Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 16 de abril de 2022

“Apesar da política de extermínio, continuamos existindo e resistindo”, diz Fernanda Kaingang

Sábado, 16 de abril de 2022


"Nós somos a voz que alerta que a Amazônia já perdeu 20% da cobertura florestal, enquanto que, nas terras indígenas, a perda foi de 1%" - Arquivo Pessoal

“Apesar da política de extermínio, continuamos existindo e resistindo”, diz Fernanda Kaingang

A líder indígena afirma que, com Bolsonaro, os primeiros habitantes do Brasil voltaram à violência sofrida em 1500

Ayrton Centeno
Brasil de Fato | Porto Alegre | 16 de Abril de 2022

Lucia Fernanda Jófej Kaingang fugiu da Terra Indígena Serrinha no ano passado. Poderia morrer se ficasse por lá. Em outubro de 2021, dois índios foram assassinados na aldeia em que Fernanda vivia, situada no Norte gaúcho. Na origem de tudo, o arrendamento ilegal que beneficia o cacique e os brancos plantadores de soja.

Fernanda Kaingang, como é chamada, nasceu na Terra Indígena Carreteiro, Nordeste do estado. De lá saiu para cursar direito. Formou-se advogada e mestra em direito público. É doutoranda em arqueologia pela Universidade de Leiden, na Holanda. Neste abril, mês do Dia do Índio, ela diz que o que há para comemorar é a resistência, já que “enquanto o povo brasileiro se cala, se acovarda, se distrai, os povos indígenas marcham pra Brasília para dizer que discordamos de uma política genocida”.

Abaixo a entrevista completa

Brasil de Fato RS — Qual a situação do seu povo hoje no Rio Grande do Sul e no Brasil?

Fernanda Kaingang — O Kaingang é o terceiro maior povo indígena do Brasil em população. Habita o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e o Sul de São Paulo. É uma população entre 40 e 45 mil pessoas. Então, um dos grandes povos do país habita as menores terras. A situação do meu povo, assim como dos povos indígenas, é de vulnerabilidade. E porquê? Porque como os nossos territórios foram expropriados, utilizados para reforma agrária, expropriados pelo próprio governo para abrigar os sem terra fugidos da guerra e da fome da Europa. E mesmo as terras demarcadas, os poucos territórios que conseguimos conservar, foram indevidamente utilizados pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em 1910, e depois pela Funai - criada pra substituir o SPI pelos escândalos de corrupção de venda de madeira e de minério, de trabalho escravo e maus tratos.

Hoje, a situação do povo Kaingang é de violência e conflito, devido ao arrendamento ilegal. As terras indígenas são da União. É proibido vender, arrendar, minerar. Os povos indígenas possuem por atribuição constitucional o usufruto, direito de usar e fruir exclusivamente dessas terras. Quando você arrenda para terceiros para plantar, criar gado e minerar, o usufruto exclusivo está sendo ferido, o direito constitucional está sendo violado. E está sendo violado com a chancela da Funai e do Ministério Público Federal.

Milícias têm se criado dentro das terras indígenas, com apoio das elites locais e das prefeituras. Quem mais lucra com o arrendamento são brancos, são fazendeiros, não são os indígenas. Então, há mais de 70 anos o arrendamento causa mortes, conflitos e miséria nas terras indígenas. É a realidade que vemos. E ela está avançando rapidamente para o Centro-Oeste, para o Norte.

O tráfico de drogas está dentro das terras indígenas e as autoridades são omissas

BdF RS — Qual a principal preocupação de seu povo hoje?

Fernanda Kaingang — É a autonomia, é livre determinação, é sustentabilidade. Vamos viver do que? As nossas florestas de araucária foram derrubadas pelo próprio governo que transformou a mão de obra Kaingang em mão de obra escrava. Assim, estamos vendo prostituição nas terras indígenas, drogadição. O tráfico de drogas está dentro das terras indígenas e as autoridades federais são omissas. A Funai não faz nada. Não existem alternativas, não existem projetos discutidos internamente sobre como promover sustentabilidade, dignidade de vida, emprego digno, trabalho decente. Não existe nada disso.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Funai de Bolsonaro é pior que a de 1968, diz indigenista que enfrentou a ditadura militar

Segunda, 10 de janeiro de 2022

Egydio Schwade: "Sou favorável a que uma indígena fosse vice do Lula" - João Paulo Machado/Amazônia Real

Com 60 anos de indigenismo, Egydio Schwade critica política anti-indígena e cobra apoio da esquerda a povos originários

Murilo Pajolla
Brasil de Fato | Lábrea (AM) | 10 de Janeiro de 2022


Na década de 60, o processo de aniquilação dos povos originários estava a pleno vapor. Apesar dos métodos cruéis, quase não havia denúncias ou oposição. O principal condutor do genocídio era o próprio Estado brasileiro por meio do Serviço de Proteção aos Índios (SPI).

As primeiras denúncias foram compiladas no famigerado “Relatório Figueiredo”, produzido pelo então procurador Jader de Figueiredo Correia. O documento descrevia casos de tortura, abuso sexual e assassinatos em massa perpetrados pelo governo militar. 

Em 1967, o SPI foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Em linhas gerais, no entanto, a nova organização deu continuidade às atrocidades conduzidas pelo SPI, perpetuando o projeto de dissolução dos modos de vida dos povos.


Por isso soa tão forte a declaração do filósofo, teólogo e indigenista Egydio Schwade, que ajudou a revelar a política genocida da ditadura: “A Funai de hoje é pior do que aquela de 1968. É muito pior. Esse governo do [presidente Jair] Bolsonaro simplesmente invade a cabeça dos índios”. 

Aos 86 anos, 59 deles dedicados a denunciar as violações dos direitos dos povos originários, o gaúcho natural de Feliz vive com a esposa, a indigenista Teresinha Weber, em uma casa simples de madeira em Presidente Figueiredo (AM), de onde conversou com o Brasil de Fato, na entrevista disponível na íntegra a seguir.