“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Forte São Marcelo. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Forte São Marcelo. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Piketty: o Brasil precisa vencer

Quarta, 14 de outubro de 2026

Piketty: o Brasil precisa vencer

Seria trágico sucumbir ao bolsonarismo, quando Trump se fragiliza. País e Lula podem ter grande papel na luta para mudar o sistema financeiro global. Mas sem enfrentar o rentismo e a injustiça tributária, governo sempre estará de mãos atadas

OutrasPalavras                             Crise Brasileira
Matéria postada originalmente no OutrasPalavras em 13/10/2026 às 18h15

Foto: Ed Alcock/The Guardian

Thomas Piketty em entrevista a Thiago Gama. Colaboração: Antonio Martins

Thomas Piketty defendeu a tese de doutorado aos vinte e dois anos e foi dar aula no Massachusetts Institute of Technology, de onde voltou à França convencido de que a economia estadunidense sabia muito de modelos e quase nada de história. Desde 2000 é diretor de estudos na École des hautes études en sciences sociales. Ajudou a fundar a Paris School of Economics, dirigiu a escola entre 2005 e 2007, leciona ali até hoje e passou pela London School of Economics como Visiting Centennial Professor. Ao lado de Lucas Chancel, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, codirige o World Inequality Lab e a World Inequality Database, o laboratório que reconstruiu, país por país e século por século, para onde foi o dinheiro do mundo. O capital no século XXI vendeu dois milhões e meio de exemplares em quarenta línguas. Vieram depois Capital e ideologia, Uma breve história da igualdade, Une histoire du conflit politique, escrito com Julia Cagé, e Nature, culture et inégalités. Em junho deste ano o laboratório lançou em Paris o Global Justice Report, que apresenta ao mundo uma estratégia para ser alcançada até 2100 com teto de 1,8 grau para o aquecimento global e rendas convergentes, financiada por um imposto global sobre as grandes fortunas.

Foi esse homem que o Outras Palavras ouviu por videoconferência na manhã de 9 de outubro, pela segunda vez em quatro meses, cinco dias depois de o Brasil acordar com Flávio Bolsonaro à frente de Lula no primeiro turno, 47,03% contra 45,16%, e com a maior abstenção desde 1998. Piketty conhece os números brasileiros de perto, porque é o laboratório dele que os produz. A conversa inteira girou em torno de 25 de outubro.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

O mito da “geração empreendedora”

Quarta, 20 de maio de 2026


O mito da “geração empreendedora”

Cresce, contra as evidências, ideia de que os jovens “são, na maioria, autônomos”, “rejeitam a CLT” e “desejam empreender”. O que estes argumentos escondem – e o que revelam… Qual a urgência de uma agenda de trabalho digno para a juventude

OUTRASPALAVRAS                               Trabalho e Precariado
Por Gabriel Medeiros

Título original:
O mito da geração empreendedora: Juventude, CLT e precarização no Brasil

1. Introdução

Nos últimos anos, uma tese tem circulado insistentemente na mídia e no discurso de lideranças empresariais e políticas de todas as colorações partidárias, enfrentando pouca oposição: a juventude não quer mais a CLT. Dessa afirmação derivam outras tantas, como “o trabalho da juventude agora é autônomo” e “o que a juventude quer é ‘empreender’”. O diagnóstico alegado é de que estaríamos diante de uma “rejeição estrutural ao emprego formal” por parte da juventude para, em seguida, apresentar propostas de política pública que privilegiam o fomento ao empreendedorismo individual em detrimento do trabalho assalariado e formal1.

Este artigo parte de uma hipótese contrária: a de que essa narrativa descreve mal a realidade, e que sua disseminação não é neutra. A seguir, se buscará demonstrar que a juventude brasileira é majoritariamente assalariada, e que a construção do “jovem empreendedor” como norma serve menos a um diagnóstico fiel da inserção laboral juvenil e mais a um projeto de desregulamentação do trabalho que transfere riscos do capital para o trabalhador e termina por precarizar as suas condições de vida. Compreender essa distinção é condição para a formulação de uma agenda pública capaz de responder aos desafios que os jovens efetivamente enfrentam em sua jornada.

sábado, 25 de abril de 2026

“A Fiocruz pode ser a Petrobras do século 21”

Sábado, 25 de abril de 2026

“A Fiocruz pode ser a Petrobras do século 21”

Complexo Econômico-Industrial da Saúde pode conduzir novo ciclo de desenvolvimento, gerando empregos de qualidade, modernização tecnológica e melhora do cuidado. Seu trunfo: poder de compra do SUS. Uma necessidade: reforçar o planejamento estatal

OutraSaúde                        Indústria da Saúde
Por Guilherme Arruda

Texto publicado originalmente no 
OutraSaúde  em 24/04/2026.

Operário de BioManguinhos na linha de produção. Foto: Bernardo Portella/ABDI


Denis Gimenez em entrevista a Guilherme Arruda

Historicamente, o mundo do trabalho no Brasil tem como principal traço a predominância dos empregos informais, de salários diminutos e baixa produtividade. Nesse cenário, apesar de crescentes ameaças de precarização, o mercado laboral no setor saúde se destaca por melhor remuneração e maior complexidade econômica. Poderia o impulsionamento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) ser a chave para desencadear um novo ciclo de desenvolvimento que gere milhões de ocupações dignas para os brasileiros?

É o que propõem os pesquisadores do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho (Cesit) e professores do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), Denis Maracci Gimenez e Marcelo Manzano Prado, no artigo CEIS: fonte de empregos de qualidade. O escrito faz parte da série “Trabalho para todas as pessoas: é possível?”, uma publicação do Cesit em parceria com a Fundação Friedrich Ebert Brasil.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Assim os rentistas dissolvem a democracia

Sábado, 24 de janeiro de 2026

Assim os rentistas dissolvem a democracia

Desigualdade abissal exposta em Davos serve-se também de um abismo técnico. Sociedades e Estados decidem em ritmo analógico, mas riqueza social é capturada em velocidade quântica. Luta por soberania tem dimensão político-digital decisiva

OutrasPalavras                 Mercado x Democracia

Publicado no OutrasPalavras em 23/01/2026 às 19:55

OUTRASPALAVRAS
Por Ladislau Dowbor | Tradução: Antonio Martins

Quando Jack Welch transformou a General Electric de uma produtora de eletrodomésticos em uma “investidora” financeira, multiplicando lucros com uma base produtiva reduzida, ele influenciou uma profunda mudança na cultura empresarial norte-americana, generalizando o rentismo. No centro das empresas produtivas agora está o acionista .

No Brasil, temos imitadores bem-sucedidos como a 3G Capital, pertencente a Lemann, Sicupira e Telles, uma das maiores fortunas do país, com raízes no país, mas sede no paraíso fiscal de Luxemburgo. Vimos até onde eles podem chegar com o escândalo das Lojas Americanas. Michael Hudson ampliou a análise com o conceito de FIRE (Finanças, Seguros e Imóveis), resumindo as diversas formas atuais de extração de excedente social por meio das áreas de finanças, seguros e especulação imobiliária.

Brett Christophers é um dos principais contribuidores para a compreensão de como a extração de riqueza ocorre sem uma contribuição produtiva correspondente em sete setores: finanças, recursos naturais, propriedade intelectual, plataformas digitais, contratos de serviços, infraestrutura e renda fundiária.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

‘Dez anos de luta e dor’: PMs são condenados pela Chacina do Curió uma década depois

Sexta, 26 de setembro de 2025


26/09/2025 12h09 Paulo Batistella

Quinto júri da chacina, ocorrida em 2015 em Fortaleza (CE), terminou esta quinta (25/9). Marcílio Costa de Andrade foi condenado a 315 anos, 11 meses e 10 dias de reclusão. Luciano Breno Freitas Martiniano foi sentenciado a 275 anos e 11 meses

Julgamento foi iniciado na última segunda-feira, em Fortaleza | Foto: Luís Silva/Ascom TJ-CE/Divulgação

Um julgamento encerrado pela Justiça do Ceará na noite desta quinta-feira (25/9) condenou dois dos policiais militares responsáveis pela Chacina do Curió — episódio de 2015 em que 11 pessoas foram mortas indiscriminadamente na periferia de Fortaleza em vingança pela morte de um PM.

O soldado Marcílio Costa de Andrade foi sentenciado a 315 anos, 11 meses e 10 dias de reclusão. Já o cabo Luciano Breno Freitas Martiniano recebeu pena de 275 anos e 11 meses. Foi determinada a prisão provisória de ambos, já cumprida, e a expulsão deles do quadro da Polícia Militar cearense (PM-CE).


Os dois réus foram condenados pelos crimes de homicídio qualificado (11 vezes), homicídio tentado (três vezes), tortura física (três vezes) e tortura psicológica. No cálculo da pena de Marcílio, foi considerado o agravante de articulação da presença dos agentes envolvidos nos crimes. As defesas deles pretendem recorrer da sentença, conforme divulgou o Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE).

domingo, 31 de agosto de 2025

Marcas profundas —Emendas parlamentares, Constituição retalhada e semipresidencialismo: as heranças do golpe contra Dilma e o destino de seus protagonistas

Domingo, 31 de agosto de 2025

Nove anos depois, veja consequências da conspiração que derrubou a primeira mulher eleita presidenta do Brasil

Brasil de Fato — São Paulo (SP)
Rodrigo Chagas
31.ago.2025

Neste domingo, 31 de agosto, completam-se nove anos do afastamento de Dilma Rousseff, primeira mulher a ocupar a presidência da República. O processo, conduzido pelo Congresso sob a acusação de “pedaladas fiscais”, foi amplamente denunciado por movimentos populares, juristas e cientistas políticos como um golpe parlamentar, jurídico e midiático.

Quase uma década depois do golpe, as consequências seguem moldando a política brasileira. De um lado, o Congresso passou a abocanhar fatias cada vez maiores do orçamento, condicionando o Executivo o modelo de emendas impositivas e consolidando o chamado orçamento secreto, hoje repaginado em versões como as emendas Pix. Ao mesmo tempo, a Constituição de 1988 foi retalhada: direitos sociais foram fragilizados, o teto de gastos e reformas neoliberais foram implementados, mais empresas públicas foram privatizadas. Cresceu, ainda, a pressão pelo semipresidencialismo. Em resumo, um programa que não havia vencido uma eleição por quase 20 anos, mas que estava represado no Congresso de direita.

Entretanto, ao contrário do que esperavam os principais articuladores do golpe, no campo político, o impeachment abriu espaço para a ascensão da extrema direita, enquanto os partidos tradicionais da Nova República perderam protagonismo. A Lava Jato, motor do lawfare contra o PT, fragmentou-se após o rompimento com Jair Bolsonaro (PL) e escândalos como a Vaza Jato. O campo progressista, por sua vez, resistiu contra todas as retiradas de direitos descritas acima e contra o esvaziamento dos partidos tradicionais. Além disso, venceu as eleições presidenciais em 2022, garantindo a volta de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto.

sexta-feira, 28 de março de 2025

O julgamento dos golpistas é uma virada de página

Sexta, 28 de março de 2025
Por Roberto Amaral [1]
 
"Há muito este país espera uma revolução: a do cumprimento das leis."
— Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo (26/03/2025)
 
O país assiste a um dos momentos mais importantes da construção republicana, mas dele parece ausente a nação, mal informada pela grande imprensa — que reduz o fato político essencial a questiúnculas jurídicas — e pelos partidos, desmobilizados e desmobilizantes, perigosamente desafeitos à ação. Enquanto o dever coletivo seria esclarecer a opinião pública, carente de debate e presa das milícias digitais, a esquerda — estranho destino! — conforma-se como plateia cansada. Cruzamos os braços e nos quedamos em cômoda tranquilidade, porque delegamos nossos destinos de nação e país ao STF.

Pela primeira vez na história — cevada e abastardada por incursões golpistas das Forças Armadas e pela conciliação a serviço dos interesses da classe dominante (a mesma, desde sempre, dos engenhos e do latifúndio até a Faria Lima) —, a República se apresenta disposta a rever sua inércia política e romper com a crassa indulgência com o crime, marca que nos persegue desde as origens de nossa formação.

O julgamento dos principais criminosos do governo passado e da intentona de 8 de janeiro de 2023 é ato político na sua melhor acepção: diz, finalmente — e hosanas seja de uma vez por todas! —, que o atentado contra as instituições democráticas é crime e que seus autores devem ser punidos com o máximo rigor da lei, sejam eles os vândalos mobilizados pelo ódio e a ignorância, sejam os paisanos de paletó e gravata, sejam os engalanados de farda.

Estamos diante de uma virada de página significativa e, talvez, só agora possamos conhecer a efetiva restauração democrática, iniciada timidamente com o pacto de 1985. Sob o império das circunstâncias, esse pacto possibilitou a reconstitucionalização de 1988, sem assegurar, todavia, o império do poder civil — conditio sine qua non de qualquer pretensão democrática digna do nome. 

Abandonando o Planalto pelas portas dos fundos, os militares conservariam, até aqui, a preeminência sobre a política nacional. Denotativa dessa distorção é o fato de, hoje, em nosso governo, o ministro da Defesa comportar-se como mero porta-voz da caserna junto ao poder civil.

Há, portanto, razão para registrar a mudança de rota: pela primeira vez em nossa história, um ex-presidente da República e meia dúzia de generais — réprobos, mas poderosos — conhecem o banco dos réus e são processados pelo poder civil por crime contra a democracia. Isto não é pouco, e precisa ser destacado.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

O novo ano e o horizonte desafiador

Quinta, 16 de janeiro de 2025

Roberto Amaral*

Os sonhos e as esperanças se desmancham no ar quando estamos apenas vencendo os primeiros 30 dias de 2025, promessa de projeção do ano que passou. Se parco é o inventário do que temos por comemorar, extensa é a pauta do que devemos temer, habitantes de nação dependente, de uma dependência geopolítica e ideológica inserida na periferia do capitalismo. Somos uma província no Sul Global para onde foram designados os subdesenvolvidos de ontem, após a repaginação do mundo determinada pelo fim da Guerra Fria, proclamando a vitória da globalização e dos EUA.

Não há como, neste novo mundo que já nasce velho, ignorar nossa brasileiríssima tragédia histórico-geográfica, mas diante dela nos incumbe, como povo, sociedade e Estado, saber enfrentar os desafios que já nos chegam correndo com botas de sete léguas. Ou deciframos a esfinge ou seremos devorados.

Para bem compreender os tempos presentes, construção de tempos passados (compreender para nele intervir), o primeiro passo é a análise do cenário internacional, que nos lembra os piores momentos do século passado, o qual, entre outras catástrofes humanitárias, nos legou duas guerras mundiais. Mais uma lição da História: é mediante guerras de toda ordem que se desenvolvem e se resolvem as disputas de hegemonia, e é este o conflito de nossos dias, anunciante de embates ainda mais graves no amanhã que podemos divisar sem o recurso das lentes do tempo.

Se “lá fora” são maus os presságios, na província continental os tempos de hoje cobram engenho e arte. E, sem dúvida, alguma audácia e coragem, predicado dos vencedores.

O mundo, sob a égide do capitalismo, parece haver optado pela regressão, e nela investe com dedicação suicida. Faz décadas, a contar primacialmente do fim da Guerra Fria, tornada desnecessária com o suicídio da URSS e o fracasso das experiências de capitalismo de Estado do Leste europeu, a classe trabalhadora, onde a ideologia neoliberal se fez política de Estado — ou seja, praticamente em todo o mundo — vem sofrendo seguidas derrotas nos planos econômico, social, político e cultural, acumulando recuos políticos e revezes estratégicos que não podem ser reduzidas, tão-só, às consequências anunciadas pelas novas relações de produção, mais e mais condicionadas pela preeminência do capital sobre o trabalho.

Fruto das contradições inerentes ao desenvolvimento do capitalismo financeiro monopolista, soma-se (e aí não se trata de crise) o acirramento das chamadas guerras comerciais, o aumento do número de confrontos militares, o expansionismo terrorista do sionismo, a naturalização do genocídio, a falência dos organismos internacionais, a começar pelo fracasso da ONU. Tudo em meio a uma crise ambiental cumulativa que parece sem solução. Desta tragédia já somos testemunha e vítima, e sabemos aonde pode levar o negacionismo.

Este é o nosso mundo de complexa fragilidade física e política que mais e mais se assemelha à casca de noz a que se referia Stephen Hawking. Desta nave somos passageiros sem acesso à cabine de comando. Mas tudo o que nela ocorre nos diz respeito diretamente, pois intervém diretamente em nosso destino, como planeta e humanidade.

Os cordéis da globalização — fenômeno econômico, político, militar e ideológico — estão sob a égide do maior concerto de poder jamais conhecido desde a longa era romana, que a paranoia do 3º Reich intentou refazer, ao preço conhecido. Os EUA caminham para o apogeu de seu declínio, em plena crise política, social e ética, que se vem acentuando nas últimas décadas, ao tempo em que acirra a disputa pela recuperação da hegemonia global, o que pode nos levar à terceira guerra mundial. Dela, se não sabemos qual será o primeiro passo, e não sabemos mesmo se esse primeiro passo já não terá sido dado, temos certo como será o último capítulo, que talvez ninguém possa registrar.

É sob tais condicionantes que forcejamos por construir nossa história, indecisos ainda sobre o que somos e o que queremos ser, carentes, ainda, de um projeto de país.

Se razões objetivas nos dizem que conseguimos em 2022, mesmo a duras penas, deter as maiores ameaças conhecidas pelo processo político-social desde 1964 — a possibilidade de reeleição do capitão meliante —, não é racional supor que esmagamos a peçonha. Aos candidatos a doutor Pangloss a realidade traz à tona a composição do Congresso eleito com Lula, as maquinações de dezembro de 2022, a intentona de 8 de janeiro de 2023 e as eleições de 2024, bem como as resistências militares, as pressões e chantagens do grande capital, e um cenário internacional desconfortável sob todos os aspectos.... enfim, o concerto de adversidades desafiando um governo impedido de afirmar-se.

A consagração de Donald Trump, um dado a mais no entrecho, é inquestionável testemunho, agora reiterado, da identificação da sociedade estadunidense com o discurso e o programa neofascista, desenvolvido em plano internacional. Criminoso condenado pelo Tribunal de Nova York, denunciado por fraude e conspiração, mitômano contumaz, o republicano retornará no próximo dia 20 à presidência dos EUA, um país e uma sociedade visceralmente beligerantes, e assim assumirá o comando da maior força militar jamais conhecida, prometendo a exasperação da velha política do Big Stick, que foi e é a essência do imperialismo norte-americano. Sua eleição, na voragem de votação consagradora, não deve ser vista como raio em céu azul. Também não se trata, o presidente reeleito, de um estranho no ninho do establishment. Trump é personagem fortemente identificado com o que se costuma chamar de americano médio. Os reais valores americanos estão em seu discurso, que por isso mesmo foi referendado.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Políticos e jornalistas revivem 8 de janeiro: dia entrou para história

Quarta, 8 de janeiro de 2025

Sedes dos Poderes foram atacadas por manifestantes pró-Bolsonaro
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Gilberto Costa* - Repórter da Agência Brasil
Publicado em 08/01/2025 — Brasília




O conjunto de invasões e depredações nos prédios da Praça dos Três Poderes em Brasília na tarde de 8 janeiro de 2023, um domingo, chocou pela violência protagonizada por manifestantes bolsonaristas, mas não surpreendeu a todos os personagens que, por razões de ofício, acompanham o cotidiano institucional da capital federal, como jornalistas e políticos.

Naquele dia, a senadora Eliziane Gama (PSD-MA) recorda-se que estava em sua casa em São Luís, depois de ter ido à Assembleia de Deus, onde atua como professora de escola bíblica dominical, quando viu uma mensagem em grupo de Whatsapp com imagens de destruição em Brasília.

“Eu falei: gente, isso aqui não pode ser verdade. Isso é uma montagem, não é verdade”, contou ao programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, com participação da Agência Brasil.

Brasília (DF) 06/06/2023 Senadora e relatora da CPMI do golpe, Eliziane Gama. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

Assustada, a parlamentar foi à casa de sua mãe onde a televisão estava transmitindo a barbárie ao vivo.

“Eu fiquei estarrecida. Levei minutos para acreditar no que estava vendo”, diz se recordando da multidão subindo a rampa do Congresso Nacional, quebrando vidros do prédio e ocupando um pedaço do Senado Federal, onde cumpre mandato há cinco anos.

O impacto foi revivido quando na segunda-feira seguinte (9), de volta de São Luís, Eliziane Gama encontrou “um ambiente desolador, de guerra” no Senado. “Parecia um filme de terror: o prédio totalmente escuro, [com] o chão totalmente molhado, [e] as vidraças destruídas. Você não conseguia caminhar dentro do Congresso Nacional.”

Ainda pasma com a voracidade destrutiva dos invasores, a senadora revela que a possibilidade de distúrbio ainda que absurda estava no horizonte.

“O que ocorreu era algo que a gente vigiava, que a gente dizia que não pode acontecer, mas a gente nunca parou para pensar e dizer que isso vai acontecer.”

Na opinião de Eliziane Gama, que foi relatora da CPMI do 8 de janeiro, tudo que se viu foi semeado durante anos por Jair Bolsonaro quando ocupava a Presidência da República (2019-2022) e atentava contra a democracia.

“Ele questionava o processo da eleição, colocava em xeque a vulnerabilidade da urna eletrônica. Então, essa coisa de criar uma instabilidade do processo democrático, ele automaticamente criou um colchão de condições para que o movimento mais extremista brasileiro chegasse ao que nós acompanhamos no 8 de janeiro.”

Assinatura de Bolsonaro

O 8 de janeiro tornou-se uma data na qual as pessoas costumam lembrar onde estava, e o que estavam fazendo quando receberam a notícia de impacto, como aconteceu nas transmissões do primeiro pouso do homem na lua (1969), do acidente fatal de Ayrton Senna (1994) ou do choque dos aviões contra as Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York (2001).

Como aconteceu com a senadora, a jornalista e escritora Bianca Santana lembra-se vivamente onde estava quando soube dos incidentes: tinha aterrissado em Brasília vindo de São Paulo naquela tarde de domingo. Ainda estava no avião quando começou a receber mensagens no celular indagando se tinha chegado bem.

Curiosa, começou a pesquisar no aparelho o que estava acontecendo. Uma amiga a buscou no aeroporto da capital federal e a levou direto para casa.

“A gente decidiu ficar recolhida. Nem saiu para comer.”

Para Bianca Santana, a intentona que viu inicialmente pela tela do celular “tinha uma assinatura muito forte.” Ela rememora que Jair Bolsonaro instigou a balbúrdia, esvaziando a credibilidade do sistema de votação. “Ele anunciou inúmeras vezes que não aceitaria o resultado das urnas.” Para ela, o ex-presidente “o tempo todo colocou em xeque a confiança da população no processo eleitoral. Isso já é um processo de tentativa de golpe.”

Brasília (DF), 11/09/2024 - Leandro Demori no programa DR com Demori. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Na opinião do jornalista Leandro Demori, que apresenta o programa Dando a Real com Leandro Demori, na TV Brasil, os sentimentos contra a democracia foram provocados por Jair Bolsonaro antes mesmo de chegar ao poder.

“Na eleição de 2018, [Bolsonaro] já havia aventando a possibilidade de fraude eleitoral, a pauta do voto impresso, e [a ideia] que o sistema não era seguro. Isso tudo acaba desembocando no 8 de janeiro.”

A jornalista Juliana Dal Piva, autora do livro O Negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro, avalia que o ex-presidente “criou uma narrativa em cima de uma mentira e foi intensificando essa mentira” com o passar do tempo, especialmente nos dois últimos anos de mandato, e apesar da disseminação de falsidades ”se recusava a admitir que ele não tinha prova.” Ela lembra que Bolsonaro “foi eleito e reeleito [para] vários mandatos como deputado federal [total de seis mandatos] e como presidente da República pelo sistema eletrônico de votação.“

Golpe encenado

Ter atos contra a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva era esperado pelo senador do Randolfe Rodrigues (PT-AP).

“Eu sabia que eles não aceitariam pacificamente o resultado das eleições de 30 de outubro de 2022. Eu tinha consciência disso. Então, para mim, não foi surpresa.”

Ele, no entanto, admite o estarrecimento com a falta de iniciativa das forças de segurança para proteger os prédios públicos.

“O que eu não esperava era a negligência coordenada e organizada para permitir que eles acessassem as sedes dos Três Poderes - os terroristas daquele dia. Mas quando eu os vi invadindo o Congresso Nacional, o meu sentimento naquele momento é que tinha um golpe de Estado em curso.”

Randolfe Rodrigues, que é formado em História, diz que temeu um desfecho semelhante ao do Chile nos anos 1970, quando o presidente Salvador Allende foi cercado no Palácio de La Moneda pelas tropas lideradas pelo general Augusto Pinochet. “Eu tive receio daquele Brasília - 8 de janeiro ser um 11 de setembro chileno de 1973.”

Brasília (DF) 11/04/2024 Senador Randolfe Rodrigues. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

A possibilidade de haver um novo golpe de Estado no Brasil era tão aventada que os roteiristas da produtora Porta dos Fundos criaram dois esquetes humorísticos simulando a mobilização de militares para fazer uma nova intervenção golpista.

“Havia já, né, essa sombra do golpe. Ela já estava presente há muito tempo, né?”, recorda-se o publicitário Antonio Tabet, um dos sócios e roteiristas da produtora. “Falava-se muito disso, havia muitas indiretas, uma comunicação truncada, umas ameaças veladas, e o fato de o governo da época [2019-2022] ser alinhado com ideais e interesses não exatamente democráticos, fazia com que esse assunto fosse efervescente.”

Na opinião de Tabet, os esquetes Golpe em Brasília e Golpe no Rio foram dissuasivos de alguns espíritos menos democráticos. “Eu tenho certeza que esses vídeos circularam muito, tem milhões de views cada um deles. E certamente bateu em alguém que queria fazer e que mudou de ideia vendo aquilo.”

“O humor informa de uma maneira simpática. Às vezes, uma pessoa assistindo a um telejornal, ela não consegue entender direito como funcionam as instituições, para que servem, o que é isso, qual é o real perigo, o real ridículo disso. O humor vai lá e joga um holofote na cara daquilo”, acredita o roteirista.

No dia 8 de janeiro, como que seguindo um roteiro bem ensaiado, milhares de pessoas que estavam acampadas no Setor Militar Urbano em Brasília iniciaram às 13h uma longa marcha até a Praça dos Três Poderes.

Às 15h, os golpistas conseguiram subir a rampa do Congresso para invadir e destruir prédio. Vinte minutos depois, outros vândalos derrubaram as grades de isolamento do Palácio do Planalto, subiram a rampa, quebraram os vidros da fachada e entraram no prédio. Às 15h37, iniciaram a invasão do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal (STF).

A Agência Brasil enviou mensagem, na segunda-feira (6), ao advogado Paulo Bueno, defensor do ex-presidente Jair Bolsonaro, para manifestação, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto.

*Com entrevistas de Ana Passos, Marieta Cazarré, Patrícia Araújo e Thiago Padovan, da TV Brasil







Edição:
Carolina Pimentel

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Retrospectiva —Extrema direita termina 2024 com menos força política e na mira da Justiça

Quinta, 2 de janeiro de 2024

Com derrota eleitoral e políticos envolvidos na trama golpista, bolsonarismo


O general Braga Netto e o ex-presidente Jair Bolsonaro - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Igor Carvalho
Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 02 de janeiro de 2025

O ano de 2024 foi marcado por investigações policiais, escândalos políticos e mobilizações golpistas, envolvendo líderes e apoiadores da extrema-direita no Brasil. As operações da Polícia Federal e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) impactaram figuras proeminentes, enquanto a agenda política do setor, atrelada ao bolsonarismo, sofreu derrotas significativas nas eleições municipais.

Já no começo do ano, em 8 de fevereiro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Tempus Veritatis, investigando uma tentativa de golpe de Estado atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados como o general Walter Braga Netto e Valdemar Costa Neto, presidente do PL. O objetivo seria reverter os resultados das eleições de 2022.

Na mesma operação, a Polícia Federal prendeu, ainda, dois ex-auxiliares do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL): o ex-assessor para Assuntos Internacionais da Presidência Filipe Martins e o ex-ajudante de ordens coronel Marcelo Câmara.

Filipe Martins era considerado um dos mentores do chamado “gabinete do ódio” — grupo que usava as redes sociais para disseminar desinformações e mentiras sobre pautas consideradas importantes para o bolsonarismo e também para atacar inimigos do ex-presidente com notícias falsas.

Matar o presidente

Em julho, surgiram as primeiras denúncias públicas sobre o envolvimento de militares como os coronéis Mario Fernandes e Hélio Ferreira Lima em planos golpistas. As denúncias agravaram a crise institucional e reforçaram o clima de desconfiança entre as Forças Armadas e o governo.

No dia 21 de novembro, ocorreu o episódio que pode marcar para sempre o bolsonarismo. A Polícia Federal apresentou ao STF um relatório detalhado que resultou no indiciamento de 37 pessoas, incluindo Jair Bolsonaro, por crimes de conspiração e tentativa de golpe de Estado. A acusação baseou-se em uma série de evidências reunidas ao longo de dois anos de investigações.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Afinal quem manda no Brasil neste anárquico mundo de hoje?

Segunda, 4 de março de 2024

Pedro Augusto Pinho*

O Brasil não é para principiantes escreveu, pelo início dos anos 1960, o europeu oriental Peter Kellerman. Ganhou dinheiro, deu um golpe na praça e fugiu para o Paraguai. Para onde mais iria?

Depois dele muitos outros também se aventuraram a decifrar o país onde o “não”, muitas vezes, significa “sim” e vice-versa. Depois de Kellerman tivemos 21 anos de governos nacionalistas desenvolvimentistas, porém autoritários, que levaram à construção de novo Brasil.

Ora as forças dominantes no Brasil sempre foram representantes dos interesses estrangeiros, desde o primeiro governo de Tomé de Sousa, em 1549. Nesta primeira fase, representavam a coroa e aristocracia lusitana. Depois, com a fragilidade econômica, Portugal passou a ser o primeiro intermediário da cadeia que se iniciava nos bancos ingleses.

Então mandavam no Brasil os interesses bancários da “pérfida Albion”, na tradução da aristocracia portuguesa e conforme as decisões dos senhores de terras e escravos no Brasil. Uma cadeia mais longa, que exigia maiores malabarismos para ficar com a melhor parte.

E assim vivemos até que a família real, pressionada por outros interesses portugueses, resolveu se dividir, uma parte cuidava de Portugal, outra do Brasil. Isso aconteceu em 1822.

Aos poucos os ingleses dispensaram a intermediação portuguesa e passaram a lidar diretamente com os senhores de terras e escravos nascidos no Brasil. A este período se dá o nome de Brasil Império e de 1ª República.

Um tanto injusto pelo nosso esforço independentista, principalmente do pouco conhecido Presidente Floriano Peixoto.

Mas surgem os movimentos no exército para que a soberania administrativa brasileira ficasse com o governo nacional. São os movimentos tenentistas, que caminharam por todo País, eclodiram em Manaus, São Paulo e tiveram momentos de bravura e marketing no Rio de Janeiro, como os “18 do Forte”, com presença civil.

Até então as guerras europeias não haviam chegado à periferia do mundo, onde se encontrava o Brasil. Para não cometer injustiça, os interesses coloniais ingleses, sempre eles, nos fizeram combater o vizinho Paraguai.

Porém, o Brasil irredento vence a Revolução de 1930. E há o choque entre o Brasil colonizado e o Brasil que se organiza para autonomia.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

O CONSUMIDOR E A VIA CRÚCIS DA INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA

Sexta, 9 de fevereiro de 2024

O CONSUMIDOR E A VIA CRÚCIS DA INCORPORAÇÃO IMOBILIÁRIA

Aldemario Araujo Castro
Advogado
Mestre em Direito
Procurador da Fazenda Nacional
Brasília, 9 de fevereiro de 2024

“A Via-Crúcis (em latim: Via Crucis; lit. "Caminho da Cruz"), também chamada Via-Sacra, refere-se ao trajeto que foi percorrido por Jesus carregando a cruz, desde o Pretório até o Calvário, onde morreu” (fonte: pt.wikipedia.org).

É certo que o consumidor no Brasil experimentou, nas últimas décadas, um ganho enorme em termos de proteção jurídica. A Constituição de 1988 definiu que “o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor” (artigo quinto, inciso XXXII). A lei em questão foi editada como o Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078, de 1990). As atuações do Ministério da Justiça (Secretaria Nacional do Consumidor), dos PROCONs e de organizações da sociedade civil ganharam intensidades jamais vistas.

Entretanto, o consumidor, na condição de promitente-comprador de um imóvel no âmbito das atividades de incorporação imobiliária, ainda enfrenta uma verdadeira via crúcis. As dificuldades decorrem basicamente: a) da aplicação de uma legislação antiga; b) da falta de regulamentação para importantes questões; c) da assunção, pelas incorporadoras, de uma indevida posição de mando em um conjunto muito amplo de questões; d) da adoção de práticas abusivas pelas incorporadoras, inclusive quanto à cobrança de taxas e valores de várias naturezas; e) uma jurisprudência equivocada em vários temas prestigiando a posição privilegiada das incorporadoras e f) de um volume exagerado de providências burocráticas a serem atendidas pelo consumidor.

Entre as modalidades de incorporação, a mais comum consiste na venda de imóveis na planta (por serem construídos). Trata-se da espécie mais problemática em termos de conflitos entre incorporadoras e compradores. É justamente o tipo abordado nessas singelas ponderações. 

A Lei n. 4.591, de 16 de dezembro de 1964, regulamenta a atividade econômica de incorporação imobiliária. Afirma o art. 29 do diploma legal referido: “incorporador é a pessoa física ou jurídica, comerciante ou não, que, embora não efetuando a construção, compromisse ou efetive a venda de frações ideais de terreno objetivando a vinculação de tais frações a unidades autônomas, em edificações a serem construídas ou em construção sob regime condominial, ou que meramente aceite propostas para efetivação de tais transações, coordenando e levando a termo a incorporação e responsabilizando-se, conforme o caso, pela entrega, a certo prazo, preço e determinadas condições, das obras concluídas”.

Depreende-se, da definição legal, que no âmbito da incorporação não ocorre a compra de um imóvel. A rigor, o incorporador compromete-se a vender ao signatário da promessa uma casa ou apartamento quando concluída a construção. Nas palavras de Marcelo Tapai, advogado especialista em direito imobiliário: “É um contrato de confiança, no qual o comprador começa a pagar por algo que não tem antes mesmo do início da construção e continua realizando os pagamentos durante toda a obra, financiando parte do projeto administrado pela incorporadora./O montante que faltar para a construção o incorporador normalmente obtém por meio de financiamento bancário, oferecendo o próprio imóvel como garantia para o pagamento da dívida” (fonte: infomoney.com.br).

A operação de venda do imóvel ocorrerá depois de: a) concluídas as obras; b) expedido o “habite-se”; c) instituído o condomínio e d) individualizada a matrícula no registro de imóveis. Dependendo do caso e de possíveis percalços nesse caminho, o consumir, ainda promitente-comprador, pode experimentar uma angustiante espera.

O recebimento do imóvel pelo comprador depende do pagamento integral do preço do bem. Em regra, são usados recursos próprios do consumidor ou de um financiamento bancário. A entrega das chaves, que marca a efetiva imissão na posse, ocorre depois de uma vistoria para verificação do cumprimento do que consta no chamado “memorial descritivo”.

Não são poucas as agruras do consumidor nessa longa e acidentada estrada da incorporação imobiliária. Segue um rápido apanhado (muito longe de ser exaustivo):

a) algo normalmente desconsiderado é a especulação imobiliária que reduz áreas de lazer, esportes, para unidades educacionais e de saúde, feiras, entre outros, e produz um excessivo adensamento populacional. Boa parte dos espaços são realocados pelo Poder Público ao longo do tempo para receber empreendimentos imobiliários de grande porte com a clara redução da qualidade de vida dos futuros moradores;

b) o consumidor, na qualidade de promitente-comprador, assina um contrato de adesão elaborado pela incorporadora com a probabilidade (mais do que possibilidade) de inclusão de uma série de cláusulas abusivas;

c) ao longo da construção o consumidor realiza uma quantidade considerável de pagamentos. A prática demonstra que boa parte deles são lícitos (parcelas mensais, intermediárias e Taxa de Decoração, por exemplo). Outro conjunto de exigências são entendidas como ilícitas (Taxa de Serviço de Assessoria Técnica Imobiliária e Taxa de Habite-se ou Individualização de Matricula, por exemplo);

d) os pagamentos mensais são corrigidos pelo Índice Nacional da Construção Civil (INCC), em regra maior do que os índices inflacionários. Assim, os reajustes constantes das parcelas e do saldo devedor geram um ônus significativo para o consumidor. Afinal, esses compromissos normalmente crescem em níveis superiores ao aumento da capacidade financeira dos promitentes-compradores;

e) admite-se, com respaldo jurisprudencial, tolerância de 180 dias para entrega da obra e não cabimento de condenação em indenização por danos morais na hipótese de atraso na entrega do imóvel pela incorporadora;

f) concluídas as obras, impõe-se a constituição do condomínio. A realização da chamada Assembleia Geral de Instalação (AGI) pode ser bastante problemática, especialmente quando a incorporadora deixa completamente a cargo dos futuros condôminos as delicadas tarefas de decidir sobre os integrantes da administração, aprovação da previsão orçamentária e regras provisórias de mudanças e habitação. Boa parte das dificuldades com a AGI decorrem da falta de disciplina legal para esse importante ato;

g) especialmente delicada é a situação dos condôminos que precisam observar uma convenção elaborada e registrada unilateralmente pela incorporadora;

h) é comum, com chancela jurisprudencial, que as parcelas do preço do imóvel sejam acrescidas de juros compensatórios a partir da expedição do “habite-se”. Trata-se de ônus excessivo imposto ao consumidor, notadamente diante da eventual demora no procedimento de averbação desse documento e da completa ausência de mora ou inércia imputável ao promitente-comprador;

i) a incorporadora normalmente centraliza em um determinado cartório de notas a elaboração das escrituras de compra e venda. Trata-se de expediente que pode agilizar e uniformizar os procedimentos. Entretanto, por outro lado, deixa os compradores inteiramente vinculados às mais variadas conveniências da incorporadora;

j) condicionamento da entrega das chaves a uma série de pagamentos ou reembolsos, como a “taxa de instituição de condomínio” e o inusitado rateio do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) entre comprador e vendedor;

k) as incorporadoras, em regra, se negam a devolver o dinheiro recebido diante da “desistência” (ou distrato) do promitente-comprador. Mesmo no Judiciário a restituição sofre redução entre 10 a 25%, a título de indenização de despesas diversas, apesar das enormes vantagens experimentadas pela incorporadora (afinal, recebeu dos consumidores um verdadeiro empréstimo gratuito). As alterações promovidas pela Lei n. 13.786, de 2018, na Lei n. 4.591, de 1964, consagram perdas mais significativas para o consumidor;

l) o recebimento de informações adequadas, claras, precisas, suficientes e tempestivas não é o cenário comumente vivenciado pelo consumidor. Em regra, por conta da relativa complexidade jurídica da incorporação imobiliária, o promitente-comprador fica literalmente confuso e “perdido” diante uma infinidade de providências a serem adotadas.

O advogado Marcelo Tapai, antes referido, destaca: “A Lei 13.786/2018 promoveu diversas alterações na Lei de Incorporações, porém as mais impactantes foram os pontos que trataram das penalidades impostas àqueles que não conseguem realizar os pagamentos./Modificou drasticamente direitos já conquistados há décadas pelos consumidores adquirentes, cujos entendimentos sedimentados e Súmulas, tanto dos tribunais estaduais quanto do STJ, já haviam garantido./(...) Como se não bastasse todos os retrocessos legislativos, que afligem a questão da incorporação imobiliária e causam ainda mais prejuízos aos promitentes compradores de imóveis na planta, e que não conseguem levar o negócio adiante, existe um forte movimento de entidades ligadas ao mercado imobiliário com o objetivo de modificar entendimentos sumulados no STJ, que de alguma maneira ainda dão algum tipo de proteção aos consumidores desse setor” (fonte: conjur.com.br).

O rápido apanhado realizado demonstra uma relação profundamente assimétrica entre incorporadoras e consumidores. É urgente e importante uma criteriosa revisão da legislação, com reflexos na jurisprudência, para consagrar um equilíbrio razoável, com segurança jurídica, entre o desenvolvimento da importante atividade econômica de incorporação imobiliária e a proteção do consumidor, na peculiar condição de promitente-comprador de uma unidade imobiliária por ser construída.

Esse delicado panorama da incorporação imobiliária ilustra bem uma afirmação que faço de maneira recorrente. As profundas desigualdades socioeconômicas brasileiras decorrem, em grande medida, de importantes instrumentos de transferência de riquezas cuidadosamente inseridos na institucionalidade jurídica. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Ministério da Saúde na mira, mais uma vez

Quarta, 17 de janeiro de 2024

Foto: Metrópoles

A quem interessa fragilizar Nísia Trindade? Defesa irrestrita do SUS e controle de emendas parlamentares irrita fisiológicos e saúde privada. Movimento sanitarista frisa: ao povo, é essencial manter orientação técnica e progressista do MS

OUTRASAÚDE                                                                    SUS

Pela segunda vez desde a posse do atual Governo Federal, surgem como uma onda nas páginas da mídia comercial questionamentos à atual condução do Ministério da Saúde, com acusações que vão da lentidão no repasse de recursos à “falta de diálogo” com os parlamentares. Para bom entendedor, meia manchete basta: assim como em julho passado, interesses menos que democráticos querem defenestrar Nísia Trindade para ter mais controle sobre uma verba que pode chegar a R$231,3 bilhões em 2024.

Mas há novidades. Além dos atores de sempre, até um deputado federal petista, Washington Quaquá (PT-RJ), veio a público como um dos insatisfeitos, definindo Nísia, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) por cinco anos, de “inoperante e frágil”, que “não tem o tamanho que o governo Lula precisa”. Por sua vez, o Setorial de Saúde do PT do mesmo estado onde Quaquá se elegeu posiciona-se de maneira diametralmente oposta: “seguimos apoiando e confiando no trabalho do Ministério da Saúde em defesa da saúde pública e ressaltando a necessidade de uma gestão pautada na ciência, como vem realizando a ministra Nísia Trindade”, diz nota publicada no dia 14 de janeiro.

A avaliação não é exclusiva dos petistas fluminenses. Grupos como a Frente pela Vida (FpV) e entidades do movimento sanitarista nacional tem se pronunciado em favor da manutenção da atual condução do MS. Túlio Batista Franco, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da operativa nacional da Frente pela Vida, e Getúlio Vargas Júnior, conselheiro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e coordenador nacional do movimento Saúde pela Democracia, conversaram com Outra Saúde na última terça-feira (16/1) para compartilhar avaliações sobre a situação.

A busca de substituir a socióloga e ex-diretora da Fiocruz, eles apontam, responde em primeiro lugar a um interesse “nada repulicano” de controlar o robusto orçamento do Ministério da Saúde. E a defesa, pelos movimentos, da manutenção de Nísia não é o apego a um nome — mas a convicção na importância da continuidade de um trabalho na pasta da Saúde marcado pela retomada do rigor técnico e de uma orientação progressista.

Disputa por recursos

“Essa nova ofensiva tem uma motivação tornada bem explícita por uma matéria do jornal O Globo no dia 13 de janeiro: o fato de o Ministério da Saúde ter estabelecido critérios técnicos para o repasse de emendas parlamentares aos estados e municípios”, diz o coordenador da Frente pela Vida. Isso se deu por meio de uma portaria que determinou que o envio de recursos fosse conduzido por critérios definidos pela Comissão Intergestores Bipartite, onde dialoga-se com autoridades das esferas estadual e municipal.