Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

domingo, 11 de setembro de 2011

Patrícia Acioli, 30 dias sem ela

Domingo, 11 de setembro de 2011
Por Ciro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e integrante da Associação Juízes para a Democracia
Artigo transcrito do Blog do Ciro Darlan

O antropólogo Roberto DaMatta em brilhante artigo compara o Brasil a um bonde que “se despentelhou numa ladeira”, numa alusão ao bonde de Santa Tereza que matou seis pessoas, incluindo o motorneiro. Embora o governo do Estado não tenha investido mais de 7% do previsto no programa de “revitalização, modernização e integração de bondes”, o culpado pelo acidente foi o falecido operário. Problema resolvido uma vez que os poderosos inocentaram-se a si mesmos.

O parque de diversões, que deveria ser fiscalizado pelo poder público provocou a morte de pelo menos duas pessoas, mas os donos do poder, sempre isentos de culpa, rapidamente apontaram o dedo sujo de sangue para o provecto engenheiro e solucionaram o problema da culpa “in negligendum”.


Patrícia Acioli, brilhante e dedicada magistrada, foi assassinada há trinta dias pelas balas assassinas do Estado, e os responsáveis pela sua integridade física, rapidamente buscaram as mais inexplicáveis desculpas, como a falta de um oficio, para se isentarem da responsabilidade.


Ora se a administração pública que exerce poder nunca for responsabilizada pelo mau uso do mesmo, continuaremos uma república do faz de conta onde o que vale é o compadrio e o corporativismo.


Quando um magistrado que deveria zelar pela garantia do princípio da transparência de todos os comportamentos, como reza o art. 37 da Constituição que juramos, vem a público afirmar que o Conselho Nacional de Justiça não poderia investigar se houve ou não irregularidade porque ele já havia diligenciado, sem dar qualquer publicidade a essas diligências está se colocando num pedestal que a nenhum cidadão é lícito colocar-se.


O bonde do TJ também está sem freios e precisa urgentemente ser recolocado nos trilhos. Quem sabe não é chegada a hora de implantarmos maior transparência em nossa atividade pública judicante, com uma associação de classe que buscasse examinar a compatibilidade entre o salário que recebemos e o patrimônio que ostentamos? Quem sabe não seria mais ético a busca da transparência nas nossas relações de julgador e os advogados que são filhos, pais, parentes, amantes e cônjuges que advogam no mesmo tribunal, quando não nas mesmas causas? Quem sabe não estaria na hora de implantarem-se critérios meritórios nos concursos públicos, já que os últimos que realizamos foram impugnados por atos não aclarados até então? Critérios mais transparentes nas promoções e remoções que deixassem de lado a humilhante “procissão do beija-mão e lava-pés”; o compadrio e o parentesco?


Creio que essa seria uma forma mais simples de homenagearmos Patrícia Acioli que dedicou sua vida na magistratura a servir o bom direito e honrar a sua toga. Ou, pelo menos, humildemente admitir que como humanos que somos, errarmos, portanto devemos pedir desculpas á sua família e à sociedade.