Segunda, 3 de outubro de 2022
Ideias para adiar o fim do mundo
Da AEPET —Associação dos Engenheiros da Petrobrás
Publicado em 03/10/2022
Escrito por Pedro Pinho*
Os quatro primeiros tratam dos aspectos fundamentais do ESTADO, hoje descartados do debate político pela invasão ideológica do neoliberalismo. Eles tratam da SOBERANIA, da CIDADANIA, da DEFESA DOS DIREITOS e da VOCALIZAÇÃO, como explicitadas no curso das exposições. No último é apresentada uma perspectiva do fim do mundo, se ele ficar sob o domínio das finanças, é um “1984”, de George Orwell, adaptado ao século XXI e às tecnologias contemporâneas, contrapomos então o título geral para SEM ESTADO: MANTENDO O RUMO DO FIM DO MUNDO.
“IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO”: SOBERANIA
O mineiro Ailton Alves Lacerda, nascido em 1953, índio da etnia crenaque, conhecido internacionalmente como Ailton Krenak, escreveu o livro cujo título (“Ideias para Adiar o Fim do Mundo”) copiamos para este artigo.
A questão de Ailton é sobretudo ambiental, que viu desde criança na região do Rio Doce, provocada pela mineração, pelo desrespeito que o capital sempre demonstrou pelo trabalho. Mas trata igualmente das questões de uma sociedade desigual e discriminatória.
Do livro que inspirou o título deste artigo (Companhia das Letras, Editora Schwarcz, SP, 2019):
“Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência de vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar”.
Os temas desenvolvidos por Krenac, nós costumamos tratar de forma mais abrangente como os da Soberania e da Cidadania, que são, a nosso ver, os objetivos do Estado Nacional.
A questão ambiental é uma das que envolve a questão da energia, esta que é fundamental para Soberania. A questão identitária deve ter solução na construção da Cidadania. No entanto há um elemento que interliga estas questões, que denominamos vocalização, porém é mais facilmente encontrado como um dos aspectos da aplicação da teoria da informação, da comunicação social.
Energia, como os recursos naturais, não é igualmente distribuída pelo mundo. Vejamos como são consumidas, pelas fontes de energia primária, de acordo com a publicação de mais de 70 anos: a “BP Statistical Review of World Energy”, da empresa British Petroleum (BP).
Atualmente a BP tem como os cinco maiores acionistas as empresas financeiras estadunidenses: State Street, BlackRock, Dimensional Fund Advisors, Fisher Investments, e a seguradora israelense Menora Mivtachim (fonte: investopedia.com).
Para o ano de 2020, os consumos de energia assim se concentram, em exajoules EJ (medida de energia, no Sistema Internacional de Unidades):
- o maior consumo vem das energias fósseis, 463,24 EJ, dos quais 174,20 do óleo, 151,42 do carvão e 137,62 do gás natural, ao todo 83,15% da energia consumida no mundo vêm das fontes fósseis;
- a segunda maior fonte primária é a hídrica, 38,16 EJ, 6,84%;
- a terceira são as renováveis, 31,71 EJ e, por último a nuclear, 23,98, respetivamente 5,69% e 4,30% dos 557,09 EJ totais daquele ano.
Na estatística da BP Review, as energias renováveis computadas são do vento (energia eólica), do Sol (energia solar) e da biomassa, geotermal e outras, tais como das marés. A energia eólica representa mais da metade da geração das renováveis (190/350), seguida pela solar (120/350).
O Brasil tem situação ímpar neste cenário. Se houvesse governo autônomo, se pudéssemos comemorar não os 200 anos de alguma independência política, mas os 92 da Revolução pela Soberania Brasileira, em 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder e dele foi duas vezes afastado pelas forças estrangeiras e dos traidores brasileiros, certamente teríamos hoje o País Soberano e Cidadão.
Examinemos a questão da energia brasileira em relação às fontes primárias.
O Brasil consumiu, em 2020, 12,1 exajoules. A principal fonte foi o óleo (petróleo), 4,61 EJ (38%), seguida da hidroeletricidade, 3,52 EJ (29%), correspondendo a mais de dois terços do consumo energético. Porém a situação privilegiada não se esgota somente nestes valores equilibrados. O Brasil é autossuficiente em petróleo, com as reservas do pré-sal e as demais existentes em nosso território. Se administradas pelo interesse nacional e não do “mercado”, teremos reservas provadas para quase um século, incluindo o gás natural.
As fontes hídricas, gerenciadas com o mesmo interesse, como já descrevia para a Amazônia, o intelectual fluminense Euclides da Cunha, em “À Margem da História”, obra póstuma de 1909, poderia se transformar além de fonte de energia, em sistema de transporte, recurso para o saneamento básico, para irrigação, e promoção da urbanização do interior do Brasil.
Seria um recurso a mais para a energia renovável, da biomassa, que com a área já disponível e os recursos tecnológicos para agricultura, tiraríamos, definitivamente, o Brasil do mapa da fome e poderíamos ter metade de energia de fonte não poluente — as renováveis representam 16,7% (2,01EJ) — do consumo total. O gás natural contribui com 1,16 EJ (9,6%), o carvão 0,58 EJ (4,8%) e a energia nuclear 0,14 EJ (1,2%).
O Brasil tem insolação por todo território e o ano inteiro, ventos na costa de 7.491 quilômetros, ou seja, é país verdadeiramente abençoado em energia e também em riquezas minerais e aquíferas.
Ao que acresce ter desenvolvido tecnologia própria para o aproveitamento de todas estas fontes em suas empresas estatais.
Por decisão meramente ideológica, o neoliberalismo neopentecostal, que não encontra respaldo em qualquer condição objetiva, os governos, desde 1990, vem procurando atender interesses estrangeiros, principalmente das finanças apátridas e marginais, colocando a venda ou fechando ou reduzindo recursos para suas empresas estatais.
