Terça, 11 de setembro de 2012
A pesquisadora e geógrafa Mariana Fernandes Mendes tem observado e
documentado a mudança por que passa Fortaleza para sediar a Copa do
Mundo de 2014. Em “Intervenções Urbanas para a Copa do Mundo em 2014”,
ela mostra como as obras do PAC seguem a lógica das “cidades modelo”,
que tratam o espaço público como mercadoria, expulsam comunidades em
benefício das zonas “ricas” e de obras que privilegiam o transporte
privado.
Em entrevista ao Copa Pública, Mariana explica que grande parte da
população sequer imagina quantas pessoas estão ameaçadas de remoções –
apenas para as obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de um ramal,
está prevista a remoção de aproximadamente 2.700 famílias.
“Minha hipótese sobre a realização do evento em Fortaleza é que o legado prometido se restringirá ao espetáculo”.
Como os preparativos para a Copa estão interferindo na vida das pessoas em Fortaleza?
Embora faltem apenas 2 anos para a celebração da Copa em 2014, grande
parte da população de Fortaleza não parece saber que desde 2009, quando
foram anunciadas as cidades-sedes brasileiras pela Fifa, várias
famílias vivem atormentadas com a possibilidade de perderem suas casas,
seus empregos, seus amigos, seus espaços de convivência e seus laços de
afetividade por causa das propostas de remoção.
Este estado de apatia perante a realidade social não é somente uma característica das classes dominantes, mas das classes populares também, que muitas vezes, contaminadas pela mídia corporativista, não se reconhecem como grupos sociais excluídos do processo de construção da cidade que habitam.
Várias comunidades são estigmatizadas pela violência urbana e retratadas na televisão de maneira pejorativa por programas sensacionalistas, que determinam os espaços que devem ser evitados e que não podem ser frequentados pelas “pessoas de bem” por que ali reside a criminalidade. Quando se divulga na mídia que estas comunidades estão com os dias contados, alguns moradores próximos vêem nisso uma possibilidade de ampliação dos negócios, valorização de sua propriedade, mas não se colocam no lugar daqueles que infortunadamente serão despejados. Fortaleza, desde as Políticas de Desfavelamento na década de 1980, tem um histórico de remoção traumático.
Na atual gestão da Prefeita Luizianne Lins (PT), foram feitas
remoções de duas comunidades: a Lagoa da Zeza e Vila Cazumba, cuja
população foi reassentada no Conjunto Maria Tomázia, considerada pelos
moradores um verdadeiro campo de concentração, pois além de sofrer com o
isolamento geográfico, o lugar carece de uma série de equipamentos
urbanos necessários, como creches e escolas. E com a realização da Copa,
haverá a construção de outros dois assentamentos para realocar a
população removida por intervenções de obras majoritariamente viárias.
Quantas pessoas serão despejadas por conta de obras para a Copa?
Apesar da incerteza dos dados e da obscuridade das informações por
parte do poder público, foi divulgado no Portal da Transparência que
para as obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ramal
Parangaba-Mucuripe, estão previstas a remoção de aproximadamente 2.700
famílias, 1.800 já cadastradas. Entretanto, de acordo com o Movimento de
Luta e Defesa da Moradia (MLDM), os 12,7 km de extensão do trilho do
VLT atingirão em torno de 4 mil famílias situadas ao longo da via férrea
cargueira já existente, que percorre 22 bairros e várias comunidades.
Dentre estas, estão a Trilha do Senhor, Dom Oscar Romero, São Vicente,
Rio Pardo, Canos, Jangadeiros, João XXIII e Aldaci Barbosa que, juntas,
formaram um movimento autônomo conhecido por “comunidade dos trilhos”.
Este movimento têm resistido às desapropriações. Outras comunidades
também serão atingidas pelo VLT como Lagamar e Serviluz e também as que
lutam através do Comitê Popular da Copa, como a Lauro Vieira Chaves. Há
ainda outras que não serão atingidas somente pelo VLT, como o complexo
em torno do Castelão que poderá atingir as comunidades da Bela Vista e
Barroso.

