Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Assim a China enfrenta a tempestade de Trump

Segunda, 29 de junho de 2026

Assim a China enfrenta a tempestade de Trump


Planejamento estratégico do país se revelou decisivo em 2026. Enfrentou o choque dos preços do petróleo e construiu relativa blindagem econômica. País já não “esconde a força”: prevê conflito crescente com os EUA, e prepara-se para ele

OUTRASPALAVRAS                         Geopolítica & Guerra
Publicado 29/06/2026

“Subjugar o inimigo sem lutar é o acme da habilidade.”
Sun Tzu, em A Arte da Guerra

Tomo a visita de 10 dias que fiz a Shanghai como ponto de partida para este artigo. Acabei de chegar e ainda luto com o fuso horário (a viagem de volta foi de 39 horas porta a porta). Assim, o artigo será talvez ainda mais incoerente do que de costume. Mas, enfim, vamos lá.

A China está em pleno processo de redefinição das suas relações com o resto do mundo, com o Ocidente em particular. Nas primeiras três ou quatro décadas do período de reforma e abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping em 1979, a China buscava uma “ascensão pacífica” no interior do quadro internacional estabelecido sob a égide dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. E foi inicialmente muito bem-sucedida nesse propósito. Evitava sistematicamente confrontações com os Estados Unidos e outras nações, posicionando-se com prudência e paciência estratégicas. Deng adotava como lema uma máxima chinesa clássica – “esconda a força, espere a hora”.

Como representante do Brasil em reuniões dos BRICS, na fase de formação do grupo de 2008 em diante, posso dar o meu testemunho de que os delegados chineses, sem exceção, obedecendo a um comando superior, evitavam a todo custo qualquer linguagem ou iniciativa que fosse mais agressiva em relação ao Ocidente ou que pudesse ser interpretada como tal. A China se posicionava como uma potência reformista – cautelosamente reformista, tanto na retórica como nas propostas. Às vezes, passava-nos a impressão de que dava precedência a um entendimento estratégico com os Estados Unidos – à formação de um G-2, como se dizia na época — mesmo que isso sacrificasse a articulação entre os BRICS.

O G-2 nunca viria a se constituir. Os Estados Unidos preferiram partir para uma política de contenção e confrontação, começando no primeiro mandato de Donald Trump, de 2017 a 2020, continuando com Joe Biden, de 2021 a 2024, e se intensificando de modo dramático no segundo mandato de Trump desde o ano passado.

domingo, 21 de setembro de 2025

De vacina contra o câncer ao remédio para lesão medular: conheça 8 avanços do BRICS na área da saúde

Domingo, 21 de setembro de 2025

De vacina contra o câncer ao remédio para lesão medular: conheça 8 avanços do BRICS na área da saúde

Postado originalmente no 
Entre as inovações em diferentes fases de desenvolvimento, estão novos medicamentos e vacinas contra doenças que desafiam há décadas a humanidade, como câncer colorretal, malária, HIV e fibrose pulmonar. Aliado a isso, no último mês, durante encontro entre os ministros da saúde dos 11 países do grupo, foi firmada uma parceria inédita para eliminar doenças socialmente determinadas, além de uma agenda sanitária para articular cooperação técnica em três eixos.
Com isso, os estudos desenvolvidos em cada país-membro podem ser acelerados, inclusive com a consolidação do Centro de Produção e Desenvolvimento de Vacinas do BRICS, outra iniciativa anunciada durante o encontro.
Ciência e sociedade

À frente do seu tempo: qual o papel do Brasil nas pesquisas de vacinas? Confira 10 avanços

Os avanços médicos do BRICS

Diante disso, veja abaixo oito pesquisas em desenvolvimento que prometem inovar tratamentos e prevenção contra diversas doenças:

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Trump ameaça países que se alinhem ao Brics com tarifa de 10%

Segunda, 7 de julho de 2025

"Não haverá exceções a essa política", disse o presidente dos EUA

Vitor Abdala — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro© Reuters/Carlos Barr

Em meio à reunião de cúpula do Brics, que ocorre no Rio de Janeiro, o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, ameaçou taxas extras a produtos de países que se alinhem ao grupo, formado por 11 nações, entre elas, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A publicação foi feita em seu perfil na rede Truth Social.

"Qualquer país que se alinhe às políticas antiamericanas do Brics será taxado com tarifa extra de 10%. Não haverá exceções a essa política. Obrigado pela atenção em relação a essa questão", escreveu Trump.

No domingo (6), a declaração de líderes do Brics criticou medidas protecionistas adotadas no comércio global.

sábado, 5 de julho de 2025

Brics propõe reforma do FMI, taxação internacional de super-ricos e fortalecimento da cooperação Sul-Sul

Sábado, 5 de julho de 2025

Declarações aprovadas no Rio reforçam pleito por maior representação do Sul Global nas decisões financeiras mundiais


Brasil de Fato — Rio de Janeiro (RJ)
05.jul.2025 às 19h01

Ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais dos países do Brics aprovaram neste sábado (5), no Rio de Janeiro (RJ), três declarações conjuntas com propostas para transformar a governança econômica global. As medidas vão desde a defesa de uma reforma no Fundo Monetário Internacional (FMI) até o apoio à criação de uma convenção tributária global sob a Organização das Nações Unidas (ONU), além do fortalecimento da cooperação entre países do Sul Global.

Os documentos foram apresentados durante a 1ª Reunião de Ministros de Finanças e Presidentes de Bancos Centrais do Brics, parte da agenda oficial da cúpula do bloco que segue até segunda-feira (7), sob presidência do Brasil.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

POR QUE LULA3 DESFAZ LULA2 NA XVI CÚPULA DO BRICS EM KAZAN, NA RÚSSIA?

 Sexta, 25 de outubro de 2024

Pedro Augusto Pinho

Como se sabe até no reino mineral, diria um dos nossos grandes jornalistas, os países reunidos sob o acrônimo de BRIC nasceram da constatação do economista Jim O'Neill, do banco Goldman Sachs, sobre os crescimentos do Brasil, Rússia, Índia e China, no artigo “Building Better Global Economic BRICs”, de 2001.

O século XXI trouxe para o Brasil, a Rússia e a China, novas realidades políticas. No Brasil, o operário, líder sindical, Luiz Inácio Lula da Silva chega, em 1º de janeiro de 2003, à Presidência da República, fato inédito na História brasileira. E será reeleito governando até 31/12/2010.

Na Rússia, em agosto de 1999, Boris Yeltsin nomeou Vladimir Putin primeiro-ministro. Era sinal claro de que Putin estava sendo preparado para chefiar o Kremlin. O inesperado foi a renúncia de Yeltsin, em 31 de dezembro daquele ano, catapultando Putin, em 7 de maio de 2000, para ser o 2º presidente da Rússia pós-soviética. E, desde então, Vladimir Putin tem sido o verdadeiro dirigente da Federação Russa.

Na China, Deng Xiao Ping promovera revolução liberalizante durante seu governo, de 1978 até 1989, obrigando seu sucessor, Jiang Ze Min (1989-2002) a elaborar uma teoria que conciliasse a tradição de Mao Tse Tung com a realidade surgida das reformas de Xiao Ping. Foi, no entanto, Hu Jin Tao (2002-2012), buscando no mais permanente modo de viver chinês, o Confucionista, de cinco séculos antes da Era Cristã, pregando o conhecimento, a harmonia e equilíbrio na sociedade sem deuses, quem acomodou o marxismo, o liberalismo ao modo agnóstico e ético, fundado nos valores humanos, que veio caracterizar a governança de Xi Jin Ping (2012 ao presente), o socialismo com características chinesas.

Certamente é arriscado imaginar que tantas mudanças após 2001 fossem antecipadas pelo economista-chefe do banco estadunidense.

O que importa, efetivamente, é a criação dos BRICS como inovação fundamental para sustentar o mundo multipolar, que o fracasso neoliberal estava necessitando. Esta situação desencadeou as guerras que os Estados Unidos da América (EUA) deslancharam por todo mundo neste século, começando pela farsa do 11 de setembro de 2001, e a invenção do terrorismo islâmico.

Esta é a perspectiva que se deve adotar ao se tratar dos BRICS, um sustentáculo do mundo multipolar diante do estrebuchar unipolar que une os EUA, o Reino Unido e sua cria, o Estado de Israel, e uma falida União Europeia.

Não é Ocidente versus Oriente, pois no mundo multipolar estão países ocidentais e orientais, e nenhuma divergência se lhes opõe; diferentemente da unipolaridade, que não abre espaço para o Oriente. Esta sim é sectária e excludente.


O DISCURSO DE LULA POR VÍDEO CONFERÊNCIA NA SESSÃO DOS BRICS


Não nos colocamos em oposição ao Presidente Lula. Apenas pedimos coerência das palavras com as ações e a harmonia das ideias.

domingo, 20 de outubro de 2024

Lula cancela ida ao Brics na Rússia após sofrer acidente doméstico

Domingo, 20 de outubro de 2024

Equipe médica recomendou que presidente evite viagem longa

Agência Brasil

Publicado em 20/10/2024
São Paulo
Brasília (DF), 28/08/2024 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa de cerimônia de comemoração dos 25 anos do Ministério da Defesa. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto Marcelo Camargo / Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou sua ida à Kazan, na Rússia, para participar da 16ª Cúpula de líderes do Brics. O presidente sofreu uma queda nesse sábado (19) em que bateu a cabeça, levando cinco pontos. A avaliação da equipe médica do Hospital Sírio-Libanês, de Brasília, que atendeu o presidente recomendou, por precaução, evitar viagens de longa distância.

Conforme o boletim médico do hospital, o acidente não foi grave e o presidente “pode exercer suas demais atividades”. Lula sofreu um “ferimento corto-contuso em região occipital”.

Aos cuidados dos médicos Roberto Kalil Filho e Ana Helena Germoglio, o presidente foi orientado “a evitar viagens aéreas de longa distância, podendo exercer suas demais atividades”. O presidente segue sob acompanhamento da equipe médica.

O embarque para a Rússia seria hoje (20), às 17h. Sua participação será agora feita por videoconferência, informou a Presidência da República.

Brics

Será o primeiro encontro com os novos países-membros do bloco desde a admissão da Arábia Saudita, Egito, Irã, Etiópia e Emirados Árabes. A cúpula vai de 22 a 24 de outubro.

Apesar de não ter uma pauta específica, o embaixador Eduardo Paes Saboia, secretário de Ásia e Pacífico do Itamaraty, disse que o tema principal do encontro deve ser a criação de um modelo de adesão aos Brics por parte dos chamados “países parceiros”. Uma categoria de participação sem as mesmas prerrogativas dos países-membros, com direitos plenos.

“É nisso que é consumido o nosso trabalho neste semestre, quais são os critérios para essa modalidade, e há uma expectativa de que, aprovada essa modalidade, possa ser feito um anúncio dos países que seriam convidados para integrar essa categoria", disse Saboia.

Entre os outros temas que deverão ser abordados no encontro estão a crise do Oriente Médio, operação política e financeira dentro do bloco, além da análise dos relatórios do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) - comandado pela ex-presidente Dilma Rousseff -, do Conselho Empresarial do Brics e da Aliança Empresarial das Mulheres.

O governo russo informou que 32 países confirmaram presença no evento, com a presença de 24 líderes de Estado. Dos dez países-membros do bloco, oito contarão com seus representantes máximos, com a exceção agora do presidente do Brasil e da Arábia Saudita, que enviará seu ministro de Relações Exteriores.

No encontro, deve ser anunciada também uma declaração cujo teor é o fortalecimento do multilateralismo para um “desenvolvimento global justo e seguro”.

A partir do próximo ano, o Brasil assumirá a presidência do Brics, que tem comando rotativo pro tempore com mandatos de um ano.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Brasil: Impossível pensar o futuro sem discutir a geopolítica mundial. Entrevista especial com Carlos Lessa


Segunda, 28 de julho de 2014
"...o PT tentou se criar “anti-Getúlio”. Eu lembro do Lula dizendo a seguinte frase: “A Consolidação das Leis do Trabalho - CLT é o AI-5 dos trabalhadores”. Ou seja, para ele, a CLT impediria qualquer ingerência dos trabalhadores em seu futuro. O PT era antigetulista, e depois começou a diminuir um pouco isso, mas ao mesmo tempo pegou do pragmatismo de Getúlio a pior de todas as dimensões, porque Getúlio era pragmático nas alianças que fazia, mas apesar das alianças ele nunca permitiu dissolver os objetivos nacionais. Enquanto isso, o PT vende o petróleo no leilão de Libra. Getúlio nunca permitiu que a privatização fosse um elemento pragmático a ser negociado; soberania nacional sempre foi fundamental para Getúlio. E esse conceito nem existe no governo Lula."
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Do IHU
Instituto Humanitas Unisinos
 
Brasil: Impossível pensar o futuro sem discutir a geopolítica mundial. Entrevista especial com Carlos Lessa 
“Há muitos anos eu já disse que nós caminhávamos imensuravelmente para a desaceleração da economia, e infelizmente tudo que imaginei aconteceu. Hoje o Brasil está tendo dificuldades imensas de manter se movendo como estava se movendo”, assinala o economista.
Foto: Uol
“A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo.” A declaração é do economista Carlos Lessa à IHU On-Line, ao comentar as razões de ainda haver tantas desigualdades sociais no mundo. Segundo ele, “o que a história está mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o comando da economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o ex-presidente do BancoNacional de Desenvolvimento – BNDES menciona a dívida da Argentina como um exemplo que diz “respeito à saúde do mundo como um todo; (...) ela é uma espécie de preliminar das dificuldades que estão à frente”. E alfineta: “Se 93% aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo?”.
Lessa também comenta a criação do banco do BRICs como uma possibilidade de “restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas dos países do BRICs”. Entretanto, enfatiza, “se ele fizer isso, já está introduzindo uma dimensão importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer, ou não vão fazer? É a sério, ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de reduzir o peso do dólar; e eu não vejo como os americanos concordam com isso tranquilamente”. E cutuca: “A presidenta Dilma foi à última reunião de Davos dizer que o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do Consenso de Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as moedas dos BRICs não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio brasileiro com respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo muito encabulado e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei, e a pessoa (Dilma) para mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato”.
Segundo ele, apesar de a população ter melhorado o padrão de vida nos governos Lula e Dilma, especialmente no que se refere à distribuição da renda, “o governo do PT não usou esse ‘oxigênio’ que o Brasil teve para dar sustentabilidade no longo prazo à melhoria”. Na avaliação dele, “para frente, o Brasil vai se confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do patrimônio das empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos bancos brasileiros e das famílias ricas, está apoiado na dívida das famílias pobres que se endividaram para comprar automóvel, geladeira e mobiliário, então, terá uma queda de braço para frente no país”.
Defensor de um projeto nacional, Carlos Lessa é categórico quanto ao assunto: “Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro. (...) Nós fomos achando que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é complicado”. E conclui: “Pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos nacionais claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum”.
Carlos Lessa é formado em Ciências Econômicas pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Ciências Humanas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp). Em 2002, foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Ele também foi presidente do Bndes.
Confira a entrevista.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Brasil no BRICS: política externa independente ou desenvolvimento da dependência?


Segunda, 14 de julho de 2014
Por Luciana Genro
A reunião do BRICS, em Fortaleza esta semana, terá como principal assunto de pauta a institucionalização e funcionamento do Banco do BRICS, de criação já anunciada, e cuja sede será Xangai, na China. Embora o discurso oficial do governo brasileiro declare que a nova instituição financeira representará uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, tudo indica que o modelo de financiamento vai seguir os mesmos critérios dessas instituições, como se pode ver na parte da minuta que trata do fundo de reservas e do Acordo de Contingência.
Neste debate, a maioria dos analistas têm se dividido. De uma lado, os que aprovam a política externa do governo, de diversificação de laços diplomáticos e comerciais – no que se incluem os laços com o BRICS. De outro, os que defendem que o antigo vínculo preferencial com EUA e Europa deveria prevalecer. Mas entre eles há um consenso que não podem ocultar: a aceitação passiva do papel subordinado do Brasil na divisão internacional do trabalho e de suas implicações para nossa soberania, que estão na contramão de uma verdadeira alternativa de desenvolvimento econômico-social.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A máscara de BRIC não nos cobre

Quinta, 24 de outubro de 2013
Carlos Lessa
   A expressão BRIC foi recorrentemente utilizada em um encontro político-cultural com mais de 500 participantes (em sua imensa maioria, europeus, asiáticos e africanos). O Novo Mundo estava praticamente ausente: apenas seis latino-americanos, um canadense e dois americanos, mas a expressão frequentou as conferências e foi utilizada em debates; está vulgarizada no vocabulário geopolítico e geoeconômico. Praticamente não foram utilizadas as antigas dualidades: centro-periferia, norte-sul, países desenvolvidos-subdesenvolvidos etc.
   É quase impossível encontrar o denominador comum, a não ser o tamanho geográfico e demográfico dos países. O Brasil é um estranho nesse ninho. Rússia, China e Índia têm domínio e armamento nuclear e dispõem de submarinos atômicos. O Brasil é insignificante potência militar e não tem acesso ao armamento nuclear nem à eletrônica dos drones e de interferências variadas. Rússia, China e Índia têm brutais problemas com seus vizinhos. Internamente, a Rússia tem o problema do Cáucaso; a China, do Tibete; e a Índia é, ainda, uma construção precária e pouco integrada. Todos os três têm barreiras internas religiosas e de grupos étnicos-culturais e são mosaicos de diferenças.
   O Brasil pratica um único idioma e é quase homogêneo. Quando comecei a viajar pelo interior, em qualquer pequena cidade encontrei um Grande Hotel, uma Padaria Ideal e uma Tinturaria Arco-Iris. Do Oiapoque ao Chuí, são mínimas as diferenças culturais. Conflitos religiosos que são comuns nos demais grandes países são aqui substituídos pelo “sincretismo” que, pragmaticamente, é praticado. Lembro de uma pequena propriedade leiteira cuja dona rezava para Santo Antonio, pregava folhas de arruda nos ângulos do curral, fumava charutos perto das vacas, amedrontada pela ameaça de mastite – mas, para cercar o problema por todos os lados, convocava o veterinário. Somos um país mestiço e multicolor. Integramos tudo que aqui nos chega. Na beira da estrada, um conjunto com feijão preto, polenta e carne de churrasco recebe agora a comida japonesa. Nosso povo combina conservadorismo de tudo que sabe e possui, com uma permanente prospecção, assimilação e digestão das novidades. É visível a nossa não arrogância (à exceção do futebol) e ausência de resistência ao que vem de fora.

COM A AMÉRICA DO SUL
   BRIC é um conceito construído e dissolvente de nossa proximidade com os latino-americanos e, em especial, com nossa óbvia e indispensável integração com a América do Sul. Nos últimos anos, 50% das nossas exportações manufatureiras foram para os latino-americanos, sendo 30% para o Mercosul. O ritmo da integração sul-americana depende do modo como o Brasil venha a priorizar o mundo ibero-americano, o que não é fácil, pois é brutal a assimetria da luso-América com a hispano-América.
   O discurso BRIC sublinha esta dificuldade; nossa diplomacia deveria sublinhar nossa pertinência à Sul-América e nosso condomínio marítimo no Atlântico Sul com a África. Entretanto, a expressão BRIC parece acariciar os ouvidos da diplomacia brasileira. Temos a duvidosa dimensão de ser o terceiro maior credor do Tesouro americano. A China tem reservas de US$ 1,27 trilhão e o Brasil tem US$ 256,4 bilhões. Quando terminou a II Guerra Mundial, nossas reservas viraram fumaça. Qual a garantia de que isso não ocorrerá?
   O conceito de emergência é aplicável integralmente à China, que se industrializa e evolui rapidamente para dispor de tecnologias de ponta próprias. Contudo, o problema social chinês é avassalador: metade de sua população é rural com renda média de 1/3 em relação à da população urbana. Nossa questão social é relativamente pequena se comparada ao desafio que o futuro coloca para a China. A Índia, com suas diferenças sociais, não tem qualquer possibilidade de acelerar a urbanização; seu debate é como preservar sua agricultura camponesa com baixa produtividade dos efeitos da industrialização. Etiópia e Somália tem o Mediterrâneo a cruzar para a Lampedusa. Não há saída demográfica para a Índia e maior parte da Ásia. A Rússia se debate no dilema de alinhar-se com a Europa, ou seja, com a Otan, ou lançar-se em uma neoaventura eurásica, lançando-se em aliança com o Japão, para criar uma barreira à China. Para isso projeta um trem-bala transiberiano que faria uma “alça submarina” no Pacífico, se articulando com o Japão.
   A expressão BRIC, como um conglomerado de “baleias” emergentes, acaricia os ouvidos dos governantes e caminha suavemente pela mídia. O Brasil tem acelerada desindustrialização precoce; retrocedeu o peso da indústria no PIB em relação ao do final dos anos 50. Define o Brasil com a função de “celeiro do mundo”, sem ter superado a fome dentro da rede urbana nacional. Desmatamos a Amazônia, formando pastos e plantações de soja. Com a desindustrialização, destruímos empregos de qualidade e propensão à pesquisa científica e tecnológica.

FALSO EMERGENTE
   O governo pratica um discurso eufórico em ser “emergente”, submergindo a uma exportação que retrocede nos itens manufaturados ou com alta tecnologia: exportamos minério de ferro, couro bovino cru e assistimos o aço e o calçado chinês ocuparem os nichos mercadológicos que o Brasil dispôs em passado recente. Voltamos a ser agroexportadores, porém o complexo de soja não reproduz o antigo complexo do café: os equipamentos, fertilizantes e defensivos são todos fabricados por filiais estrangeiras. A Monsanto domina e difunde a semente transgênica. As grandes exportadoras são filiais estrangeiras; o empresário nacional existe como fazendeiro de soja e, talvez, seja proprietário de caminhões transportadores.
   O café, na República Velha, era plantado, financiado, transportado, comercializado e exportado por empresas nacionais. As ferrovias abriram o planalto paulista e a Companhia Docas de Santos era controlada por capital nacional. O café não propunha a industrialização, porém sob a sombra dos cafezais, nasceram amplos segmentos industriais. A soja não propõe a industrialização. Getulio Vargas e Juscelino Kubitschek empurraram a industrialização, porém defenderam o café, o açúcar, o algodão, a borracha, o cacau, etc. Houve um projeto nacional de industrialização e urbanização concentrador de renda e deficiente nas políticas sociais. Continuamos ultra-concentradores: os bancos brasileiros tem uma rentabilidade patrimonial que é o dobro do setor industrial de transformação. Na repartição funcional de renda, diminui a participação dos salários; multiplicamos empregos de baixos salários.
   O conceito de classe média é ambíguo, principalmente se for medido pela posse de veículos automotores, eletrodomésticos etc. Em função da alta de preços de commodities derivado do boom chinês, da afluência de capitais especulativos em busca dos altos juros nacionais e das importações de manufaturas, houve base para aumentar o salário real, e isso foi extremamente positivo, porém houve contenção de investimento público e desânimo empresarial com investimento privado.
   Afirmar que o Brasil é emergente quando, estruturalmente, estamos submergindo, não assumir que fazemos parte da periferia mundial, não sublinhar que nosso bloco é sul-americano ou latino-americano, não discutir um projeto nacional e aprofundar nossa presença como supridor primário – e, talvez, involuir para país exportador de petróleo – é assustador. A máscara de BRIC não nos cobre nem resolve nossos problemas estruturais e é suprema ingenuidade imaginar que as outras baleias virão para proteger um país tropical.

Fonte: Tribuna da Imprensa

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A BRICSNET - UMA REDE PARA OS BRICS

Segunda, 9 de setembro de 2013

Entre as diferentes hipóteses de resposta à espionagem da Presidente da República e de seus ministros e assessores, aventa-se a possibilidade – segundo afirmam os meios de comunicação, teria sido suspenso o envio da delegação precursora – do cancelamento da viagem de Dilma Roussef aos EUA, no mês que vem.
Pensando fria e estrategicamente, esta pode não ser a opção mais adequada para enfrentar o problema. Ao deixar de comparecer a uma visita de Estado, mesmo que em previsível gesto de protesto, o Brasil estaria abdicando de mostrar ao mundo que procura ter com os Estados Unidos uma relação à altura.
Estaríamos, guardadas as devidas proporções e circunstâncias, agindo como o governo golpista  de Federico Franco, que, ao tentar – de maneira inócua - reagir contra a suspensão do Paraguai do Mercosul por quebra  de suas  salvaguardas democráticas, resolveu votar contra a vitoriosa eleição de representantes brasileiros na OMC e na Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Muito mais efetivo seria se, no âmbito dos  BRICS, Dilma obtivesse de nossos parceiros russos, chineses, indianos e sul-africanos, o compromisso de se trabalhar, coordenada e aceleradamente, no desenvolvimento de uma BRICSnet.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Pibinho da Dilma

Terça, 27 de novembro de 2012
Da Agência Brasil
Brasil terá menor crescimento entre países do Brics, indica estudo da OCDE
 
Renata Giraldi
Relatório divulgado hoje (27) pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que a economia brasileira fechará o ano com um crescimento de, no máximo, 1,5%. É o menor percentual entre os países que compõem o bloco Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A maior previsão de crescimento é a da China, 7,5%. Depois vêm a Índia (4,4%), a Rússia (3,4%) e a África do Sul (2,6%).

Pelas projeções para o próximo ano e 2104, a China e a Índia continuarão na liderança, registrando crescimento superior a 6,5%. O Brasil, segundo as estimativas, deverá crescer 4% no ano que vem e 4,1% em 2014. As economias da Rússia e da África do Sul terão expansão de 3% a 4%. Detalhes sobre o estudo podem ser obtidos na página da OCDE.

No capítulo sobre o Brasil, a organização informa que a economia registra melhorias, mas abaixo da tendência geral de crescimento. Segundo o relatório, há indicadores de confiança e projeções de queda no desemprego. O estudo diz ainda que a inflação diminuiu e se estabilizou. Mas alerta sobre a necessidade de mais investimentos nas exportações.

Em relação à economia global, o relatório diz que a projeção é “uma recuperação hesitante e desigual”, nos próximos dois anos. A OCDE recomenda que as autoridades assumam uma “política decisiva” para combater os efeitos da crise econômica internacional e evitar riscos de recessão.
"A economia mundial está longe de estar fora de perigo", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría. “Os governos devem agir decisivamente, usando todas as ferramentas à disposição para retomar a confiança e impulsionar o crescimento e a geração de emprego, nos Estados Unidos, na Europa e em outros lugares ", acrescentou ele.

O documento alerta sobre a fragilidade da economia norte-americana, enfraquecida pela recessão e sob efeito da crise global. Também informa que a geração de emprego no mundo está em baixa, registrando cerca de 50 milhões de pessoas desempregadas nos países pesquisados pela OCDE.

A orientação da entidade é para que as autoridades estimulem a abertura de vagas de trabalho. Para os pesquisadores, a tendência é que a crise na zona do euro (17 países que adotam a moeda única) deve permanecer, apesar das medidas de austeridade adotadas por vários governos da região.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uma vitória espetacular dos pobres na reunião da UNCTAD

Segunda, 14 de maio de 2012
Por J. Carlos de Assis
Do site Rumos do Brasil
A reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) em Doha terminou na semana passada com uma vitória sem precedentes dos países em desenvolvimento e, mais do que deles, da grande maioria dos povos do mundo. Uma coalisão histórica entre os países emergentes (BRICS) e o Grupo dos 77 (mais de cem países em desenvolvimento) fulminou com as manobras dos países ricos destinadas a impedir que a UNCTAD continuasse a produzir, entre outras coisas, estudos críticos relacionando a crise mundial com a globalização e a liberalização financeira, e o livre movimento de capitais.