Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Rastreamos a hashtag que espalhou fake news sobre Jean Wyllys; iniciados por anônimos, boatos que ligavam ex-deputado a ataque a Bolsonaro explodiram com atuação de Olavo de Carvalho, Alexandre Frota e Lobão no Twitter e Facebook

11 de fevereiro de 2019

Da
https://apublica.org
Bruno Fonseca

Ação online buscou mudar narrativa sobre saída de deputado federal do Brasil por ameaças de morte
Seguindo o roteiro das notícias falsas, vários vídeos e postagens foram depois deletados pelos autores

Embora seja crime, políticos têm imunidade para criar ou compartilhar conteúdo calunioso graças a uma decisão de Edson Fachin, do STF

Levou pouco mais de duas horas para que a notícia da renúncia do ex-deputado Jean Wyllys (Psol) devido a ameaças, em 24 de janeiro, fosse capturada por seus mais ferrenhos opositores e transformada em um novo ataque ao parlamentar. Entre as ameaças denunciadas por Wyllys antes de deixar o país, havia avisos sobre um atentado com explosivos e advertências de que seus familiares seriam estuprados e esquartejados, incluindo dados pessoais de parentes, como endereços e placa de carro.

Mas, nos dias 24 e 25 de janeiro, boatos insinuavam ou afirmavam que Jean estaria envolvido no atentado a faca contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cometido por Adélio Bispo, que confessou o crime e está preso. Mesmo com a Polícia Federal (PF) descartando o envolvimento de terceiros no inquérito concluído em 2018 e sem evidências de que Wyllys estaria ligado às investigações em andamento – a PF afirmou à Pública que não comentaria o inquérito em curso –, diversos perfis de direita e ultradireita afirmaram que a saída de Wyllys do Brasil era uma fuga das autoridades brasileiras.

O caminho do boato nas redes seguiu um roteiro já conhecido das fake news: primeiro, foi lançado por perfis anônimos no Twitter, que, em seguida, foram retuitados por perfis mais populares, influenciadores e políticos com alcance nacional. Além do Twitter, o boato alcançou youtubers com milhares de seguidores, assim como páginas conhecidas no Facebook. Depois de terem explodido na rede, vários tweets, vídeos e postagens foram deletados.

A Pública analisou mais de 300 mil postagens no Twitter, além de conteúdos no Facebook, YouTube e no GAB – rede social criada pela ultradireita dos EUA que chegou ao Brasil no ano passado – e concluiu que os boatos ganharam repercussão após terem sido compartilhados por figuras ligadas a Jair Bolsonaro, como Olavo de Carvalho, Lobão e Alexandre Frota, além do próprio presidente, que endossou ligação do Psol com o autor do atentado.

A reportagem apurou também que páginas de notícias hiperpartidárias e de apoio a Bolsonaro foram fundamentais na difusão do boato, o que pode levar a condenações criminais para quem o espalhou.

Anônimos iniciaram boato
O primeiro registro nas redes que traz os nomes de Wyllys e Adélio juntos apareceu no Twitter cerca de uma hora depois da publicação da entrevista da Folha de S.Paulo que revelou que Wyllys deixaria o país. Às 15h48, Ruth Coriar compartilhou uma nota do site Renova Mídia, que replicou a entrevista da Folha, acrescentando que estava mal contada “essa história” da renúncia de Wyllys. O Renova, que se afirma um veículo “sem o filtro politicamente correto da velha imprensa”, tem sido utilizado como fonte por apoiadores de Bolsonaro. A coleta foi realizada pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP).


Às 15h56, em um comentário na própria matéria no site do Renova, um usuário chamado Diogo Marques questionou a relação de Adélio Bispo, autor confesso da facada em Bolsonaro, com Wyllys.

Às 15h57, uma resposta ao Twitter oficial da Folha de S.Paulo fomentou o boato. A usuária @margareth_rei, que faz constantes críticas ao PT e elogios a Bolsonaro em seu perfil, tuitou: “ah, se Adélio falasse…”. A publicação teve seis curtidas.

As publicações seguiram sem grande engajamento até que, às 16h49, Milene Reis, com mais de 12 mil seguidores (entre eles o vereador Carlos Bolsonaro e o assessor do presidente Filipe Martins), escreveu que a fuga de Wyllys ocorreu após um vídeo comprovar visita de Adélio ao Congresso. Com a hashtag #VaiPraCubaJean, a postagem de Milene teve mais de 1,5 mil compartilhamentos e mais de 4,9 mil curtidas.


A história que Adélio teria sido registrado na Câmara dos Deputados no dia do atentado já foi desmentida pela própria Câmara. Em setembro de 2018, a casa informou que os registros em sistema da entrada de Adélio foram um erro do recepcionista da portaria onde se acessa o sistema de identificação de visitantes (Sivis).

A partir daí, dispararam as interações com conteúdos semelhantes. Contas pessoais como a do advogado e membro do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp) Ricardo Peake Braga (@peakebraga) e a do consultor em negócios Adriano Tomasoni (@adrianotomasoni), mas também páginas de memes e humor como a Bolsonéas (@Bolsoneas) publicaram tweets sugerindo relações entre Wyllys a Adélio.


Procurado pela Pública, Adriano respondeu “Quem vcs acham que são pra chegar aqui e fazerem esse tipo de afirmação? Vocês têm o intuito de me colocar medo?”.

Entre as contas que mais tuitaram sobre o tema nesse período está a de Maria Rita Lopes (@maryritalopes), que publicou uma série de tweets insinuando envolvimento de Wyllys no crime, inclusive pejorativos à orientação sexual de Wyllys e a LGBTs em geral. Com mais de 30 mil seguidores, Maria pediu que outros usuários usassem a hashtag #VaiPraCubaJean.


À noite, às 21h56, foi a vez de uma conta não verificada no Twitter do ex-secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior (PRB), que publicou que “essa história do Jean Wyllys tá muito estranha!!! Tem coelho nesse mato!”. O tweet alcançou mais 2,1 mil compartilhamentos e foi repercutido por diversos perfis de apoio a Bolsonaro, incluindo de usuários do GAB.

Nessa primeira leva de publicações com grande repercussão há perfis que foram desativados após a onda de boatos, como a “O Corvo”, crítico ao PT e apoiador de Bolsonaro. O perfil havia obtido mais de 2,2 mil curtidas em uma postagem que associava a saída de Wyllys a uma suposta descoberta da PF: “Talvez a PF tenha descoberto o vínculo de Adélio com alguém do Psol no caso do atentado! Será que Jean Fugiu?”, publicou. Depois da desativação do perfil, O Corvo possui agora uma segunda conta.

Entram em cena os youtubers e Olavo de Carvalho
Um fator decisivo para a repercussão do boato foi a publicação de vídeos no YouTube por apoiadores do presidente. O canal Cabra da Peste TV, de Regina Vilella, compartilhou um longo vídeo listando razões pelas quais Wyllys estaria deixando o Brasil. Especulando sobre as investigações da PF sobre o atentado a Bolsonaro, a transmissão de mais de 40 minutos passou das 70 mil visualizações.

Em seguida, veio o canal Política Play, que republicou o vídeo do Cabra da Peste e teve mais de 500 mil visualizações. O vídeo está atualmente deletado. A página de Facebook Avança Brasil, de maçons, também compartilhou e depois deletou o vídeo.

No Facebook, uma série de páginas de ultradireita e apoiadoras de Bolsonaro também amplificaram o boato. O Notícias Brasil Online questionou: “se Jean Wyllys está sofrendo ameaças, será por queima de arquivo?”. Na madrugada, o blog do empresário e jornalista Cleuber Carlos, de Goiás, afirmou que “Jean Wyllys pode ser o mandante por trás de Adélio Bispo na tentativa de matar Jair Bolsonaro”. A página Movimento Curitiba Contra a Corrupção sugeriu “juntar os pontinhos” entre a renúncia de Wyllys e o crime contra Bolsonaro.

Por fim, ainda durante a madrugada, foi a vez de Olavo de Carvalho publicar que “a perseguição ao Flávio Bolsonaro, a fuga de Jean Wyllys e a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro, por um ex-membro do PSOL, estão ligados de alguma forma bem bizarra”. A postagem, com mais de 2,1 mil compartilhamentos, ainda trouxe um vídeo que acusa o Psol de ter origens terroristas. O vídeo é de autoria do Canal Terça Livre, do comunciador Allan dos Santos e do analista Ítalo Lorenzon, que apoiam Bolsonaro.


Lobão foi um dos primeiros a usar hashtag contra Jean Wyllys

Na manhã seguinte à publicação da reportagem da Folha, as críticas a Wyllys ressurgiram na forma da hashtag #InvestigarJeanWillis. E uma das figuras a liderar essa campanha foi a do músico Lobão. Às 6h44, ele publicou no Twitter que a saída ‘levanta sérias suspeitas” de envolvimento no atentado. A postagem, ainda pública, teve mais de 6,8 mil compartilhamentos e mais de 29 mil curtidas.


Lobão foi compartilhado pelo deputado Alexandre Frota (PSL), que já havia sido condenado por difamar Wyllys publicando uma fala falsa do ex-deputado na qual ele trataria a pedofilia como algo normal. Além de compartilhar a postagem de Lobão, Frota usou emoticons para insinuar ligação com a facada e compartilhou outros conteúdos com a hashtag #InvestigarJeanWillis e, mesmo dia depois, segue postando referências de Wyllys com o atentado a Bolsonaro.


O próprio Jair Bolsonaro publicou no Twitter uma relação do Psol com o atentado. A publicação não faz menção a Wyllys, mas despertou comentários que refizeram a associação, inclusive do próprio Lobão, que, em resposta ao presidente, ajudou a impulsionar novamente a hashtag #InvestigarJeanWillis. A resposta de Lobão a Bolsonaro pelo Twitter teve quase 4 mil curtidas.

Com a ação conjunta desses perfis, a hashtag #InvestigarJeanWillis se tornou uma das mais utilizadas no Twitter no Brasil no dia (Trending Topic). O movimento foi amplificado pela repercussão da entrevista de Caio Coppolla, um comentarista, youtuber e influenciador da direita, para a rádio Jovem Pan, na qual ele critica os motivos do autoexílio de Wyllys. Vídeos da entrevista foram utilizados em milhares de publicações com a hashtag #EstamoscomCaio junto à #InvestigarJeanWillis.

A Pública coletou mais de 300 mil tweets com a hashtag #InvestigarJeanWillis. Na coleta, os principais perfis são de personalidades da direita, ultradireita e de apoio a Bolsonaro. Destaca-se também uma rede de páginas de YouTube que produziram vídeos endossando os boatos, como a de Nando Moura, indicado pelo presidente como opção “de excelente canal de informação”.


Quantidade de publicações no Twitter que utilizam a hashtag #InvestigarJeanWillis e termos semelhantes

A Pública coletou também postagens na rede GAB que disseminaram o boato da participação de Wyllys no atentado. Além de conteúdos pejorativos ao ex-deputado, havia uma série de postagens chamando para uma petição para investigação de Wyllys. Até o fechamento da reportagem, já havia mais de 44 mil assinaturas na petição. Procurada, a Polícia Federal esclareceu que para que seja instaurada uma investigação é preciso que a pessoa procure a PF apresentando provas ou documentos que embasem a acusação.

Políticos têm imunidade para caluniar – os demais podem ser condenados criminalmente

Usuários que compartilharam o boato podem ser processados pelo ex-deputado do Psol por calúnia – é esse o termo quando alguém é falsamente acusado por um crime, segundo o professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Pablo Alves de Oliveira. “Quem faz a calúnia é que tem que provar que a sua acusação é verdadeira. Não é o Jean Wyllys que tem que provar ser inocente. Nossa Constituição garante a todos os cidadãos a chamada presunção da inocência, ou seja, todo mundo tem que ser considerado inocente até que se tenha uma decisão do Judiciário”, explica.

Contudo, como aponta o professor de direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Fundação Getulio Vargas (FGV) Diogo Rais, políticos em exercício são protegidos de serem processados por calúnia ou injúria. “Como agente, os parlamentares têm uma imunidade parlamentar que lhes permite falar e não responder criminalmente por algumas falas. Há uma proteção maior”, afirma o professor. Em 2017, o ministro Edson Fachin decidiu que a imunidade de políticos também abrange trocas de ofensas.

A Pública conversou com Guilherme Cohen, ex-assessor de Wyllys, que disse não se surpreender com os boatos porque o ex-deputado era constantemente alvo de mentiras. Ele citou uma série de páginas e perfis que repetidamente produzem conteúdo falso contra Wyllys, como Alexandre Frota, envolvido nas acusações recentes. “Isso só vem tentar mascarar o real motivo do Jean ter saído do país, que são as ameaças gravíssimas de morte que ele vem sofrendo há bastante tempo”, desabafa.

À Pública, a PF respondeu que há na Superintendência do Distrito Federal cinco inquéritos em andamento para apurar notícias de ameaça a Wyllys. A PF não esclareceu se as investigações tratarão também dos boatos recentes.

Paulo José Lara, da organização não governamental de direitos humanos Artigo 19, pondera que é preciso responsabilizar usuários nas redes de acordo com o seu alcance. “Uma coisa é quando uma ou outra pessoa sem muita expressão fala algo, ofende, comete alguma injúria. Outra coisa é quando esse personagem tem grande visibilidade: um político, um grande empresário etc. A gente tem que sempre medir essas atitudes de acordo com a reverberação que ela tem e com as responsabilidades do ator. Um político ou uma figura pública não pode reproduzir esse tipo de mensagem, por exemplo. O ator público tem que ter muito mais responsabilidade”, conclui.

A Pública enviou mensagens nas respectivas redes aos demais usuários citados no texto que fizeram menção aos boatos envolvendo Jean Wyllys pedindo esclarecimentos.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

4 erros do chefe da bancada ruralista

Sexta, 15 de setembro de 2017
Da Ponte
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

Nilson Leitão usou dados falsos sobre legislação ambiental, desmatamento de assentamentos do Incra e invasão de reservas florestais, além de exagerar orçamento de saúde indígena
 
Desmatamento em área da Amazônia em 2011
Desmatamento em área da Amazônia flagrado
pelo Ibama em 2011 (Foto: Ascom/Ibama)

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), deu uma entrevista polêmica para o site do serviço alemão Deutsche Welle no dia 21 de agosto. Chefe da bancada ruralista, o parlamentar atacou a legislação ambiental, defendeu o agronegócio e elogiou as reformas do governo Michel Temer (PMDB). Também minimizou protestos indígenas contra perda de direitos e invasões de terras e criticou demarcações. Segundo Leitão, manter a floresta em pé é um custo pago pelos produtores rurais, que deveria ser recompensado.

O Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública – selecionou quatro frases do deputado federal para verificar. Seguindo a nossa metodologia, o parlamentar foi procurado para informar as fontes das afirmações e respondeu prontamente aos nossos questionamentos. As justificativas, enviadas pela assessoria de imprensa da FPA, foram incluídas nas checagens – a entidade ficou de se manifestar sobre os resultados após a publicação do texto. Veja abaixo as conclusões a que chegamos.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Distritão desperdiça votos, atrapalha renovação e dificulta eleição de minorias

Quinta, 31 de agosto de 2017
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

Por Patrícia Figueiredo | 31 de agosto de 2017
Cientistas políticos ouvidos pela Pública e estudos confirmam problemas apontados pelo deputado Alessandro Molon

Modelo de urna eletrônica adotada na disputa de 2014
Modelo de urna eletrônica adotada na disputa de 2014
(Foto: Elza Fiúza/ABr)

“[O distritão] vai dificultar a renovação do Parlamento (…). É um sistema que desperdiça votos, dificulta a representação de minorias e até mesmo de maiorias sub-representadas, como as mulheres, os negros.” – Alessandro Molon (Rede-RJ), deputado federal, em pronunciamento na Câmara dos Deputados no dia 16 de agosto.
VerdadeiroO debate sobre a adoção de um novo sistema eleitoral no Brasil causou um impasse entre deputados da base governista e da oposição. No modelo previsto na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 77/2003, os eleitos para a Câmara dos Deputados em 2018 e 2020 serão necessariamente aqueles com mais votos em cada estado. Pelo esquema em vigor hoje, os votos dos candidatos e da legenda são somados, e o total de cada coligação determina quantas cadeiras cada grupo poderá ocupar.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Para ex-comandante-geral da PM do Rio, “a vida humana não é uma prioridade no Brasil”

Quarta, 23 de agosto de 2017
Quem está morrendo é negro, pobre e morador de favela. É uma violência ancestral que o nosso presente replica.

Para ex-comandante-geral da PM do Rio, “a vida humana não é uma prioridade no Brasil”

Da Agência Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

por José Cícero da Silva | 23 de agosto de 2017

Ibis Pereira fala sobre os vários aspectos da crise de segurança pública do Rio de Janeiro e como os direitos humanos são fundamentais para o “fim da barbárie”

Nesta entrevista à Pública, o agora coronel da reserva Ibis Pereira, 54 anos, é assertivo sobre a atual crise de segurança pública do Rio: “É preciso reduzir homicídios para o clima de civilidade voltar e a barbárie acabar”. Sua experiência de 33 anos na Polícia Militar lhe deu outras convicções. Entre elas, a de que a melhor maneira de proteger o policial é fazendo a polícia matar menos. “A vida dos seres humanos não pode ser tratada como um efeito colateral”, diz o militar, formado em direito e filosofia e com mestrado em história.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

PMDB só virou governo por causa da Lava Jato, diz filósofo Marcos Nobre

Segunda, 10 de julho de 2017
'O PMDB não tem capacidade para coordenar governos. Ele tem capacidade para ser o líder do cartel de venda de apoio parlamentar, mas não para coordenar um governo'

'você entrega os cargos, mas preserva algumas áreas; Saúde, não, Educação, não, Ministério do Desenvolvimento Social, não, reforma agrária, não. Isso acabou no governo Temer. Você entrega tudo. Tudo está à venda'

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Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo
por Thiago Domenici | 10 de julho de 2017

Para o filósofo, o PMDB não tem capacidade nem intenção de governar – seu objetivo é oferecer estabilidade para o governo em troca de poder; Dilma teria caído por não garantir nem recursos nem proteção judicial aos políticos do partido

Nesta entrevista à Pública, o filósofo da Unicamp e pesquisador do Cebrap Marcos Nobre, autor do conceito de “peemedebismo” – que, para além do PMDB, explicaria o jeito de funcionar dos partidos que se ligam ao governo conferindo estabilidade em troca de poder –, afirma que o partido do presidente Michel Temer não tem capacidade para coordenar governos. “Ele tem capacidade para ser o líder do cartel de venda de apoio parlamentar. Então, por que diabos o PMDB virou governo se, obviamente, só tem consequências ruins para ele? Por causa da Lava Jato.”

Para Nobre, a operação é o fator que fez o sistema político perder o controle da política. “A Lava Jato, toda vez que a mesa se coloca sobre quatro pés, chuta um. É uma característica da operação desestabilizar permanentemente o sistema político. Para quê? Para ela poder continuar”, afirma. “Se a minha lógica estiver certa sobre a Lava Jato, no momento em que Maia virar presidente, vem o pedido para ele se tornar réu. O que não resolve o problema do ponto de vista do sistema político, que é o que importa”, avalia.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Checamos o vídeo de Doria sobre a Cracolândia

Segunda, 12 de junho de 2017
Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

por Maurício MoraesPatrícia Figueiredo | 12 de junho de 2017

Criticado pela ação repressiva a usuários no centro de São Paulo, prefeito fez gravação para dizer que não vai recuar


Em meio às críticas, o prefeito João Doria (PSDB) gravou um vídeo, divulgado em suas redes sociais, para se defender. Nele, afirma que não irá recuar e tenta justificar alguns dos fatos que ocorreram. O Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública – verificou seis frases ditas por Doria na gravação. Procurada para indicar as fontes das afirmações feitas pelo prefeito, a Secretaria Especial de Comunicação, responsável pela assessoria de imprensa da prefeitura, disse que “todas as frases enviadas são de autoria do prefeito João Doria”, sem indicar documentos ou dados que tenham sido usados para embasá-las.

Leia a íntegra

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos) levanta hipótese de vingança de policiais em massacre de Pau D’Arco, Pará

Sexta, 26 de maio de 2017
Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

Para Darci Frigo, entrevistado pela Pública, mortes na Santa Lúcia podem ser retaliação à morte de segurança; é a segunda maior chacina do campo brasileiro nos últimos vinte anos
O presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Darci Frigo, contestou a versão apresentada pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) do Pará sobre a morte de dez posseiros na fazenda Santa Lúcia, em de Pau D’Arco (PA), na última quarta-feira (24). “A pergunta que a gente se faz é se não foi uma ação de vingança tendo em vista a morte do segurança da fazenda há poucos dias no local”, disse Frigo em entrevista à Pública nesta quinta-feira.

Ele se refere à morte do segurança Marcos Batista Montenegro, baleado no último dia 30 de abril quando patrulhava a fazenda ocupada. Os tiros teriam sido disparados pelos posseiros. No dia da chacina, os policiais civis e militares, liderados pela Delegacia de Conflitos Agrários (Deca) de Redenção, foram à ocupação para cumprir 16 mandados de prisão e de busca e apreensão relacionados ao assassinato do segurança. Segundo a Segup, eles teriam sido recebidos a tiros pelos posseiros. Dos dez mortos, sete eram da mesma família: o casal Jane Julia de Oliveira e Antonio Pereira Milhomem, seus três filhos e dois sobrinhos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Um fiasco olímpico

Quinta, 4 de maio de 2017
Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo
por Rogério Pacheco Jordão | 4 de maio de 2017

Analisamos as 328 páginas da denúncia contra os supostos terroristas que ameaçavam a Olimpíada do Rio. Suspeitas de infiltrações, denúncia anônima e espetáculo marcaram uma ação montada para desbaratar um atentado que não ia acontecer

“Dez suspeitos de terrorismo na cadeia.” A frase de abertura do Jornal Nacional, da TV Globo, o de maior audiência no país, no dia 21 de julho de 2016, duas semanas antes da abertura da Olimpíada do Rio, apresentou aos telespectadores a fase ostensiva da Operação Hashtag, da Polícia Federal (PF). Naquela quinta-feira, dez suspeitos de “planejar ataques durante a Olimpíada” haviam sido presos em dez estados brasileiros, segundo o telejornal. A notícia ocupou 14 minutos do noticiário, com imagens de suspeitos algemados sendo transferidos para o presídio de segurança máxima de Campo Grande (MS), entremeadas por diversas intervenções do então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, cuja fala dominou a edição do dia.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

“As esquerdas perderam votos na periferia quando deixaram de ser esquerdas”, diz pesquisador

Segunda, 17 de abril de 2017
As esquerdas foram perdendo o voto nas periferias, nos últimos anos, quando deixaram de ser esquerdas.

E ainda pior, quando perderam a imagem de mudança, de renovação. Quando se tornaram moralmente iguais aos demais políticos tradicionais.
Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

Em entrevista à Pública, o sociólogo Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole, comenta a pesquisa que apontou a emergência de valores conservadores entre os moradores das periferias na cidade de São Paulo

Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenador de Pesquisa do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o sociólogo Gabriel Feltran pesquisa a periferia de São Paulo desde 2001. É ele quem comenta a pesquisa qualitativa da Fundação Perseu Abramo, recentemente lançada, sobre o imaginário social dos moradores da periferia de São Paulo. Uma pesquisa importante, segundo o professor, mas que não levou em conta a diversidade entre os moradores da periferia.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Números não apontam benefícios nas cadeias com participação privada

Terça, 17 de janeiro de 2017

Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

Mesmo defasados, dados oficiais indicam mortalidade maior nos presídios da gestão privada; presença das empresas no setor prisional ainda é tímida
Um dos grandes problemas quando se fala do sistema penitenciário é a falta de dados atualizados. Quando apresentou um plano nacional de segurança para dar uma resposta à matança nos presídios, neste mês, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que não há registro sobre a quantidade de presos nas penitenciárias brasileiras.
No entanto, existem dados disponíveis do próprio MJ, que foram compilados pelo Departamento Penitenciário Nacional, e o último levantamento é de 2014.

domingo, 28 de agosto de 2016

Como as federações empresariais se articularam pelo impeachment

Domingo, 28 de agosto de 2016
Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

A repórter da Pública checou a atuação de dez federações estaduais pelo afastamento da presidente Dilma; metade delas participou oficialmente dos movimentos pró-impeachment

Empresários de todos os cantos do país desembarcaram em Brasília nos meses de março e abril com uma missão definida: visitar deputados de seus estados e convencê-los a votar pela abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Eles se espalharam discretamente pelos corredores do Congresso em busca de votos, principalmente os dos parlamentares indecisos. E, na avaliação dos representantes dos empresários, o lobby, liderado pelos sindicatos patronais, surtiu efeito.

domingo, 26 de junho de 2016

Bolsonaro mente sobre a Funai

Domingo, 26 de junho de 2016

Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo 

por | 24 de junho de 2016
Deputado Eduardo Bolsonaro, do PSC-SP, usou vídeo disponível no YouTube para dizer que órgão entra em propriedades rurais para “colocar índios dentro delas”, mas afirmação é falsa


“[Imagens da internet] mostram a Funai (…) invadindo fazendas, com o apoio de homens armados da Força Nacional, para colocar índios dentro delas.” – deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), em discurso na Câmara no dia 16 


Falso


O deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) usou o plenário da Câmara, no dia 16, para acusar a Fundação Nacional do Índio (Funai) de invadir fazendas, usando o apoio da Força Nacional, para “colocar índios dentro delas”. A prova disso, segundo o parlamentar, estaria em um vídeo do YouTube, publicado em agosto de 2015 e divulgado no Facebook, na mesma época, pela página Fora PT. Entramos em contato com o gabinete de Bolsonaro e um assessor confirmou que o deputado se referiu a este material em seu discurso. O Truco no Congresso – projeto de fact-checking da Agência Pública, feito em parceria com o Congresso em Foco – verificou as informações e descobriu que o deputado mentiu, distorcendo os acontecimentos mostrados na gravação.

domingo, 20 de março de 2016

Os caminhos do impeachment

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Offshore Leaks: Banco de Horácio Cartes é ligado a paraíso fiscal

Segunda, 29 de abril de 2013
Por  Marina Walker Guevara e Mabel Rehnfeldt, do ICIJ 

Pai do recém-eleito presidente do Paraguai e mais quatro diretores do seu banco criaram uma conta secreta nas Ilhas Cook, revelam documentos

Documentos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) revelam que funcionários do alto escalão do banco paraguaio de Horacio Manuel Cartes, presidente recém eleito no Paraguai pelo partido Colorado, operavam uma instituição financeira secreta num paraíso fiscal do Pacífico Sul.

O pai de Cartes, Ramón Telmo Cartes Lind, e outros quatro executivos do paraguaio Banco Amambay S.A. criaram o Amambay Trust Bank Ltd. em 1995 nas Ilhas Cook, uma pequena cadeia de atóis e afloramentos vulcânicos a mais de 6 mil quilômetros de distância do país vizinho ao Brasil.

Dono de uma empresa produtora de cigarros, tanto Horacio Cartes como o Banco Amambay, de sua propriedade e com sede em Assunção, foram investigados recentemente por lavagem de dinheiro em uma operação da DEA, a agência anti-drogas americana, de acordo com telegramas diplomáticos vazados pelo WikiLeaks em 2010. (Saiba mais aqui)

sábado, 13 de abril de 2013

EUA fizeram lobby pró-censura durante governo militar

Sábado, 13 de abril de 2013
Da Pública
Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo
Por Natalia Viana                                         
 Embaixada pediu a repórter da TV americana para ouvir Roberto Marinho, da Globo, e Nascimento Brito, diretor do Jornal do Brasil, vozes menos criticas à censura oficial 

Em 1973 o governo do general Emílio Garrastazu Médici entrava em seu quarto ano, consolidando a presença da chama “linha dura” militar no governo. A censura à imprensa se estruturou e se oficializou, abarcando todos os principais veículos de imprensa do país. Sob Médici, a maioria das redações recebiam bilhetinhos apócrifos ou ligações quase diárias de membros da Polícia Federal – a força encarregada de controlar a censura – com a relação de temas que não poderiam ser abordados: desde relatos de tortura e prisões políticas até reportagens sobre a precária situação dos trens, a pobreza no país ou escandalosos casos de corrupção. Outras, como Veja e o Pasquim, tinham que enviar seu conteúdo para a censura prévia. O Estado de S. Paulo convivia com um censor plantado dentro da redação, lendo todos os textos para decidir o que podia e o que não podia ser publicado.

domingo, 10 de março de 2013

Vila Autódromo: Não se compram vidas com condomínios chiques

Domingo, 10 de março de 2013
Por Andrea Dip                   
Enquanto a prefeitura do Rio tenta convencer moradores a deixar suas casas por outras com piscina com tobogã, fotógrafo retrata histórias de amor e superação na comunidade



Na semana passada, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes visitou o estande decorado do conjunto habitacional “Parque Carioca” em Jacarepaguá, para onde pretende mandar os moradores da Vila Autódromo, antiga comunidade do centro do Rio de Janeiro que deve ser removida para dar lugar ao Parque Olímpico Rio 2016.

Ignorando o Plano Popular da Vila Autódromo, elaborado pela associação de moradores em conjunto com especialistas da Universidade Federal Fluminense – Falamos dele aqui – a prefeitura tenta, com um apelo totalmente diferente do resto das remoções feitas de forma violenta e arbitrária na cidade, convencer os moradores a conhecer o apartamento modelo do novo “condomínio”, que tem no projeto piscina com tobogã, quadras e espaços de lazer.

“Os agentes estão chegando na comunidade com panfletos, deixaram um ônibus à disposição dos moradores para que conheçam o lugar, mas a Vila Autódromo segue unida, a maioria não quer sair” diz Renato Cosentino, do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro. “O que está acontecendo lá é exceção, essa tentativa de convencimento, esse reassentamento chique. Estão fazendo isso para passar uma boa imagem para a mídia, mas a gente sabe que as remoções não seguem este modelo. Mesmo assim, os moradores têm medo do alto custo de manutenção, que será reateado entre eles, como em qualquer outro condomínio. Muitos também “não querem trocar suas casas por apartamentos de 50 metros quadrados”explica.
Leia a íntegra

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Conversas com Mr. DOPS

Quinta, 9 de fevereiro de 2012
Da Pública Agência de Reporgatem e Jornalismo Investigativa

Por Marina Amaral
Nossa repórter passou mais de 15 horas entrevistando um dos poucos delegados do DOPS ainda vivos, entre os que atuaram nos anos mais duros da ditadura. Enfrentou resistência, informações desencontradas e até um suposto pacto de silêncio – um embate que antecipa os desafios da Comissão da Verdade 

Aos 80 anos, José Paulo Bonchristiano conserva o porte imponente dos tempos em que era o “doutor Paulo”, delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, “o melhor departamento de polícia da América Latina”, não se cansa de repetir.“O DOPS era um órgão de inteligência policial, fazíamos o levantamento de todo e qualquer cidadão que tivesse alguma coisa contra o governo, chegamos a ter fichas de 200 mil pessoas durante a revolução”, diz, referindo-se ao golpe militar de 1964, que deu origem aos 20 anos de ditadura no Brasil.

Embora esteja aposentado há 27 anos, não há nada de senil em sua atitude ou aparência. Os olhos astutos de policial ainda dispensam os óculos para perscrutar o rosto do interlocutor, endurecendo quando o delegado acha que é hora de encerrar o assunto.

Bonchristiano gosta de dar entrevistas, mas não de responder a perguntas que lancem luz sobre os crimes cometidos pelo aparelho policial-militar da ditadura do qual participou entre 1964 e 1983: prisões ilegais, sequestros, torturas, lesões corporais, estupros e homicídios que, segundo estimativas da Procuradoria da República, vitimaram cerca de 30 mil cidadãos. Destes, 376 foram mortos, incluindo mais de 200 que continuam até hoje desaparecidos.

Os arquivos do DOPS se tornaram públicos em 1992, mas muitos documentos foram retirados pelos policiais quando estavam sob a guarda do então diretor da Polícia Federal e ex-diretor geral do DOPS, Romeu Tuma. Entre os remanescentes estão os laudos periciais falsos, produzidos no próprio DOPS, que transformavam homicídios cometidos pelos agentes do Estado em suicídios, atropelamentos, fugas. No caso dos desaparecidos, os corpos eram enterrados sob nomes falsos em valas de indigentes em cemitérios de periferia.

Globo, Folha, Bradesco – e Niles Bond
Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Otávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. Quando participou da montagem da Polícia Federal em São Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higienópolis: “Nós do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piauí, até máquina de escrever”.

O “doutor Paulo” sorri enlevado ao lembrar dos momentos passados com o marechal Costa e Silva (o presidente que assinou o AI-5 em dezembro de 1968, suspendendo as garantias constitucionais da população). “O Costa e Silva, quando vinha a São Paulo, dizia: ‘Eu quero o doutor Paulo Bonchristiano’”, e imita a voz do marechal – ele adora representar os casos que conta.

“Eu fazia a escolta dele e ele me chamava para tomar um suco de laranja ou comer um sanduíche misto na padaria Miami, na rua Tutóia, vizinha ao quartel do II Exército. Todo mundo querendo saber onde estava o presidente da República, e eu ali”, delicia-se.

Gaba-se de ter sido enviado para “cursos de treinamento em Langley” nos Estados Unidos, pelo cônsul geral em São Paulo, Niles Bond, que admirava a “eficiência” da polícia política paulista. E o chamava de “Mr. Dops”.

Orgulha-se também de outro apelido – “Paulão, Cacete e Bala” – que diz ter saído da boca dos “tiras” quando “caçava bandidos” na RUDI (Rotas Unificadas da Delegacia de Investigação), no início da carreira, com um “tira valente” chamado Sérgio Fleury. Anos depois, os dois se reencontrariam na Rádio Patrulha, de onde saiu a turma do Esquadrão da Morte, levada para o DOPS em 1969, quando Fleury entrou no órgão.

“Polícia é polícia, bandido é bandido”, diz Bonchristiano. “Para vocês de fora é diferente, mas para nós, acabar com marginal é uma coisa positiva. O meu colega Fleury merecia um busto em praça pública”, afirma, sem corar.

O delegado Sérgio Fleury e sua turma de investigadores se celebrizaram por caçar, torturar e matar presos políticos no DOPS, enquanto continuavam a exterminar suspeitos de crimes comuns no Esquadrão da Morte.

Conversas gravadas
No decorrer de nove tardes passadas, entre junho de 2010 e janeiro deste ano, em seu apartamento no Brooklin, no 13º andar de um prédio de classe média alta, aprendi a escutar com paciência os “causos” que “doutor Paulo” narra com humor feroz, até extrair informações relevantes. Repetidas vezes eu as confrontava com livros e documentos e voltava a inquiri-lo; a proposta era que ele se responsabilizasse pelo que dizia.

De certo modo, meu embate com o “doutor Paulo” antecipava as dificuldades que serão enfrentadas pela Comissão da Verdade, a ser instalada em abril para apurar fatos e responsáveis – sem punição penal prevista – pelas violações de direitos humanos cometidas pelo Estado entre 1946 e 1988, abrangendo o período da ditadura militar. O objetivo da comissão é devolver aos cidadãos brasileiros um passado que ainda não se encerrou, como provam os desaparecidos, e impedir que funcionários públicos sigam mantendo segredo sobre atos praticados a mando do Estado.

A fragilidade da lei em pontos cruciais, porém, provoca ceticismo nas organizações de direitos humanos, em especial ao permitir o sigilo de depoimentos – ferindo o direito à transparência pública –, e ao não prever punições aos responsáveis pelos crimes, nem mesmo medidas coercitivas para os que se recusarem a depor.

“Não vou depor. Acho bobagem”, diz Bonchristiano. “Nunca pratiquei irregularidades, mas não sou dedo duro e não vejo utilidade nessa comissão”, justifica o funcionário público, aposentado aos 53 anos, e que recebe hoje 11 mil reais por mês de pensão.

Minhas conversas com Mr. DOPS renderam 15 horas de gravação que revelam a mentalidade e as conexões políticas dos policiais que atuaram na repressão do governo militar. E provam que os detentores das informações estão por aí – embora continuem ocultando as circunstâncias exatas em que os crimes foram cometidos e os mandantes de cada um deles.

Torturadores e repressores
O nome de Bonchristiano – que significa “bom cristão” e veio de Salerno, Itália – não consta das principais listas de torturadores compiladas por organizações de direitos humanos.

O Projeto Brasil Nunca Mais, um extenso levantamento realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 com base nos IPMs (inquéritos policiais militares), é até hoje a principal referência, embora muitas vezes liste apenas os “nomes de guerra” dos torturadores, já que os reais eram desconhecidos das vítimas.

Leia a íntegra de "Conversas com Mr. DOPS"

terça-feira, 18 de outubro de 2011

VÍDEO: CONVERSA PÚBLICA com Kristinn Hrafnsson, porta-voz do WikiLeaks

Terça, 18 de outubro de 2011
Da Pública
No dia 3 de julho a Pública fez um evento de inauguração na Casa de Cultura Digital. Kristinn Hrafnsson, porta-voz do WikiLeaks, participou de uma conversa com o público presente.

Kristinn  é um dos mais aclamados jornalistas investigativos da Islândia. Ele comandou programas investigativos na televisão comercial e no canal estatal da Islândia, expondo atividades criminosas, corrupção política e fraude pelo setor financeiro do país. Pela sua atuação destemida foi demitido 4 vezes

Nesta CONVERSA PÚBLICA ele afirmou que iniciativas independentes estão preenchendo um vácuo no jornalismo. “Há menos dinheiro para investigação enquanto os poderosos estão ficando mais poderosos”.

Kristinn  também defendeu o direito de pessoas romperem com contratos ou até leis para obter documentos e enviar para o WikiLeaks.

“Todas as grandes mudanças sociais foram alcançadas contrariando as leis. Se uma informação é importante para o público, e alguém dentro do sistema com uma boa consciência sente a necessidade de publicar, a obrigação moral de fazer isso para o bem comum é superior a qualquer lei ou qualquer contrato”.