Sexta, 26 de julho de 2024
Para a ialorixá, a religião afro-brasileira e o samba são indissociáveis: "levam uma mensagem de resistência"
Bianca Feifel
Brasil de Fato | Brasília (DF) | 25 de julho de 2024

Mãe Dora de Oyá tem trajetória de militância e resistência por meio da cultura - Valter Campanato/Agência Brasil.
Fé, samba e ancestralidade – esta é a tríade que sustenta Mãe Dora de Oyá em sua trajetória de resistência no Distrito Federal e Entorno. Mulher negra multifacetada, além de Ialorixá do Ilê Axé T’ojú Labá, terreiro de candomblé localizado em Cidade Ocidental (GO), Dora Barreto é educadora social, fisioterapeuta, militante, cantora e compositora.
Para a sacerdotisa, o candomblé é uma “grande escola” e um espaço de formação de identidade, de caráter e de musicalidade. Os princípios da religião afro-brasileira a acompanham desde pequenina, quando também teve os primeiros contatos com o samba, dons transmitidos pelos bisavós.
“Meu bisavô sempre disse que eu ia cuidar de muita gente. É óbvio que eu nunca imaginei que seria como ialorixá”, relatou em entrevista ao Brasil de Fato DF. Foram os bisavós benzedeiros que apresentaram à pequena Dora as rezas e o poder das folhas.

Em 21 de janeiro, é celebrado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa / Tony Winston/Agência Brasília
Nascida em Riachão das Neves, interior do oeste baiano, Mãe Dora chegou à Brasília na década de 70, após perder a mãe quando ainda tinha apenas 6 anos. Foi nesse momento que teve seu primeiro contato com o racismo.
“Eu devia ter oito para nove anos. Eu entendi que aquilo ali nos diferenciava do resto das crianças. Eu não entendia o que significava, mas eu sabia que era uma coisa ruim”, conta.
Apesar de ter sido um dos nomes mais apontados quando a reportagem perguntou a mulheres negras do DF quem elas gostariam de ouvir no Julho das Pretas, Mãe Dora não se considera uma referência.
“Todas as vezes que eu tô fazendo isso, eu nunca estou pensando em me transformar numa referência. Eu tô pensando que eu sou só mais um braço dessa luta, que precisa ser de todas nós”, afirma.
Confira, abaixo, a entrevista completa com Mãe Dora de Oyá para o Brasil de Fato DF:
Brasil de Fato DF – Nos conte um pouco sobre a sua origem e trajetória. Tendo em vista que a senhora é uma mulher negra multifacetada – ialorixá, sambista, militante, fisioterapeuta, educadora – como todas essas versões nasceram e coexistem?
Mãe Dora de Oyá – Eu acho que isso vem desde muito pequena, por conta dos meus bisavós. Eu perdi minha mãe muito cedo, com 6 anos, e fui criada pelos meus bisavós maternos. O meu bisavô, um moçambicano, e a minha bisavó, uma [indígena] pataxó. E aí que desde muito pequena, meu bisavô foi colocando essa coisa da música, e a música muito como esse lugar de resistência. E depois veio a luta mesmo.
Quando eu fui descobrir o racismo, que a gente não falava de racismo, eu já estava em Brasília. Eu vim para cuidar dos meus irmãos pequenos. As pessoas da vizinhança não queriam que os filhos brincassem conosco, porque nós não tínhamos mãe, meu pai trabalhava muito, então a gente ficava a criançada sozinha em casa. Diziam que não queriam que os filhos brincassem e usavam, inclusive, termos bem pejorativos, no sentido de que essas meninas vão tudo, desculpa a expressão, virar puta e esse menino vai virar marginal. Eu devia ter oito para nove anos. Eu entendi que aquilo ali nos diferenciava do resto das crianças. Eu não entendia o que significava, mas eu sabia que era uma coisa ruim.
E aí a gente começou a fazer brinquedos lúdicos dentro do quintal, para não ir pra rua. Então a gente brincava entre a gente. Fazia pipa para o meu irmão, brincava de bolinha de gude, de jogar dominó essas coisas que você vai desenvolvendo para não ter que conviver com esse tipo de coisa. Eu não sabia que era racismo, mas sabia que era uma coisa ruim.
Tudo isso foi me formatando para a mulher que eu sou hoje, de entender e de lutar contra aquilo [racismo]. Depois, eu fui crescendo e fui fazer militância política. E aí eu fui entendendo que isso era racismo. Desde sempre, então, a minha trajetória passa muito por isso, por essa coisa da infância mesmo, de saber que nós éramos diferentes no sentido de que os pais não queriam que nós brincássemos porque a gente não teria futuro. Que coisa, né? Como se as pessoas definissem o nosso caráter e o futuro.
E a sua relação com o samba também veio desse núcleo familiar?
Sim, porque o meu bisavô tocava rabeca. Todo final do dia ele chamava os netos, fazia uma grande roda e botava a gente para versar. Olha que coisa engraçada, né? Para a gente era só uma brincadeira. Ele puxava uma cantiga e botava a gente para completar essa música. Eu era pequenininha, tipo 3 anos. Samba de roda, também com 3 anos, ele tentou botar a gente pra dançar, pra sambar em volta de uma fogueira.
Mas eu nunca pensei que isso fosse alguma coisa que tivesse tanta relevância que tem hoje. Mas há muito tempo, eu entendo que isso era uma forma de resistência e e de nos mantermos unidos.


