Terça, 14 de fevereiro de 2012
Carlos Newton
Essas greves de policiais nos motivam a refletir sobre o sistema
brasileiro. A imprensa, a cada dia, publica mais e mais denúncias de
irregularidades e corrupção nos três Poderes da República. Ao mesmo
tempo, não se vê punição, a regra é a impunidade, nos planos federal,
estadual e municipal.
Pode-se alegar que a corrupção é tão antiga como o homem, não há
dúvida. Mas a situação a que chegamos não tem desculpa, qualquer
justificativa é improcedente, porque o exemplo que vem de cima é
tenebroso. Em apenas 13 meses, sete ministros demitidos por corrupção, e
mais três emporcalhados (Fernando Pimentel – PT/ Desenvolvimento;
Fernando Bezerra – PSB/Integração; e Aguinaldo Ribeiro – PP/Cidades).
A imprensa divulga também a farra do boi com recursos públicos,
pagamentos absurdos a ministros (via jetons de “Conselhos”), magistrados
e funcionários públicos privilegiados. As denúncias se sucedem e nada
acontece, o máximo que ocorre é a “autoridade deixar” o cargo e ir
aproveitar a fortuna irregularmente amealhada.
A presidente da República, que é a suprema magistrada da nação, chega
a ponto de dizer que, se a irregularidade tiver sido cometida antes da
autoridade ter assumido o cargo (referindo-se ao “consultor” Fernando
Pimentel), o governo não tem nada com isso e a autoridade não deve ser
punida.
Caramba, a que ponto chegamos! Não há mérito, os concursos públicos
estão totalmente desmoralizados pela terceirização. As atividades que
deveriam estar a cargo dos governantes são transferidas a ONGs
(organizações não-governamentais) e OSs (organizações sociais), que se
locupletam com os recursos públicos e escravizam os trabalhadores, ao
negar-lhes os direitos trabalhistas, transformando-os em “associados” de
falsas cooperativas.
Vejam o caso do Estado do Rio de Janeiro, governado por um jovem
político enriquecido ilicitamente, vindo de uma família de classe média
baixa, criado no subúrbio de Cavalcanti. Nunca foi nada, a não ser
político. Ficou logo milionário, casou com uma jovem modesta e
enriqueceu-a também, como advogada de grandes concessionárias e empresas
ligadas ao governo.
Não satisfeito, Sergio Cabral enriqueceu também o secretário de
Saúde, o amigo Sergio Cortes, também modesto servidor público, que de
repente compra um luxuoso apartamento de cobertura na Lagoa, e paga à
vista, em dinheiro vivo. Depois, compra uma propriedade em Mangaratiba,
próximo à mansão do amigo governador, porque a fortuna não para de
aumentar.
E ninguém fala nada, ninguém diz nada. É como se não existesse
Justiça, Polícia, Ministério Público, nada, nada. E ainda reclamam
quando servidores públicos subalternos, como os policiais, que ganham
salários aviltantes para arriscar a vida, decidem fazer greve exigindo
melhor remuneração.
No Brasil, tentamos viver num mundo do faz-de-conta, em que a
dignidade e a honradez são coisas do passado. É esta a lição que estamos
passando às novas gerações. Os exemplos dados pela classe dominante são
todos podres. E ainda reclamam dos PMs.
