Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma luz nas trevas

Segunda, 12 de setembro de 2011
Por Ivan da Carvalho
Na opinião do cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas, em entrevista concedida ao jornal O Globo, o Campanha Contra a Corrupão, que começou com certa timidez nas redes sociais e refletiu-se em manifestações no Sete de Setembro, pode ganhar dimensão de um forte movimento da sociedade brasileira contra a corrupção.

    Claudio Couto vê desenhar-se uma mudança do “clima político do país”, traduzido principalmente numa intolerância dos brasileiros com atos de corrupção em qualquer esfera de governo. O cientista político não disse na sua entrevista, mas o que se pode concluir de suas observações é o fato de que estaria a sociedade brasileira chegando a um ponto de saturação (ou já teria chegado) que tende a fazê-la reagir vigorosamente contra qualquer episódio significativo de corrupção.

   Nota-se que os milhares de jovens que protestaram em vários lugares do país no dia 7 (somente em Brasília foram 25 a 30 mil) já marcaram para 12 de outubro (Feriado de N. S. Aparecida, padroeira do Brasil, e dia das Crianças) novas manifestações. Apressado, o Rio de Janeiro já programou uma manifestação para o próximo dia 20. E não custa nada lembrar, para se quiserem marcar as manifestações seguintes para uma data próxima, que o dia 15 de novembro é o feriado da proclamação da República. Ora, nada mais republicano do que o combate à corrupção, portanto a honestidade no trato da coisa pública, vale dizer, da res publica.

   Mas os que estiverem interessados em combater a corrupção (há os que estão desinteressadíssimos, naturalmente) devem estar conscientes que a mobilização nacional idealizada não será fácil de conseguir. Pelo contrário, será dificílima. Tomem-se três exemplos, das três maiores mobilizações populares que o país já conheceu e suas circunstâncias.

    O primeiro deles aconteceu em 1964, iniciado às vésperas da deposição do presidente João Goulart em 31 de março de 1964. Era contra o governo e o que foi caracterizado como uma tentativa em curso de implantar no país um regime marxista ou uma “república sindicalista”. Duas grandes “marchas da família, com Deus, pela liberdade” foram planejadas, a primeira delas realizada em São Paulo, tendo a grande mídia, talvez com boa dose de exagero, noticiado a presença de 500 mil pessoas. Foi uma mobilização da classe média, então dotada de influência política incontrastável, com apoio financeiro e organizacional do empresariado paulista e o incitamento de grandes lideranças políticas, como os governadores Carlos Lacerda, do Estado da Guanabara e Adhemar de Barros, de São Paulo e o apoio de partidos políticos.

   Antes de se realizar a segunda marcha, Jango foi deposto e uma junta militar assumiu o poder. A junta queria cancelar a marcha, mas seus organizadores não aceitaram. Fizeram-na. O desfile no Rio teria contado com 1 milhão de pessoas, segundo a mesma “grande mídia”. Como na época a cidade do Rio tinha cerca de 3,5 milhões de habitantes, sugere-se um bom desconto nesse público presente na marcha, segundo as notícias já aí com certa conotação aduladora. De puxa-saco, para ser direto.

   As outras duas grandes mobilizações populares da história brasileira foram a Campanha das Diretas-Já e o Fora Collor. Ambas contaram com o apoio ativo das estruturas sindicais e de movimentos sociais, aos quais se somaram partidos políticos que ou tinham quase a metade do Congresso (Diretas-Já) ou bem mais da metade (Fora Collor) e, recursos financeiros e estruturas consideráveis. O Fora Collor contou com a maior parte da “grande mídia” desde o princípio e o movimento Diretas-já conquistou esse apoio quando cresceu o suficiente que se tornou impossível esconder.

    Reconheça-se: a Campanha contra a Corrupção tem apoio nas redes sociais – um instrumento que nas outras ocasiões citadas não existia – e na CNBB, OAB e ABI. Mas lhe faltam, por enquanto, ou até são adversos, os instrumentos que os outros três movimentos citados tiveram, de início ou no curso do processo.

    A campanha será muito, muito difícil mesmo. Mas isso não é razão para desistir. Thomas Alva Edson fez dez mil experiências até conseguir inventar a lâmpada elétrica. E então ela brilhou nas trevas.

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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta segunda.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.