Sexta, 31 de agosto de 2012
Da Revista Época edição 2234
Descaso, incompetência administrativa e suspeita de um novo esquema
de corrupção fizeram com que o Ministério da Saúde não desse uso a 13,7
mil litros de plasma sanguíneo avaliados em US$ 1,6 milhão
Claudio Dantas Sequeira
TRÊS MINISTROS ESCONDERAM O DESPERDÍCIO
Humberto Costa, José Gomes Temporão e Alexandre Padilha
(da esq. para a dir.): sangue jogado fora
A cada ano, o Ministério da Saúde gasta milhões em campanhas de
incentivo à doação de sangue. Boa parte dessas doações é industrializada
fora do País e retorna como hemoderivados, medicamentos essenciais no
tratamento de hemofílicos. A matéria-prima desse processo é o plasma
sanguíneo, um insumo tão cobiçado que um litro chega a custar US$ 120 no
mercado internacional – tanto quanto um barril de petróleo. O
Ministério da Saúde esconde em um depósito no Distrito Federal um
carregamento de 55 mil bolsas de plasma humano, avaliado em US$ 1,6
milhão, mas cuja validade está vencida há pelo menos cinco anos. O
segredo, que pode causar estragos às pretensões políticas dos
ex-ministros da Saúde Humberto Costa e José Gomes Temporão, além do
atual ministro, Alexandre Padilha, está trancado a 50 graus negativos
numa câmara frigorífica vigiada por seguranças armados. ...

Essa espécie de “túmulo do sangue”, como funcionários do ministério
chamam o local, é apenas o fio de um novelo que está sendo deslindado em
diferentes investigações pelo Ministério Público e pelo Tribunal de
Contas da União. Os processos, obtidos com exclusividade por ISTOÉ,
atestam desvios recorrentes na produção e estocagem do plasma coletado e
lançam suspeitas sobre a existência de uma nova modalidade de máfia dos
vampiros, com conexões até na França. Os lotes vencidos foram coletados
em 41 hemocentros e bancos de sangue de diversos Estados em 2003 e
2004, justamente o ano em que estourou o escândalo do comércio ilegal de
hemoderivados, desbaratado pela Polícia Federal na Operação Vampiro.
Então ministro, Costa chegou a ser indiciado por suspeita de
participação no esquema. Em março de 2010, foi absolvido pela Justiça e
conseguiu ser eleito senador. Agora, apenas dois anos depois, está
dedicado a virar prefeito do Recife, numa estratégia para chegar ao
governo de Pernambuco em 2014.