Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 29 de maio de 2022

A MÁFIA ESTÁ ENTRE NÓS

Domingo, 29 de maio de 2022

Pedro Augusto Pinho*

“O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?” (Bertolt Brecht, “A ópera dos três vinténs”, 1928, e Ricardo Piglia, “Plata quemada”, 1997).

Há mais de um século os militares brasileiros tramam e aplicam golpes no Estado Nacional. Nem sempre no mesmo sentido, mas com um mote que se repete frequentemente: o combate à corrupção e ao comunismo. Será mesmo?

“Quem analisa o Brasil, mesmo sem maiores pretensões sociológicas, mas encarando-o e equacionando-lhe os principais problemas de maneira objetiva, chega fatalmente a esta conclusão inquietante: estamos vivendo a fase crucial de nossa história” escreveu, em 1954, o general Anapio Gomes (“Radiografia do Brasil”, com segunda edição pelos Irmãos Pongetti, logo após a morte do estadista Getúlio Vargas, em 1955).

O então Ministério da Guerra estava entregue, nesta “fase crucial”, desde janeiro de 1951 até novembro de 1955, aos seguintes generais: Newton Estillac Leal, Ciro do Espírito Santo Cardoso, Euclides Zenóbio da Costa e Henrique Teixeira Lott, este após 25 de agosto de 1954.

Na Marinha e na Aeronáutica aos Almirantes Renato de Almeida Guillobel e Edmundo Amorim do Valle e aos Brigadeiros Nero Moura, Epaminondas Gomes dos Santos e Eduardo Gomes, estes últimos, na Marinha e na Aeronáutica, após 25 de agosto de 1954, respectivamente.

Se tomarmos a sentença do historiador britânico, John Keegan (“The Face of Battle”, 1976), “não é pelo que os exércitos são, mas pelo que os exércitos fazem que as vidas das nações e dos indivíduos se modificam”, a “fase crucial” de nosso País é de toda a história, especialmente em nossos dias.

Nas onze conferências que o capitão Genserico de Vasconcelos proferiu na Escola de Estado Maior e Aperfeiçoamento de Oficiais (“História Militar do Brasil”, 1921) desenvolvendo a influência do fator militar na “organização da nacionalidade” expõe, na síntese, que “a obra da República reatou a nossa continuidade histórica, emendando 1889 com o Império, que se não havia desligado de Portugal e das bandeiras, terminou com o traçado dos lindes da nossa casa, vastíssima morada de quase nove milhões de quilômetros quadrados. O Brasil integrou-se na América pela porta da República”. E conclui: “A Missão do Exército e da Marinha resume-se, pois, em manter a inviolabilidade e a segurança de nossas definitivas fronteiras, e argamassar a nacionalidade dentro de sua tradição e da sua continuidade histórica”. Belas palavras!

E logo se seguiu, em 1922, há 100 anos, o Movimento Tenentista e as diversas manifestações militares pela década de 1920.

No número de março-abril de 1979 de “A Defesa Nacional” (Ano LXVI, nº 682), o general de divisão Carlos de Meira Mattos (“A Continentalidade do Brasil”) discorreu sobre nossa realidade geográfica — maritimidade e continentalidade — afirmando que “as sucessivas elites brasileiras, desde José Bonifácio, não tomaram consciência” desta “aptidão geopolítica”, daí os recuos e “cautelas” que marcam nossa história.

Talvez Meira Mattos, golpista de 1932 (voluntário), de 1954 e de 1964, não tivesse o explícito propósito do purismo, da unicidade, mas caiu na esparrela, na armadilha do excludente, ao trocar nosso contorno marítimo pelo terrestre (elogios a Juscelino Kubitschek e Emílio Médici).

Impossível não nos lembrarmos do poema de Cecília Meireles “Ou isso ou aquilo”: “não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo” (Cecília Meireles, Poesia Completa, Global Editora, 2017).

Somos vítimas, em todos os lugares, em todos os tempos, da pedagogia colonial, que se alimenta das segregações, pois é indispensável para que o poder, qualquer poder que não seja efetivamente popular, democrático, participativo, se mantenha sem a compreensão de antagonismos: ou isso ou aquilo.

Há cerca de vinte anos, analisando o poder onipresente do sistema financeiro internacional, escrevemos sobre a participação crescente da economia marginal no poder das finanças.

Esta denominação de economia marginal une todos os ganhos ilícitos, assim definidos em tratados, convênios, acordos internacionais e nas legislações nacionais, tais como a tráfico de drogas, a comercialização de pessoas e órgãos humanos, contrabandos de armas e outros produtos.

Há razão simples para compreender esta prevalência. Enquanto os capitais tradicionais estão aplicados, em imensa maioria em bens fundiários, os capitais marginais estão em moedas correntes, são “cash”, a vista, comprando, corrompendo, subornando imediatamente.

A crise de 2008/2010, em parte, foi fruto da disputa pelo poder, ou seja, pelo controle dos 85 paraísos fiscais existentes no mundo. E, assim, da circulação do dinheiro. Fundamental para o poder que se funda nas finanças.

Porém é muito difícil para as pessoas, mesmo as mais críticas do neoliberalismo, entenderem que não é um projeto ideológico, nem nazista, nem fascista, nem petista, nem falsamente democrático, que está em questão. É o domínio da marginalidade, das milícias, da mais nefasta pedagogia colonial que aceita e até justifica a venda de crianças para os traficantes de sexo.

O exemplo mais recente vem do “Projeto de Nação – O Brasil em 2035”, lançado em 19 de maio último, que foi entendida como a mais recente e antecipada contestação à vontade das urnas, que deverá surgir em outubro próximo.

O “Projeto”, documento de 93 páginas, coordenado pelo general de divisão da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, contem 37 temas, considerados estratégicos: geopolítica, governança, segurança, desenvolvimento, ciência, tecnologia, saúde, educação, defesa nacional entre outros, que muitas vezes se contradizem nas conclusões.

Longe de nossa intenção imputar ao general Luiz Rocha Paiva, ou a seu irmão, coronel Paulo Ricardo da Rocha Paiva, de quem lemos com prazer as análises nas edições da “Defesanet”, bem conduzidas por Nelson Duhring, qualquer associação ao crime.

Todos, e não nos excluímos desse “todos”, somos vítimas da pedagogia colonial, com intensidades e focos variados. E, assim, é-nos difícil entender e avaliar, também pelo sigilo de que se cerca, a participação da marginalidade criminosa nas decisões do atual governo brasileiro.

A economista e escritora Loretta Napoleoni escreveu “Rogue Economics” (Seven Stories Press, NY, 2008) que na tradução de Pedro Jorgensen Jr. para Difel (RJ, 2010) tomou o título “Economia Bandida”. Narra principalmente os eventos da última década do século XX, após a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e a ascensão das economias marginais e da islâmica, sem que mostre incompatibilidades entre elas.

Também não aprofunda a ação de Vladimir Putin, para libertar a Federação Russa das máfias locais, “é preciso separar o dinheiro do poder” (entrevistas a Oliver Stone, produzidas em 2017 e transmitidas no Brasil pela TVT em 2020).

Escreve Loretta Napoleoni: “os principais beneficiários das transações não são aqueles que criam os novos produtos nem aqueles que os consomem, mas aqueles que os comercializam”, boa conclusão para os caminhoneiros que pedem a privatização da Petrobrás, afastada, pelos golpistas de 2016, da comercialização dos derivados de petróleo.

Mais não se atribua unicamente à economia subterrânea, a estas finanças apátridas e marginais, a responsabilidade pela situação vivida hoje no Brasil. Citando o grande brasileiro e político Leonel Brizola, “há um mar de cumplicidades”.

Em entrevista concedida em setembro de 2006, Grant Woods, diretor do Banco Coutts, onde a rainha do Reino Unido e a aristocracia britânica têm conta, esclareceu que o sistema fiscal dos residentes em Londres beneficia tributariamente todos estrangeiros que lá tenham endereço. “Eles deixam de pagar bilhões de dólares em imposto nos seus países de origem, desde que deixem depositadas grandes somas em bancos como o Coutts”. E confessa que "eu mesmo estruturei carteiras de vários oligarcas russos”, formados na década que sucedeu ao fim da URSS.

À missão das Forças Armadas, nas emocionantes palavras do capitão Genserico de Vasconcelos, o coronel Nelson Werneck Sodré acrescenta “assegurar o exercício da autoridade central em toda extensão da base física brasileira” (“História Militar do Brasil”, 1965). Ou seja, confirmando a tese do gaúcho Luiz Roberto Pecoits Targa (“Gaúchos e Paulistas na Construção do Brasil Moderno”, 2020), apagando as histórias regionais em prol da redutora e homogeneizadora disputa centro-periferia.

Desconhecer o Brasil, analisá-lo sob pressupostos discutíveis, quando não absolutamente falsos, vítimas de preconceitos ideológicos — quem já comprovou que a competitividade é mais eficaz do que a solidariedade para o resultado das instituições? — é tão danoso quanto aceitar a interferência divina para solução de nossos terrestres problemas.

A este propósito, o professor e economista Ricardo Bergamini, assumido liberal econômico, na coluna divulgada no sábado, 28/05/2022, enviada por e-mail, relaciona os cinco “pastores evangélicos” mais ricos do Brasil com fortunas de milhões de dólares estadunidenses, e não por mero acaso, todos neopentecostais, as “igrejas da caixinha”: Edir Macedo, bilionário dono da Igreja Universal do Reino de Deus, Valdemiro Santiago, dos feijões milagrosos, da Igreja Mundial do Poder de Deus, Silas Malafaia, ativista politico, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, e o casal Estevam e Sônia Hernandes, da Igreja Renascer.

As Forças Armadas, onde a liderança sempre esteve com o Exército, ocupam o Governo Brasileiro, pelos discutíveis votos computados pelas urnas eletrônicas, cujo controle brasileiro é ainda mais duvidoso.

E ainda pretendem aplicar novo golpe para durar mais 15 anos, lembrando os 1000 anos do projeto hitlerista.

Revendo dois golpes no século XX, que as Forças Armadas assumiram, nem sempre com benefício próprio, mas em prejuízo do desenvolvimento da sociedade brasileira, vemos duas falácias. O “mar de lama”, corrupção que jamais ocorreu no Governo Vargas, e foi reconhecido, anos depois, pelo seu veemente opositor, Afonso Arinos de Mello Franco em artigo no “Jornal do Brasil”. E o “comunismo” de João Goulart, verdadeira piada de mau gosto, que só enganou quem dela se aproveitou (de início capitais estrangeiros) ou foi muito ingênuo, tendo na visão setorial o desconhecimento do todo que a cercava.

Mais uma vez, objetivos não nacionais conduzem nossa história. Se tivemos antes identidades nacionais: portuguesas, holandesas, francesas, inglesas e estadunidenses se locupletando de nossas riquezas naturais e do trabalho de nosso povo miscigenado, hoje é um sistema apátrida, conduzido pelas finanças, com forte participação de capitais ilícitos, quem nos dirige.

Desconhecer esta triste realidade é naufragar com nosso País em águas imundas, fétidas, com vírus produzidos em laboratórios para a guerra bacteriológica, a nova dominação no século XXI.

Rio de Janeiro, 29 de maio de 2022.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Entenda a relação entre previdência social e auditoria da dívida pública

Quarta, 5 de maio de 2021

Rodrigo Ávila explica a relação entre previdência social e auditoria da dívida pública

Da Auditoria Cidadã da Dívida

Apresentação de Rodrigo Ávila, economista da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), abordando a relação entre a previdência social e a auditoria da dívida pública, no segundo dia de palestras do webinário "Brasil no século XXI: Barbárie ou Solidariedade", organizado pelo Fórum Sindical de Saúde do Trabalhador - FSST. Baixe os slides da apresentação em

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Os bancos também são mortais

Fevereiro
27 

Os bancos também são mortais

Todo verdor perecerá, havia anunciado a Bíblia.
Em 1995 o Banco Barings, o mais antigo da Inglaterra, entrou em bancarrota. Uma semana depois, foi vendido pelo preço de uma (1) libra.
Esse banco havia sido o braço financeiro do império britânico.
A independência e a dívida externa nasceram juntas na América Latina. Todos nós nascemos devendo. Em nossas terras, o Banco Barings comprou países, alugou próceres, financiou guerras.
E se achou imortal.

(Eduardo Galeano, no livro ‘Os filhos dos Dias’. L&PM Editores, 2012, pág. 75.)

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Malditos sejam os pecadores

Julho
24

Malditos sejam os pecadores

No idioma aramaico, que Jesus e seus apóstolos falavam, uma mesma palavra significa dívida e pecado.

Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está a sua espera o castigo dos credores.


Eduardo Galeano, no livro “Os filhos dos   dias”. Editora L&PM, 2ª edição, pág. 236.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Como os bilionários se tornam bilionários. Consequências das desigualdades.

Quinta, 28 de fevereiro de 2019
 

A América tem as maiores desigualdades, a maior taxa de mortalidade, a maioria dos impostos regressivos e os maiores subsídios públicos para banqueiros e bilionários de qualquer país capitalista desenvolvido.
Publicado pela primeira vez pela Global Research em 5 de outubro de 2017

Neste ensaio, discutiremos as raízes socioeconômicas das desigualdades e a relação entre a concentração da riqueza e a mobilidade descendente das classes trabalhadoras e assalariadas.

Como os bilionários se tornam bilionários

Ao contrário da propaganda promovida pela imprensa de negócios, entre 67% e 72% das corporações tinham zero obrigações tributárias após créditos e isenções — enquanto seus trabalhadores e empregados pagavam entre 25% a 30% em impostos. A taxa para a minoria de corporações, que pagou qualquer imposto, foi de 14%.

De acordo com a Receita Federal dos EUA, a evasão fiscal bilionária equivale a US$ 458 bilhões em receitas públicas perdidas a cada ano – quase um trilhão de dólares a cada dois anos por essa estimativa conservadora.

As maiores corporações americanas abrigaram mais de US$ 2,5 trilhões de dólares em paraísos fiscais no exterior, onde não pagaram impostos ou taxas de imposto de um único dígito.

Enquanto isso, corporações americanas em crise receberam mais de US$ 14,4 trilhões em dinheiro de ajuda pública, divididos entre o Tesouro dos EUA e oFederal Reserve, principalmente de contribuintes americanos, que são esmagadoramente trabalhadores, empregados e aposentados.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Leituras da História ou Pelo Brasil Independente

Sexta, 30 de novembro de 2018
Por
Pedro Augusto Pinho
Repito, com enorme desgosto, o que me é possível ler de nossa História. Somos, há 518 anos, uma colônia.

Imigrantes praticamos o genocídio dos povos autóctones, como o fizeram os espanhóis, ingleses e todos os civilizados europeus nas Américas, na África e por onde andaram.

Para cá também transplantamos enormes populações africanas, para nos servir como escravas, e garantimos, com sociedade submissa, dependente, permanente colônia aos senhores da ocasião.

Os primeiros aventureiros agiram como corsários, apenas interessados nos bens mais facilmente disponíveis e transportáveis. Deram a este período uma roupagem econômica denominando-o ciclo do pau-brasil.

Mas verificaram que esta terra fértil e imensa poderia suprir a Europa de um produto caro: o açúcar. Foram-se formando as bases da sociedade brasileira: escravista, agroexportadora, ignorante e dependente do estrangeiro.

A força com que esta classe permeou o imaginário nacional só tem semelhança com o inexistente empreendedor estadunidense, desbravador do oeste selvagem.

Mesmo empobrecida, cercada pelas dívidas, que é a principal arma do colonizador inglês, esta classe rural impediu a industrialização brasileira e ainda conduz, de modo elitista e antipopular, os destinos da nação. Com o relho e o preconceito.

Assistindo programa de entrevista na TV Curta, canal fechado, cerca de 10 historiadores, pensadores, psicólogos expuseram suas compreensões sobre nossa história. Pareciam 10 países diferentes. Por que estas desinformações? Estas incompreensões tão gritantes? Estas óticas tão particulares e excludentes?

Nem pretendo, nem tenho a paranoia de dono da verdade. Usarei o último livro do maior sociólogo brasileiro vivo: Jessé Souza, “A classe média no espelho” (Estação Brasil, 2018), suas pesquisas e análises, para orientar minha reflexões.

Inicio com a citação crítica da Lava Jato, elogiada à esquerda e à direita como redentora do País:

“Não entra no cérebro desses lacaios servis aos interesses dos seus senhores que a corrupção era seletiva e definida pelo algoz, o que explica por que apenas um lado tenha sido prejudicado e o outro ficado só com as vantagens”

Quem perdeu? A industrialização, a engenharia, as empresas brasileiras. Quem ganhou? O sempre impune sistema financeiro e os interesses empresariais estrangeiros.

Vamos nos deter em dois pontos, vitais para a soberania, para a independência de qualquer país: energia e indústria, intimamente ligados.

Dois brasileiros e apenas eles merecem a qualificação de estadistas: Getúlio Vargas e Ernesto Geisel, não por mero acaso governaram com regimes autoritários, chamemos, para agradar gregos e troianos, ditatoriais. E ambos foram vítimas de golpes, pelas mesmas forças externas que lutam com uma parcela da classe dirigente brasileira pela manutenção do Brasil Colônia.

Não me deterei, já o fiz em outras artigos, sobre a formação da elite agroexportadora, que se colocou acima do Estado Nacional, desde 1808, e jamais, a não ser nos breves momentos de governo autoritário, saiu desta posição de mando e controle das decisões nacionais.

Repito que não há esquerda e direita no Brasil, há os que se submetem, hoje à banca (sistema financeiro internacional), e os que se voltam contra os colonizadores, até 1990 Estados Nacionais centrais (Europeus e os Estados Unidos da América - EUA).

Apenas um exemplo em Estado Central, para que se veja a ignorância e a desinformação que nos domina. Na Suécia, apenas 8% da hotelaria, por decisão de governo, pode estar em mãos estrangeiras. Absurdo? De modo algum. Protegendo a indústria nacional de mobiliários, materiais e equipamentos domésticos e toda cadeia produtiva a estes associada. Assim a Suécia garante emprego e renda para seus nacionais. Imagine se este setor estivesse em mãos alemães, onde estariam os empregos e as rendas?

A industrialização sempre foi combatida no Brasil. Não de modo franco e aberto como de Eugênio Gudin que dizia ser a siderurgia “coisa de branco”, não era para os mestiços brasileiros. Eram leis, regulamentos, orientações que, na prática, impediam o desenvolvimento industrial nacional. Veja a diferença das políticas de Vargas e da ação do BNDES nos Governos Médici e Geisel.

Vamos rever/reestudar a política de substituição de importações, tão brilhantemente conduzida por Marcos Pereira Vianna. Ao invés de desindexar despesas para cumprir o estúpido teto de gastos, como declarou ao Valor Econômico o “futuro ministro” Paulo Guedes (30/11/2018).

Voltemos à questão básica e estratégica da energia. Nossos dois estadistas criaram as empresas que se tornaram referência internacional de capacitação técnica para conduzir a energia no Brasil: Petrobrás, Eletrobrás, Nuclebrás e o programa do Pró-álcool. Todas em processo de desestruturação, de infiltração política, de privatizações e desnacionalizações desde 1990, não por acaso o ano que a banca chegou, pelo voto, ao poder no Brasil.

O que nos leva - pois a ação administrativa é sistêmica, todos elementos estão de algum modo interligados, interdependentes - à questão da comunicação de massa. Quem controla a comunicação de massa, a indústria cultural no Brasil? Pois é esta força de comunicação que irá criar expressões, modismos, hábitos que influenciarão nosso modo de pensar e fornecerão os dados que corroborem suas farsas, seus preconceitos e desinformações.

Para ficar no exemplo da Petrobrás, foram seus técnicos que descobriram campos gigantes, no Brasil e no exterior, depois que as grandes empresas de petróleo - as majors - abandonaram estas áreas pela “inexistência” de petróleo.

Foi o caso do Campo de Majnoon, no Iraque, e vários, inclusive o pré-sal, no Brasil. Hoje Majnoon está entregue à Royal Dutch Shell (anglo-holandesa) e à Petronas, da Malásia. E o pré-sal sofre o assédio das estrangeiras, estatais e privadas, no Senado.

Não sei se Lênin ou Stalin quem pronunciou a frase muito citada em artigos sobre energia: socialismo é igual a poder soviético mais eletrificação.

Mas sem dúvida, o poder nacional está intimamente vinculado à energia. Privatizar (o que significa internacionalizar o controle) a Petrobrás, a Eletrobrás, a Nuclebrás, os programas de biocombustíveis, é colocar o Brasil de joelho.

A privatização vai também se infiltrando em novas formas de estrutura societária. A Vale (ex-Vale do Rio Doce, uma riqueza brasileira sem semelhança no mundo), recebida em quase doação por empresário nacional e Fundos de Pensão de empresas de economia mista, está hoje desnacionalizada, legalmente mas ilicitamente, por jogadas com ações, vinculação ao “novo mercado” da Bolsa de Valores, acordos de acionistas, que entregaram 52,9% do capital para mãos estrangeiras e com outros prejuízos à participação nacional com conclusão, já definida, em  2020.

Mesmo o agronegócio exportador, que tão ardentemente defende e sempre apoiou a manutenção colonial, não percebe que a terra produtiva e a água doce já estão na mira dos interesses estrangeiros, transformando-os em “bens de mercado”, ou seja, para serem propriedade dos BlackRock, Vanguard, State Street Global Advisors (SsgA), Fidelity e outros trilionários fundos de investimentos de difusa propriedade pelos países centrais. Contra eles Blairo Borges Maggi, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias e outras importantes personalidades da agropecuária brasileira não terão qualquer força.

Tratemos de mais um tema sensível à independência nacional: o tráfico de drogas, de armas e ilícitos associados.

De acordo com o órgão da ONU para Drogas e Crimes (UNODC - UN Office on Drugs and Crimes), em 2010, este complexo econômico movimentou 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Apenas o narcotráfico,representava R$ 490 bilhões (14%), dos R$ 3.480 bilhões, que circulavam no sistema financeiro do país, segundo o ex-Ministro Chefe da Casa Civil (1995-1999), Clóvis Carvalho, no relatório da Comissão Especial de Estudos sobre o Sistema Financeiro, por ele presidida.

Engana-se quem vê o negócio das drogas, armas, tráficos de pessoas e órgãos humanos, lavagem de dinheiro e crimes semelhantes como ação de cartéis ou “famílias” mafiosas. É um imaginário que a comunicação de massa ajuda a divulgar na proteção deste trilionário negócio. É uma sólida cadeia integrada de produção, comercialização e finanças.

Com as desregulações de Thatcher/Reagan, ao longo dos anos 1980, os ilícitos fizeram “surgir no mercado”, entre 1990 e 2000, cerca de US$ 4 trilhões. Foi grande upgrade para a banca. Já nadando em petrodólares.

Parte desta fortuna está nas corrupções que um sistema parlamentar facilita, ainda mais num estado aparelhado.

Também tenho lido no facebook (pode não ser fonte confiável, mas relatórios bancários o seriam?) que as igrejas, notadamente as neopentecostais, que são abundantes em áreas carentes, estão sendo atraídas e incluídas no sistema de lavagem do tráfico. As “doações”, isenções tributárias, ausência de fiscalizações muito ajudam.

Toda esta gestão do crime, dos ilícitos, desagua na violência urbana, que foi dos temas mais importantes da última eleição.

É muito fácil ser técnico na segunda-feira, como sabe todo amante de futebol, mas é muito pertinente o que escreveu o sociólogo Francisco de Oliveira, em “O momento Lênin” (Novos Estudos CEBRAP, nº 75, julho/2006), cuja conclusão resumo a seguir.

Em 1917, Alexandre Kerensky assume a direção da Rússia (primeiro-ministro), uma república parlamentar, com o fim do czarismo. Tenta salvar as instituições, cujo modelo desacreditado colocava sua autoridade diluída. Havia comandos independentes em diversos segmentos do Estado. Fracassa e é substituído pelos bolcheviques, liderados por Lênin, que derrubam aquele modelo parlamentar.

Não há repetição histórica, mas semelhanças em contextos diferentes.

Lula assume em 2003 um Estado já tomado pela banca. Não tenho certeza, talvez uma pesquisa histórica aprofundada nos esclareça porque não promoveu a reforma necessária ao controle do Estado. Compromisso na manutenção da situação encontrada? Falta de condição - técnica ou política - de alterá-la? Conivência? O fato é que seu destino, naquele momento, ficou traçado.

Kerensky foi derrubado pela liberdade parlamentar; Lula pela dinâmica do capitalismo financeiro. O Estado Nacional Brasileiro, em 2018, ainda é uma questão em aberto.

O que nos aguardará 2019?

Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A Grande Ilusão

Quinta, 8 de novembro de 2018
Por
Pedro Augusto Pinho

“Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha”
(Casimiro de Abreu, “Minha Terra”, em “As Primaveras”)

A eleição de outubro de 2018 foi preparada com quatro anos de antecedência. Mas o planejamento estratégico para conquista do Brasil vem desde o início do século.

Se, em outra época, nos defrontamos com poderes nacionais, ou ideologias conduzidas por Estados Nacionais, temos desde 1990 uma situação inédita. Há um sistema, acima dos Estados, que busca a hegemonia mundial: o sistema financeiro internacional, a banca.

Este sistema já aparelhou parcialmente a estrutura do governo dos Estados Unidos da América (EUA), da maioria dos países da Europa Ocidental, de países latino-americanos, africanos e asiáticos.

De tal forma que a bipolaridade da guerra fria, a unipolaridade de 1989, a pretensa multipolaridade deste século, se defrontam hoje com três poderes com ambições globais. Por ordem de maior para menor poder temos: a banca, o mercantilismo chinês e o império estadunidense.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Ideologia que Envenena o Mundo

Quarta, 19 de setembro de 2018
Por
Pedro Augusto Pinho

O neoliberalismo vem destruindo Estados Nacionais, provocando guerras, migrações, desemprego e fome. 

E traz, cinicamente, o discurso da liberdade, do enriquecimento pela competição. 

Tem como arma a desinformação, a farsa e a corrupção. Não resiste, nem na academia nem na economia das pessoas e das empresas, o confronto com a filosofia, a primeira, e a realidade, a segunda.

Liberdade é uma condição relacional, ocorre nas relações humanas, não é fé. Competitividade só existe entre iguais, entre aqueles que dispõe dos mesmos atributos.

Escrevo há alguns anos sobre o sistema financeiro internacional, que abrevio por “banca”. Este sistema traz a ideologia que se derrama pelo mundo e, do mesmo modo que a  cicuta, vai envenenando povos, estados, destruindo postos de trabalho, provocando guerras e migrações, mortes que nos remetem à peste negra da Idade Média.

Há até semelhanças entre a peste negra do século XIV e o neoliberalismo. Aquela é apontada como um fator responsável pelas crises do fim do feudalismo, e este pela derrocada de dois princípios que vinham norteando a humanidade na era cristã: a fraternidade e a solidariedade.

Construção do neoliberalismo
O termo foi cunhado, na década de 1930, por um grupo de acadêmicos de economia e direito ligados à Escola de Freiburg (Friburgo), na Alemanha.

Publicavam o jornal “Ordo”, defensor do “Ordoliberalismus” (Liberalismo Ordenado).  A senha do Ordoliberalismo é liberdade e competição.

É possível liberdade?
O que é liberdade? Como se exerce a liberdade? O que se opõe à liberdade?

No volume “La Philosophie”, da coleção editada pelo Centre d’Étude et de Promotion de la Lecture (Paris, 1969), lê-se, em tradução livre: “Liberdade - Esta palavra chave do pensamento, bem como da vida dos povos, conheceu altos e baixos, a partir das revoluções que, desde 1789 e séculos seguintes, permitiram à burguesia conquistar o poder político. A Declaração dos Direitos dos Homens proclamava que os homens nascem livres e iguais em direito”. “Marx, em “O Capital”, denunciava a hipocrisia dos pensadores liberais e a opressão exercida pela classe que representavam”.

José Ferrater Mora discorre longamente no verbete “Libertad”: conceito que “foi entendido e usado de muitas diversas maneiras e em muitos diferentes contextos desde os gregos até o presente” (Tradução livre do Diccionario de Filosofia Abreviado, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1970).

O pensamento liberal, assim como o neoliberal da Escola de Freiburg, reduzem a liberdade à ideia econômica, acusando o Estado como seu restritor.

Uma ideia absolutamente diversa de pensadores tão diferentes quanto Henri Bergson (1859-1941), filósofo do impulso da criação ("élan vital"), José Ortega y Gasset (1883-1955), pedagogo da circunstância do homem, e Jean-Paul Sartre (1905-1980), pensador e romancista do existencialismo.

Entre 25 de setembro e 31 de outubro de 2000, a Prefeitura do Rio de Janeiro patrocinou o seminário “A Invenção da Liberdade”, organizado por Adauto Novaes, com professores nacionais e estrangeiros, e de diferentes perspectivas ideológicas. Deste seminário resumo algumas considerações.

O organizador abriu o encontro afirmando que “as discussões sobre democracia e liberdade devem ser permanentes. Mais do que ideias, elas devem ser entendidas como “matrizes de ideias” às quais devemos dar sentido e através das quais criamos novos emblemas que nos levam a ver o mundo de forma diferente e a refazer tudo aquilo que já estava sedimentado”.

Charles Malamoud, professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, perguntou, no Seminário, “a maior democracia do mundo será verdadeiramente democrática?”, pois a Índia abriga a noção poderosa e hierárquica de ideologia sociorreligiosa, constituindo um entrave para o desenvolvimento.

Hannah Arendt (1906-1975) afirmava que a liberdade só existe associada aos outros, na junção de desejo e poder.

O pensamento único, do neoliberalismo, do mercado, é a mais nítida manifestação contra a liberdade, um projeto do totalitarismo, cuja “Escola sem Partido” se transforma na “Escola do Partido Único”, da ausência de liberdade para pensar.

O neoliberalismo é uma retomada totalitária da escravidão à dívida, da exclusão dos indefesos.

Há competitividade?
O ideal neoliberal do mercado “autorregulado”, como principal propulsor na busca da riqueza, é um dogma do século XVIII: oposição ao mercantilismo dos monarcas.

Seu principal pensador é Adam Smith (1723-1790), para quem os indivíduos são seres isolados, cujas ações refletem principalmente seus interesses pessoais e materiais: o egoísmo. Ele tratava as questões econômicas como distintas das políticas.

Mais tarde, David Ricardo (1772-1823) criará a ideia da “vantagem competitiva”, que, se implantada, levaria o mundo a exclusões absolutas. E, como seu antecessor, repudiava a interferência do Estado.

Tanto a liberdade quanto a competitividade não existem em sociedades caracterizadas pelas diferenças, exclusões, direitos e obrigações variando segundo as classes econômicas e sociais, na repetição aristotélica de cidadão, o de “alguém de origem conhecida que podia se manter com seus escravos e mulheres”.

O resultado desta “liberdade” e “competitividade” está na composição acionária de toda grande empresa internacional. Em todas elas, com valores significativos, estão as mesmas trilionárias empresas financeiras: Blackrock, Vanguard, State Street Global Advisors, Fidelity e poucas mais.

Por exemplo: Exxon, Apple, JPMorgan, Johnson&Johnson, Ford, IBM, General Motors, Delta Air Lines, Unilever, Shell, BP, Colgate-Palmolive etc tem os mesmos donos, financistas, cujo capital está majoritariamente, senão inteiramente, em paraísos fiscais.

Onde está a competitividade com empresas do mesmo dono? Na farsa e na fraude. Estas sim, são as qualificações mais adequadas para a ação da banca.
E o que ganha o mundo, ganham os povos com isso?

O que disse o jornal?
Vejamos notícias recentes, colhidas no Monitor Mercantil, jornal especializado em economia e negócios, no Rio e São Paulo.

Da coluna “Fatos & Comentários”, de Marcos de Oliveira, retiro:

“Dois artigos publicados em junho pelo FMI passaram quase despercebidos – talvez pela proximidade das férias, talvez pela pouca receptividade aos temas. Mas merecem maior atenção. “A ascensão das grandes corporações”, de Federico J. Díez e Daniel Leigh, mostra que a crescente riqueza e poder econômicos das grandes empresas – de companhias aéreas a empresas de alta tecnologia – tem sido apontada como o motivo para o baixo investimento apesar do aumento dos lucros, para o declínio do dinamismo dos negócios, a fraca produtividade, baixa inovação e a queda da parcela da renda paga aos trabalhadores”.

“Uma análise mais aprofundada mostra que o aumento das margens nas economias avançadas se deve, sobretudo, às ‘grandes estrelas’ do setor empresarial, que conseguiram aumentar ainda mais seu poder de mercado, enquanto as margens das demais empresas basicamente se mantiveram estáveis. Curiosamente, esse padrão é encontrado em todos os setores econômicos de modo geral e não apenas na tecnologia da informação e da comunicação”.

“Divya Kirti, economista do FMI, começa seu artigo “O boom dos papéis de alto rendimento” fazendo um paralelo com a saúde. “Todos já ouvimos falar do colesterol bom e do colesterol ruim. Um excesso de colesterol bom provavelmente não fará mal nenhum, mas o excesso de colesterol ruim pode levar a um ataque cardíaco.” O texto mostra que o mesmo se aplica aos booms de crédito, períodos em que o volume de empréstimos na economia aumenta com muita rapidez”.

“Kirti conclui que os booms de crédito marcados por um aumento da proporção de títulos de alto rendimento foram seguidos por crescimento menor nos três ou quatro anos posteriores. Quando a parcela de alto rendimento aumenta um desvio padrão – medida estatística de quanto um número difere da média dentro de um conjunto de dados – o crescimento do PIB nos três anos seguintes é 2 pontos percentuais menor”.

Nos mesmos dias 13 e 14 de setembro de 2018, da Coluna de Marcos de Oliveira, leem-se também no Monitor Mercantil as seguintes manchetes:

“Investimentos federais desabam em 2019”, “Lucratividade industrial cai para 1,7%”, “Fusões e aquisições atingem maior valor em 8 anos”, “Vendas tem terceiro mês em queda”, “Inadimplência avança pelo 11º mês seguido”, “Petróleo Brent se aproxima de US$ 80 o barril com temores sobre oferta” e na coluna “Acredite se Puder”, de Nelson Priori, “Roubini prevê que a crise financeira será em 2020” e “Presidente do BCE manda emergentes se precaverem”. 

As consequências
Nas sociedades desiguais, liberdade e competitividade são fantasias. Como o neoliberalismo pretende-se global e não estando Estados e povos em nível aproximado de condições econômicas e sociais, a consequência será encontrarmos nações opulentas e nações escravas e, dentro de todas, milionários e miseráveis.

“Um espectro ronda a Europa”, escreveram Marx e Engels na abertura do Manifesto de 1848. Parodiando diria que um outro espectro derramou-se pelo mundo, a cicuta neoliberal.

Logo após a “crise de 2008”, um grupo de economistas franceses publicou (valho-me da tradução portuguesa, Actual Editora, Lisboa, 2011) o “Manifesto dos Economistas Aterrados. Crise e Dívida na Europa: 10 falsas evidências, 22 medidas para sair do impasse”.

E na Introdução já apontam a farsa que se montou, não apenas para a crise - apropriação de recursos públicos para cobrir insucessos e prosseguir com especulações financeiras - mas na política de arrocho fiscal que se seguiu:

“A retomada econômica mundial, que se tornou possível graças a uma injeção colossal de fundos públicos no circuito econômico (dos Estados Unidos à China), é frágil, mas real. Apenas um continente continua em retração: a Europa. Reencontrar o caminho do crescimento econômico deixou de ser a sua prioridade política. A Europa decidiu enveredar por outra via, a luta contra os déficits públicos”.

E, como em passe de mágica, a grande prioridade dos Estados deixa de ser seus habitantes, seus cidadãos, passa a ser o “controle fiscal”.

Superavit primário, ajuste fiscal, déficit público, metas de inflação, câmbio flutuante, tripés macroeconômicos e mais uma quantidade de expressões e palavras para significar a única política pública: tudo para as finanças, nada para as pessoas.
E os governos não se envergonham de cortar subsídios à alimentação, recursos para saúde, aposentadorias para idosos objetivando manter rentável e saudável a finança privada. O que também não ocorre, pois a ganância, nada competitiva,  é maior do que os aportes públicos.

É um assunto que apenas inicio; os males são muitos e de toda ordem: financeiras, econômicas, sociais, culturais e morais. A banca, o neoliberalismo é o inimigo da humanidade.

Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

sábado, 15 de setembro de 2018

Adote um banqueirinho!


Setembro

15

Adote um banqueirinho!
No ano de 2008, a Bolsa de Nova York foi a pique.
Dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos  assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas câmaras de vigilância e nenhum alarme tenha disparado.  E não houve maneira de evitar a derrocada geral. O mundo inteiro desmoronou, e até a Lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu.
Os magos de Wall Street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empregos, mas um único banqueiro foi preso. E quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de Deus, receberam, pelo mérito de seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana.
    Essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. Ninguém pensou nisso.
    

Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias (Um calendário histórico sobre a humanidade), 2ª Edição, L&PM Editores, 2012, página 295)