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(Millôr Fernandes)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A teoria do poste


Quinta, 13 de setembro de 2012
Por Ivan de Carvalho
As eleições para a prefeitura de São Paulo estão revelando um fenômeno – o de que o ex-presidente Lula não é capaz de eleger o poste que quer onde quer. Precisa talvez ter algum cuidado na escolha do poste, mas é essencial que saiba reconhecer o lugar em que pode colocá-lo ou não.

            O que o animou tanto a julgar-se com capacidade incondicionada de eleger um poste foi a eleição da presidente Dilma Rousseff.

Esta senhora havia sido ministra das Minas e Energia e depois ministra-chefe da Casa Civil. Foi aí que o então presidente Lula resolveu fazê-la sua sucessora, já que, miseravelmente, a Constituição o proibia de candidatar-se a um terceiro mandato e as circunstâncias o proibiam de tentar uma mudança constitucional, como fizera o seu amigo da Venezuela, o presidente-ditador Hugo Chávez.

Então escolheu um poste, uma pessoa sem atuação política partidária e eleitoral anterior, uma emigrante do PDT para o PT (o que lhe dificultaria, mesmo na presidência, adquirir uma ascendência muito forte no partido) e colocou-a como candidata a presidente da República.

Havia a poderosíssima máquina do Poder Executivo federal, havia o PT e uma montanha de partidos aliados, entre os quais sobressaíam-se, entre muitos, o PMDB, o PSB e o PP, havia a esqualidez e a falta de combatividade das oposições e havia a enorme popularidade do presidente Lula.

E era o presidente apresentando o poste escolhido para suceder ao presidente. Uma eleição na mesma linha, no mesmo nível. Deu certo, maravilhosamente certo.

A vaidade e a soberba encontraram campo fértil e germinaram generosamente. E então veio o ex-presidente Lula e, tendo Marta Suplicy à disposição, optou por lançar um poste, Fernando Haddad, para a prefeitura de São Paulo. Venceria, claro, e poderia reivindicar a vitória como dele e só dele, dando uma demonstração de força.

Mas eis que entra na história o que Nelson Rodrigues chamaria talvez de “o Sobrenatural de Almeida”. O PMDB, para dar um sinal de vida, decide lançar um candidato, Gabriel Chalita, que na pesquisa Datafolha divulgada ontem aparece com oito por cento das intenções de voto. Os tucanos conseguem convencer José Serra a disputar, ele entra com uma rejeição enorme e crescente (o Datafolha aponta 46 por cento de rejeição para ele, o que representa o inferno em sua campanha) e Serra cai da liderança, que teve assim que lançou a candidatura, com cerca de 35 por cento das intenções de voto, para modestos 20 por cento na mesma pesquisa. E o petista Haddad vai subindo à maneira de uma lesma – o patamar habitual do PT nas eleições na cidade de São Paulo é de 33 por cento (um terço do eleitorado), mas Haddad subiu um ponto apenas da pesquisa anterior para a desta semana e está com 17 por cento.

Até que de 17 para 20 seria motivo de alegria, estaria perto de alcançar aquele que era o adversário principal, José Serra. Era, mas não é mais. Tudo indica que Serra e Haddad vão disputar para ver qual dos dois vai enfrentar no segundo turno o Sobrenatural de Almeida, o candidato Celso Russomano, do PRB, que caiu da penúltima para a última pesquisa de 35 para 32 por cento. Com um tempo inexpressivo na TV e rádio para a propaganda eleitoral, Russomano está realizando uma façanha. Tem ainda uma enorme vantagem sobre os concorrentes mais próximos.

Parece que a teoria do poste, no que diz respeito a Lula, não se aplica a eleições locais. Eleições locais, padrinhos locais. Isso pode ser verdade não só em São Paulo, mas também em Salvador, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quinta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.