Diante do sofrimento extremo, há obrigação de viver? A eutanásia, recurso da saúde, perturba os moralistas. A difícil decisão final, em casos complexos. As mortes clandestinas. Relatos sobre um combate necessário ao conservadorismo
ORIGINALMENTE Publicado 17/10/2025 às 18:50 - Atualizado 18/10/2025 às 02:01

Ele sorria enquanto contemplava a cidade.
Foi o que contou o figurinista Marcelo Pies, marido do poeta Antonio Cícero, 79. Era outubro do ano passado. O casal flanava por Paris. Foram à Sainte-Chapelle, uma jóia gótica do século XIII que sempre deslumbrava o escritor. Aos restaurantes favoritos. A uma exposição em homenagem ao centenário do Surrealismo, no Centro Georges Pompidou.
Era uma despedida. Não de uma cidade, de um amor, de uma etapa profissional, as quais nos são mais palpáveis. Mas de algo que pouquíssimos têm a chance de fazer conscientemente: era a despedida da vida de Cícero.
O poeta — também compositor de sucessos da MPB como Fullgás, para a sua irmã Marina Lima, e Último Romântico, para Lulu Santos — foi diagnosticado com Alzheimer, um ano antes. Temia uma “virada de chave” que o faria perder a lucidez.
