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quinta-feira, 13 de março de 2025

As molas mórbidas do capitalismo tardio

Quinta, 13 de março de 2025

As molas mórbidas do capitalismo tardio

Nos EUA, 20% do PIB já se originam de doença ou vício: em opioides, tabaco, bets, ultraprocessados e dispositivos digitais. Mobilizar nas pessoas aquilo que elas não controlam é agora indispensável ao sistema. Há um pretexto: liberdade de escolha


OutrasPalavras                        Crise Civilizatória
Publicado no OUTRASPALAVRAS em 12/03/2025 às  19:11

Yuriy Myrko

Por Ricardo Abramovay

A rápida recuperação econômica dos Estados Unidos no pós-pandemia consagrou o lugar comum do “excepcionalismo norte-americano”, que Tej Parikh procura desmistificar, numa recente coluna no Financial Times. É verdade, escreve ele, que, a partir de 2022, o mercado de ações bombou e que as inovações tecnológicas ligadas ao avanço da inteligência artificial deram notável impulso ao setor privado. Mas isso não pode escamotear o fato de que 20% do PIB norte-americano vem de gastos com saúde, muito mais (mesmo em termos per capita) que em outros países da OCDE. 40% dos novos empregos privados criados desde 2023 estão em healthcare.

Na verdade, é mais apropriado falar em gastos com doença e não com saúde: nos EUA, morrem mais jovens e as doenças evitáveis ou passíveis de tratamento matam mais do que em outros países ricos. Dos dez setores econômicos norte-americanos com maior faturamento, em 2020, os três primeiros estão ligados a tratamentos médicos, seguros médicos, remédios e hospitais.. A conclusão de Tej Parikh é peremptória: parcela significativa do boom econômico norte-americano é gerada pela doença. E o que propaga e pereniza a doença é o empenho meticuloso em difundir em larga escala o vício.

Cuidadosamente formulado, planejado e propagado, o vício é um vetor decisivo, talvez o mais importante, das doenças que marcam parcela significativa do crescimento econômico contemporâneo e não só nos EUA. Que se trate dos opioides, do tabaco, dos alimentos ultraprocessados, das famigeradas bets ou dos dispositivos digitais em que nossa interação social está compulsivamente mergulhada, conquistar a adesão das pessoas por meio de fatores sobre os quais elas não exercem qualquer controle se tornou um componente decisivo do próprio crescimento econômico contemporâneo. O pior é que esta perda de autonomia, esta interferência corporativa organizada na decisão pessoal é apresentada e cada vez mais socialmente legitimada como seu contrário, ou seja, como expressão de liberdade de escolha. Tudo se passa como se a vontade de cada um de nós tivesse força suficiente para se contrapor ao trabalho de milhares de profissionais especializados em moldar e determinar as preferências humanas. Esta ingerência não seria tão grave se ela não tivesse consequências tão sérias sobre a saúde pública e, quando se trata dos dispositivos digitais, sobre a saúde da própria democracia.

Hoje há uma farta documentação e um conjunto robusto de decisões jurídicas baseadas na evidência de que a indústria do tabaco, por exemplo, sempre soube que seu produto era não apenas tóxico, mas, sobretudo viciante e daí derivava, claro, seu benefício econômico. Mas tanto em sua publicidade, como nos tribunais, os dados vinculando o cigarro a graves enfermidades eram sistematicamente negados por cientistas contratados para chegar aos resultados convenientes à indústria. É verdade que campanhas (das quais o Brasil está entre os pioneiros) antitabagistas vêm provocando a diminuição da quantidade de fumantes em várias partes do mundo. Mas, como mostra um relatório recente da Organização Mundial da Saúde, a pressão da indústria sobre diferentes governos (na tentativa de atenuar as restrições pelo atrativo da arrecadação fiscal) segue firme.

Um dos mais emblemáticos sinais da relevância do vício planejado como base do bom desempenho corporativo é apresentado nas fascinantes Royal Institutions Christmas Lectures pelo médico Chris van Tulleken. Para se ter uma ideia de sua importância, trata-se de um evento criado por ninguém menos que Michael Faraday, em 1825, e que recebe anualmente, desde então, cientistas de grande prestígio e reconhecimento internacionais. Chris van Tulleken montou um evento espetacular onde convidou profissionais que trabalharam na indústria de ultraprocessados e que revelam as técnicas pelas quais estes, que mal podem ser chamados de alimentos, tornam-se irresistíveis e, sobretudo viciantes. E tanto nestas conferências como em seu livro lançado há alguns meses pela Editora Elefante (Gente Ultraprocessada), ele mostra que alguns dos gigantes corporativos do tabaco se tornaram grandes acionistas e atores decisivos na indústria de ultraprocessados. No tabaco e nos ultraprocessados, quando confrontados com os prejuízos à saúde pública trazidos pelo consumo de seus produtos, as empresas respondem cultivando o mito de que quem decide é o indivíduo e que interferir em sua liberdade de escolha abre caminho ao autoritarismo.

A responsabilidade da indústria farmacêutica na crise dos opioides, que já matou mais de 500 mil pessoas nos EUA é exposta nos 1,3 milhão de documentos dos “Opioid Industry Documents Archive”, que demonstram todo um mecanismo de cooptação de médicos para receitarem uma droga cuja natureza viciante e perigosa era conhecida, mas não divulgada. Aí também, o minucioso trabalho junto aos médicos é escamoteado e o vício aparece como produto de fraqueza individual.

Qualquer adulto com filhos sabe o que são vícios digitais e é impossível não reconhecer nossa quase completa impotência para combatê-los. A inteligência artificial e a computação quântica aumentam fantasticamente o poder daquilo que B. J. Fogg da Universidade de Berkeley chama de captologia (em Persuasive Technology: Using Computers to Change What we Think and Do, Stanford University Press), a ciência que estuda a capacidade dos dispositivos digitais em magnetizar a atenção dos indivíduos, sobretudo pelo espetacular, pelo grotesco, pela vulgaridade, muito mais que pelo afeto e pela inteligência.

O vício como força propulsora de parte tão expressiva do crescimento contemporâneo não é incluído nas atuais negociações globais em torno do clima, da biodiversidade ou da desertificação e não está incluído na pauta do G20. Mas se os segmentos pensantes do mundo corporativo não conseguirem, junto com a sociedade civil e os governos democráticos, pautar esta discussão, a distância entre o que estamos vivendo e os valores fundamentais do desenvolvimento sustentável só vai aumentar.

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domingo, 14 de janeiro de 2018

Decisões da Anvisa, STF e Congresso podem mudar regulamentação do fumo no país

Domingo, 14 de janeiro de 2018
Débora Brito - Repórter da Agência Brasil
A forma de exposição e comercialização de cigarros e outros produtos derivados do tabaco poderá ser regulamentada este ano pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A questão já passou por consulta pública e será analisada na primeira reunião da diretoria colegiada da agência, marcada para a próxima terça-feira (16), em Brasília.

Entidades que defendem as políticas de controle do tabagismo argumentam que a exposição nos locais de venda é usada pela indústria como propaganda, proibida atualmente no Brasil pela Lei Antifumo. A tendência é que haja restrição na forma como os comerciantes deixam os maços ou carteiras de cigarro e outros produtos fumígenos expostos em vitrines ou locais que atraiam os consumidores.
A proibição do fumo em lugares públicos é uma das medidas que tem dado bons resultados
Aumento de tributos sobre o cigarro, composição do produto e regulamentação de exposição em locais de venda estão em debate no Brasil.  
Banco Mundial/ONU/Arquivo

Cigarros com aditivos no STF
A discussão sobre outras medidas de controle do uso do tabaco também deve se destacar na agenda do Judiciário e do Legislativo em 2018. Logo após o recesso, em fevereiro, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deve analisar a proibição dos aditivos de cigarro. O assunto foi colocado em pauta no ano passado pelo menos nove vezes, mas o julgamento foi adiado para o dia 1° de fevereiro.

domingo, 6 de dezembro de 2015

População apóia que indústrias que causam mal à saúde ressarçam o SUS, diz ONG

Domingo, 6 de dezembro de 2015
Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil
A população brasileira aprova a ideia que empresas que fabricam produtos que causam mal à saúde, como agrotóxicos e tabaco, devem ressarcir o Sistema Único de Saúde (SUS) pelos gastos com o atendimento das pessoas afetadas, de acordo com uma pesquisa encomendada ao Instituto Datafolha pela organização não governamental Aliança de Controle do Tabagismo e Saúde (ACT+). Dois projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional têm uma temática que se aproxima dessa proposta, embora seja especificamente ligada à indústria do tabaco. Um dos projetos criaria um novo imposto para o setor e o outro um fundo, em ambos os casos os recursos seriam direcionados para o tratamento de doentes vítimas do tabagismo atendidos pelo SUS.
A ACT+  tem foco no controle do tabagismo e das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), entre as quais se incluem doenças circulatórias, respiratórias crônicas, câncer e diabetes, cujos principais fatores de risco são tabagismo, álcool, inatividade física e alimentação não saudável.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Philip Morris contra todos nós — estamos quase lá!

Quinta, 23 de abril de 2015
Da avaaz.org 


Incrível! Quase 750 mil assinaram em questão de dias. Assine agora — vamos levar 1 milhão de nomes para o tribunal!
Caros amigos,
A Philip Morris, grande fabricante multinacional de cigarros, moveu uma ação contra o governo do Uruguai porque o país tem algumas das melhores leis antitabagistas do mundo. Há uma grande possibilidade que a empresa vença, a menos que nossas vozes fortaleçam a luta popular no tribunal.

É uma realidade assustadora: uma única empresa, cujo produto mata, pode derrubar leis que protegem a nossa saúde. Os juízes envolvidos no caso já sofreram críticas populares por não atuarem a favor dos cidadãos em outras situações. Vamos garantir que isto aconteça novamente: se fizermos um protesto global e a Avaaz contratar uma equipe de advogados de alto calibre, seremos uma força que juiz nenhum poderia ignorar.

sábado, 17 de outubro de 2009

Vendendo gato por lebre

Sábado, 17 de outubro de 2009
Por Ivan de Carvalho

 Porque hoje é sábado, vou evitar aquela rotina da política, de partidos, de candidaturas, de pouco interesse público e muitos interesses pessoais, poucas ou meias verdades, de muitos disfarces e dissimulações, de quererem lhe vender gato por lebre. Não que considere a política uma coisa intrinsecamente nociva, pois ela é indispensável na organização e condução das sociedades, apesar das injustiças e outras males que enseja e da impressionante frequência com que impõe às nações desvios não raro terríveis.
Então busco outro assunto e me chama a atenção – parece que minha mente está momentaneamente focada em coisas ruins e não consegue evitá-las, ainda que tente – uma notícia sobre a empresa Imperial Tobacco. Notícia adequada, talvez, já que o Brasil vive um momento de radicalização na luta contra o tabagismo.
Quando ministro da Saúde, José Serra obteve do Congresso Nacional uma lei impondo restrições draconianas à propaganda tabagista e forçando os fabricantes de cigarros a colocarem nas embalagens advertências sobre os danos do fumo, acompanhadas de imagens chocantes.
Até vale lembrar, por ironia, que, na sequência, José Serra foi candidato a presidente da República, enfrentando o petista Lula, para quem “nosso Delúbio” segurava, abaixadinho, nos palanques, charutos que o candidato recebera de presente de Fidel Castro e com os quais dissimuladamente se deliciava enquanto esperava na linha de frente do palco sua vez de falar ao povo. Ao qual não revelava essas “manobras” de bastidores.
Mas já vai essa escrita descambando para a política, aliás enfumaçada como é de costume. Já que aqui chegamos, vale assinalar que Serra conseguiu recentemente, como governador de São Paulo, abolir o tabagismo em recinto fechado, excetuadas as residências, que aí não lhe permite entrar a Constituição da República. Fora delas, uso do tabaco só nas ruas ou no campo, enquanto os ambientalistas não entenderem que isso prejudica a saúde dos componentes de nossa fauna, além de prejudicar a flora, que também respira – e eventualmente pega fogo.
Mas o que tem a ver com esses eventos brasileiros a Imperial Tobacco? Ciências ocultas. Isto mesmo. Segundo revelou na quinta-feira o jornal da Associação Médica Canadense, afirmando possuir cópias do material, a companhia canadense Imperial Tobacco destruiu dezenas de documentos que ligavam o hábito/vício de fumar ao câncer. Ciências ocultas, como assinalei. Ou ocultadas...
Segundo o artigo publicado no citado jornal, a pedido da matriz britânica, a Imperial Tobacco Canadá destruiu em 1992 o total de 60 estudos, realizados entre 1967 e 1984, que concluíam que o cigarro produz câncer. Os pesquisadores encontraram cópias dos estudos destruídos ao revisarem cerca de 7 milhões de páginas da British American Tobacco, publicados como parte de um processo judicial que correu nos Estados Unidos.
“A indústria havia realizado pesquisas que demonstraram que o cigarro é tóxico, que provoca câncer” e ao mesmo tempo disse em público que não havia qualquer prova neste sentido, destaca um dos autores do artigo, o professor David Hammond, da Universidade de Waterloo, em Ontário, segundo conta a agência France Press. A indústria também sabia, há tempos, que o tabagismo passivo era tóxico e potencialmente cancerígeno. “Naquela época, eram praticamente os únicos a ter esta prova”.
Que me perdoe o leitor se, ao evitar a política para suavizar o sábado, haja acabado por abordar tema capaz não só de preocupar quanto de indignar, sentimentos que a política, não raro, também produz. Aproveite seu fim de semana, mas, a partir de segunda-feira, redobre a atenção – não é somente a Imperial Tobacco que lhe vende gato por lebre e ganha dinheiro às custas de esconder ou sufocar informação sobre graves malefícios que seus produtos causam à saúde.

Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia deste sábado
Ivan de Carvalho é jornalista baiano