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(Millôr Fernandes)

domingo, 14 de junho de 2026

Guimarães Rosa —‘Grande Sertão: Veredas’ completa 70 anos como obra universal que retrata realidade regional

Domingo, 14 de junho de 2026

‘Grande Sertão: Veredas’ completa 70 anos como obra universal que retrata realidade regional

Cláudia Campos Soares afirma que fama de ser livro difícil não resiste a muitas páginas: 'É uma leitura compensadora'

Brasil de Fato
12.JUN.202
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07:50
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Guimarães Rosa | Crédito: Arquivo

Em 1956, 70 anos atrás, Guimarães Rosa lançava a obra-prima “Grande Sertão: Veredas”, que marcaria para sempre a literatura e se tornaria um dos maiores desafios de tradução. Nas palavras do crítico literário Antonio Cândido, no livro “tudo é forte, belo e impecavelmente realizado”.

Ao BdF Entrevista, Cláudia Campos Soares, professora de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revela que a sensação da prosa de Guimarães Rosa ser difícil dura algumas dezenas de páginas apenas. “O Grande Sertão Veredas é difícil, mas principalmente nas primeiras páginas, nas primeiras talvez 50 páginas. É porque ele é um livro que não começa com uma narrativa linear. Ele, na verdade, é um diálogo, um diálogo implícito, porque começa com travessão e você ouve a voz do Riobaldo, que é um ex-jagunço, que agora está aposentado, e ele está conversando com um senhor que vem de fora da cidade, um senhor instruído, e que ele acha que pode ajudá-lo a compreender as questões que ficam atormentando o pensamento dele. Então, ele fala de pessoas que a gente ainda não conhece. Essas primeiras páginas realmente causam alguma dificuldade para o leitor, porque elas não seguem aquela linearidade que a gente está acostumado nos romances tradicionais. Ele vai para frente, ele volta, é uma narrativa em zigue-zague”, explica. “Então, se a gente vencer essas primeiras páginas, a leitura vai ser muito compensadora.”

Soares destrincha as características peculiares que fazem de Riobaldo muito singular. “É o jagunço como um personagem histórico que é presente tanto na cultura brasileira em geral quanto na literatura brasileira. Ele aparece muitas vezes. E um dos lugares onde é muito frequente e é muito conhecida a presença dele é nos sertões do Euclides da Cunha. Mas esse personagem, o Guimarães Rosa, dá para ele uma roupagem diferente, porque ele tem muitas características de um personagem da literatura europeia, que é o cavaleiro medieval. O cavaleiro medieval tem em comum com o jagunço rosiano um monte de coisas, dentre elas a lealdade, o código de valores, a ética. No mundo sertanejo, também como no mundo da cavalaria, a violência é permitida, é permitido assassinato, muitas formas de violência são permitidas, mas o que não é permitido é a traição. Então, isso é comum tanto no mundo dos jagunços quanto no mundo do cavaleiro medieval. O que torna o jagunço brasileiro alguma coisa que vai além dessa realidade regional”, avalia.

A professora também fala do estilo e escolhas linguísticas de Guimarães Rosa, com uso de estrangeirismo, neologismos e até mesmo palavras em desuso na língua portuguesa. “Ele elabora profundamente a linguagem, o que permite a ele também ultrapassar essa realidade regional enquanto representação do Brasil. Então, é nesse sentido que o sertão é o mundo. As questões que ele está tratando ali ultrapassam; é nesse sentido que o sertão é o mundo. As questões que ele está tratando ali ultrapassam enormemente as questões de natureza regional”, pontua.

Ainda sobre a universalidade de Rosa, Cláudia Campos Soares destaca que o escritor tocava em sentimentos universais, que criam imediata identificação com tudo que é humano. “É bom sempre lembrar que o Grande Sertão tem toda essa história de violência, de vingança, mas o Riobaldo também conta, junto com essa história muito pesada, a história do amor proibido que ele sentia por um outro membro do bando, que era conhecido como Diadorim. Não vou contar mais para não dar spoilers, mas tem essas duas coisas: a extrema violência e esse amor que ele sente pelo companheiro”, analisa.



Confira a entrevista completa no link abaixo:


Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.




Editado por: Luís Indriunas