Quinta, 9 de fevereiro de 2012
Do site da Tribuna da Imprensa
Pedro Ricardo Maximino
Está cada vez mais difícil conseguir chegar ao trabalho no Rio de
Janeiro. Nós moramos no subúrbio e na baixada e trabalhamos no Centro e
na Zona Sul porque somente lá é que estão as oportunidades de trabalho
com salários que possibilitam a nossa sobrevivência e a de nossa
família.
Enfrentamos o martírio de horas em trens fechados, sem circulação de
ar, quente e abafados, com portas e janelas emperradas e que param no
meio do caminho, quebram no meio da linha sem nenhuma justificativa
razoável, sem sequer cumprir minimamente o contrato de transporte, nos
levando ao nosso destino, o trabalho que nos desconta diariamente o
injustificável atraso causado sempre pela Supervia, concessionária que
renovou a falta de vergonha pública com o Sr. Sérgio Cabral.
Hoje fiquei em Deodoro e caminhei até a Avenida Brasil, atrasado e
impossibilitado de seguir viagem ou receber meu dinheiro de volta. Além
disso, quem se revolta com o banditismo da Supervia é tratado como
criminoso.
O que dizer acerca dos direitos humanos, quando somos atingidos
diaria e aleatoriamente por cassetetes, armas de choque e gases
paralisantes. Os protestos são inevitáveis diante do tratamento absurdo e
da deficiência dolosa da Supervia.
Depois da paralisação da circulação dos trens, causada pelo justo
protesto de passageiros contra a injustificável quebra de todos os dias,
na estação do Engenho Novo, na zona norte do Rio de Janeiro, a estação
da Central do Brasil foi palco das cenas de crueldade e de confusão,
causadas unicamente pela Supervia, acobertada e ajudada pelas forças de
segurança do Estado administrado, locupletado e desviado por Sérgio
Cabral Filho.
Passageiros que tentavam retornar do trabalho ou que queriam e
precisavam utilizar o transporte público para ir trabalhar encontraram a
estação Central do Brasil fechada e, mesmo após efetuar o pagamento e
não conseguir usar o transporte, não tinham o seu dinheiro de volta para
poder conseguir seguir de ônibus.
Os tumultos são sempre inevitáveis para a Supervia, que nunca
respeita os direitos mínimos dos seus humilhados passageiros. Quando
inexiste o respeito e falta a informação, começam os protestos que uma
minoria manifesta na forma de depredação (pois não enxergam outro meio
de ver os seus direitos respeitados, diante da inércia do Ministério
Público e da renovação da injustificável concessão).
Homens do Batalhão de Choque foram chamados, assim como agentes da
Guarda Municipal. Eles atiraram indiscriminadamente, contra quem sequer
participava dos protestos, gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral (sem
qualquer moral), spray de pimenta e utilizam pistolas de choque
elétrico.
Muitos dos trabalhadores que não tiveram como fugir passaram mal,
como a operadora de telemarketing Marla Simone, de 30 anos, que estava
em dos trens que pararam e precisou ser atendida por bombeiros.
“- A minha pressão subiu. Foi horrível. Muitas pessoas passando mal;
teve até uma senhora que desmaiou. Quando finalmente chegamos na
Central, era spray de pimenta, bomba, uma coisa inacreditável. As
pessoas queriam pegar o dinheiro da passagem de volta. Como não
conseguiram, ficaram revoltadas. ”
O grito dos passageiros refletia a situação de massacre contra uma classe: “Ô ô ô, eu sou trabalhador”.
O pedreiro Antônio Raimundo, de 44 anos, saiu de Realengo às 6h20 e
deveria chegar às 8h ao trabalho, em Botafogo. Às 11h, ele ainda estava
na Central do Brasil.Ele contou como foi agredido no meio da confusão.
“- Eu levei uma cassetada e um choque. Caí no chão e perdi meu
relógio. Um absurdo! É uma vergonha essa Supervia. Todo dia tem
problemas no trem. Quando não tem, a gente fica até emocionado.”
Outra passageira que passou mal foi a copeira Maria de Fátima
Pereira, de 57 anos. Levada para o hospital Salgado Filho, no Méier, com
a pressão alta e diante do descaso e da deficiência semelhante à do
transporte, também na saúde pública, ela desistiu de ser atendida.
- Eu tive que descer e andar pela linha. Fiz uma cirurgia na perna e
não posso andar muito, sinto dor. Minha pressão subiu e me levaram para o
hospital, mas tinha muita gente para ser atendida. Estava demorando
muito e vim para o trabalho aqui no centro.