“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 8 de fevereiro de 2026

A máquina de histeria moral das elites

Domingo, 8 de fevereiro de 2026

A máquina de histeria moral das elites

Predatórias, porém hipócritas, elas evocam o combate à corrupção sempre que ameaçadas. A cada pleito, o discurso moral retorna para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação – com apelos à intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder


OUTRASPALAVRAS

Publicado originalmente no OUTRASPALAVRAS em 04/02/2026

Um discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira: o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite (na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o Golpe de Estado.

O combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos), historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.

A Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial, foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um Golpe Militar de oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social geradora da pobreza.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

O BRASIL E A QUESTÃO ENERGÉTICA

Segunda, 14 de julho de 2025

O BRASIL E A QUESTÃO ENERGÉTICA


Pedro Augusto Pinho*

José Bento Monteiro Lobato (1882-1948) foi escritor, advogado, empresário e nacionalista. Em 1936 publicou “O Escândalo do Petróleo”, criticando a ausência do governo na pesquisa do petróleo no Brasil. Ele mostrava as descobertas já realizadas na Venezuela, na Colômbia, no Peru, na Bolívia e na Argentina e questionava: cercado de petróleo por que ele não existe no Brasil?

Certamente a campanha de Monteiro Lobato muito ajudou Getúlio Vargas e a criação, em 1954, da Petrobrás.

Igualmente importante foi a nacionalização do petróleo que Lázaro Cárdenas, presidente do México de 1934 a 1940, realizou em 1938, criando a Petróleos Mexicanos (PEMEX) para assumir a administração desta fonte de energia. A data 18 de março é celebrada como feriado cívico naquele país, lembrando o feito histórico.

Poucos no Brasil se interessavam pelo petróleo. A primeira Faculdade de Geologia surgiu em 1957, embora a Escola de Minas de Ouro Preto já oferecesse cursos sobre geologia desde 1876. Os primeiros profissionais para exploração de petróleo na Petrobrás foram engenheiros e agrônomos que fizeram cursos de especialização em petróleo no exterior.

Este descaso não era somente pelo desconhecimento, era para manter o povo na melhor hipótese desinformado, quando não intencionalmente com ideias deformadas.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

19 DE ABRIL: DIA DE FESTA E DE DOR

Sexta, 19 de abril de 2024
Pedro Augusto Pinho*

19 DE ABRIL: DIA DE FESTA E DE DOR

No dia 19 de abril de 1882 nascia em São Borja, cidade do interior do Rio Grande do Sul, o Estadista Brasileiro: Getúlio Dornelles Vargas. A ele devemos a criação do nosso Estado Nacional e o período de maior desenvolvimento do Brasil: os 50 anos da Era Vargas.

Após Getúlio toda política brasileira se distinguiu por ser continuidade ou oposição aos fundamentos definidos por Vargas para a condução do País.

OS MOMENTOS DE FESTA

Para entender a grandeza de Getúlio devemos conhecer a nossa história, como realmente aconteceu.

Portugal: os europeus, que tomaram para si o Brasil, em 1500, já haviam se destacado na conquista da África. Enorme feito para o país pequeno, pobre, de um milhão de pessoas. Lembrar que o Brasil descoberto já continha cerca de cinco milhões de habitantes.

A imensa dificuldade de manter a posse do território brasileiro, ainda que protegido pela Bula Papal denominada Tratado de Tordesilhas, e voltado para África, onde há quase um século colonizava, Portugal imaginou possível privatizá-lo com apoio da aristocracia lusitana. Fracassou. E D. João III, com o auxílio da Companhia de Jesus, envia em 1549, com mil pessoas, Tomé de Sousa para organizar e dirigir a colônia recém-descoberta.

Com objetivo de manter a colônia contra os outros europeus nela interessados, evitar dissensões internas e produzir recursos para a Matriz, João III estruturou o Brasil com um presidente (governador geral) e três “ministérios”: da defesa (capitão-mor), da justiça e negócios interiores (ouvidor-mor) e da economia e finanças (provedor-mor).

Acredite caro leitor que, com os desdobramentos devidos aos “acréscimos de serviços” destes “ministérios” e a única inovação do específico para as relações exteriores, em razão da Independência de 1822, a estrutura de D. João III permaneceu imutável até 1930. Não tenho conhecimento de estrutura organizacional que tenha se mantido por quase 400 anos! Mas este fato mostra a coragem de Vargas de enfrentar o espírito colonizado que dominava o Brasil.

E, ainda mais, por criar Ministério para o Trabalho, no país que há menos de meio século mantinha legal a escravidão.

Quem foi esse Presidente?

O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado brasileiro a se revoltar contra o Império, que mantinha o Brasil como efetiva Colônia, com a Revolução Farroupilha de 1835-1945, mais longa do que sua contemporânea Revolução dos Cabanos, da população pobre do Grão-Pará, concluída no massacre de 1840. No entanto, os ideais republicano e liberal ressurgiram na Sabinada, baiana de 1937, e na Revolução de São Paulo, em 1842.

Outros movimentos, como a Balaiada, maranhense de 1838, e a Revolução Praieira (Pernambuco, 1848), demonstravam a insatisfação com a monarquia voltada para o exterior, ausente das questões nacionais.

Getúlio criou-se neste ambiente libertário e republicano. Viveu no momento em que o positivismo ganhava a versão brasileira de Júlio de Castilhos (1860-1903), por duas vezes presidente da Província, de 15 de julho a 11 de novembro de 1891, e de 25 de janeiro de 1893 a 24 de janeiro de 1898, e a quem se deve a igualitária Constituição do Estado do Rio Grande do Sul de julho de 1891.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A deposição de Vargas e as lições da História recente

Quarta, 29 de agosto de 2018
Por


Ainda há tempo de partidos e organizações de esquerda olharem menos umbigos e mais para o interesse do país e de seu povo, ameaçados por conservadores
O varguismo não se altera no período democrático: persiste no projeto de organização do Estado, na intervenção em áreas fundamentais para o desenvolvimento e a segurança nacional

Nosso país havia aderido, unilateralmente, à Guerra Fria, e os militares exerciam, naquele então, um papel de proeminência e intervenção na vida civil. Falavam sobre todas as coisas, intervinham nas questões de Estado, na política social, e ainda se julgavam os depositários exclusivos dos valores da Pátria, por eles privatizada. 
No agosto findo completaram-se 64 anos da deposição e suicídio de Getúlio Vargas. Mal havíamos transitado da ditadura do Estado Novo para a democracia prometida pela Constituição liberal de 1946. Era ainda uma democracia tímida, que não comportava partidos de esquerda ou voto do analfabeto.
Haviam participado da Revolução de 1930 e da implantação do Estado Novo (1937) e, sem qualquer autocrítica, haviam deposto (1945) o ditador cujo poder asseguraram por largos e penosos oito anos. Nas primeiras eleições pós-redemocratização havia sido eleito presidente da República o marechal Eurico Dutra, ministro da Guerra do Estado Novo e também comandante da deposição de Vargas, que,  no entanto, o apoiaria e o elegeria na primeira eleição do Brasil democratizado.
Por obra e graça do processo histórico – uma esfinge que os historiadores não conseguem decifrar – o primeiro governo civil, de bases populares e democráticas, seria o de Vargas (eleito em 1950, sucedendo ao seu antigo ministro de Guerra), derrotando nas urnas o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato do estamento militar, da direita urbana e do grande empresariado.
O presidente, comandando o país nos estritos termos da ordem democrática de então – nesse plano inscrita absoluta liberdade de imprensa –, intentava retomar as bases políticas e ideológicas daquilo que se convencionou identificar ora como ‘trabalhismo’, ora como ‘varguismo’, uma visão antiliberal de país e de mundo, mais ou menos resumida em dois pontos: o Estado como indutor do desenvolvimento e a soberania nacional (condicionada pelo desenvolvimento) como princípio.
O varguismo não se altera no período democrático: persiste no projeto de organização do Estado, na intervenção em áreas fundamentais para o desenvolvimento e a segurança nacional, como a siderurgia, a energia elétrica e o petróleo, sem cujos recursos seria impensável a industrialização tardia.
Finalmente, com vistas a inserir o país atrasado na economia capitalista que se montava lá fora a partir de Bretton Woods, a criação de um grande mercado de consumo, para o que vinha a calhar sua ‘opção pelos pobres’, a defesa e ampliação  dos direitos trabalhistas e a correção digna do salário mínimo como instrumento de distribuição de renda.
(Lula nega essa influência, mas as premissas do varguismo, acima enunciadas em breve resumo,  seriam  o ponto de referência dos governos petistas, e dela não se livrará o programa costurado por Fernando Haddad, provável substituto do candidato escolhido pelo povo e provavelmente vetado pela ordem judiciária).
Essa política, porém, não agradou ao grande empresariado nacional, naquela altura – quase tanto quanto hoje – desvinculado do desenvolvimento nacional,  pois seus interesses, na rota de sua matriz ideológica, estavam nos EUA.
São Paulo, o único estado industrializado, todavia, resiste; fracassara a política de aliança com a burguesia urbana. Resiste  o Congresso, onde o governo é minoritário, resiste a grande imprensa em unânime oposição. As Forças Armadas, que haviam assegurado a política do governo da ditadura, resistem agora ao presidente democrático.
Foge-lhe a classe média, mobilizada pela grande imprensa, e não acorrem em sua defesa as massas populares e sindicais, desorganizadas e perdidas, quando os comunistas do PCB saem às ruas para, vocalizando o discurso da oposição golpista, pedir a  renúncia do presidente que perdera a burguesia por defender os interesses dos trabalhadores.
(Recordo-me da resistência de setores do PT atuantes na Frente  Brasil Popular condicionando a defesa do mandato de Dilma Rousseff à prévia autocrítica da presidente à política econômica  que adotara.)
O atentado frustrado ao principal líder oposicionista civil, o jornalista Carlos Lacerda, é o imã que vai unificar as Forças Armadas e a montagem do que se convencionou chamar de República do Galeão, tantos anos antes da República de Curitiba.
Um IPM comandado por coronéis da Aeronáutica, a pretexto de apurar um crime comum (no atentado morrera  seu guarda-costas, um capitão da FAB), rasga a Constituição e as Leis, com o claro propósito de humilhar o presidente e transformá-lo em presa de suas maquinações, atapetando o caminho para o golpe de Estado que estava marcado para a noite de 24 de agosto, quando o presidente se descobre absolutamente indefeso. Seu próprio ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, é um dos insurgentes.
Tancredo Neves, jovem ministro da Justiça, é voz isolada quando sugere a resistência. Os líderes da oposição estão no Copacabana Palace festejando a vitória (o golpe seria apresentado como pedido de licença sem retorno de Vargas) quando as rádios anunciam o suicídio do presidente.
As grandes massas são despertadas de seu torpor, os trabalhadores saem às ruas, a dor explode em gritos, mas não há mais um governo por defender. Restava apenas prantear a morte de um presidente solitário.
A historiografia de superfície reduz a oposição a Vargas à pregação da UDN (o PSDB de então), apresentando à sociedade como corrupto um presidente honrado. Essa forma pobre de reduzir a história ao meramente aparente tem por objetivo esconder as razões reais, profundas, que radicam no sempre contestado projeto de desenvolvimento nacional autônomo, associado com a emergência social e econômica das grandes massas.
Esta contradição, de sempre, opõe os interesses da casa grande aos interesses da avassaladora maioria, os interesses do 1% do topo da pirâmide social aos 99% restantes. E a massa, o ´povão`, sempre assusta a pequena-burguesia quando ousa deixar a coxia para se apresentar no centro do palco, quando abandona o papel de figurante para exigir as luzes que iluminam os atores. Quando enfim decide escrever, ele mesmo, a sua História.
Talvez esta lição nos ajude a compreender o Brasil de hoje. Mas há outros ensinamentos a colher. A derrota das forças populares é a consequência inelutável da divisão das  forças de esquerda. Ela foi decisiva na construção do 24 de agosto de 1954, alimentada pela dificuldade, perdurante ainda hoje, de compreender o significado do varguismo nos estreitos limites daquela crise.
Essa lição também pode ser lida pelo seu inverso; a unidade das forças populares asseguraram, no ano seguinte ao golpe, ou seja, em 1955, a vitória de Juscelino-Jango e, em seguida, o contragolpe de novembro daquele ano, que garantiu a posse dos eleitos, contestada pelos agentes do golpe de 1954, como foi contestado – também sem base qualquer – o pleito de 2014 pelo inconformismo tucano. Foi ainda essa unidade, ampliada com o apoio de correntes democráticas e liberais, que assegurou, na crise de 1961, a posse de João Goulart, frustrando a tentativa de mais um golpe militar.
Ainda há tempo, nessas eleições, de os partidos e organizações de esquerda olharem menos para seus respectivos umbigos e mais para o interesse maior do país e de seu povo, ameaçados pelos conservadores, pelo reacionarismo, pela direita, e pela promessa de um governo protofascista.
*
Memória (1) – Há 38 anos, em 27 de agosto de 1980, nos estertores da ditadura militar, D. Lyda Monteiro morreu em um atentado a bomba praticado por agentes do Exército Brasileiro. Tinha 59 anos e era secretária da OAB/RJ. A explosão arrancou seu braço e queimou metade de seu corpo. Lyda morreu a caminho do hospital. No mesmo dia, outra bomba explodiu na Câmara dos Vereadores do Rio da Janeiro, atingindo o funcionário José Ribamar de Freitas, que perdeu um braço e uma vista.
Memória (2) – Há 37 anos, em abril de 1981, dois terroristas, um oficial e um sargento, ambos do Exército e em missão, tentaram explodir o Riocentro (centro de convenções do Rio de Janeiro), quando lá uma multidão de milhares de jovens participava de um espetáculo musical. Eventos sombrios, que precisamos lembrar para jamais permitir que se repitam.
Marielle, ainda – Quando a polícia fluminense e a força militar interventora anunciarão os nomes dos mandantes e dos executores do assassinato da vereadora Marielle Franco? Ficaremos esperando, assim de braços cruzados, até que chacina caia no esquecimento?
Roberto Amaral 
______________
Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Getúlio Vargas – Aprendendo com os erros

Sexta, 24 de agosto de 2018
(Artigo publicado originariamente em agosto de 2015)

Por Adriano Benayon | Brasília, 31/08/2015

Adriano Benayon [morto em 
12 de maio de 2016] é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

Agosto de 1954 foi o marco para a destruição do desenvolvimento do País, que o presidente Vargas entendia, corretamente, só ser possível havendo autonomia nacional.

2. Ele conduzia o País na direção do desenvolvimento, o que o tornou alvo a abater pelo império angloamericano. Documentos históricos provam ter sido Vargas derrubado duas vezes (1945 e 1954), por intervenções das potências angloamericanas (EUA e Reino Unido).

3. Isso corresponde à lógica imperial: era-lhes intolerável o surgimento de uma potência no Hemisfério Sul e no “Hemisfério Ocidental”. Geopolítica pura.

4. O objetivo foi atingido por intermédio de agentes locais – pagos ou não, conscientes ou não -, como jornalistas, políticos e militares, os quais apareceram mais que aquelas potências diante do público.

5. Pensando nos que contemplam lutar pela sobrevivência do País, discuto, neste artigo, erros de Vargas que contribuíram para o êxito dos inimigos do País.

6. Desfazendo mitos, rejeito a versão rósea e insustentável – embora geralmente aceita – de que o suicídio do presidente e a carta-testamento teriam impedido os golpistas de fazer prevalecer suas políticas. Veja-se o título de um dos livros sobre o presidente: “Vitória na Derrota – A Morte de Getúlio Vargas.”

7. É verdade que a tragédia revelou o profundo amor do povo a Getúlio. Durante, pelo menos, quinze dias, o povo reagiu, até com violência, fazendo se esconderem desafetos e caluniadores de seu líder.

8. Entretanto, o presidente não havia organizado o povo, nem formado seguidores para liderá-lo após sua morte. O único talvez com têmpera para isso, Brizola, ainda era um jovem deputado estadual.

9. Devido a esse vácuo, o furor popular arrefeceu, Eugênio Gudin e Otávio Bulhões, ligados à finança britânica, foram designados para comandar a economia e instituíram a política antinacional destinada a acabar com a autonomia industrial e tecnológica do País.

10. Em janeiro de 1955, foram baixadas as Instruções 113 e seguintes, da SUMOC, e mais medidas para entregar a economia ao controle dos carteis transnacionais, com subsídios incríveis. Desde 1956, essa política foi aplicada intensivamente por JK e nunca mais revertida.

11. É óbvio que a versão conformista interessa aos simpatizantes do império. Mas, paradoxalmente, predomina também entre a maioria dos admiradores e supostos seguidores de Vargas.

12. De resto, as atitudes políticas de muitos desses demonstram terem sido infieis ao nacionalismo do presidente, fosse por ingenuidade, covardia, falsidade ou até por colaboração interessada com o sistema de poder transnacional.

13. Entre os erros fatais de Getúlio esteve admitir a falsa – ou, no mínimo, irrelevante – pecha de ter sido ditador.

14. Queixavam-se de ele ter ficado 15 anos consecutivos na presidência, de 1930 a 1945, e o acusavam de tencionar voltar a ser ditador, mesmo quando eleito pelo voto direto, em 1950.

15. Na realidade, o espírito de Vargas era conciliador. Não, revolucionário. Assumira a liderança da revolução de 1930, por ser o político mais proeminente do Rio Grande do Sul. Outros foram mais ativos no movimento.

16. À frente de uma revolução, tinha de comandar um governo autoritário e designar interventores nos Estados, a maioria tenentes, que simbolizavam o apoio do Exército ao movimento, além de ideais de mudança política e social.

17. Nos primeiros meses de 1932 Vargas já promulgara a nova lei eleitoral e marcara para 03.05.1933 as eleições para a Assembleia Constituinte. Sem razão, em julho de 1932, foi desencadeada a revolução “constitucionalista”, na verdade, um movimento liderado pela oligarquia paulista vinculada aos interesses britânicos.

18. A Constituição de 1934 estabeleceu eleição indireta para a presidência da República. Eleito Vargas, não cabe qualificá-lo de ditador.

19. Durante o prelúdio da 2ª Guerra Mundial, novembro de 1937, um ano após a tentativa comunista de novembro de 1935, veio, por iniciativa de oficiais do Exército, o golpe criando o “Estado Novo”, com o objetivo de reprimir os comunistas.

20. Portanto, Vargas só poderia, em tese, exercer dois mandatos em condições democráticas. O primeiro, quando presidente constitucional, de 1934 a 1937, interrompido pelos chefes militares.

21. O modelo político-econômico do Estado Novo combinou conceitos que Vargas e o General Góis Monteiro haviam formulado em 1934, sendo a ideia básica o desenvolvimento industrial sob a direção do Estado.

22. No final do Estado Novo e no mandato ganho em 1950 – e abortado pelo golpe de 1954 – Getúlio preocupou-se em desmentir a imagem de ditador. Foi demasiado tolerante – e até complacente – diante das agressões, complôs e conspirações.

23. O problema era que sempre esteve sob fogo do império angloamericano, inconformado com a permanência de uma liderança no Brasil capaz de conduzi-lo ao desenvolvimento.

24. Embora exalte sempre o presidente Vargas, vejo uma contradição entre sua personalidade conciliadora e a consciência, que tinha, de ser a autonomia nacional indispensável para realizar o desenvolvimento.

25. Sendo essa a via escolhida, não havia campo para facilitar as ações subversivas de seus adversários. Ademais, enfrentava-se um império mundial n vezes mais poderoso que o Brasil: financeira, industrial e militarmente.

26. Em 1952, Vargas ajudou o inimigo ao não prestigiar o Ministro do Exército, Estillac Leal, quando os quintas-colunas Góis Monteiro e João Neves da Fontoura “negociaram” com os EUA o famigerado acordo militar pelas costas de Estillac.

27. Com isso, este se demitiu do ministério e foi perseguido, nas eleições para o Clube Militar, por oficiais golpistas, cujas pressões sobre Leal e partidários deste lhe determinaram a derrota.

28. Novamente, em 1953, o presidente mostrou pulso fraco, não mandando punir os coroneis signatários do manifesto contra o reajuste do salário-mínimo.

29. Daí, a conspiração de agosto de 1954 encontrou-o enfraquecido, quando implicaram a guarda pessoal do presidente no assassinato do Major Vaz, da Aeronáutica, em esquema montado para fazer crer que o alvo do crime fosse o virulento jornalista e deputado Carlos Lacerda.

30. O crime foi articulado sob a direção de Cecil Borer, titular da DOPS – Delegacia de Ordem Política e Social, em que ingressara, em 1932, com o Chefe de Polícia, também pró-nazista, Filinto Muller.

31. Borer continuou com Dutra, simpatizante fascista. Vargas não o substituiu, em 1950, não obstante saber que os nazi-fascistas, então, colaboravam intensamente com os serviços secretos angloamericanos.

32. Getúlio também foi imprevidente, ao nomear o jovem – e sempre acomodador – deputado Tancredo Neves para o ministério da Justiça, ao qual se subordina a Polícia. Deviam ter impedido as ilegalidades do inquérito policial-militar.

33. A própria instauração do IPM, uma semana após o atentado, significou quebra da autoridade do presidente, concedida por este próprio.

34. Mesmo tendo logrado distorcer os fatos, através da ação combinada do DOPS e da Aeronáutica, e da campanha da mídia, os conspiradores não teriam conseguido derrubar Vargas, se ele não se tolhesse por preconceitos ideológicos de seus adversários.

35. Teria lutado para inteirar-se da verdade e fazê-la conhecer. Se esta já não lhe interessava – por estar cansado e decepcionado – certamente era do interesse do povo. O Brasil precisava dela.

36. Getúlio podia ter feito prevalecer os interesses do País, apoiado pela Vila Militar, no Rio, onde estavam os tanques. Essa era sua obrigação perante o Brasil, como em 1945, quando da anterior deposição por militares manipulados por potências estrangeiras.

37. Então, o pretexto foi a intenção de continuar no poder, falsamente atribuída a Vargas. Tanto não a tinha, que – além de ter convocado eleições e não ser candidato -, Getúlio dissuadiu de subjugar o golpe os chefes militares que tinham poder de fogo e faziam questão fazê-lo, não fosse a ordem contrária do presidente, sob a irrelevante justificativa de não querer o derramamento de sangue.

38. Isso não estava em questão, pois, dada a superioridade de forças dos legalistas, os golpistas se retrairiam. Vide Hélio Silva: “1945 Por Que Depuseram Vargas” – Civilização Brasileira 1976, pp. 253/4, em que reporta o apoio ao presidente do Gen. Odylio Denys, então Comandante da Polícia Militar, e do Marechal Renato Paquet, Comandante da Vila Militar.

39. Consequência da saída de Getúlio, por desapego ao poder, e sem substituto à altura, resultou, de 1945 a 1950, a interrupção do desenvolvimento do País: o Mal. Eurico Dutra, vencedor das eleições, graças a Vargas, traiu os votos, sendo subserviente às potências angloamericanas.

40. Durante a 2ª GM, Vargas reduzira a quase zero a dívida externa e acumulara reservas cambiais. Dutra as dilapidou com importações supérfluas. Prejudicou a industrialização e dissipou as divisas congeladas pelo Reino Unido, “em troca” de ferrovias obsoletas, do Século XIX.

41. O custo do golpe de 1954 foi muitíssimo mais alto: a entrega subsidiada da indústria ao controle do capital estrangeiro, o que inviabiliza, até hoje, o desenvolvimento. Isso só pode ser revertido através de transformações estruturais profundas.

42. De fato, a dependência do País não cessou de aumentar, desde a legislação dos pró-imperiais instalados com o golpe, a qual foi aplicada e ampliada por JK – outro que traiu os votos getulistas e iniciou a sequência de crises que até hoje persegue o País.

* – Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

24 de agosto de 1954. O suicídio de Getúlio Vargas

Sexta, 24 de agosto de 2018
(Postada originalmente em 24 de agosto de 29017)


24 DE AGOSTO DE 1954

O suicídio de Getúlio Vargas

Wladmir Coelho

A América Latina representa um território estratégico para os Estados Unidos que historicamente utiliza-se de diferentes artimanhas visando o controle econômico e político da região.

A doutrina Monroe de 1823, resumida na frase “América para os americanos”, distante de propor a defesa da liberdade dos diferentes povos do continente criou os meios para o monopólio estadunidense consolidado na base da diplomacia do canhão.

A doutrina do destino manifesto complementa o controle justificando, em bases sobrenaturais, o avanço dos interesses do capital através do massacre dos povos originários e ampliação das fronteiras do império crescente.

Mataram os índios, roubaram grande parte do território mexicano, ocuparam Cuba, o resto do Caribe e colocaram as barbaridades decorrentes desta política na conta do Supremo Criador.

Sim meus amigos; os capitalistas dos Estados Unidos declaram guerra, realizam golpes em diferentes países, roubam riquezas, acreditam, pela vontade de Deus que os abençoou  com a missão de levar o desenvolvimento ao mundo. Alguma semelhança com o ISIS? Alguma semelhança com Hitler e seu espaço vital usado como justificativa de dominação dos povos do Leste?

Diante desta crença quaisquer resistências aos interesses do império constituem um ataque a vontade não de um homem ou de uma classe e sim uma afronta aos desígnios do Pai justificando-se o uso da força e desta a morte de milhões de hereges.

A crença no destino manifesto legitima a demonização de qualquer liderança contrária aos interesses do império e desta a escolha de um puro, na terra dos pecadores, em condições de aplicar corretamente a vontade divina.

Getúlio Vargas foi um destes demônios. Um presidente patriota com a coragem de assumir a criação de uma empresa petrolífera oferecendo as condições de rompimento com o modelo econômico de base colonial.

Apresentou, ao lado da petrolífera nacional, os fundamentos de criação da Eletrobras atitudes essenciais rumo a garantia da segurança energética nacional e efetivação da soberania nacional.

Soma-se a segurança energética as iniciativas de regulamentação das relações trabalhistas proporcionando os elementos mínimos para o fortalecimento do mercado interno. Getúlio Vargas rompeu com a crença no destino manifesto. Foi demonizado pelos mesmos agentes do imperialismo ainda presentes em nosso continente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O SUICIDIO DE GETÚLIO VARGAS

Quinta, 23 de agosto de 2018

A notícia do suicídio do presidente Vargas resulta em revolta popular 




O SUICIDIO DE GETÚLIO VARGAS

Por
Wladmir Coelho


Temos no dia 7 de setembro  a   referência oficial para as comemorações da independência política do Brasil, contudo duas outras datas devem ser recordadas exatamente por representarem a aspiração de independência política associada a necessária independência econômica.

Em ordem cronológica temos o 21 de abril dedicado ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um homem do povo que ousou defender o rompimento com o modelo colonial.

Imaginem este simples ato (defender a independência política e econômica) e sua relação com o capitalismo nascente sedento de ouro para investimento em maquinário, louco para ampliar as áreas de fornecimento de matéria prima somado a necessária ampliação do mercado para a venda de seus excedentes.

A colônia, sentenciam os defensores do modelo, deve aguardar o momento natural para a sua emancipação fornecendo inicialmente matérias primas ou agrícolas e somente após acumular os recursos necessários iniciar um processo de industrialização e assim romper com sua metrópole.
Qualquer ato que venha prejudicar este caminho “natural” é considerado uma ameaça à civilização e deve ser punido com rigor. No caso do Tiradentes sabemos todos como terminou.

A segunda data é o 24 de agosto quando, em 1954, suicidou o presidente Getúlio Vargas em ato de denuncia a tentativa de um golpe de estado articulado por setores da direita antinacionalista   submissa   ao imperialismo.

Vargas era apontado nas páginas e microfones da chamada imprensa livre como assassino e corrupto sem qualquer oportunidade de defesa. Toda calunia contra ele era transformada em verdade ganhando força nos clubes de senhoras da sociedade, nos salões de bailes, nos camarotes do Jockey e junto aos setores antinacionalistas infiltrados exatamente nas instituições cuja responsabilidade é a defesa da soberania nacional.

Diga-se de passagem, estes mesmos grupos surgem de tempos em tempos organizando marchas autoproclamadas patrióticas associadas a dita defesa da família resultando, este discurso, em aprofundamento da submissão ao imperialismo, retirada de direitos do povo e supressão da democracia.

Criador do processo de industrialização nacional Vargas ousou desenvolver os meios necessários ao rompimento com o modelo econômico de base colonial defendendo fortalecimento do mercado interno considerando para este fim a necessária intervenção do Estado.

A regulamentação das relações trabalhistas, a proteção do capital nacional a criação de um sistema de previdência social caracteriza o modelo varguista. Veja: não temos aqui um Estado assumindo o planejamento da economia ou o controle dos meios de produção associado ao fim da propriedade privada. Vargas apresentava um modelo capitalista para o Brasil e mesmo assim foi odiado pelos setores dominantes. Qual a causa?

A resposta sabemos: o império não tolera ameaças ao seu domínio e as politicas nacionalistas dos países periféricos representam graves fraturas no modelo de dominação internacional. Vargas ao propor o fortalecimento do capital nacional – utilizando para este fim inclusive o poder econômico do Estado – enfrenta diretamente as grandes empresas multinacionais notadamente aquelas do setor petrolífero.

A criação da Petrobras está diretamente associada a crise que resultou no suicídio do presidente Getúlio Vargas considerando o controle – pelo capital nacional neste caso representado pelo Estado – de importante etapa do processo produtivo.

Imagine um país periférico controlando sua produção a partir de políticas econômicas não mais submetidas aos interesses das multinacionais do petróleo e utilizando o poder econômico deste para ampliação do consumo interno. Qual seria o próximo passo deste povo? Quais seriam as contradições decorrentes do modelo varguista e a forma de sua superação?

O império sabe as respostas. Os donos do poder, submissos ao império, sabem as respostas e preventivamente utilizam da ideologia para garantir a continuidade do modelo do qual depende a sobrevivência de seus interesses.

O 24 de agosto deve ser lembrado como data de resistência do povo brasileiro contra a exploração imperialista simbolizado do ato extremo do presidente Getúlio Vargas.