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(Millôr Fernandes)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Educação: desafios nas pequenas e médias cidades

Segunda 18 de maio de 2026

Educação: desafios nas pequenas e médias cidades

Justiça escolar precisa ir além da igualdade formal de acesso. E a permanência e evolução dos estudantes depende, em muito, da gestão das escolas. Debate atravessa saúde mental, construção coletiva de estratégias e relação com o território

OUTRASPALAVRAS                         Desigualdades
Publicado em 18/05/2026


Ao discutir os desafios contemporâneos da escola pública, François Dubet chama atenção para a necessidade de pensar a justiça escolar para além da simples igualdade formal de acesso. Em sociedades marcadas por profundas desigualdades sociais, de acordo com o sociólogo francês, a democratização da educação exige a construção de políticas capazes de enfrentar as diferentes condições de partida dos estudantes e produzir formas mais justas de escolarização. Tal como defenderemos ao longo deste breve texto, essa reflexão torna-se especialmente relevante para os sistemas municipais de ensino, que convivem cotidianamente com os efeitos concretos das desigualdades sociais sobre as trajetórias escolares.

A gestão educacional nos municípios de pequeno e médio porte ocupa hoje um lugar decisivo na construção de políticas públicas comprometidas com a equidade e com a proteção das trajetórias estudantis. Em um contexto marcado pela ampliação das desigualdades sociais, pelas mudanças nas dinâmicas familiares, pelos impactos persistentes da pandemia ou mesmo pelas múltiplas vulnerabilidades que atravessam a vida de crianças e adolescentes, a escola pública passou a concentrar expectativas ainda maiores. Mais do que garantir matrícula e frequência, espera-se que os sistemas municipais sejam capazes de assegurar condições efetivas de aprendizagem, pertencimento e desenvolvimento humano.

Nesse cenário, precisamos indicar que o papel dos gestores escolares e das equipes dirigentes das redes municipais torna-se central. A implementação de políticas educacionais não ocorre de forma automática nem exclusivamente normativa. Ela depende da capacidade das lideranças escolares de traduzirem diretrizes em práticas institucionais coerentes com as realidades locais. Em municípios menores, essa tarefa apresenta especificidades importantes, uma vez que a proximidade entre escola, comunidade e poder público pode favorecer relações mais próximas e respostas mais rápidas às demandas sociais. Ao mesmo tempo, vale referir, a limitação de equipes técnicas, de recursos financeiros e de estruturas de apoio exige criatividade, cooperação e forte capacidade de articulação destas secretarias.

Segundo a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), municípios de pequeno porte são aqueles com até 100 mil habitantes, enquanto municípios de médio porte possuem população entre 100 mil e 500 mil habitantes. Embora bastante distintos entre si, esses contextos compartilham desafios relacionados à capacidade administrativa, ao financiamento das políticas públicas e à organização das redes de ensino, especialmente em territórios marcados por desigualdades sociais e limitações estruturais.

Um dos principais desafios contemporâneos consiste em compreender que equidade não se reduz à oferta homogênea de oportunidades. Os estudantes chegam à escola em condições profundamente desiguais. As diferenças de renda, acesso à cultura, condições de moradia, alimentação, saúde mental e apoio familiar, dentre outras, interferem diretamente nas possibilidades de aprendizagem. A gestão educacional comprometida com a justiça escolar precisa reconhecer essas desigualdades sem naturalizá-las, o que implica desenvolver estratégias diferenciadas de acompanhamento, apoio pedagógico e proteção social.

Nos municípios de pequeno porte, muitas vezes a escola é o principal equipamento público presente no território. Ela se transforma em espaço de referência para famílias e comunidades, acumulando demandas que extrapolam o campo pedagógico. Nesses contextos, o diretor escolar deixa de exercer apenas funções administrativas e assume um papel de liderança comunitária. Sua atuação exige capacidade de mediação, sensibilidade social e construção de redes intersetoriais capazes de articular educação, assistência social, saúde e proteção à infância.

A proteção das trajetórias estudantis deve ser compreendida como uma dimensão estruturante da política educacional. Em nossa perspectiva, isso significa acompanhar os estudantes não apenas em momentos de fracasso escolar explícito, mas ao longo de todo o percurso educativo. A evasão, o abandono e a reprovação costumam ser precedidos por sinais que aparecem no cotidiano escolar: faltas recorrentes, desengajamento, dificuldades de aprendizagem, conflitos interpessoais e enfraquecimento do vínculo com a escola. Uma gestão atenta às trajetórias estudantis desenvolve mecanismos permanentes de monitoramento e intervenção precoce.

Acrescentamos ainda que, nesse processo a produção e a leitura qualificada de dados tornam-se ferramentas importantes para a tomada de decisão. Entretanto, em muitos municípios, ainda persiste uma cultura de utilização limitada das informações educacionais. Os dados frequentemente aparecem apenas como exigência burocrática ou mecanismo de prestação de contas. O desafio da gestão contemporânea consiste em transformar indicadores em instrumentos pedagógicos capazes de orientar ações concretas. Sem cair no modismo da educação baseada em evidências, objetivamente faz-se necessário identificar quais grupos de estudantes estão aprendendo menos, frequentando menos ou participando menos das experiências escolares.

Outro aspecto fundamental refere-se ao fortalecimento do clima escolar, temática que pouco se estuda na formação de professores e de gestores escolares. Diversas pesquisas educacionais indicam que estudantes aprendem melhor em ambientes marcados por relações de confiança, acolhimento e participação. Sob este entendimento, o clima escolar não é um elemento secundário da gestão, mas parte constitutiva das condições de aprendizagem. Em muitos municípios pequenos e médios, conflitos escolares, episódios de violência e sofrimento emocional têm se intensificado, exigindo respostas institucionais mais consistentes.

A construção de um ambiente escolar positivo depende da valorização das relações humanas no cotidiano da escola. Isso implica criar espaços de escuta para estudantes, professores e famílias, promover práticas restaurativas de resolução de conflitos e fortalecer o sentimento de pertencimento à comunidade escolar. O gestor que se limita à dimensão burocrática da administração tende a fragilizar os vínculos institucionais. Por outro lado, lideranças que cultivam diálogo, presença e cooperação contribuem para uma cultura escolar mais democrática e protetiva.

No campo pedagógico, merece destaque ainda a importância das políticas de recomposição das aprendizagens e do reforço escolar. Os municípios brasileiros convivem atualmente com grandes defasagens de aprendizagem, especialmente entre estudantes em situação de maior vulnerabilidade social. Entretanto, programas de reforço escolar só produzem resultados consistentes quando articulados ao currículo e acompanhados de forma sistemática pela gestão. Uma ressalva importante precisa ser feita neste momento: acompanhamento pedagógico não significa controle excessivo do trabalho docente, mas construção coletiva de estratégias capazes de responder às necessidades reais dos estudantes. Diretores e coordenadores pedagógicos precisam garantir momentos de diálogo entre professores da sala regular e docentes do reforço escolar, promovendo alinhamento de objetivos, compartilhamento de diagnósticos e análise conjunta dos avanços obtidos. Além disso, torna-se essencial acompanhar evidências de aprendizagem, observando quais habilidades foram efetivamente desenvolvidas e quais obstáculos permanecem presentes.

Outro desafio relevante para os municípios de pequeno e médio porte é a formação das equipes gestoras. Frequentemente, diretores assumem a função sem apoio institucional suficiente para lidar com questões relacionadas à liderança pedagógica, gestão de pessoas, análise de dados e implementação de políticas públicas. Tal como sinalizamos anteriormente, a formação continuada das lideranças escolares precisa superar modelos excessivamente normativos e administrativos, incorporando discussões sobre equidade, justiça escolar, inclusão e proteção das trajetórias estudantis.

Também é importante reconhecer que a gestão democrática não pode ser reduzida a procedimentos formais de participação. Conselhos escolares, reuniões e consultas são importantes, mas tornam-se insuficientes quando não produzem efetiva corresponsabilização da comunidade escolar. Em municípios menores, onde as relações são mais próximas, existe grande potencial para fortalecer redes colaborativas entre escolas, famílias e serviços públicos. A construção dessa cultura participativa exige tempo, confiança e continuidade das políticas educacionais.

Além disso, os sistemas municipais enfrentam o desafio de conciliar demandas administrativas crescentes com a centralidade do trabalho pedagógico. Muitas equipes gestoras encontram-se sobrecarregadas por exigências burocráticas, prestação de contas e processos administrativos que reduzem o tempo destinado ao acompanhamento pedagógico e às relações escolares. Nesse contexto, torna-se necessário repensar prioridades institucionais e fortalecer estruturas de apoio às escolas.

A defesa da equidade educacional exige compreender que qualidade e justiça social não são objetivos opostos. Ao contrário, uma educação pública de qualidade só se concretiza quando consegue garantir aprendizagem significativa para todos os estudantes, especialmente para aqueles historicamente mais vulnerabilizados. Mais uma vez em diálogo com Dubet, citado anteriormente, isso significa abandonar perspectivas meritocráticas que responsabilizam individualmente estudantes e famílias pelo fracasso escolar, reconhecendo que as desigualdades educacionais refletem desigualdades sociais mais amplas.

Nos municípios de pequeno e médio porte, essa agenda apresenta enorme relevância estratégica. A proximidade territorial pode favorecer acompanhamento mais individualizado dos estudantes, maior articulação intersetorial e fortalecimento dos vínculos comunitários. Contudo, para que essas potencialidades se transformem em políticas efetivas, entendemos que seja necessário investir na formação das lideranças escolares, consolidar culturas institucionais colaborativas e garantir condições adequadas de trabalho às equipes educacionais.

Por fim, pensar a gestão educacional a partir da equidade e da proteção das trajetórias estudantis significa recolocar a escola pública no centro do projeto democrático. Em diálogo com François Dubet, pode-se afirmar que uma escola justa não é aquela que apenas amplia o acesso, mas aquela que cria condições reais para que diferentes estudantes consigam construir percursos escolares significativos e socialmente reconhecidos. Em tempos de aprofundamento das desigualdades, a escola pública continua sendo uma das principais instituições capazes de ampliar direitos, produzir pertencimento social e construir horizontes de futuro para crianças e adolescentes. A atuação dos gestores escolares e das redes municipais — notadamente em municípios de pequeno e médio portes — será decisiva para definir se a escola pública conseguirá responder a esse desafio histórico com compromisso democrático, sensibilidade social e responsabilidade pedagógica.


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