneficiar os senhores, a Lei
12.780/2013 e a Lei 13.284/2016. Os senhores não pagarão nenhum centavo
de imposto. O lucro é inteiro. A dinheirama vai nas malas. Ou por
transferência bancária, sem ônus, sem desconto, sem gasto algum. Os
senhores também não gastaram um vintém para realizar a Olimpíada aqui no
Rio. E os senhores ainda dizem que o COI é uma instituição sem fim
lucrativo!
DESMORALIZAÇÃO – E os senhores ainda se acham no
direito de nos desmoralizar e diminuir nosso povo, nossa gente. Esse
ataque desferido contra o Comitê Rio-2016, mesmo que se trate de uma
instituição elitista e que não representa o povo brasileiro nem a
população da cidade do Rio, foi um soco em todos nós, cariocas e
brasileiros.
Não é de agora que os senhores sabem que a cidade do Rio de Janeiro
não tem condições e estrutura para receber Jogos Olímpicos. Quando o Rio
se candidatou à Olimpíada de 2004, foi criado aqui um tal Comitê
Rio-2004. Chegaram até eleger um “embaixador”, Ronaldo César Coelho, que
viajou a Lausanne e entregou a documentação necessária à candidatura.
Eu também criei um comitê que dei o nome Comitê Rio-Real. Sem contar
com o apoio da mídia do Rio, mas tão somente com o Jornal dos Sports e a
Folha de São Paulo, fui avante, sozinho. E elaborei um relatório em
francês, anexando mais de 100 sentenças da Justiça do Rio condenando o
Estado e o Município do Rio por mortes nos presídios, por mau
atendimento hospitalar, falta de medicamentos, erros médicos, retardo e
ausência na prestação de serviços públicos essenciais e indispensáveis…
Também anexei muitas fotos.
E com dinheiro do meu próprio bolso também fui a Lausanne e entreguei
os cinco quilos de relatório, documentos e fotos na sede no COI.
NO COPACABANA PALACE – Meses depois, quando uma
comissão de avaliação aqui esteve, fui chamado a comparecer no hotel
Copacabana Palace. E lá os senhores me garantiram que o Rio não seria a
cidade escolhida para sediar a Olimpíada de 2004. O próprio Thomas Bach
estava lá e me recebeu. Me foi dito que o meu dossiê pesou. Me foi
pedido que eu guardasse sigilo e não contasse a ninguém a notícia. Eu
prometi. Cumpri. Guardei silêncio durante todos esses anos e que somente
agora quebro e divulgo.
Saibam os senhores, que na reunião congressual do COI realizada ontem
aqui no Rio, quando nosso país e nosso povo foram humilhados, que a
cidade do Rio não recebe legado algum do Comité Olímpico Internacional.
Legado quem recebe são os senhores e a instituição que dirigem, o COI, e
ao término desta olimpíada estarão todos muito mais arquimilionários do
que já são.
Nós, a população do Rio, é quem pagará a estrondosa dívida que fica e
que vai custar muito caro até que seja inteiramente quitada. Isso, sim,
é que é um “Fardo Legado Olímpico”.
Senhores dirigentes do COI, peguem seus aviões e vão embora daqui.
Nós os consideramos “persona non grata.” Livrem-nos de suas nefastas
presenças. E nos deixem sozinhos para apreciar a beleza dos Jogos
Olímpicos.