Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 24 de abril de 2021

Relato de Prisão, por Alípio Freire | Parte 3: Na praça General Osório

Sábado, 24 de abril de 2021

Aos 23 anos, Alípio Freire foi sequestrado, torturado e passou cinco anos preso durante a ditadura militar - Cadinho Andrade/JU/UFRGS

Relato de Prisão, por Alípio Freire | Parte 3: Na praça General Osório

Vítima da covid-19, Alípio Freire relatou, em 2002, as torturas e os anos na prisão durante a ditadura militar no Brasil

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
 

O jornalista, escritor e artista plástico Alípio Freire faleceu na última quinta-feira (22), aos 75 anos, em decorrência da covid-19.

Um dos militantes da Ala Vermelha, grupo dissidente do PCdoB que combateu a ditadura militar, Freire foi preso aos 23 anos pela Operação Bandeirantes (Oban) e sofreu três meses de torturas e interrogatórios, permanecendo encarcerado entre 1969 e 1974 no Presídio Tiradentes, em São Paulo.

Alípio Freire, anistiado pelo Ministério da Justiça em 2005, é autor de diversos livros, entre eles “Estação Paraíso” e “Estação Liberdade”. 

Em "Relato de Prisão", Freire registra os dias que antecederam sua prisão, a rotina no cárcere e as sequelas sofridas pela tortura. O relato é o depoimento oficial entregue pelo jornalista à Comissão de Indenização dos perseguidos pela ditadura no Estado de São Paulo.

O Brasil de Fato, que publica o material pela primeira vez, com exclusividade, dividiu o documento em quatro partes. A primeira, publicada na última quinta (22), descreve o sequestro por agentes do regime


A segunda, publicada nesta sexta (12), descreve as sessões de tortura a que foi submetido por agendes do regime.


Na terceira parte, publicada neste sábado (24), Freire relata os dias na carceragem do Departamento de Ordem Política e Social (Deops) de São Paulo (SP). Confira:

Na praça General Osório, a Ordem Política e Social

Quando chegamos (os sete) no Deops, já era fim de tarde. Na carceragem, encontramos pela primeira vez Guida e Laís de modo a podermos trocar muito breves palavras, enquanto preenchíamos as fichas de identificação. Ambas levavam no rosto e no corpo sinais de que haviam sido muito constrangidas moral e fisicamente.

Fomos distribuídos por diversas celas:

Margarida e Laís foram trancadas numa das celas do “fundão”, local onde o corredor principal morria e se abria em forma de “T”. Ali estavam situadas as solitárias – que no entanto abrigavam sempre duas ou mais mulheres presas.

Takaoka foi posto na então cela 1; Misael na 4 ou 5 (não tenho certeza a este respeito), e Vicente, Renato e eu fomos colocados na então cela 2. Eram celas coletivas situadas no corredor principal. Neste, os xadrezes ficavam todos do lado esquerdo de quem ia em direção ao “fundão”; à direita, estendia-se uma parede cega. Os xadrezes tinham em regra pouco mais de 20 metros quadrados cada, mas ali se amontoavam sempre mais de dez presos.

Era noite quando Renato, Vicente e eu entramos na cela. Fomos recebidos por presos que já estavam ali havia mais tempo, como o gráfico José Paiva; um vendedor de bilhetes de loteria que chamávamos de Zé Bilheteiro; um metalúrgico de nome Amintas (baiano de Itapitanga que teria sido surpreendido com um panfleto no interior da fábrica onde trabalhava), e mais dois ou três outros acusados de algum nível de militância ou de algum outro tipo de ligação com organizações de esquerda. Todos haviam sido torturados. Além destes, havia também um belga – Joseph Coupé – preso por estelionato e à disposição da Delegacia de Estrangeiros. Também à disposição dessa delegacia estava um uruguaio, de sobrenome Araújo, detido por não possuir documentação atualizada para a permanência no país.

A primeira providência foi tomarmos banho – o que eu não fazia desde o dia em que fora seqüestrado. José Paiva arranjou umas roupas limpas e, em seguida, o médico Antônio Carlos Madeira entrou em nossa cela para nos examinar. Madeira era um preso político já com seus 35 a 40 anos, e a carceragem permitia que em determinados horários ele circulasse pelo corredor e atendesse os companheiros.

Um primeiro diagnóstico

No meu caso, Madeira diagnosticou (já naquele momento) perfuração do tímpano esquerdo e dilatação da trompa de Eustáquio do mesmo ouvido; fratura de uma costela superior esquerda, e quebra do primeiro molar inferior direito – além de necrose dos tecidos de vários dedos, artelhos e glande; hematomas e escoriações generalizadas. Um pouco desse quadro pode ser percebido na foto tirada no Deops dias depois de nossa chegada da Oban e que reproduzo neste dossiê.

Madeira me deu antidistônico e analgésico, e me enfaixou o tórax com ataduras para tentar curar a fratura de costela. Usei ataduras durante pelo menos até novembro – o que pouco inibiu as várias sessões de torturas, inclusive paus-de-arara – a que ainda seria submetido.

Na Praça General Osório, permaneceríamos seqüestrados e em cárcere clandestino por alguns meses.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

MEMÓRIA, Relato de Prisão, por Alípio Freire | Parte 2: Um quartel do Exército brasileiro

Sexta, 23 de abril de 2021

Aos 23 anos, Alípio Freire foi sequestrado, torturado e passou cinco anos preso durante a ditadura militar - Cadinho Andrade/JU/UFRGS

Vítima da covid-19, Alípio Freire relatou, em 2002, as torturas e os anos na prisão durante a ditadura militar no Brasil

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
 

O jornalista, escritor e artista plástico Alípio Freire faleceu na última quinta-feira (22), aos 75 anos, em decorrência da covid-19.

Um dos militantes da Ala Vermelha, grupo dissidente do PCdoB que combateu a ditadura militar, Freire foi preso aos 23 anos pela Operação Bandeirantes (Oban) e sofreu três meses de torturas e interrogatórios, permanecendo encarcerado entre 1969 e 1974 no Presídio Tiradentes, em São Paulo.

Alípio Freire, anistiado pelo Ministério da Justiça em 2005, é autor de diversos livros, entre eles “Estação Paraíso” e “Estação Liberdade”. 

Em "Relato de Prisão", Freire registra os dias de antecederam sua prisão, a rotina no cárcere e as sequelas sofridas pela tortura. O relato é o depoimento oficial entregue pelo jornalista à Comissão de Indenização dos perseguidos pela ditadura no Estado de São Paulo.

O Brasil de Fato, que publica o material pela primeira vez, com exclusividade, dividiu o documento em quatro partes. A primeira, publicada na última quinta (22), descreve o sequestro por agentes do regime


A segunda, publicada nesta sexta (12), descreve as sessões de tortura a que foi submetido por agendes do regime. Confira:

Um quartel do Exército brasileiro

Desembarcado num dos pátios do quartel por volta das 22 horas, tive uma ruidosa recepção por parte de uma dezena de agentes da Oban, que chamavam, aos berros, o meu nome-de-guerra: “O Biu chegou! O Biu chegou!” (Importante ressaltar que até aquele momento meus seqüestradores ainda não haviam ligado esse nome a mim. Sustentava a versão de que não sabia de nada, negando inclusive ter conhecimento do que era um nome-de-guerra). Juntamente com os que me conduziam, formaram imediatamente um círculo em torno de mim, jogando-me de um lado para o outro à base de socos, tapas, pés-de-ouvido, pancadas com bastões de madeira e borracha, e pontapés. Isto durou – creio – cerca de meia hora.