Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador Revolução chinesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revolução chinesa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Revolução chinesa, 75 anos

Terça, 1º de outubro de 2024

Roteiro para compreender um processo inovador e complexo. A reforma agrária radical. Os ziguezagues dos anos 1960 e 70. A abertura de Deng, com modernização e desigualdade. Os desafios atuais e a decisão de não recuar diante dos EUA


OutrasPalavras

Publicado 01/10/2024 às 20:02 - Atualizado 01/10/2024 às 20:18

1º/10/1949: Mao anuncia a vitória da revolução chinesa

Por Tings Chak e Vijay Prajad | Tradução: Antonio Martins, depois de Hugo Albuquerque

Em 1º de outubro de 1949, o líder comunista Mao Zedong (1893-1976) anunciou a criação da República Popular da China. Trezentas mil pessoas se reuniram na Praça da Paz Celestial para saudar novo governo e, também a nova liderança. Depois de fazer o anúncio inicial, Mao hasteou a nova bandeira chinesa. Em seguida, o comandante militar Zhu De passou em revista as tropas do Exército de Libertação Popular. Celebrações semelhantes foram realizadas em outras partes da China.

A fundação da República Popular da China encerrou o Século de Humilhação, iniciado com a primeira Guerra Anglo-Ópio de 1839, incluindo a longa Segunda Guerra Mundial – que começou com a invasão japonesa da Manchúria em 1931. Dez dias antes, na primeira sessão plenária da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Mao disse: “Estamos todos convencidos de que nosso trabalho entrará para a história da humanidade, demonstrando que o povo chinês, que perfaz um quarto da humanidade, agora se levantou”. As palavras povo e república, no nome do novo país, não estavam ali à toa.

Falar em república significava concluir a Revolução de 1911 que encerrou a dinastia Qing (1644-1911) e inaugurou uma forma de soberania pós-monárquica. O republicanismo chinês formou-se a partir das visões reformistas de pessoas tão diversas quanto Kang Youwei (1858-1927) e Liang Qichao (1873-1929) – que apoiaram uma monarquia constitucional – e foram colocadas em prática por Sun Yat-Sen (1866-1925). Ele não era apenas contra monarquias, mas, o mais importante, era contra a miserável herança cultural dos séculos e pela unidade do povo chinês em um território extenso.
A bandeira da República Popular da China, hasteada pela primeira vez na Praça da Paz Celestial

Já o elemento do povo tem uma rica história no pensamento chinês e na teoria marxista, significando que o Estado deve operar em nome de uma gama de classes que formam a maior parte da sociedade – camponeses, trabalhadores, os intelectuais e a pequena burguesia –, as quatro estrelas na nova bandeira da China, com a quinta e maior estrela representando o Partido Comunista.

A República Popular foi entendida desde o início como um instrumento para a transformação da sociedade chinesa e não o ápice de uma transformação anterior. Não era um Estado socialista, mas uma república popular, que se esforçaria para construir o socialismo.

Desde o início, foi entendido pela liderança do Partido Comunista que a Revolução Chinesa não se encerrava em 1949, mas era um processo iniciado muito antes, pelo menos desde a formação da República Soviética Chinesa, em Ruijin, no Sul da China, ainda em 1931 até chegar a base revolucionária de Yan’an, no Noroeste, em 1936.

Os três movimentos de massas

Dois dos principais movimentos de massas que se aprofundaram logo após 1949 foram a vitória final sobre as forças do Kuomintang, no Sudoeste e Sul da China, o estabelecimento de aliados no mundo – particularmente a União Soviética, com o Tratado Sino-Soviético de fevereiro de 1950 – e, também contra a invasão norte-americana à península coreana, em junho de 1950.

A formação da República Popular da China ocorreu em um momento em que ela ainda não havia estabelecido a unidade do território, nem encontrado os meios para se defender contra a agressão imperialista. Esses dois movimentos de massa – a derrota das forças de direita no continente e a construção defensiva contra a agressão imperialista – forçaram a China a adiar brevemente o terceiro movimento de massas, que no entanto foi o mais duradouro: o plano de Reforma Agrária.

As decisões do inverno de 1950, no entanto, iniciaram um processo de reforma agrária nas zonas recém-libertadas, as quais foram substancialmente concluídas na primavera de 1953. O primeiro princípio geral da Lei da Reforma Agrária observava:

Fica abolido o sistema de propriedade, baseado na exploração feudal, por parte da classe latifundiária, sendo substituída pelo sistema de propriedade dos camponeses, a fim de libertar as forças produtivas das regiões rurais e desenvolver a produção agrícola, visando a abrir o caminho para a industrialização da Nova China.

Esse era o objetivo. O processo era para que o Estado encorajasse o poder político de base, treinado e liderado pelo Partido Comunista, para conduzir à Reforma Agrária de forma guiada, planejada e ordenada. O Partido não daria terras aos camponeses, mas garantiria que eles pudessem construir estruturas, regionais e locais, para redistribuir os recursos em suas áreas.