Terça, 14 de fevereiro de 2012
Por Ivan de Carvalho
Não
quero deixar passar em branco, ainda sobre o movimento de paralisação da PM
baiana, um episódio que já foi objeto de muita notícia, muito comentário, muita
conversa. Creio que ainda há uma coisinha a dizer a respeito.
Tem a ver com as avaliações
ou julgamentos, que se fizeram e pelo menos até ontem ainda ecoavam na mídia, a
respeito das atitudes cordiais e redutoras de tensão que o comandante da VI
Região Militar, general Gonçalves Dias – cumprindo sua missão de comandar a
operação de sítio da Assembléia Legislativa – adotou no dia de seu aniversário.
Não adotou por ser o seu
aniversário, evidentemente. Mas porque foi um dia, no movimento grevista dos
PMs, em que os dois lados, principalmente o lado oficial, dava sinais públicos
de que as negociações avançavam e poderiam levar ao fim da greve. Então o
general aceitou receber um inesperado bolo de aniversário entregue por um
participante da greve, emocionou-se, chegando a chorar durante o abraço que
acompanhou o bolo (ele estava ali sob forte tensão, assim como todos, dos dois
lados, nos quais só havia irmãos de humanidade e de cidadania).
E sugeriu que os
grevistas que estavam fora da linha de sítio da Assembléia fossem dormir, pois
não haveria combate, tanto que nem pusera colete à prova de balas, pois sua
missão ali era a de cercar, isolar a sede da Assembléia ocupada. Adotou ainda
algumas atitudes que tanto podem ser chamadas de simpáticas quanto de tendentes
a uma redução de tensão, permitindo entrarem alguns alimentos e água para o
pessoal sitiado. Óbvio que estabelecia uma espécie de trégua sem retirada das
posições, criando um ambiente psicológico mais favorável às tentativas de
negociação de paz que governo e grevistas faziam em outros locais.
Mas a República tremeu
nas bases e nas cúpulas. O governador Jaques Wagner não gostou, o ministro da
Justiça idem e a presidente Dilma Rousseff, que certamente teria preferido
encontrar generais com a disposição de espírito do general Gonçalves Dias
durante o tempo em que ficou presa por causa de sua luta contra o regime
autoritário, desaprovou a conduta do comandante da VI Região Militar, que,
mesmo mantido no posto, deixou, pelo menos na prática, o comando das operações para
seu superior hierárquico, o general comandante do Exército no Nordeste.
Uns dizem que o general
se excedeu. Dizem também que ele reconheceu para o governador Jaques Wagner que
se havia excedido. Dizem que ele não teve sensibilidade ou justa percepção da
situação e deixou-se levar pela emoção, quando lhe caberia apenas “ser eficaz”,
o que em momento algum foi por alguém demonstrado que não ocorreu. Sei que no
princípio os ânimos estiveram exaltados e as tropas sitiantes atingiram vários
grevistas com balas de borracha e armas químicas não letais (gás de pimenta,
bombas de “efeito moral”, coisas parecidas). É que o fantasma de uma tomada do
prédio à força levava os grevistas de dentro e de fora ao paroxismo.
Nesses momentos
extremamente tensos, o deputado Tadeu Fernandes, do PSB (base do governo),
capitão PM licenciado para exercer o mandato, teve uma atuação no “campo de
batalha” que talvez haja evitado incidentes mais graves, pois foi um momento em
que um grupo de grevistas tentava romper o cerco militar para alcançar o prédio
da Assembléia, ocupado por outros PMs grevistas. Tadeu, inclusive, impediu o
espancamento de um grevista já dominado, no chão, por dois militares. Ele
defendeu o grevista com o próprio corpo e a ação cessou.
Queria assinalar só mais
uma coisa. O general Gonçalves Dias não tem razões, na minha opinião, para avaliar
que exagerou ou para sentir-se magoado por uma parte das reações ao seu
comportamento. Que leia Matheus, capítulo cinco, versículo nove, citando Jesus:
“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus”.
Isso é bem melhor.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna
da Bahia desta terça.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano
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