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(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Anielle Franco afirma que julgamento dos mandantes da morte de Marielle deixou o ‘bueiro do RJ aberto’

Sexta, 27 de fevereiro de 2026

Justiça

Anielle Franco afirma que julgamento dos mandantes da morte de Marielle deixou o ‘bueiro do RJ aberto’

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, a ministra da Igualdade Racial também falou sua gestão à frente da pasta

Brasil de Fato
27.fev.2026
Beatriz Drague Ramos

Anielle Franco é ministra da Igualdade Racial | Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasi


A semana foi marcada por um desfecho aguardado há quase oito anos por grande parte da população brasileira e sobretudo pelas famílias da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou, por unanimidade, os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão a 76 anos de prisão or serem mandantes do assassinato da vereadora, ocorrido em março de 2018.

Também foram condenados Ronald Paulo Alves Pereira, major da Polícia Militar por duplo homicídio e homicídio tentado, e Robson Calixto Fonseca, policial militar e ex-assessor de Domingos Brazão, condenado pelo crime de organização criminosa. Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro foi condenado por obstrução à justiça corrupção passiva. Todos estão presos preventivamente.

Diante disso, para a família, o momento é de exaustão física e emocional, mas também de uma sensação de justiça em um caso que envolve figuras de alto escalão da política fluminense.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, relatou o impacto do julgamento sobre seus pais e sobre a filha de Marielle, Luyara. Segundo a ministra, a leitura dos votos, especialmente o da ministra Cármen Lúcia, causou forte comoção e problemas de saúde momentâneos nos familiares devido à tensão acumulada. “Ouvir os votos fez minha mãe chorar muito. Eles passaram mal, os três tiveram um pico de pressão alta durante o julgamento”, revelou Anielle.


A ministra destacou que a federalização do caso foi decisiva para o resultado, apontando que a estrutura de obstrução dentro das instituições do Rio de Janeiro tornaria a condenação “imensuravelmente mais complicada” se o processo permanecesse no estado.

“Ter um delegado obstruindo as investigações já é a resposta”, afirmou, referindo-se às revelações sobre o envolvimento de membros da Polícia Civil no esquema criminoso.

Ela também comentou as ações do Ministério da Igualdade Racial (MIR) durante os últimos quatro anos e o fenômeno chamado “sementes de Marielle”, explicado pelo avanço de mulheres negras eleitas nas últimas eleições desde a execução da vereadora.


Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Ministra, abro esse programa deixando o espaço para que a senhora fale sobre o fim do julgamento, que ocorreu há menos de 48 horas. Como a senhora está, como está sua família, com a identificação e condenação dos mandantes do assassinato de sua irmã, Marielle Franco?

Anielle Franco: Minha mãe, meu pai e a Luyara estão bem, graças a Deus. Foi um dia muito difícil na quarta e na terça também, mas ouvir os votos fez minha mãe chorar muito, especialmente com o voto da Cármen Lúcia. Eles passaram mal, os três tiveram um pico de pressão alta durante o julgamento. Eu fiquei bem tensa, tentando manter a força e o equilíbrio vendo todo mundo passando mal. Não tinha como eles não se emocionarem, porque tudo foi revisitado, cada ponto, cada passo, cada voto que era dado lembravam alguma coisa. Mas graças a Deus hoje a gente ainda não está recuperado do cansaço físico, mental, psicológico, emocional, mas estamos bem e ter escutado ontem à noite minha mãe e meu pai dizerem: ainda bem que “somos uma família que não desistimos desta luta e conseguimos chegar até aqui nos enche de orgulho”. Não tem o que celebrar, mas foi um passo dado e foi importante.

Para a família, o julgamento e condenação dos irmãos Brazão coloca um fim nesse ciclo de busca por justiça para Marielle Franco ou há algo ainda que vocês pretendem buscar na justiça?

Confesso que nem chegamos nesse ponto de falar sobre se faremos algo a mais. Ainda faltam alguns júris, mas isso traz uma resposta e uma sensação de justiça, claro que também, a gente precisa entender que é algo inédito. O que o caso da Marielle trouxe para a gente quando que a gente veria? Eu escutei isso de um dos advogados quando a gente estava saindo do julgamento: “Aniele, o que tá acontecendo aqui hoje é algo inédito”. Quando é que você viu um político branco ser julgado e condenado em um caso desses? Mas também quando que se viu um mando de um crime dessa magnitude? Enfim seria leviana se eu dissesse que já temos algo programado. Não temos ainda.

A gente ainda tá processando e eu te confesso que a ficha tá caindo pouco a pouco.

Na minha visão, o caso Marielle não trata só de violência política, mas trata também da nossa situação agrária desigual, da relação entre o crime organizado e política no Rio de Janeiro, até o descontrole sobre investigações de homicídios. Você está totalmente a par das investigações feitas nos últimos anos. Na sua visão, o que de fato foi feito nesses 8 anos (desde o assassinato de Marielle) para mudar esse cenário? E aí medidas tanto na Polícia Federal, estadual do Rio de Janeiro, quanto nos âmbitos da situação da distribuição de terras no rio em bairros dominados por milícias.

Eu concordo com você em parte quando você fala que não é só a violência política, mas, de fato, para mim fica muito evidente que foi o maior motivo e fato, né? Por exemplo, eu respeito quem fale: “Foi um feminicídio político”, mas eu acho que diminui o tamanho do problema e da causa da motivação do crime da Mari. Acho que esse é um ponto. E o segundo ponto, é difícil de falar se houve algo, se houve alguma mudança ou não, de um de uma perspectiva muito do dia a dia ali de acompanhar, porque, de fato, tudo que diz respeito ali ao caso da Marielle, a gente acompanhava, sabia de cor, mas a gente também não entrou muito nesses detalhes porque para mim não ficava muito claro, nunca ficou e nunca foi muito forte isso dentro de mim, que seria por questões agrárias ou por questões de terra.

Claro que tem, sim, a motivação de ela estar ali fazendo reuniões, etc, como você falou no julgamento, é claro que ela estaria ali, em que outro lugar nós estaríamos quando o assunto é proteger as pessoas que mais precisam, nas favelas, obviamente, nas periferias, nos lugares mais pobres e vulneráveis.

Essa mudança, por exemplo, até mesmo para que a gente chegasse a esse ponto do assassinato da Marielle, houve vontade política, houve uma troca ali, onde a gente, graças a Deus, sai de 2018 a 2022 de um governo que literalmente debochava do caso da Marielle, e entra num governo com presidente humanizado, com presidente que falou: “É questão de honra também ajudar a desvendar quem mandou matar a Marielle”. Então, eu estou fazendo esse paralelo para dizer que eu acredito que sim, acho que o papel da Polícia Federal foi inquestionável, acho que a gente não pode falar aqui, imagina se não tivesse de fato, a Polícia Federal entrado, o próprio Dino fala: “A falha das investigações, a demora dessa investigação arrastada e mal conduzida”. Tanto é que, infelizmente, tinha uma pessoa que estava à frente das investigações que está presa agora. Então, eu iria um pouco por esse lado. Teve uma mudança, mas talvez ainda não visível o suficiente para que as pessoas percebam no dia a dia. Mas no dia a dia a gente não tá ali para acompanhar como isso está sendo transformado.

Se os irmãos Brazão, o delegado Rivaldo Barbosa, o ex-assessor do TCE, Robson Calixto, e o ex-policial Militar Ronald Paulo de Alves, fossem julgados no Rio de Janeiro, a senhora teme que o resultado fosse outro? Esse pacto das elites do Rio de Janeiro, que passeia entre a política e as milícias, trataria de blindá-los?

Seria imensuravelmente mais complicado. A gente ter um delegado obstruindo as investigações já é a resposta a sua pergunta. Não vejo muita saída ou solução de quando essa tríade descoberta com essa tampa do bueiro que é aberta no caso da Marielle vai ter um fim no Rio de Janeiro.

Eu particularmente, como carioca, tenho esperança de que um dia sim, mas ao mesmo tempo é muito complicado. Você já imaginou? Queria que vocês dois e todos os espectadores aqui que estão com a gente, pensassem: imagina se cada pessoa que pensar contrário a outra, ou se for de um outro partido, se voltar contra um projeto tivesse um crime encomendado? Onde é que a gente vai chegar? Para que lugar a gente está caminhando em relação à política brasileira?

A gente da família da Mari, principalmente eu, depois desses anos para cá com todos os passos que foram dados, desde a fundação do instituto [Instituto Marielle Franco], enfim, esses ataques voltam muito majoritariamente pelo lado direito. Quando eles vêm nos atacar dizendo que ela era isso ou aquilo, defendia isso ou aquilo para justificar o injustificável. Então, eu não vejo, se não tivesse federalizado no momento que a gente decidiu, porque antes as pessoas queriam que a gente federalizasse, a gente disse que não. Por motivos políticos e óbvios, acho que isso não é segredo para ninguém, eu tenho muito orgulho de dizer que na época a gente bateu o pé firme, disse que não íamos federalizar, até porque o interesse não era talvez resolver, mas talvez, passar a pano e deixar para lá ou arquivar. Se não tivéssemos feito isso naquele momento e fizéssemos agora, a gente talvez não chegasse, justamente pelo que você falou. Essa tríade que precisa ser em algum momento desconstruída, enfim, extinguida, eu não sei exatamente, aniquilada, mas que eu particularmente não vejo muita saída.

O deputado Tarcísio Motta (Psol-RJ) afirmou que a bancada federal do Psol protocolou um pedido para desarquivar todas as ações em que o delegado Rivaldo Barbosa esteve envolvido, especialmente as investigações relacionadas a milícias. Passando por Pezão, Witzel e Claudio Castro, quais as responsabilidades que os governadores do Rio de Janeiro têm sobre as diversas falhas e crimes cometidos pela polícia do Rio durante as investigações do caso?

É difícil afirmar, mas o que eu sei é que a gente tem apenas uma governadora no Rio que não foi presa. Que foi Benedita da Silva, a qual eu tenho muito orgulho e honra de caminhar ao lado dela. Mas é claro, se você chega no cargo público, o que quer que esteja na sua alçada ou abaixo ou ao lado, à frente, você tem que ser responsabilizado. Você tem que ter ali o caráter, o valor, a vontade política de cada vez mais estar. Nós sentamos com dois desses governadores que você citou aí diante do caso da Mari, e todos eles falavam que estavam ali para ajudar, para resolver.

Quanto a isso, eu não posso falar nada. Óbvio que nunca foi assim um pedido de aceite de uma reunião imediata. Pelo contrário, quando a reunião era aceita, era uma hora esperando, uma hora e meia esperando as pessoas chegarem para falar com a família da Marielle, porque também nunca talvez tiveram o interesse disso.

Mas é difícil de afirmar qual a responsabilidade deles. O mínimo que se espera quando chega nesse lugar é responsabilidade política. Se você está ali, se você é eleito pelo voto do povo, da maioria do povo do estado que você está representando e acontece um crime na capital, da maneira que foi com Marielle, sendo uma parlamentar eleita, esse é o mínimo, mas também eu não sei se de fato se esforçaram para que chegássemos aonde chegamos há dois dias atrás.

O ministério da Igualdade Racial fechou 2025 com execução orçamentária de quase 100%. Neste ano, o orçamento da sua pasta é o menor da Esplanada dos Ministérios, apenas R$ 203 milhões. Dá para fazer política real com esse valor?

Tanto é possível como foi possível. É que tem uma coisa que as pessoas talvez não tiveram acesso, eu acho que aqui é um ótimo canal, ótima oportunidade para falar sobre isso. Mesmo o Ministério por si só sendo considerado, com esse orçamento, um dos menores da Esplanada, na verdade, quando a gente conseguiu transversalizar, a gente ficou ali de igual para igual com outros ministérios.

Por que que eu estou falando isso? Porque muitas das ideias e das ações do Governo Federal em conjunto foram feitas também por algumas questões que nós levamos diretamente aos ministros. Eu posso te dar um exemplo por aqui perfeitamente do Pé-de-Meia. O Pé-de-Meia ele abarcou ali inúmeras famílias, inúmeros jovens negros, porque uma das maiores dificuldades que a gente teve na transição, que é isso, quando o presidente me anuncia ali no 21 de dezembro, a gente começa a trabalhar a partir dali, a posse que é no dia 11 de janeiro. Mas dali, o que que saiu da transição que a gente trabalhou e participou entre novembro e dezembro? A evasão escolar. Eu estou pegando aqui o Pé-de-Meia porque foi o primeiro que veio na minha cabeça. E aí a evasão escolar, qual era o principal motivo? Os jovens saindo para trabalhar. E quem era o principal foco e dado que estava ali constando? Os jovens negros. Então também daí vem a ideia do Pé-de-Meia como essa inquietação, essa provocação sendo feita ao próprio ministro da Educação. Como vários outros.

A gente teve uma expressiva participação em várias políticas públicas, mas também com as nossas, mas é óbvio, eu não estou aqui dizendo que conseguimos resolver muita coisa. Não. O racismo na sociedade brasileira ainda é um mal enraizado que precisa ser combatido. Agora dá um orgulho danado quando você passa pela rua, que nem ontem a gente voltando do aeroporto, voltando de Brasília para o Rio, e aí na hora que eu pousei me parou uma jovem dentro do aeroporto e falou para mim: “Anielle, eu sou fruto dos Caminhos Amefricanos”, que é um edital aberto para professores que pudessem estudar fora e voltar e trazer a experiência da Lei 10.639 para as suas escolas. Então, isso dá um orgulho danado. Não estou dizendo aqui que a gente conseguiu fazer tudo que queríamos, pelo contrário. Acho que tem muita coisa a ser feita, mas muitos passos foram dados mesmo com esse orçamento que historicamente é o primeiro e o maior orçamento da história para a política de igualdade racial.

Considerando que o Relatório Brasil pela Igualdade Racial divulgado pelo MIR em dezembro menciona a necessidade de reconstruir a institucionalidade após “anos de desmontes e enfraquecimento dos instrumentos de participação”, quais são as principais limitações que foram, ou ainda são, enfrentadas pelo Ministério e quais são os avanços conquistados?

Claro, para mim a área de educação foi algo, como professora que me deixou muito orgulhosa, a questão da moradia também do acesso à terra. A gente conseguiu bater o recorde na gestão com as estruturações para terras quilombolas e povos de terreiro. Para mim também foi algo inédito, nunca tinha sido feito.

Quando a gente fala em segurança pública, uma das maiores demandas eram as câmeras nos uniformes dos policiais que a gente, em conjunto com o Ministério da Justiça, também consegue fazer e teve muito governador e teve muita gente que foi contra, mas que teve que ceder porque isso foi aprovado.

Na área da saúde, pela primeira vez a gente tem um recorte especificamente à população negra, para a saúde da população negra que, para além das campanhas inúmeras que nós fizemos, tinha ali um retrato para combater anemia falciforme, violência obstétrica e muitas outras atrocidades que a população negra enfrenta e passa ainda, quando se chega a um hospital, por exemplo, para ter um filho.

Como nós vimos um caso desse em 2023 de um médico ser extremamente racista com a paciente, dizer que ela não precisava de anestesia, assim como ela viveu, a Mari viveu, eu passei por coisa parecida, enfim, então mexer ali também e quando a gente fala de empregabilidade, a gente tem que trazer o Juventude Negra Viva.

Esse foi um dos avanços de que eu mais me orgulho, porque o Juventude Negra Viva foi construído com inúmeros outros ministérios e muitas ações, desde o Bolsa Família à moradia de periferia, passou por dentro do Juventude Negra Viva em conjunto com outros ministérios, mas não somente isso, em parceria com o governo local, porque isso para a gente era o mais importante, a cidade acontece nos municípios.

Então a gente precisava chegar ali desde os órgãos PIR [Políticas de Promoção da Igualdade Racial], nós conseguimos reconstruir, porque quando a gente entra no governo, perdão, ali em 2022, no finalzinho, a gente tinha menos de 100 municípios que tinham aderido e a gente consegue com muita luta chegar a 500, que ainda não é o número que a gente está satisfeito, mas já tem o ano de 2026 para alcançarmos o número que a gente consiga expressar.

Enfim, teve muito avanço, mas ainda assim, eu diria que mesmo com todas as políticas públicas que têm sido pensadas e feitas pelo governo federal liderado pelo presidente Lula, ainda há muito a se avançar. Ainda há muito a ser feito. Olha o que a gente está passando e vivenciando agora em Minas e em Paraty. Então, existem ações imediatas ainda que precisam ser tomadas, mesmo o governo fazendo um plano de R$ 3 milhões imediato para ajudar nessa questão da chuva, são ações que têm que ser feitas continuamente. E aí para você fazer isso, de fato, quem entrar tem que ter responsabilidade política e vontade política também para fazer.

Ministra, em outubro de 2024, 10 representações do movimento negro divulgaram uma carta criticando o Ministério da Igualdade Racial. Como está a relação da senhora com o movimento negro hoje?

Eu sempre fui do diálogo e da escuta. Não teve nenhum momento que alguém tenha pedido uma reunião que, se não pudesse ser a Anielle, o Ministério não tenha atendido. Eu tenho muito orgulho de falar sobre isso. Eu vim do movimento, sei como o movimento funciona e tenho muito orgulho de fazer parte. O que a gente viu na COP30, o que a gente viveu na quinta Conferência Nacional pela Igualdade Racial, com mais de 5 mil pessoas ali presentes, com diversos movimentos, mostra que a gente tem um conselho restabelecido. Então, ao meu ver, essa construção tem sido democrática com a sociedade civil e com o governo, porque é o que tem que acontecer. Eu sigo muito orgulhosa.

Claro que estamos em um lugar que é um cargo público, críticas vão acontecer. Eu sou professora desde os meus 17 anos, mas sou atleta também desde os meus oito anos de idade. Então, qualquer que seja a crítica, se ela for construtiva e se ela for verídica também, a gente tem que ouvir, tem que acatar, tem que reformular a rota, recalcular e agir. Ao meu ver, eu saio do mesmo jeito que eu entrei, sendo do diálogo e ouvindo todo mundo, conversando com todo mundo que queira conversar.

Obviamente que não se enquadram nessa minha fala determinadas pessoas ou movimentos direcionados à oposição que nem verdadeiros são. Porque até agora, no lado da direita, tem um movimento para desconstruir tudo que tem sido feito, não só no ministério, mas no governo federal como um todo. Esse a gente literalmente precisa ignorar, mas responder à altura também. Mas no nosso campo, eu estou muito tranquila quanto a isso e sigo dialogando com todo mundo.

Anielle, as pesquisas dessa semana indicam um crescimento de Flávio Bolsonaro, que chega a empatar com Lula. Qual sua expectativa para a disputa presidencial deste ano?

Eu, primeiro de tudo, literalmente espero que seja só um empate técnico mesmo. Porque não tem comparação esse candidato com o presidente Lula e eu espero que a gente consiga de fato reeleger Lula. Acho que não é segredo para ninguém o carinho, a admiração [que tenho pelo presidente Lula]. O presidente Lula é esse grande líder político que a gente tem e, se depender dele, mesmo falando que é a última, ele diz que vai viver até 120 anos, então talvez não seja a última.

Brincadeiras à parte, eu acho que o que a gente tem enfrentado no país desde 2018, além da polarização que se intensifica por essas pessoas que não são do diálogo, pelo contrário, são de violência, de baderna, de fake news, é muito notório. Para você ter uma ideia, só para abrir um parênteses aqui, ontem muitas pessoas me mandaram mensagem no Instagram perguntando quando que a família de Marielle se desculparia com o então ex-presidente por ter caluniado ele. E aí eu respondi a todos com muita honra e muito orgulho, dizendo que a nossa família nunca abriu a boca para acusar esse cidadão, nunca fez isso, mas que a gente seguiria sempre aqui lutando por justiça pela Mari. Mas eu perguntei também a essas pessoas quando que essa família, por exemplo, se desculparia pelas 700 mil mortes na época da Covid, ou quando mesmo tentaram liderar ali à frente um golpe falido, ou quando debocharam, por exemplo, da morte de Marielle. Isso eu nunca vi. Então, já que não tem de um lado, também não vai haver do outro porque não faz o menor sentido.

Esse tipo de polarização, de disputa política que a gente está enfrentando, de narrativa, de disputa de mentes e corações, tem muito a ver com isso. Os cidadãos de bem que falam que são da família tradicional, mas que agridem e matam a mulher. Então, por aí a gente tira e sabe em quem vota. Eu, particularmente, espero que a gente saia daqui, nesse ano, com a vitória do presidente Lula.

Eu, particularmente, espero também que a sociedade como um todo acorde e não siga apenas se baseando em fake news, que não siga apenas se baseando naquela mensagem que não é verdadeira que recebe do grupo do WhatsApp da titia, da escola, da rua, da igreja, sei lá o quê, mas que a gente possa de fato pensar política e fazer política pública para quem merece com quem merece.

É lamentável demais a gente estar vivendo nesse país com tanto ódio, com tanta mentira, com tanta violência, com formas de fazer política que as pessoas acham que é comum, que é normal, mas que ao meu ver nunca é.

Para terminar, quando mataram a minha irmã, eu falei que o meu sonho era conseguir dialogar com as pessoas que pensavam diferente dela. E dificilmente a gente consegue dialogar com as pessoas que pensam diferente dela, porque normalmente chegam para nos atacar e não para dialogar. O que está faltando para a gente conseguir debater e fortalecer, de fato, uma sociedade democrática é a verdade e o diálogo prevalecerem e é o que eu espero que a gente consiga ter.

Tendo em vista que esse ano teremos eleições, muito se fala das sementes de Marielle, mulheres negras que foram eleitas após o assassinato da vereadora. O que falta para avançarmos mais na participação de mulheres negras nos espaços de poder e na política, quais são os desafios colocados hoje? Em que eles diferem dos desafios colocados oito anos atrás?

Falta a gente poder competir de igual para igual. Falta a gente ter acesso também de igual para igual, falta a gente ter liberdade de igual para igual, falta muita coisa. Eu acho que a Cármen Lúcia fala: quantas outras Marielles a gente precisa perder nesse momento, nessa conjuntura, ou a gente vai esperar até outras Marielles aparecerem, infelizmente, porque de fato é um sistema que insiste em dizer que esse lugar não é para as mulheres?

Mas as sementes de Marielle estão aí para comprovar exatamente o contrário e para dizer que a gente vai dar continuidade, independente do que as pessoas achem ou pensem, a gente vai dar continuidade. O problema é que as pessoas não jogam com a gente de igual para igual, porque se a gente jogasse de igual para igual, aquele Congresso não ia ter só 20% de mulheres eleitas, eu aposto que não. Eu aposto que a gente teria muito mais e eu sigo dizendo isso pelos lugares que eu passei e que ainda vou passar. Quando pensaram que assassinando a Marielle calariam a voz dela e que ficaria por isso mesmo, se enganaram muito.

Mas eu espero muito que essa violência política, como eu falei no dia do julgamento, consiga um dia ser aniquilada, porque não é possível que as pessoas não entendam e percebam que é feito, imediatamente, para que a gente desista, para que a gente se amedronte, para que a gente se sinta ameaçada e não siga. Mas eles estão muito enganados.

Eu espero muito que este ano seja um ano em que a gente consiga eleger muitas mulheres. Que a gente consiga dar continuidade ao legado dela e que a gente consiga seguir firme abrindo mais espaço para a nossa geração e para outras que virão, porque não vai acabar na gente. Tem um futuro inteiro pela frente aí e a gente precisa fortalecer e ter cada vez mais mulheres e mulheres negras eleitas no nosso país.



Editado por: Maria Teresa Cruz