Sábado, 18 de junho de 2022
Funcionários expressam à Agência Pública raiva, frustração e impotência; presidente do órgão indigenista nunca esteve na região mesmo depois do assassinato de colaborador em 2019
Rubens Valente, Ciro Barros, José Medeiros, Avener Prado
ESPECIAL: VALE DO JAVARI — TERRA DE CONFLITOS E CRIME ORGANIZADO
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As falas contundentes denotam raiva, frustração, indignação e impotência.
“A Funai está sozinha, estamos sozinhos, abandonados aqui.”
“Nós estamos de mãos amarradas.”
“Hoje o servidor da Funai está com a mão amarrada.”
“Nós estamos sozinhos no Vale do Javari. Só a Funai. Mas a obrigação de proteger esses territórios não é só da Funai.”
“É uma queda vertiginosa de servidores.”
“Temos o poder de apreensão, mas não o de portar arma, numa região onde todo mundo anda armado.”
“O Estado de fato nos abandona completamente aqui.”
Todos precisam conhecer as injustiças que a Pública revela. Ajude nosso jornalismo a pautar o debate público.
A Agência Pública colheu declarações de diversos servidores da Funai (Fundação Nacional do Índio) na região de Atalaia do Norte (AM) impactados e emocionados com a confirmação, anunciada pela polícia, do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips.
O crime destampou uma panela de pressão que vinha crescendo desde o assassinato impune e sem solução do colaborador da Funai Maxciel Pereira, ocorrido em 2019 numa rua da vizinha cidade de Tabatinga (AM). No começo da manhã desta sexta-feira (17), alguns servidores fizeram um protesto-relâmpago na frente do órgão em Atalaia. Ataram suas próprias mãos e pés e colocaram sacolas plásticas na cabeça.
José Medeiros/Agência Pública
José Medeiros/Agência Pública
Servidores da FUNAI protestaram por direito, justiça e proteção aos povos indígenas nesta sexta-feira (17)
Os servidores dizem que o atual presidente do órgão, o delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier, desde que tomou posse no cargo, há três anos, nunca apareceu na região que concentra o maior número de registros de povos indígenas isolados do mundo e que detém a segunda maior terra indígena em extensão do país, com 8,5 milhões de hectares.
Ao contrário de Xavier, Bruno era muito conhecido na região, tanto por autoridades quanto por moradores comuns, comerciantes e políticos. Ele coordenou, por cerca de cinco anos, os trabalhos da Funai em Atalaia até 2016 e era amigo de praticamente todos os servidores do órgão indigenista na região, para onde voltou em 2021 a fim de auxiliar a Univaja, principal organização dos povos indígenas na região, a realizar o trabalho de organização de equipes de vigilância indígenas. Era uma forma de tentar ocupar os vazios deixados pelo governo federal na repressão aos crimes ambientais.
Falando sob a condição de não ter seus nomes publicados, os servidores desnudam as péssimas condições de trabalho e a falta de apoio institucional, material e político. Pelos relatos fica claro que o atual cenário é devastador e o futuro, sombrio.




