“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Caso Master e a era dos parasitas

Segunda, 29 de junho de 2026

Caso Master e a era dos parasitas


Uma fraude do financismo veio à tona, e revelou as relações corruptas do rentismo. Muito mais grave é o que ainda não causa escândalo — dos juros altíssimos à privatização da infraestrutura e emissão de dinheiro para sustentar guerra. Como parar a máquina?

OUTRASPALAVRAS                            Mercado x Democracia

Publicado 29/06/2026
Imagem: Reprodução/Global Investigative Journalism Network

“Simplesmente os interesses dos muito ricos não são os mesmos que os interesses da nação.” – George Monbiot, The Guardian, 2022

O escândalo do Banco Master anima muito o debate. Em ano eleitoral, tentar colar a etiqueta de corrupto no opositor político faz parte do tiroteio, em particular porque, para as pessoas desinformadas, a etiqueta permite substituir a informação e o raciocínio. Ao longo da minha vida de economista, me dei conta de que quando gritam “pega ladrão” em geral vale a pena olhar para quem está gritando. No caso presente, é evidente que, quando um governo combate a corrupção, ela vem à tona, porque é revelada, enquanto o governo corrupto que a gerou e tolerou fez o tema sumir do mapa.

Um segundo ponto é que não se trata de coisa nova. O caso Lemann, Sicupira e Telles, que também envolveu dezenas de bilhões de reais, sumiu do mapa. A fortuna de Jorge Paulo Lemann é hoje de R$ 88 bilhões; a de Carlos Alberto da Veiga Sicupira atingiu R$ 39,1 bilhões; a de Max Van Hoegaerden Herrmann Telles, R$ 29,3 bilhões. Muito acima das Lojas Americanas, esse grupo pertence à 3G Capital, com sede em Luxemburgo, um paraíso fiscal, fora de alcance. Não é antigo: a Polícia Federal apontou que a fraude foi orquestrada pela antiga diretoria entre 2016 e 2022, resultando em operações contra ex-executivos. Foi o tempo ideal para as falcatruas, com Paulo Guedes e a autonomia do Banco Central. Foi também quando foi gerado o caso Master. Porém, aparece quando é combatido.

As fortunas continuam, mas as bandidagens em outra escala têm suficiente força para torná-las legais.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Banco Central: “Autonomia” ou Privatização?

Quarta, 20 de maio de 2026

Banco Central: “Autonomia” ou Privatização?

Avança, no Senado, proposta “modernizadora” apoiada por bancos, mídia e direita. Efeitos: atar o BC aos rentistas. Isolá-lo, por orçamento nababesco, dos dramas do país. Tirar de funcionários a força necessária para enfrentar a oligarquia financeira

OUTRASPALAVRAS                       Mercado x Democracia
Publicado 20/05/2026

Crédito: Reprodução/The Economist

Título original:
PEC 65 ou: como capturar o Banco Central chamando de modernização

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado adiou, em 20/5, o exame do substitutivo do Senador Plínio Valério à PEC 65/2023. A proposta, contudo, continua a tramitar – e persistem, portanto, as ameaças nela implícitas. O texto pretende conferir ao Banco Central autonomia orçamentária e financeira, permitindo que a autarquia financie suas despesas com “receitas próprias”, fora do orçamento aprovado pelo Congresso. Depois de dezoito meses de tramitação, 21 emendas e oito versões de parecer, a redação atual abandona a expressão “empresa pública” — que constava do texto original assinado por quarenta e dois senadores em novembro de 2023, com Vanderlan Cardoso, Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre, Rogério Marinho, Sergio Moro, Hamilton Mourão e Flávio Bolsonaro entre os primeiros signatários. O texto final passa a definir o BCB como “entidade pública de natureza especial”. Apresentada como concessão substantiva às críticas acumuladas desde 2024, a mudança é cosmética, como demonstra a Nota Técnica 22 do Transforma/Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil), publicada esta semana, da qual este artigo retoma os achados centrais.

O primeiro problema é que as “receitas próprias” que financiariam o BCB resultam de apropriação indébita de recursos da União: os ditos lucros de senhoriagem. A senhoriagem resulta do monopólio estatal de emitir moeda que não paga juros. Comecemos pela aritmética. Sob a Lei n.º 13.820/2019, os resultados positivos do BCB são transferidos ao Tesouro para abater dívida pública federal. No período 2017-2025, a senhoriagem — medida pela taxa de juros nominal sobre a base monetária — somou R$ 210,2 bilhões em valores constantes de dezembro de 2025. No mesmo período, a despesa administrativa do BCB no Orçamento Geral da União — folha de pessoal, custeio, investimento — somou R$ 43 bilhões. A diferença, R$ 167,2 bilhões, é o que a PEC pretende usar para financiar o BCB. O valor é equivalente, em valores acumulados, a aproximadamente 1,5% do PIB anual médio do período — ou, em termos de impacto anual médio, cerca de 0,17% do PIB ao ano. É essa magnitude que está em jogo quando se discute “autonomia financeira”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Novo artigo da ACD: Projeto que limita dívida pública livra Bolsa-Banqueiro e turbina o Arcabouço Fiscal

Quarta, 22 de outubro de 2025

Novo artigo da ACD.jpg

Em seu mais novo artigo ao Extraclasse, Maria Lucia Fattorelli denuncia que o Senado Federal está analisando um Projeto de Resolução (PRS 8/2025) que, além de fixar limites globais para o montante da dívida consolidada da União, deixa fora do estoque da dívida pública (a ser considerado nesse limite, conforme último parecer, de 30/9/2025) o volume de títulos públicos doados pelo Tesouro Nacional ao Banco Central, ou seja, esconde exatamente a parcela mais escandalosa do estoque da dívida pública federal, que tem sido usada para manter a nociva Bolsa-Banqueiro.
Leia na íntegra no Portal Extraclasse ou faça o download do arquivo aqui.


Atenciosamente,

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Sistema da Dívida suga recursos que poderiam ir para o Transporte Público

Quinta, 15 de fevereiro de 2024
Da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD)

A área do transporte público engloba desde os meios de transporte, como ônibus, trem e metrô, até a mobilidade urbana como um todo, incluindo a infra estrutura e planejamento urbano. Porém, você já percebeu que utilizar o transporte público geralmente é um momento de transtorno? Veículos lotados e em péssimas condições, além da demora na espera. E para piorar, caríssimo! Dentre as tarifas de ônibus mais caras do Brasil, estão Belo Horizonte (MG), Porto Velho (RO) e Curitiba (PR), pelo valor aproximado de R$ 6,00.

Na Constituição Federal, além de um direito social, o transporte possui caráter essencial, então, como é possível que um serviço ESSENCIAL esteja tão defasado? A resposta é simples: o Sistema da Dívida tem consumido a maior parcela do orçamento federal, como resta evidenciado pelos gráficos fornecidos pela ACD. (confira aqui), enquanto a área do transporte deve receber APENAS 0,50% dos recursos federais em 2024.

É preciso avançarmos em pesados investimentos em infra estrutura urbana e transportes coletivos, inclusive para conseguirmos a tão sonhada tarifa zero para a população, com serviços de transporte públicos e gratuitos. Aqueles que costumam alegar a impossibilidade desta medida omitem que o orçamento federal aprovado para 2024 prevê 45,98% dos recursos para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública.

Essa situação pode ser modificada. Através da Campanha Nacional por Direitos Sociais, buscamos a garantia do direito ao transporte e demais direitos sociais, afinal, se é a população que mantém a engrenagem do país girando, é imprescindível que desfrute dos benefícios.

Acesse aqui.

#CampanhaNacionalPorDireitosSociais #ACD #AuditoriaCidadã

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Frente Parlamentar pelo Limite dos Juros e Auditoria da Dívida Pública lança primeiro boletim

Quarta, 15 de novembro de 2023

A Frente Parlamentar pelo Limite dos Juros e Auditoria da Dívida Pública com participação popular lançou seu primeiro boletim oficial, com a cobertura do evento de lançamento, em setembro, na Câmara dos Deputados.

Acompanhado por quase 30 entidades, além de parlamentares e assessores presentes, o evento contou com a participação da Auditoria Cidadã da Dívida. “Este é um momento histórico, porque a questão dos juros afeta 100% da população brasileira, já que afeta as contas públicas. Não há fundamento científico ou técnico para o patamar de juros praticado hoje pelo Banco Central, e eles sabem que não há. O juro alto é para roubar”, disse a coordenadora nacional da ACD, Maria Lucia Fattorelli, em fala reproduzida pelo boletim.

Confira aqui o boletim da Frente Parlamentar, que é coordenada pela deputada do PSOL-RS Fernanda Melchionna.

Participe do I Seminário que está sendo organizado pelas duas Frentes Parlamentares. Saiba mais aqui!

terça-feira, 29 de agosto de 2023

É amanhã (quarta, 30/8): Audiência Pública sobre Política de Juros

Terça, 29 de agosto de 2023

Há tempos, no Brasil, impera uma política de juros altos que drena os recursos públicos do país, sem qualquer contrapartida e transparência. Esta audiência visa debater o assunto. Se você se preocupa com um país com menos desigualdades, com oportunidades iguais e melhor distribuição de seus recursos, sua participação é fundamental!

Entenda o contexto: Estamos em busca da aprovação do projeto de lei complementar PLP 104/2022, que tem como objetivo limitar os juros no Brasil. Agora, esse projeto está na Comissão de Finanças e Tributação (CFT). Sua aprovação é vital para conter a sangria de recursos públicos, que são direcionados para o pagamento de juros abusivos em nosso país.
A audiência pública é fundamental para que este movimento se fortaleça. O evento terá a presença de convidados como o Dr. Fernando Siqueira (diretor da Associação dos Engenheiros da Petrobras – AEPET), Prof. Ladislau Dowbor (economista e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e Prof. Marco Antônio Mitidiero Júnior (professor da Universidade Federal da Paraíba). Representantes da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), do Banco Central e do Ministério da Fazenda também estarão presentes.
Maria Lucia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, será uma das palestrantes. “Juntos, podemos mostrar o quanto estamos comprometidos em transformar o limite dos juros em uma lei concreta”, destaca.
Anote na agenda:
🗓 Data: 30/08
⏰ Horário: 10h
🏛 Local: Anexo II, Corredor das Comissões da Câmara dos Deputados, Plenário 04
Ou participe online:
#audienciapublica #audiencia #jurosnobrasil #temquevirarlei #limitedosjurosjá

sábado, 5 de agosto de 2023

LIMITE DOS JUROS TEM QUE VIRAR LEI

Sábado, 5 de agosto de 2023

Da Auditoria Cidadã da Dívida

O volume de crédito rolado por cartões de crédito, cuja taxa média ficou em 437,3% a.a. em junho/2023, segundo dados divulgados pelo Banco Central, passou de R$ 30 bilhões no referido mês.

O LIMITE DOS JUROS no Brasil é objeto de projeto de lei (PLP 104/2022) que nasceu da campanha lançada desde o ano passado pela Auditoria Cidadã da Dívida, em conjunto com diversas entidades da sociedade civil, com apoio inclusive da CNBB (ver depoimento de Dom Walmor Oliveira em https://www.youtube.com/watch?v=D5cF-kscuOg ) e da Comissão Brasileira Justiça e Paz. Em evento virtual, o lançamento da campanha foi um sucesso e contou com a participação de autoridades, jornalistas, inúmeras entidades da sociedade civil e apoiadores (https://www.youtube.com/watch?v=uFyRdrwUO2g&t=149s). A iniciativa rendeu até Prêmio à ACD, que recebeu o “Selo de Participação Legislativa”, entregue pela Comissão de Legislação Participativa (CLP) da Câmara dos Deputados às entidades da sociedade civil organizada que mais atuaram junto à Comissão nos anos de 2021 e 2022, por serviços relevantes à sociedade (https://www.youtube.com/watch?v=EaWFzAZtH0k).

Em vez de apoiar esse importante PLP 104/2022 construído pela base da sociedade, e que limita os juros ao máximo de 12% ao ano, além de impedir a continuidade da farra da Bolsa-Banqueiro (remuneração parasita, paga diariamente aos bancos, sobre dinheiro que sequer pertence a eles), o governo dialoga com bancos para “contratar uma transição”, segundo notícia publicada pelo Jornal do Comércio (https://bit.ly/44W1GQg):

“o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que uma solução para o rotativo sairá em 90 dias. Haddad afirmou que o governo federal vai contratar com o sistema bancário uma transição para um sistema melhor do que o atual. “Teremos um freio”, disse o ministro.”

Sem pressão social, entra governo, sai governo, e quem manda são bancos. Faça a sua parte e opine favoravelmente ao PLP 104/2022 no site da Câmara dos Deputados (https://www.camara.leg.br/enquetes/2333328).

domingo, 25 de junho de 2023

Teto da dívida pública US: o repúdio das dívidas pelo presidente Franklin Roosevelt votado ao silêncio

Domingo, 25 de junho de 2023

Quando o presidente Joe Biden diz que os EUA nunca denunciaram nenhuma obrigação de dívida, é uma mentira para convencer de que não há alternativa a um acordo bipartidário ruim


Teto da dívida pública US: o repúdio das dívidas pelo presidente Franklin Roosevelt votado ao silêncio

28 de Maio por Eric Toussaint

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Desempregados fazem fila à porta de uma cozinha popular aberta em Chicago por Al Capone durante a depressão, 1931- Unemployed men queued outside a depression soup kitchen opened in Chicago by Al Capone, 1931, Wikimedia Commons, https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Unemployed_men_queued_outside_a_depression_soup_kitchen_opened_in_Chicago_by_Al_Capone,_02-1931_-_NARA_-_541927.jpg

Quem aprendeu na escola que nos anos 1930 o governo americano simplesmente cancelou uma provisão central de contratos de dívida envolvendo uma quantidade fenomenal de dinheiro? Em que livro de história isso é analisado? A narrativa histórica é moldada pelo pensamento dominante de que governos como o dos EUA devem respeitar a sacralidade dos contratos, especialmente em matéria de dívida e propriedade. Isto está longe de ser o caso. O repúdio da cláusula de ouro nos contratos de dívida em nome da ordem pública, do interesse geral e da necessidade é um episódio importante na história «contemporânea». Um episódio que tem sido negligenciado, inclusive nos Estados Unidos. O repúdio unilateral de todos ou parte dos contratos de dívida, como vários governos têm feito nos últimos dois séculos, é altamente atual à medida que mais e mais países se aproximam de mais uma grande crise de dívida.



A 19 de abril de 1933, seis semanas após o início do seu mandato presidencial, o democrata Franklin Roosevelt anunciou que os EUA não mais reembolsariam suas dívidas em ouro

A 19 de abril de 1933, seis semanas após o início do seu mandato presidencial, o democrata Franklin Roosevelt anunciou que os EUA não mais reembolsariam suas dívidas em ouro, contentando-se em reembolsá-las em papel-moeda, em dólares na forma de notas bancárias. Essa decisão tem enorme importância, uma vez que vários contratos de empréstimo estipulavam que os credores podiam exigir o reembolso da dívida ou em ouro, ou em dólares calculados à taxa de 20 dólares por onça de ouro.

Os contratos de empréstimo que continham tal disposição (ou seja, uma cláusula de ouro) representavam uma soma colossal para a época: 120 mil milhões de dólares, dos quais 20 mil milhões de dívidas contraídas pelos poderes públicos e 100 mil milhões de dívidas contraídas pelo sector privado. Essa soma era largamente superior à riqueza mercantil produzida em um ano nos EUA (segundo Sebastian Edwards os contratos de dívida com uma cláusula em ouro representavam à época 180 % do PIB dos EUA [1]). Além da abolição da restituição em ouro, o governo proibiu a posse de ouro acima de um valor de US$ 100 e ordenou que todas as empresas e indivíduos residentes nos Estados Unidos vendessem seu ouro para o Federal Reserve. Em troca do ouro, o governo lhes dá notas bancárias.

Por U.S. Government Printing Office — http://www.goldline.com/images/conf-order.pdf, domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=11370129

























A decisão do presidente Roosevelt ganhou a aprovação do Congresso dos EUA, que em junho de 1933 aprovou por lei o abandono da cláusula de ouro nos instrumentos de dívida. A minoria de congressistas de seu partido e do partido republicano que se opôs a esta decisão disse alto e bom som que se tratava simplesmente de um repúdio a dívidas e contratos. Lewis Douglas, o diretor de orçamento, um dos conselheiros e assessores mais próximos do presidente Roosevelt, tentou se opor à decisão e disse numa reunião do gabinete de crise de Roosevelt que isso significava «o fim da civilização ocidental» (Edwards, p. 58). Sebastian Edwards, um economista neoliberal, que publicou um livro em 2018 inteiramente dedicado a esta decisão da administração Roosevelt, intitula o capítulo 6 de seu livro «A Transfer of Wealth to the Indebted Class», o que tem um significado muito claro (Edwards, p. 57).

 A minoria de congressistas de seu partido e do partido republicano que se opôs a esta decisão disse alto e bom som que se tratava simplesmente de um repúdio a dívidas e contratos

Após o cancelamento da cláusula do ouro em todos os contratos de dívida, o presidente dos EUA anunciou uma desvalorização de 69 % do dólar em relação ao ouro (uma onça de ouro valeria agora 35 dólares [2], enquanto anteriormente valia 20,67 dólares). Isto significa que os EUA e os mutuários privados que «emitiram» ou assinaram títulos de dívida com uma cláusula de ouro não pagariam suas dívidas em ouro, passando a pagá-las em papel-moeda fortemente desvalorizado.

Em fevereiro de 1935 o Tribunal Supremo pronunciou-se, a pedido do governo, sobre a constitucionalidade da decisão de anular a cláusula então tomada pelo Congresso e pelo presidente.

Perante o Tribunal Supremo, um elemento fundamental da argumentação jurídica do governo era que, em 1933, o Congresso estava confrontado com a imperiosa «necessidade de agir» para acabar com a Depressão. Esta «ação» necessária, que incluía a desvalorização do dólar em relação ao ouro, só podia ser efetiva se a cláusula do ouro fosse eliminada dos contratos passados e futuros. Se as cláusulas relativas o ouro fossem mantidas, isso significava, segundo o governo, a falência à escala nacional. Por isso, ainda segundo o governo, o Congresso, confrontado com uma recessão profunda, o descalabro bancário e o pânico monetário, aprovou a resolução conjunta, anulando todas essas cláusulas. Segundo o governo, tratava-se de salvar o país.

Por seu turno, os juristas antagônicos à anulação da cláusula do ouro afirmavam que esta era equivalente a uma expropriação sem indemnização (Edwards p. 152).

Perante estas duas posições, os juristas favoráveis à anulação da cláusula do ouro afirmaram que os detentores dos títulos de dívida tinham de assumir os riscos que tinham tomado ao comprarem os títulos (Edwards, p. 151). Os advogados da administração Roosevelt argumentaram que a cláusula em questão era «contrária à ordem pública», termo legal que implica que certas ações, regulamentos ou contratos provocam prejuízo ao público e aos cidadãos em geral. Segundo o governo, a cláusula do ouro era «incompatível com o nosso atual sistema monetário» [3] (Edwards, p. 140).

Finalmente, com 8 votos a favor e um contra, o Supremo Tribunal declarou que a anulação da cláusula do ouro era contrária à Constituição! Mas por 5 votos contra 4, considerou que isso não implicava prejuízo. Em consequência, o repúdio da cláusula do ouro, com efeitos retroativos a todos os títulos da dívida, foi confirmado.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

O dreno financeiro que paralisa o país: a farsa do déficit

Domingo, 19 de fevereiro de 2023
Da AEPET —Associação dos Engenheiros da Petrobrás. Artigo publicado originalmente no blog do autor*

Escrito por Ladislau Dowbor

82% do aumento da dívida resultam de juros acumulados

"Nosso sistema financeiro é gigante e disfuncional, pois não atua como criador de crédito e de financiamento do investimento e do consumo do setor privado; mas como corretor dos rentistas que vivem às custas do financiamento da dívida pública."Bresser Pereira e outros, 2021 [1]
O básico é o seguinte: quando rende mais o rentismo financeiro, ou seja, a aplicação em títulos e diversos "produtos" financeiros, do que abrir uma empresa e realizar um investimento produtivo, o dinheiro flui para onde rende mais: para ganhos improdutivos. Um exemplo: quando o governo eleva a taxa básica de juros (Selic) para 13,75%, este valor será pago pelo governo, aos detentores privados dos títulos da dívida pública, basicamente os 10% mais ricos da sociedade, usando os impostos que pagamos. Ou seja, esses impostos, em vez de financiarem educação, saúde ou infraestruturas, vão para os grandes grupos financeiros, que aqui chamamos de "mercados". O Estado não se endividou para construir escolas, por exemplo, ou no Bolsa Família: 82% do aumento da dívida pública resultam de juros acumulados. Sem nenhuma contribuição produtiva, esses grupos drenam anualmente, só nesta modalidade, cerca de 600 bilhões de reais, ou seja, o equivalente a cerca de 6% do PIB. Esses 6% do PIB podiam se transformar em investimentos produtivos, mas para que um dono de fortuna vai arriscar no mercado real, se pode ganhar 13,75% sem risco e sem esforço?

O endividamento público poderia se justificar se, por exemplo, financiasse um programa de apoio tecnológico à agricultura familiar: resultaria uma produtividade mais elevada, mais produto, cujo consumo por sua vez permitiria o retorno para os produtores, os empresários da cadeia alimentar, e o próprio Estado no imposto sobre o consumo e diversos pontos do ciclo produtivo dinamizado. No nosso caso, o fato de 82% do aumento da dívida resultar de juros acumulados, significa que estamos simplesmente alimentando especuladores financeiros. Segundo pesquisa de Carlos Luque (et al.) "Desde 1995 o governo pagou aos detentores da dívida pública o equivalente a 5-7% do PIB ao ano, muito mais do que o déficit das aposentadorias ou outros itens de gastos objeto de muita discussão no Congresso e na mídia." [2]

Um dreno improdutivo deste porte necessita de uma narrativa: se trataria de proteger a população da inflação. É uma farsa evidentemente, pois só numa economia sobreaquecida, que precisa ser esfriada, e, portanto, com inflação por excesso de demanda, elevar a taxa sobre a dívida pública seria eficiente. O último ano de crescimento significativo no Brasil foi em 2013, 3,0%. Numa economia estagnada, transferir mais recursos públicos para grupos financeiros que reaplicam para obter mais juros, em vez de financiar infraestruturas, por exemplo, o que dinamizaria a economia, constitui uma apropriação indébita de recursos públicos. [3] Em 2022 terão sido entre 600 e 700 bilhões drenados. Para termos uma ordem de grandeza do que este montante significa, lembremos da batalha parlamentar que foi, em dezembro de 2022, obter no Congresso a autorização de 145 bilhões, com a PEC da Transição, para enfrentar situações mais críticas da população. Esse montante representa aproximadamente 1,5% do PIB.

Outro dreno é a evasão fiscal. O SINPROFAZ estima que "de 1º de janeiro a 23 de novembro [2020], o Brasil perdeu R$ 562 bilhões devido a práticas ilícitas para evitar o pagamento de impostos. São recursos que, se tivessem entrado no caixa do Governo, poderiam ser revertidos em políticas públicas: em estradas, construções de escolas, ou como agora, na pandemia, com mais investimentos em saúde ou ajudando a população mais vulnerável com o auxílio emergencial." [4] São 7,6% do PIB da época. As pessoas comuns não têm como praticar a evasão, ou porque são assalariados, e têm desconto na folha, ou porque são consumidores: a massa da população gasta o essencial com compras e paga os impostos incorporados no preço. Já temos aqui, somando a dívida pública e evasão, por baixo, um dreno de 12% do PIB. Lembremos que o Bolsa Família antigo representava 0,5% do PIB.

Os juros praticados no Brasil, para pessoa física e pessoa jurídica, constituem um dreno mais amplo. Pesquisa apresentada em manchete do Estado de São Paulo, apontava que os juros tiravam um trilhão de reais da economia real, em 2016, o que representava na época 16% do PIB. [5] O relatório Estatísticas monetárias e de crédito do Banco Central, de janeiro de 2023, apresenta os dados do volume de crédito privado concedido a pessoas físicas e jurídicas, com um total de 5,3 trilhões, distribuídos em 1,4 trilhão para pessoa jurídica no crédito livre, pagando juros de 23,1% (seria 3 a 4% na Europa); 1,8 trilhão concedido a pessoas físicas, com juros de 55,8%; e 2,2 trilhões em crédito direcionado. "A taxa média de juros das contratações finalizou o ano de 2022 em 29,9% a.a." [6] Essa média sobre os 5,3 trilhões concedidos em 2022 daria um dreno da mesma ordem que o de 2016, cerca de 1,5 trilhão.

As pessoas em geral têm dificuldade em "materializar" na sua cabeça o que representa um trilhão e meio de reais. Mas dividido pela população, 215 milhões, é um custo de 7 mil reais para cada um de nós. Daria também para construir 15 milhões de casas populares. Esse volume de juros extraídos de famílias e de empresas reduz drasticamente o consumo privado e o investimento empresarial, atingindo também o emprego, e contribuindo para a desindustrialização do país. Alguma parte disso volta para a economia? Não temos esse dado para o Brasil, mas o cálculo equivalente nos Estados Unidos, do Roosevelt Institute, é de que são apenas 10%. Mariana Mazzucato, no caso da Grã-Bretanha, calcula 15%. De toda forma, trata-se de um gigantesco dreno improdutivo, que gera as fortunas impressionantes dos bilionários brasileiros que a Forbes apresenta, e também dos grandes gestores de ativos internacionais. [7]

Esse rentismo institucionalizado é hoje legal, já que uma emenda constitucional no início de 2003 retirou da constituição o artigo 192 que tipificava a usura como crime: "As taxas de juros reais, nelas incluídas comissões e quaisquer outras remunerações direta ou indiretamente referidas à concessão de crédito, não poderão ser superiores a doze por cento ao ano; a cobrança acima deste limite será conceituada como crime de usura, punido, em todas as suas modalidades, nos termos que a lei determinar." Lembrando que o princípio geral na Constituição reza que "o sistema financeiro nacional, [será] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade." Não se trata de generosidade, pois o dinheiro que o banco nos empresta é nosso, e o dinheiro da dívida pública é dos nossos impostos. [8] As pessoas também não têm visão clara do que é usura, ou agiotagem. Na França, por exemplo, a proibição da usura está no código do consumidor, definida como cobrança de uma taxa de juros que ultrapasse em um terço a taxa média praticada pelas instituições financeiras no trimestre anterior. O exemplo é que um empréstimo entre 3 mil e 6 mil euros, em que a taxa de juros média no mercado é de 7,35% ao ano, não poderá ultrapassa 9,80%. Para um montante acima de 6 mil euros, em que a taxa média anual é de 3,70%, não poderá ultrapassar 4,93% ao ano. [9]

Importante referir que só no Brasil se usa apresentar as taxas de juros no setor privado como juros mensais. Isso foi herdado da fase da hiperinflação, em que chegamos a variações mensais tão elevadas que os juros também passaram a ser calculados ao mês. A hiperinflação foi derrubada em 1994, mas os bancos continuaram a apresentar a taxa de juros ao mês, o que a torna comparável ao que se cobra no resto do mundo, só que ao ano. Na Constituição, os 12% de juros reais se referiam obviamente a juros ao ano, e a taxa Selic, juros interbancários e sobre a dívida pública, também são calculados como anuais. Um exemplo prático: o Santander mandou para o meu celular essa oferta que transcrevo textualmente: "Santander: Ladislas, ótima notícia p/os momentos de sufoco! A taxa de juros do seu limite da conta caiu p/5.9% a.m., até 31/01/2023." Não pedi esta oferta, invadem o meu celular, imagino que chegou a milhões, e que muita gente no sufoco poderia achar que é realmente uma "ótima notícia" e se enforcar num empréstimo inicial que nunca vão conseguir saldar. Juros ao mês de 5,9% equivalem a praticamente 100% ao ano (98,95%). O banco trabalha com desinformação, pouca gente saberá calcular o juro composto anual.

Não à toa temos 79% das famílias no Brasil atoladas em dívidas, trabalhando para pagar juros, e frequentemente apenas alongando a dívida. [10] Cerca de um terço estão em bancarrota pessoal. Não há controle, o Banco Central é "autônomo", ou seja, controlado pelos grupos que deveria regular. A facilidade com a qual os grupos financeiros se apropriaram da instituição reguladora, tão importante para que os recursos financeiros sirvam à economia, e não o contrário, lembra muito a facilidade com a qual conseguiram tirar o artigo 192 da Constituição: não precisaram de constituinte, apenas se apoiaram nos interesses financeiros dos deputados e senadores. Lembrando que entre 1997 e 2015, as corporações foram autorizadas a financiar as campanhas eleitorais; apenas no final de 2015 o STF se deu conta de que o artigo primeiro da Constituição, "todo poder emana do povo" tinha sido violado, e a autorização foi revogada. Mas o mal já estava feito. Nos Estados Unidos, onde autorização semelhante foi adotada em 2010, e segue em vigor, os americanos comentam que "temos o melhor congresso que o dinheiro pode comprar". O Banco Central passa a ser um veículo de transferência de recursos públicos para as elites.

Outro dreno é representado pelas renúncias fiscais. Segundo informe da Câmara dos Deputados, "as renúncias de impostos concedidos pela União a parcelas da sociedade devem chegar a R$456 bilhões em 2023, ou 4,29% do Produto Interno Bruto (PIB). O total é um pouco superior ao que o governo gasta anualmente com o pagamento de pessoal." [11] Aqui também se trata de grupos que utilizam, como todos nós, recursos públicos (universidades públicas, ruas asfaltadas etc.) mas que não pagam impostos. Não é propriamente vazamento, é dinheiro que deixa de entrar. Com uma carga tributária da ordem de 34%, o problema nosso não é de falta de recursos, e sim de para onde são canalizados, e isso inclui o não pagamento do imposto devido.

Alguns drenos são mais escandalosos. Mas de forma geral, o que chamamos de elites, uma colusão de bilionários nacionais com as grandes corporações transnacionais, usam o Estado (que criticam) para que drene os próprios recursos do Estado, e facilite a apropriação improdutiva dos recursos das famílias e das empresas. Até aqui temos, como ordens de grandeza, e com variações na composição segundo os anos, 6 a 7% do PIB drenados pela dívida pública, cerca de 6% por evasão fiscal, cerca de 15% do PIB por juros extorsivos, mais de 4% por renúncias fiscais. Ou seja, por dreno do que entrou, e por não entrada do que é devido, o desequilíbrio é da ordem de 30% do PIB. Não à toa a economia está estagnada. Se o PIB não apresenta números ainda mais fracos, é porque lucros financeiros – rentismo sem contribuição produtiva – e exportações de bens primários aparecem como "produção", apesar de constituírem drenos igualmente.

Desde 1995, lucros e dividendos distribuídos, no Brasil, não pagam impostos. Ou seja, os 290 bilionários que aparecem na Forbes de 2022 são isentos de impostos, com a justificativa de que as empresas que possuem já os pagaram. Naturalmente, a capitalização da empresa e o enriquecimento dos seus acionistas, como pessoas físicas, são coisas diferentes, mas o resultado é que os muito ricos simplesmente são isentos. Eu, como professor universitário, pago 27,5%. Com a aprovação da isenção em 1995, não pagar impostos se tornou legal. No caso do imposto territorial, o ITR (Imposto Territorial Rural), está vigente a obrigação, mas o imposto simplesmente não é cobrado, resultado do peso político do agronegócio, tanto na sua dimensão moderna corporativa como na dos latifúndios tradicionais herdados do passado. Caberia aqui acrescentar a grilagem, totalmente ilegal, mas tolerada.

O mesmo peso político (nacional e internacional) permite que a produção destinada à exportação não pague impostos. Trata-se da Lei Kandir, de 1996, que isenta de tributos a produção de bens primários e semielaborados destinados à exportação. Ou seja, ao mesmo tempo que se procedia à privatização da Vale, por exemplo, colocando-a nas mãos de acionistas privados nacionais e internacionais, o dreno de minérios, que constituem uma riqueza natural do país, passa a gerar dividendos, mas não receitas para o Estado. Exportações primárias, nas suas diversas dimensões, passam a ter vantagem sobre a produção para o mercado interno, mas geram poucos empregos, muitos desastres ambientais, e maior dependência relativamente aos interesses dos gigantes mundiais de intermediação de commodities. A reprimarização geral da economia que vivemos nos últimos anos, bem como a desindustrialização do país, estão diretamente ligados a este marco institucional. [12]

O caso do petróleo é particularmente instrutivo. O Brasil controla o ciclo completo do petróleo: a tecnologia, a extração, o refino, a distribuição, a indústria petroquímica. Mas antes de tudo o petróleo está em território nacional, é uma riqueza da nação. Países que não têm petróleo são obrigados a pagar os preços internacionais. Mas o Brasil, que controla o ciclo completo, não tem nenhuma razão para se submeter às variações de preços internacionais, que resultam de escolhas políticas de um grupo restrito de corporações. A privatização, ao colocar o controle das empresas nas mãos de acionistas nacionais e internacionais, equivale a uma desnacionalização. Os lucros que anteriormente financiavam reinvestimento na empresa e políticas públicas financiadas pelos impostos correspondentes, se transformaram em grande parte em dividendos, eles mesmos isentos de impostos. Trata-se de uma apropriação de bens públicos, em nome da eficiência e da luta contra a corrupção. A população que agora paga o dobre pelo botijão de gás ou para encher o tanque do carro está alimentando acionistas, essencialmente grupos financeiros.

Seria um desafio importante calcular quanto se perde pelos impostos não pagos, somando a isenção de lucros e dividendos distribuídos, as perdas que resultam da lei Kandir, o ITR não aplicado, ou a elevação de preços de derivados do petróleo que elevam os custos de vida da população e os custos de produção das empresas – o custo da energia penetra inúmeros setores e multiplica elevações de preços – sem contribuição produtiva correspondente. Somando os drenos, pelos juros sobre a dívida pública, a evasão fiscal, a agiotagem bancária, as renúncias fiscais, a isenção de lucros e dividendos, a isenção de exportações primárias (lei Kandir), e o não-pagamento do ITR, e mesmo considerando que uma parte dos ganhos financeiros volta para a economia real, o fato é que o conjunto inviabiliza a economia do país. Hoje apenas funcionam o setor de exportação primária e o mercado financeiro.

Os chamados "mercados" e a direita em geral clama pelo equilíbrio fiscal, ou seja, limitar os 'gastos' com educação, saúde, infraestruturas e semelhantes, na realidade investimentos nas pessoas e na economia real, enquanto geram exatamente o déficit ao drenarem os recursos do setor público, das famílias e das empresas produtivas, em proveito de lucros sobre exportações primárias e intermediação financeira, que chamam de 'investimentos'. Afirmar que uma elite improdutiva desvia 25% da economia real, é hoje uma conta conservadora. Lembremos que a fase distributiva do país, de 2003 a 2013 (a ofensiva neoliberal já começou em 2014), assegurou empregos, alimentação e um crescimento médio de 3,8% ao ano, mesmo com a crise mundial de 2008). O desafio que temos pela frente, é o de reorientar os nossos recursos para a economia, real, maior consumo das famílias, maior investimento produtivo das empresas, e expansão das políticas sociais e infraestruturas por parte do setor público. Quem paga por isso? É só reduzir moderadamente o dreno dos improdutivos.

Não se trata aqui apenas dos lucros exorbitantes do 1% de improdutivos. O rentismo beneficia sem dúvida o 1% ou 0,1% que detém o grosso das aplicações financeiras (que chamam de "investimentos"), mas também gerou uma classe-média-alta e uma classe média-média que em outros tempos investiriam em empresas efetivamente produtivas, produzindo sapatos, manteiga ou bicicletas. Hoje, como rende mais fazer aplicações financeiras, com risco zero e pouco trabalho, o capital que um dia já foi produtivo migrou para o rentismo improdutivo. A desindustrialização do país está diretamente ligada ao redirecionamento das poupanças para aplicações financeiras em vez de investimentos produtivos. E com isso gerou-se uma forte camada social privilegiada que clama por juros altos e rendimentos financeiros os maiores possíveis, formando uma base política mais ampla que trava as reformas necessárias. Em outros tempos abririam uma empresa, gerariam produtos, empregos, lucros e impostos. Hoje são "investidores".

[1] Luís Carlos Bresser Pereira (et al.) - 2022 - Carta Aberta ao Presidente Lula | José Luis Oreiro (wordpress.com)

[2] Carlos Luque et al., Uso e abuso da taxa de juros, Valor, 11 de maio de 2022

[3] "Apropriação indébita" é o termo utilizado para este tipo de desvio. Em nível inferior seria "roubo", e em nível superior seria "contabilidade criativa", como no caso das Americanas. Apropriação indébita é em geral legal, simplesmente porque são os beneficiários que fazem as leis que a autorizam. Mas não tem contrapartida produtiva. Ver Apropriação indébita, Gar Alperovitz e Lew Daly, Ed. Senac, 2010, Gar Alperovitz And Lew Daly - Apropriação Indébita: Como Os Ricos Estão Tomando A Nossa Herança Comum - Editora Senac, São Paulo 2010, 242p. | Dowbor.org


[4] Ver também Felippe Clemente (et al.) Brazilian Evidence on Tax Evasion and Enforcement – Criminal Justice Review, 2021 – Sage Publications sonegacao-fiscal-o-povo-fortaleza-ce.pdf (sinprofaz.org.br)

[5] Crise de crédito tira R$1 tri da economia e piora recessão – OESP, 18 de dezembro de 2016. Ver análise em L. Dowbor, A Era do Capital Improdutivo, p. 211 - https://dowbor.org/2017/11/2017-06-l-dowbor-a-era-do-capital-improdutivo-outras-palavras-autonomia-literaria-sao-paulo-2017-316-p-html.html

[6] Estatísticas monetárias e de crédito – 27/01/2023 – Banco Central

[7] Mariana Mazazucato – The Value of Everything – 2018 – "O setor financeiro presentemente representa uma parte significativa e crescente do valor agregado e dos lucros da economia. Mas apenas 15% dos fundos gerados vão para empresas nas indústrias não-financeiras." (P. 136 da edição original em inglês.)

[8] Hermes Zaneti descreve com precisão como os bancos conseguiram tirar o artigo 192 da Constituição, no livro O Complô, a batalha dos bancos para derrubar o artigo 192º da Constituição, veja-se em particular as páginas 157 e seguintes

[9] Banque de France – Taux d'usure 2022 - https://www.banque-france.fr/statistiques/taux-dusure-2022t1

[10] Confederação Nacional do Comércio – CNC – 2022 -



[12] Sobre a reprimarização do país, ver a nota de Márcio Pochmann, O violento consenso das commodities, Outras Palavras, 30 de janeiro de 2023 - https://outraspalavras.net/crise-brasileira/pochmann-o-violento-consenso-das-commodities/


sábado, 9 de julho de 2022

Maioria dos recursos federais para a segurança no trânsito é destinada ao pagamento da dívida pública; é o governo federal dando prioridade aos bancos

Sábado, 9 de julho de 2022
Maioria dos recursos federais para a segurança no trânsito é destinada ao pagamento da dívida pública; é o governo federal dando prioridade aos bancos, a segurança no trânsito abandonada
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Da Auditoria Cidadã da Dívida
Maioria dos recursos federais para a segurança no trânsito é destinada ao pagamento da dívida pública




Em mais uma demonstração de como os gastos com a chamada dívida pública afetam a vida cotidiana de todos os brasileiros e brasileiras, temos nesta notícia do jornal Valor Econômico a informação de que recursos que deveriam estar indo para o Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset) têm sido contingenciados e estão sendo destinados para o pagamento da dívida. (Leia em http://glo.bo/3Ph7xHY)
 
De acordo com a notícia, baseada em análise técnica da Confederação Nacional do Transporte (CTN) com dados do Siga Brasil, desde 2005 foram pagos cerca de R$ 4 bilhões dos R$ 18,86 bilhões autorizados pelo Orçamento, o que corresponde a somente 21,2% do valor devido. Os 12,91 bilhões restantes ficaram para uma reserva de contingência para ajudar na meta de resultado primário.
 
Ou seja, recursos que poderiam estar sendo aplicados para aumentar a segurança nas rodovias brasileiras através da instalação, renovação e manutenção da sinalização de trânsito, além da promoção de campanhas educativas no trânsito, acabam sendo “aspirados” para o pagamento de juros e amortizações da dívida em vez de ajudar com a diminuição de acidentes e da mortalidade no trânsito.
 
É dessa forma que a dívida impacta em nossas vidas, sugando recursos não só do trânsito, mas de todas as outras áreas fundamentais para a população, como saúde, educação, ciência, infraestrutura, etc., para entregar a uma dívida pública ilegítima e que não traz contrapartida alguma em investimentos para a população! A auditoria é a chave para interromper essa barbárie! #AuditoriaJá

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O ESTRANGULAMENTO FINANCEIRO DO FUNCIONALISMO EM FAVOR DO CAPITAL, POR J. CARLOS DE ASSIS E PAULO LINDESAY

Sexta, 22 de janeiro de 2021

Da Auditoria Cidadã da Dívida

A despesa executada da União em 2019 foi de R$ 2,711 trilhões. Desse total, cerca de R$ 1,038 trilhão foi gasto com o pagamento do chamado serviço da dívida pública contraída pelo Estado brasileiro junto a bancos e sistema financeiro. Já a despesa com Pessoal e Encargos Sociais foi cerca de R$ 292 bilhões (ou 3,55 vezes menos que o gasto com a dívida pública). Esses números são mais que suficientes para que se constatem as distorções financeiras no nosso sistema público.

[Clique nas imagens —quadros e tabelas— abaixo para melhor visualizá-los]



Alguns economistas alegam que não se pode comparar o serviço global da dívida, que inclui amortização rolada e não efetivamente paga, com as despesas correntes. É um equívoco. Em termos globais, o que está ocorrendo, com a amortização, é transferência patrimonial gigantesca em favor dos bancos e contra o povo, realizável no vencimento de curto prazo, pois basta apresentar os títulos vencidos no Tesouro para ter direito ao valor dele, corrigido.

Essa verdadeira arenga nas relações do sistema fiscal-monetário brasileiro são mal compreendidas pelo povo não por serem em si mesmas complexas, mas por serem absurdas. A maior parte do dinheiro “doado” pelo Governo ao sistema financeiro vem das chamadas operações compromissadas, um mecanismo pelo qual dinheiro barato do governo é oferecido diariamente aos bancos para que eles comprem títulos do próprio governo com pagamento de juros baseado na taxa Selic.