“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."
(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 27 de maio de 2020
domingo, 29 de março de 2020
POR UM PUNHADO DE DÓLARES
Domingo, 29 de março de 2020
Por
Pedro Augusto Pinho
Por
Pedro Augusto Pinho
O modelo de sociedade neoliberal não é perverso apenas pela concentração de renda, ou por divulgar que um atleta olímpico, um idoso manco e um menino na primeira infância podem disputar a mesma corrida, em outras palavras, podem competir. Se você contrapõe que só há competição entre iguais, eles colocam todas as pessoas como recém nascidas, onde umas venceram e outras perderam na corrida pela vida. Esquecem, pois não são especialmente ignorantes, os estudos sobre o capital cultural, que as desigualdades são construídas antes mesmo do parto.
Nesta crise, provocada pelo Covid 19, surgem várias reflexões que levam à mais contundente crítica do neoliberalismo. Tanto que, muitos defensores desta selvageria (ou não é uma lei da selva), não tendo como a defender, ressuscitam o comunismo, que nada mais é do que o neoliberalismo (globalizante, ideológico, centralizador, gerenciado por uma burocracia), com a diferença na distribuição do butim, para uns poucos ou para o Estado.
Notícias na televisão dizem que o aparelho respiratório para os infectados, em Nova Iorque, passou de 25 dólares, em janeiro de 2020, para 45 dólares atuais (28/03/2020). E há quem considere simplesmente uma “oportunidade de mercado”, ou seja, a vida humana exige um lucro excepcional para quem a tem sobre controle ou dela pode dispor.
Ouvindo o ministro Paulo Guedes, numa tela onde só há representantes do mercado, nome dado aos especuladores e aproveitadores das finanças desreguladas, fica-se com a impressão monárquica: um suserano e sua corte.
É o caso de fazer a pergunta, por tantos anos enunciada e repetida pela corajosa e combativa auditora fiscal Maria Lucia Fattorelli: que dívida é esta que não resiste a uma auditoria? É a farsa para transferir para bolsos privados o dinheiro público, e depois afirmar que a saúde e a educação não dispõem de orçamento para atender aos contribuintes, o cobertor só não é curto para os especuladores com dinheiro alheio.
Para o povo brasileiro, o povão desconhecido por todos governantes que combateram e combatem a Era Vargas, existe a Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, a PEC do Fim do Mundo, que por vinte anos, uma geração, congela as despesas com a saúde e a educação. Mas para os financistas, a privilegiada casta dos especuladores, o Banco Central transfere, todo dia, milhões e milhões de reais nas Operações Compromissadas. Estas Operações (poderia chamar assaltos) destinam-se a remunerar as sobras de caixa dos bancos, um overnight sobre o saldo dos depósitos menos saques. Que, na verdade, é o dinheiro dos correntistas remunerando os donos dos bancos. Um furto legalizado.
Vejamos algumas notícias, informações do sábado, 28/03/2020.
A biderberguiana cnnbrasil, emissora que pretende tirar da Globo o título de órgão oficial do neoliberalismo, surpreende ao afirmar que a Rússia, com 146 milhões de habitantes e 17.098 mil km², teve 253 casos de Covid 19, sendo quatro fatais, enquanto Luxemburgo, com 628 mil habitantes em 2.586 km² apresentava 670 casos com oito mortes. Mas foi incapaz de dizer que se tratava de um Estado Nacional Soberano e de um Estado Mínimo, em todos os sentidos, inclusive moral. Vive da lavagem de dinheiro.
Leiamos, na sempre magnífica tradução da Vila Mandinga, o que o diplomata britânico Alastair Crooke escreveu na plataforma Strategic Culture Foundation.
Título da matéria: “Dinheiro de helicóptero”: o grande evento geopolítico do momento. “EUA e Reino Unido, para deter o Covid-19, adotam abordagem bem próxima de tempos de guerra, com níveis invasivos de intervenção na vida social; ao mesmo tempo esses governos – como corolário da quarentena – propõem ‘resgates’ massivos. À primeira vista, talvez até pareça sensível e adequado. Mas... calma! Querem resgatar o quê? Ora... Claro que querem resgatar os mercados financeiros; de fato, sobretudo e esses todos: a Boeing, a indústria norte-americana do petróleo de xisto, companhias aéreas, indústria do turismo e (nos EUA) todos os cidadãos, enviando a cada um/uma, pelo Correio, essa semana, um cheque de $1.000 ou de $2.000 – ou, como se discute em DC – um cheque desses por mês. Excelente! Faz de conta que é Natal”. Não é para rir, caro leitor; é para chorar!
Para conter a “pandemia” tão a gosto dos neomalthusianos liberais, agora, por razão que talvez só os céus conheçam, atingindo mais ricos e classe média favorecida do que pobres e classe média baixa, mas sem prejudicar as receitas das “gestoras de ativos” só chovendo dólares.
E desta forma, Axel Christensen, estrategista-chefe de investimento na América Latina da BlackRock, pode enxergar maiores oportunidades de retomada aplicando em ações (!).
Oh Cristo! Será o caso de exorbitante cinismo, pois exorbitante já é o saque que esta gestora de ativos, que ao fim de 2019 apresentava-se com 10 trilhões de dólares estadunidenses em especulações pelas bolsas mundiais. Pois além de falidas - o que não era difícil prever desde a jogada geopolítica dos Estados Unidos da América (EUA) ao “descobrirem” sua “libertação” da dependência do petróleo árabe com as shale oil em seu território - a indústria do xisto só sobrevive por causa dos aportes estatais, sob as diversas denominações. A extração de petróleo dos folhelhos betuminosos não se sustenta, pelos custos e pela tecnologia disponível, frente à dos reservatórios “convencionais” de petróleo.
Mas o neoliberalismo, dos Estados Mínimos, da Lei da Selva, do projeto de extermínio de 2/3 da humanidade, também é o corruptor do judiciário, hoje desacreditado por pobres e ricos. Vamos ao exemplo da bilderberguiana cnnbrasil.
No noticiário noturno do sábado, 28/03/2020, ficamos sabendo que o Prefeito de São Roque (interior paulista), após frustradas negociações com o Hospital particular São Francisco, e com a autorização dada pelo Decreto de Calamidade Pública no Município, retirou e transferiu para Santa Casa sete respiradores. O prefeito, empresário Claudio José de Góes, é do PSDB, o mesmo partido do atual Governo paulista e que desde 1995 administra o Estado, além de ser dos maiores apoiadores do presidente Bolsonaro no Congresso.
A apreensão se deu após ser registrado o 38º caso de Covid 19 no município. Mas tanto as jornalistas da cnnbrasil quanto o entrevistado-consultor, que foi apresentado como médico, representante de hospitais particulares, acharam que o Hospital, que negociava com a vida dos munícipes, deveria ir à justiça contra o Prefeito. Aonde leva o neoliberalismo!
Alastair Crooke, sempre na tradução da Vila Mandinga, acrescenta:
“Na crise de 2008/9, o público ficou perplexo: o mundo financeiro parecia demasiado complexo para ser completamente compreendido. Só adiante apareceu quem percebesse que os bancos tinham sido salvos mediante a ‘socialização’ de seus erros e prejuízos. As perdas foram ‘socializadas’, vale dizer, transferidas para o balanço das contas públicas, e disseram que o povo esperasse austeridade e mais austeridade [“arrocho e mais arrocho”] – e cortes nos sistemas de saúde e bem-estar, para pagar por todos aqueles ‘resgates’ de 2008.
Dessa vez, não são os bancos, mas as empresas e sua respectiva dívida ‘podre’, que as autoridades esperam conservar em formol (como foi feito, antes, com os bancos). Em termos simples, o sistema permitirá que empresas super alavancadas assumam dívidas ainda maiores – tomando esses empréstimos agora avalizados pelo governo federal dos EUA.
Mas... será que público mais bem informado aceitará prontamente que a empresa Boeing mereça ser ‘resgatada’ com $60 bilhões, quando todo o dinheiro que hoje falta à empresa foi torrado ano passado para recomprar as próprias ações da empresa e pagar altos dividendos a eles mesmos?! Pode-se perfeitamente argumentar que, se o dinheiro é só papel impresso... ninguém mais precisa se preocupar com a tal ‘austeridade’ e os tais cortes.
Mas imprimir dinheiro oco dilui o potencial subjacente de compra do próprio dinheiro que havia antes da diluição. Quer dizer que, outra vez, os mesmos 60% pagarão os custos – outra vez.
Essa ‘neoausteridade’ será transferência clandestina de riqueza mediante a diluição do poder de compra das pessoas”
Mas as empresas, hoje, quase todas as negociadas nas bolsas de valores e outras de capital fechado - e isso é muito importante conhecer - após tantas crises fabricadas, pertencem ao BlackRock e seus colegas (concorrentes?) gestores de ativos: Vanguard, Wellington, Fidelity, State Street, PIMCO, Charles Schwab, Amundi, Morgan Stanley, Allianz e outras mais. Os cerca de 100 trilionários e bilionários sorvedouros da poupança mundial, para deleite e conforto de 0,001%, talvez menos, da população do planeta.
E quem as protege? Ouçamos um grande especialista, o primeiro civil a dirigir a Agência Central de Inteligência (CIA), dos EUA, Allan Dulles: “o serviço de inteligência é o veículo ideal para conspiração”. Inferimos que os gestores do MI6, do Mossad, e dos seus similares por todo mundo, não pensem e nem ajam diferentemente.
Pelo punhado de dólares, o neoliberalismo vende a senhora sua mãe. Prazerosamente.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado.
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Males Psicossociais do Neoliberalismo
Quarta, 3 de abril de 2019
Por
Pedro Augusto Pinho
Há vários aspectos do poder da banca (sistema financeiro internacional), o sistema executante do neoliberalismo no mundo contemporâneo, que merecem análise.
As questões econômicas são as mais evidentes pois acabam sentidas no bolso de todos nós. Qualquer estatística séria mostrará que o número de empregos e da renda oriunda dos salários é decrescente em todo mundo. O World Inequality Lab (http://wid.world/world- inequality-lab/) mostra que a classe média tem sofrido, desde 1980, com redução de sua participação na renda em nível global, em decorrência das políticas econômicas neoliberais - reformas trabalhistas, previdenciárias, assistenciais etc.
No Brasil o teto de gastos, com a PEC 55 (Emenda Constitucional 95/2016), segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a saúde pode perder até R$ 743 bilhões e a Educação pode ter perdas de até R$ 25,5 bilhões por ano, segundo estudo técnico da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados.
Também é relevante a desinformação que a banca produz. Para que pessoas, mesmo as melhor informadas, tenham dúvidas ou fiquem confusas diante de dados conflitantes ou das descaradas mentiras enunciadas, com pompa e seriedade, pelos órgãos de comunicação de massa, em especial pelas redes de televisão.
E já conhecido, com dados e fatos facilmente confirmáveis, que a banca, operadora do neoliberalismo, usa a corrupção para atingir seus propósitos.
Neste artigo, que terá o suporte teórico do filósofo alemão Axel Honneth (Reificação, Editora Unesp, SP, 2018), do psicanalista Christopher Bollas (A Sombra do Objeto, Escuta, SP, 2018), do professor de bioética da Universidade de Lancaster, Stephen Wilkinson (Bodies for Sale, Routledge, Londres, 2003), e do maior sociólogo brasileiro vivo, Jessé Souza, discorrerei sobre alguns dos males das imposições neoliberais no psiquismo individual e no psicossocial coletivo.
Quando tratamos de cidadania é imediata a oposição à escravidão. Está claramente exposta em livros e artigos de brasileiros notáveis como José Bonifácio de Andrada e Silva, Joaquim Nabuco, Benjamin Constant e o poeta Castro Alves.
A escravidão retira o humano de qualquer pessoa, transforma-a em coisa, em objeto. É por esta razão que Andrada e Silva, por exemplo, propugnava o fim da escravidão, pois sob qualquer ponto de vista, do meramente econômico ao da ativa participação política, apenas um homem livre, um cidadão, poderia contribuir, colaborar na formação do País que se libertava.
No capítulo "O Primado do Reconhecimento", Honneth, na obra citada, expõe a tese que "a especificidade do comportamento humano reside na atitude comunicativa que acompanha a adoção da perspectiva do outro" e que "carrega traços de uma preocupação existencial".
Não é por outra razão que, ao decompor as ações para construção da cidadania, objetivando sua operacionalização pelos Estados Nacionais, eu as denomino: existência, consciência e vocalização. "Existência" é a garantia da vida e "Consciência" são os saberes da convivencialidade, o entender-se e ao próximo, que vai além da simples instrução cognitiva, dos letramentos. Há uma convergência entre pensadores tão diferentes quanto Lukács, Heidegger, Dewey, Adorno que, na ontogênese, na cronologia dos fatos da vida humana, o reconhecimento precede o conhecimento. Daí a importância das creches nas instituições da "Consciência", na construção da cidadania.
Voltemos a esta agressão psicossocial da banca ao ser humano.
Ao reduzir todas as relações à troca, o neoliberalismo, mais do que financeirizar a vida, ele aliena o trabalho, instrumentaliza a pessoa e tira o amor, a imaterial satisfação pelo outro ou por um produto - bem ou mal feito -, pela obra mais simples, porém cheia de conteúdo, de um lavrador, um artesão, de um artista. Uma patologia que filósofos, cientistas sociais, psicólogos vão apontar nas análises sobre os déficits de democracia, de justiça, nas doentias agressões "contra tudo isso que está aí".
As pessoas não se colocam de maneira igual diante da "reificação" - serem tomadas como coisa, "coisificação", a nova escravidão - e, assim, assumem as posturas que cientistas do ser humano, individual ou coletivo, buscam identificar, analisar e classificar.
Não vejo, como muitos marxistas, a reificação na luta de classe, porque esta instrumentalização do ser humano invade todas as categorias sociais. Uma pessoa que diria emblemática do neoliberalismo, o Executivo Principal dos trilionários fundos de investimentos apátridas, o CEO do BlackRock, por exemplo, é tão comercializável quanto um operário de salário mínimo. Mesmo sem considerar as proporcionalidades das ofertas e demandas para ambas funções.
Uma questão que coloco é a consciência de quem se tornou "coisa" - em latim res, rei, de onde reificação - no ambiente em que há um valor de troca e, muito pior, quando se percebe a inutilidade ou imprestabilidade do que tem a ser trocado, que pode eliminar todo interesse negocial.
Há ampla literatura, inclusive romances, contos, vocábulos que apresentam o tratamento de pessoas como seres inanimados (sem alma, no latim: anima), sem vestígio de sentimentos interiores e de outros que são incapazes de adotar a perspectiva humana. São coisas e só veem coisas. Uma patologia individual e social.
Honneth, analisando a reificação em Georg Lukács, discorre sobre uma forma de automanipulação emocional: "o jornalismo como uma prostituição das vivências e convicções, vendo nisso o último degrau da reificação social".
Na instrumentalização do outro, o neoliberalismo exige que o comportamento humano atente contra os princípios morais e éticos, contra o julgamento pelas qualidades, nivelando todos - agentes e pacientes - como mortos, insensíveis, coisas.
E ao se propagar, se lançar politicamente em defesa da família, o candidato, que frequenta cultos religiosos e que é neoliberal, gera em seus seguidores e em si próprio uma latente esquizofrenia: como tratar como mercadoria a imagem de Deus? um irmão em Cristo?
Chega um momento em que a pessoa se considera apenas como um recurso e não participa do mundo, não tem projetos, é neutra e assume a atitude de indiferença, de simples constatação do que não pode alterar. Morre o ser humano.
E neste caminho, o neoliberalismo triunfa em seu objetivo de concentração da riqueza.
O mundo povoado por zumbis é um mundo da morte, de pessoas que se sentem desnecessárias, que são exterminadas ou se exterminam. O que dirá então dos Estados Nacionais. É o mundo ideal do neoliberal: poucas pessoas disputando a enorme riqueza.
Uma ficção científica que está sendo vendida a todos com as PEC do Fim do Mundo, com a Reforma da Previdência, com as Desvinculações Orçamentárias e como um irônico "combate à corrupção", como se não fosse a banca o grande corruptor, como não fossem os bancos os verdadeiros assaltantes, legalmente protegidos, das economias públicas e privadas.
Jason Tebbe ("Puritanos Vitorianos no Século 21", in Jacobin Magazine, 31/10/2016, tradução de Vila Mandinga) escreve: " A burguesia do século 19 usou a moralidade para afirmar a própria dominação de classe – precisamente o que as elites fazem até hoje".
A banca, mais uma vez, manipula palavras, conceitos, altera semânticas para levar-nos, a todos, para o precipício onde nos lançará coisificados à morte.
Para não concluir o artigo com esta real e indesejável possibilidade, vamos garantir que há um mundo cooperativo, que os Estados Nacionais podem sobreviver, conquistar sua soberania e organizar a construção da cidadania.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado
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quarta-feira, 19 de setembro de 2018
A Ideologia que Envenena o Mundo
Quarta, 19 de setembro de 2018
Por
Pedro Augusto Pinho
O neoliberalismo vem destruindo Estados Nacionais, provocando guerras, migrações, desemprego e fome.
E traz, cinicamente, o discurso da liberdade, do enriquecimento pela competição.
Tem como arma a desinformação, a farsa e a corrupção. Não resiste, nem na academia nem na economia das pessoas e das empresas, o confronto com a filosofia, a primeira, e a realidade, a segunda.
Liberdade é uma condição relacional, ocorre nas relações humanas, não é fé. Competitividade só existe entre iguais, entre aqueles que dispõe dos mesmos atributos.
Escrevo há alguns anos sobre o sistema financeiro internacional, que abrevio por “banca”. Este sistema traz a ideologia que se derrama pelo mundo e, do mesmo modo que a cicuta, vai envenenando povos, estados, destruindo postos de trabalho, provocando guerras e migrações, mortes que nos remetem à peste negra da Idade Média.
Há até semelhanças entre a peste negra do século XIV e o neoliberalismo. Aquela é apontada como um fator responsável pelas crises do fim do feudalismo, e este pela derrocada de dois princípios que vinham norteando a humanidade na era cristã: a fraternidade e a solidariedade.
Construção do neoliberalismo
O termo foi cunhado, na década de 1930, por um grupo de acadêmicos de economia e direito ligados à Escola de Freiburg (Friburgo), na Alemanha.
Publicavam o jornal “Ordo”, defensor do “Ordoliberalismus” (Liberalismo Ordenado). A senha do Ordoliberalismo é liberdade e competição.
É possível liberdade?
O que é liberdade? Como se exerce a liberdade? O que se opõe à liberdade?
No volume “La Philosophie”, da coleção editada pelo Centre d’Étude et de Promotion de la Lecture (Paris, 1969), lê-se, em tradução livre: “Liberdade - Esta palavra chave do pensamento, bem como da vida dos povos, conheceu altos e baixos, a partir das revoluções que, desde 1789 e séculos seguintes, permitiram à burguesia conquistar o poder político. A Declaração dos Direitos dos Homens proclamava que os homens nascem livres e iguais em direito”. “Marx, em “O Capital”, denunciava a hipocrisia dos pensadores liberais e a opressão exercida pela classe que representavam”.
José Ferrater Mora discorre longamente no verbete “Libertad”: conceito que “foi entendido e usado de muitas diversas maneiras e em muitos diferentes contextos desde os gregos até o presente” (Tradução livre do Diccionario de Filosofia Abreviado, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1970).
O pensamento liberal, assim como o neoliberal da Escola de Freiburg, reduzem a liberdade à ideia econômica, acusando o Estado como seu restritor.
Uma ideia absolutamente diversa de pensadores tão diferentes quanto Henri Bergson (1859-1941), filósofo do impulso da criação ("élan vital"), José Ortega y Gasset (1883-1955), pedagogo da circunstância do homem, e Jean-Paul Sartre (1905-1980), pensador e romancista do existencialismo.
Entre 25 de setembro e 31 de outubro de 2000, a Prefeitura do Rio de Janeiro patrocinou o seminário “A Invenção da Liberdade”, organizado por Adauto Novaes, com professores nacionais e estrangeiros, e de diferentes perspectivas ideológicas. Deste seminário resumo algumas considerações.
O organizador abriu o encontro afirmando que “as discussões sobre democracia e liberdade devem ser permanentes. Mais do que ideias, elas devem ser entendidas como “matrizes de ideias” às quais devemos dar sentido e através das quais criamos novos emblemas que nos levam a ver o mundo de forma diferente e a refazer tudo aquilo que já estava sedimentado”.
Charles Malamoud, professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, perguntou, no Seminário, “a maior democracia do mundo será verdadeiramente democrática?”, pois a Índia abriga a noção poderosa e hierárquica de ideologia sociorreligiosa, constituindo um entrave para o desenvolvimento.
Hannah Arendt (1906-1975) afirmava que a liberdade só existe associada aos outros, na junção de desejo e poder.
O pensamento único, do neoliberalismo, do mercado, é a mais nítida manifestação contra a liberdade, um projeto do totalitarismo, cuja “Escola sem Partido” se transforma na “Escola do Partido Único”, da ausência de liberdade para pensar.
O neoliberalismo é uma retomada totalitária da escravidão à dívida, da exclusão dos indefesos.
Há competitividade?
O ideal neoliberal do mercado “autorregulado”, como principal propulsor na busca da riqueza, é um dogma do século XVIII: oposição ao mercantilismo dos monarcas.
Seu principal pensador é Adam Smith (1723-1790), para quem os indivíduos são seres isolados, cujas ações refletem principalmente seus interesses pessoais e materiais: o egoísmo. Ele tratava as questões econômicas como distintas das políticas.
Mais tarde, David Ricardo (1772-1823) criará a ideia da “vantagem competitiva”, que, se implantada, levaria o mundo a exclusões absolutas. E, como seu antecessor, repudiava a interferência do Estado.
Tanto a liberdade quanto a competitividade não existem em sociedades caracterizadas pelas diferenças, exclusões, direitos e obrigações variando segundo as classes econômicas e sociais, na repetição aristotélica de cidadão, o de “alguém de origem conhecida que podia se manter com seus escravos e mulheres”.
O resultado desta “liberdade” e “competitividade” está na composição acionária de toda grande empresa internacional. Em todas elas, com valores significativos, estão as mesmas trilionárias empresas financeiras: Blackrock, Vanguard, State Street Global Advisors, Fidelity e poucas mais.
Por exemplo: Exxon, Apple, JPMorgan, Johnson&Johnson, Ford, IBM, General Motors, Delta Air Lines, Unilever, Shell, BP, Colgate-Palmolive etc tem os mesmos donos, financistas, cujo capital está majoritariamente, senão inteiramente, em paraísos fiscais.
Onde está a competitividade com empresas do mesmo dono? Na farsa e na fraude. Estas sim, são as qualificações mais adequadas para a ação da banca.
E o que ganha o mundo, ganham os povos com isso?
O que disse o jornal?
Vejamos notícias recentes, colhidas no Monitor Mercantil, jornal especializado em economia e negócios, no Rio e São Paulo.
Da coluna “Fatos & Comentários”, de Marcos de Oliveira, retiro:
“Dois artigos publicados em junho pelo FMI passaram quase despercebidos – talvez pela proximidade das férias, talvez pela pouca receptividade aos temas. Mas merecem maior atenção. “A ascensão das grandes corporações”, de Federico J. Díez e Daniel Leigh, mostra que a crescente riqueza e poder econômicos das grandes empresas – de companhias aéreas a empresas de alta tecnologia – tem sido apontada como o motivo para o baixo investimento apesar do aumento dos lucros, para o declínio do dinamismo dos negócios, a fraca produtividade, baixa inovação e a queda da parcela da renda paga aos trabalhadores”.
“Uma análise mais aprofundada mostra que o aumento das margens nas economias avançadas se deve, sobretudo, às ‘grandes estrelas’ do setor empresarial, que conseguiram aumentar ainda mais seu poder de mercado, enquanto as margens das demais empresas basicamente se mantiveram estáveis. Curiosamente, esse padrão é encontrado em todos os setores econômicos de modo geral e não apenas na tecnologia da informação e da comunicação”.
“Divya Kirti, economista do FMI, começa seu artigo “O boom dos papéis de alto rendimento” fazendo um paralelo com a saúde. “Todos já ouvimos falar do colesterol bom e do colesterol ruim. Um excesso de colesterol bom provavelmente não fará mal nenhum, mas o excesso de colesterol ruim pode levar a um ataque cardíaco.” O texto mostra que o mesmo se aplica aos booms de crédito, períodos em que o volume de empréstimos na economia aumenta com muita rapidez”.
“Kirti conclui que os booms de crédito marcados por um aumento da proporção de títulos de alto rendimento foram seguidos por crescimento menor nos três ou quatro anos posteriores. Quando a parcela de alto rendimento aumenta um desvio padrão – medida estatística de quanto um número difere da média dentro de um conjunto de dados – o crescimento do PIB nos três anos seguintes é 2 pontos percentuais menor”.
Nos mesmos dias 13 e 14 de setembro de 2018, da Coluna de Marcos de Oliveira, leem-se também no Monitor Mercantil as seguintes manchetes:
“Investimentos federais desabam em 2019”, “Lucratividade industrial cai para 1,7%”, “Fusões e aquisições atingem maior valor em 8 anos”, “Vendas tem terceiro mês em queda”, “Inadimplência avança pelo 11º mês seguido”, “Petróleo Brent se aproxima de US$ 80 o barril com temores sobre oferta” e na coluna “Acredite se Puder”, de Nelson Priori, “Roubini prevê que a crise financeira será em 2020” e “Presidente do BCE manda emergentes se precaverem”.
As consequências
Nas sociedades desiguais, liberdade e competitividade são fantasias. Como o neoliberalismo pretende-se global e não estando Estados e povos em nível aproximado de condições econômicas e sociais, a consequência será encontrarmos nações opulentas e nações escravas e, dentro de todas, milionários e miseráveis.
“Um espectro ronda a Europa”, escreveram Marx e Engels na abertura do Manifesto de 1848. Parodiando diria que um outro espectro derramou-se pelo mundo, a cicuta neoliberal.
Logo após a “crise de 2008”, um grupo de economistas franceses publicou (valho-me da tradução portuguesa, Actual Editora, Lisboa, 2011) o “Manifesto dos Economistas Aterrados. Crise e Dívida na Europa: 10 falsas evidências, 22 medidas para sair do impasse”.
E na Introdução já apontam a farsa que se montou, não apenas para a crise - apropriação de recursos públicos para cobrir insucessos e prosseguir com especulações financeiras - mas na política de arrocho fiscal que se seguiu:
“A retomada econômica mundial, que se tornou possível graças a uma injeção colossal de fundos públicos no circuito econômico (dos Estados Unidos à China), é frágil, mas real. Apenas um continente continua em retração: a Europa. Reencontrar o caminho do crescimento econômico deixou de ser a sua prioridade política. A Europa decidiu enveredar por outra via, a luta contra os déficits públicos”.
E, como em passe de mágica, a grande prioridade dos Estados deixa de ser seus habitantes, seus cidadãos, passa a ser o “controle fiscal”.
Superavit primário, ajuste fiscal, déficit público, metas de inflação, câmbio flutuante, tripés macroeconômicos e mais uma quantidade de expressões e palavras para significar a única política pública: tudo para as finanças, nada para as pessoas.
E os governos não se envergonham de cortar subsídios à alimentação, recursos para saúde, aposentadorias para idosos objetivando manter rentável e saudável a finança privada. O que também não ocorre, pois a ganância, nada competitiva, é maior do que os aportes públicos.
É um assunto que apenas inicio; os males são muitos e de toda ordem: financeiras, econômicas, sociais, culturais e morais. A banca, o neoliberalismo é o inimigo da humanidade.
Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado
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