Sexta, 26 de junho de 2026
SUCATEAMENTO
Com frota reduzida e ‘canibalismo’ de peças, Metrô do DF opera no limite do colapso
Fiscalização apontou que peças de trens parados são reutilizados para manutenção dos que ainda circulam
BRASIL DE FATO — Brasília (DF)
26.jun.2026
Comissões da CLDF visitaram o pátio de manutenção em Águas Claras e encontraram composições fora de operação. | Crédito: Priscilla Castro
Uma vistoria técnica realizada pelo deputado distrital Max Maciel (Psol), presidente da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), revelou um cenário crítico no Metrô-DF. A fiscalização no pátio de manutenção da companhia, em Águas Claras, região administrativa do DF, constatou que o sistema opera com uma frota reduzida, problemas de manutenção e dificuldades para atender à demanda de cerca de 140 mil usuários por dia.
De acordo com o relatório da visita, divulgado nesta quinta-feira (25), embora a companhia possua 32 trens em seu patrimônio, apenas 19 estavam em circulação na data da vistoria. O documento aponta que a programação operacional foi planejada para funcionar com 22 composições simultaneamente nos horários de pico, número que não vinha sendo alcançado.
A crise é agravada pela falta de componentes básicos de reposição.Dos 13 trens que estavam fora de operação no momento da inspeção, quatro foram classificados pela própria companhia como sem perspectiva de retorno à circulação, devido à inviabilidade técnica e econômica dos reparos necessários.
O relatório registra ainda a prática conhecida como “canibalismo” de peças, em que componentes são retirados de trens parados para manter em funcionamento os veículos que ainda circulam. A situação afeta principalmente os trens Série 1000, que completaram três décadas e enfrentam problemas relacionados à obsolescência tecnológica e à dependência de peças da fabricante Alstom.
Durante a vistoria, técnicos da comissão também identificaram as causas dos incêndios registrados em composições da Série 1000. Segundo as análises apresentadas pelo Metrô-DF, o problema teve origem em capacitores a óleo instalados nos armários elétricos dos veículos. Com o envelhecimento dos componentes, ocorreram vazamentos que, ao entrar em contato com equipamentos em altas temperaturas, provocaram os focos de incêndio.

Durante a inspeção, parlamentares e técnicos percorreram o pátio de manutenção e verificaram composições fora de operação. Crédito: Priscilla Castro
Impacto
A precarização do sistema se reflete diretamente nos indicadores operacionais. Em 2025, a regularidade das viagens foi de apenas 89,01%, abaixo da meta de 97% estabelecida pela companhia. Segundo o relatório, a insuficiência de trens disponíveis faz com que viagens programadas precisem ser canceladas, afetando a prestação do serviço.
O déficit de servidores também preocupa. Durante a visita, a direção do Metrô-DF admitiu que a falta de empregados nas estações tem levado à abertura de catracas para permitir o acesso dos passageiros sem cobrança de tarifa. Segundo informações apresentadas à comissão, a perda de arrecadação relacionada a essa situação foi estimada em aproximadamente R$ 3 milhões.
Como a queda na qualidade do serviço, o sistema vem perdendo passageiros. O relatório de administração de 2025 registrou redução de 2,18% na demanda em comparação ao ano anterior, o que representa 924.396 acessos a menos. Dados do portal Mobilidade Transparente também apontam queda de 0,3% nos quatro primeiros meses de 2026 em relação ao mesmo período de 2025.
Outro fator apontado pela comissão é a falta de investimentos. Segundo o relatório, o Metrô-DF deixou de receber cerca de R$ 1 bilhão em recursos nos últimos sete anos. Além da necessidade de aquisição de novos trens, a infraestrutura energética do sistema opera próxima do limite, enquanto a expansão das linhas para Ceilândia e Samambaia exige investimentos adicionais para garantir a capacidade operacional da rede.
O outro lado
O Brasil de Fato DF procurou o Metrô-DF para comentar as conclusões do relatório da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da CLDF, mas até a publicação desta matéria não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
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Editado por: Clivia Mesqui
