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(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Quando a vida torna-se diagnóstico

Segunda, 29 de junho de 2026

Quando a vida torna-se diagnóstico

O sofrimento é ambíguo – e, cada vez mais, é enquadrado em categorias psiquiátricas. Isso limita a forma de interpretar a si e ao mundo. Talvez seja necessária uma expansão subjetiva para enxergar a diversidade da experiência humana…


Vivemos em uma época na qual emoções, comportamentos e experiências cotidianas são cada vez mais interpretadas através de diagnósticos psiquiátricos. Termos originalmente técnicos como ansiedade, depressão, T.O.C, bipolaridade, autismo, déficit de atenção e narcisismo, passaram a habitar conversas familiares, relacionamentos amorosos, ambientes de trabalho, redes sociais e narrativas pessoais.

Crescentemente, utilizamos tais classificações para dizer sobre alguém. Ou até mesmo para explicar quem somos, o que sentimos e por que sofremos.

À primeira vista, isso pode parecer apenas um reflexo dos avanços no conhecimento sobre saúde mental. E em muitos aspectos, é. Reconhecer o sofrimento constitui uma condição fundamental para que ele possa ser acolhido. Nomear determinadas experiências pode favorecer sua compreensão, reduzir estigmas e ampliar possibilidades de cuidado.

Entretanto, esse cenário levanta questões mais profundas:

sábado, 17 de junho de 2023

Renda Básica, alívio também para dores da alma

 Sábado, 17 de junho de 2023

Precarização massacra o corpo e a mente e o desemprego é gatilho seguro para a ansiedade e depressão. E se o Estado redistribuir recursos capazes de dispensar as jornadas massacrantes e promover o bem-viver, a saúde mental e o cuidado?

Imagem: unsplash.com

Por Beatriz Duran, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues

A instabilidade econômica, a falta de rendimentos e o medo do desemprego são situações precursoras de problemas de saúde mental. Quando a vida está atrelada à precariedade laboral, a experiência humana parece estar voltada exclusivamente para atividades de sobrevivência. Da mesma forma, torna-se impossível que as pessoas tenham tempo e disponibilidade para práticas que desenvolvam o raciocínio, para se encontrarem e para o pertencimento — o poder de repensar a ordem estabelecida e melhorar a vida. A incerteza econômica ligada ao acesso e manutenção de um emprego, gera contínuos desconfortos e inseguranças psicológicos. Na mesma linha, podemos dizer que o trabalho — em seu sentido mais amplo — é um precursor de problemas e doenças mentais devido à deterioração das condições de trabalho. Os empregos são feitos de demandas que a maioria dos trabalhadores não consegue administrar.

O trabalho produz relações assimétricas: as pessoas são despojadas de seu poder de barganha e de sua liberdade. Trabalhar no contexto atual significa transitar entre contratos-lixo, ritmos acelerados que não permitem descanso e, ao mesmo tempo, exploram as pessoas até que elas adoeçam. Precisamente, as características do trabalho na era do capital tendem a intensificar a deterioração da saúde. A precariedade, por vezes, é invisível aos olhos da sociedade devido à sua normalização: uma cadeia de empregos precários sem possibilidade alguma de chegar a ter boas condições de trabalho. Podemos dizer que a pobreza está diretamente ligada ao trabalho precário, não apenas ao desemprego, portanto as pessoas são consideradas pobres mesmo tendo um emprego “estável” —que não cobre as necessidades pessoais e de seu entorno mais próximo. No entanto, esta “dança da precariedade” pode alimentar a ideia malfadada de que o trabalho determina “quem somos” e ser um foco de insatisfação, incerteza e dor.

O preço da desigualdade é alto, muito alto, principalmente para 99% das pessoas que não têm os recursos de que precisam. O aumento da precariedade laboral e a falta de oportunidades andam de mãos dadas numa sociedade em que uma em cada quatro pessoas — como é o caso de Espanha — corre o risco de enfrentarem a exclusão social devido a problemas relacionados com o acesso ao emprego e à habitação. O desemprego sempre foi um elemento característico do mercado de trabalho espanhol que tem uma das taxas mais altas da União Europeia – de acordo com a EPA [Pesquisa de População Ativa] cerca de 11,9 milhões de pessoas são precarizadas; 9 milhões são assalariadas; 1,2 milhões são autônomas e 2,6 milhões estão desempregadas. Somado a esses dados devastadores, está o problema da disparidade salarial a partir da qual as mulheres não conseguem decidir sobre suas próprias vidas devido aos péssimos salários que não cobrem suas necessidades: desequilíbrios salariais entre sexos e gêneros ofuscam a independência e o bem-estar social, deixando as mulheres na linha da pobreza. É assim que esta tendência de empobrecimento da sociedade não termina quando se consegue um emprego: “acesso ao trabalho em condições precárias e inflexíveis que não possibilitam sair dessa situação de exclusão social de quem se mantém com recursos íntimos” de acordo com o relatório do CC OO [Comissão Operária da Espanha] no ano passado. O flagelo da crise econômica é sentido no âmbito do trabalho pela falta de redes de segurança e desarticulação de recursos para a população menos favorecida.

O recente relatório do PRESME [Comisión de personas expertas en el impacto de la precariedad laboral en la salud mental], elaborado por um grupo de especialistas sobre o impacto da precarização do trabalho, afirma que a desigualdade social e econômica, a discriminação e os ataques à democracia são problemas globais de saúde pública. A atual tendência de queda dos salários e do desemprego reforçam as desigualdades em relação à saúde mental. “Da população ocupada, cerca de 17,3 milhões são assalariados, dos quais 46,9% podem ser considerados trabalhadores precarizados (8,1 milhões de pessoas)”. Atualmente, o salário recebido por um trabalho não cobre as necessidades básicas de grande parte da população, assim como é muito difícil ter recursos para cobrir a assistência diante da mal-estar psíquico. Um sistema público de saúde deficiente e cada vez mais privatizado não cobre ou sequer oferece soluções para tratar os problemas mentais das pessoas.

Portanto, a profunda precariedade sob a qual a maioria das pessoas em todo o mundo trabalha, infiltra-se nos corpos e gera vidas inseguras, envelhecimento precoce e morte prematura. A disciplina do trabalho é invisível e altamente nociva à saúde: uma estigmatização dos pobres e precarizado em constante adoecimento mental. Da mesma forma, esse sofrimento psíquico aumenta quando há um desconhecimento sobre o que leva tantos indivíduos a aceitarem o inaceitável em situações de exploração. Essa posição de desamparo é intensificada com os discursos meritocráticos: “tem que se esforçar mais para conseguir o pleno emprego”.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Entrevista: psiquiatra comenta explosão de casos de depressão no Brasil

Quarta, 3 de maio de 2017
Do Saúde Popular
11 milhões de brasileiros convivem, hoje, com a depressão. O psiquiatra Jurandir Freire Costa é  pesquisador emérito do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro 
Imagem: Reprodução Youtube
02/05/2017
Tema do Dia Mundial da Saúde, comemorado no último 7 de abril, a depressão vem chamando atenção da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de sistemas de saúde em todo o mundo: mais de 300 milhões de pessoas convivem, hoje, com o transtorno, 11 milhões somente no Brasil. Um desafio novo para a Saúde Pública, que encontra eco no modelo de desenvolvimento e no estilo de vida da sociedade contemporânea. Nesta entrevista concedida ao Portal Saúde Amanhã, o psiquiatra Jurandir Freire Costa, pesquisador emérito do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), comenta a explosão de casos de depressão no Brasil e no mundo e propõe um olhar mais abrangente sobre a doença, que vai além da medicalização patrocinada pela indústria farmacêutica. “Daqui a vinte anos, talvez, possamos vir a compreender a depressão psiquiátrica para além da indústria farmacêutica. E, então, vir a pesquisar, com o respeito que exige essa enigmática forma do sofrimento humano, o que é a depressão”, afirma Jurandir.