Domingo, 4 de fevereiro de 2012
Da revista ÉpocaLouvor e distinção
Como o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, obteve o título de doutor em ciências econômicas pela Universidade de Campinas
Capítulo 1
EM QUE SE NARRA UM RETORNO TRIUNFAL À CARREIRA ACADÊMICA
"Se fosse pelos critérios de antigamente, seria aprovado com distinção e louvor”, disse ao novo doutor em ciências econômicas o então diretor do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mariano Francisco Laplane. Era sexta-feira, 17 de dezembro de 2010. Umas 150 pessoas lotavam o auditório do IE, no campus de Barão Geraldo, em Campinas, para assistir à defesa de tese do então senador, já indicado ministro da Ciência e Tecnologia do governo Dilma Rousseff, e hoje ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Antes de conceder-lhe o título de doutor, a banca – formada pelos professores doutores Delfim Netto, Luiz Carlos Bresser Pereira, Ricardo Abramovay e João Manuel Cardoso de Mello – o arguiu por três horas e meia.
EM QUE SE NARRA UM RETORNO TRIUNFAL À CARREIRA ACADÊMICA
"Se fosse pelos critérios de antigamente, seria aprovado com distinção e louvor”, disse ao novo doutor em ciências econômicas o então diretor do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mariano Francisco Laplane. Era sexta-feira, 17 de dezembro de 2010. Umas 150 pessoas lotavam o auditório do IE, no campus de Barão Geraldo, em Campinas, para assistir à defesa de tese do então senador, já indicado ministro da Ciência e Tecnologia do governo Dilma Rousseff, e hoje ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Antes de conceder-lhe o título de doutor, a banca – formada pelos professores doutores Delfim Netto, Luiz Carlos Bresser Pereira, Ricardo Abramovay e João Manuel Cardoso de Mello – o arguiu por três horas e meia.
A tese, de 537 páginas, chama-se As bases do Novo Desenvolvimentismo no Brasil: análise do governo Lula (2003-2010).
Nas palavras do autor: “O ponto fulcral desta tese é que o Brasil, ao
longo do governo Lula, começou a construir um Novo Desenvolvimentismo,
um novo padrão de desenvolvimento substancialmente distinto tanto do
neoliberalismo quanto do antigo nacional-desenvolvimentismo predominante
no passado”.
O sociólogo Mariano Laplane foi um dos principais responsáveis pela
volta de Mercadante à Unicamp, como aluno de pós-graduação, mais de uma
década depois de ele ter abandonado os estudos acadêmicos em prol da
política. Sua readmissão foi aceita em março de 2010, a pedido de
Laplane, por uma comissão de pós-graduação do Instituto de Economia.
Professor licenciado do IE e amigo de Laplane, Mercadante era senador,
líder da bancada do PT no Senado e candidato a governador de São Paulo.
Estava afastado da universidade havia 12 anos – mais precisamente desde
1998, quando, eleito para o segundo mandato de deputado federal,
abandonara um doutorado iniciado em 1995, sob a orientação da professora
Maria da Conceição Tavares. Em 2001, quando venceu o prazo de seis anos
para concluí-lo, sua matrícula foi cancelada. A Unicamp permite,
excepcionalmente, que qualquer pós-graduando nessa condição possa ser
readmitido, desde que cumpra regras regimentais específicas.
Convidadíssima para a banca, Maria da Conceição, a primeira orientadora
do doutorado de Mercadante, não foi. Mandou uma carta, que Laplane leu:
“Estou prostrada com uma forte gripe. Você não sabe como isso me dói,
pois o considero meu discípulo e amigo dileto. Diga à banca que acho a
tese muito boa e informativa, além de considerar extremamente importante
o debate sobre o novo estilo de desenvolvimento, com eixo no social”.
Substituiu-a, de última hora, o professor da Universidade de São Paulo
(USP) Ricardo Abramovay. É outro amigo de Mercadante e pai do advogado
Pedro Abramovay, que comandou a Secretaria Nacional Antidrogas no
governo Lula e foi, mais de uma vez, ministro interino da Justiça.
Naquela sexta-feira, o senador e futuro ministro candidato a doutor
ocupava uma mesa lateral, à direita da comissão examinadora. Usava
bigodão, blazer azul-marinho e camisa branca, sem gravata. Aos 56 anos,
parecia feliz, confortável e tranquilo. Cada membro da banca tinha o seu
massudo exemplar de As bases do Novo Desenvolvimentismo no Brasil: análise do governo Lula (2003-2010). Faltavam 13 dias para o segundo governo Lula acabar.
Na hora da arguição, Delfim Netto, por ser o mais velho, foi o primeiro
a quem Laplane passou a palavra. Professor doutor aposentado da
prestigiada Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São
Paulo (FEA-USP), Delfim, ministro da Fazenda durante a ditadura, tem se
mostrado um fã público dos governos petistas, interlocutor do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Fazenda, Guido
Mantega – além de um velho amigo de Mercadante, desses de dar conselhos
políticos em momentos cruciais. Depois dos elogios de praxe, como
“profissional absolutamente brilhante”, Delfim atacou a ideia central da
tese: que os governos Lula representaram uma mudança no paradigma de
desenvolvimento do Brasil. “O que o Lula fez, na verdade, não foi uma
mudança, não foi a construção de um novo paradigma”, disse Delfim. “Ele
simplesmente aprofundou aquilo que precisa ser aprofundado e que já está
dentro da Constituição de 1988. Foi muito bem feito e não vou discutir,
porque nunca brigo com os fatos.”
