Quarta, 15 de fevereiro de 2012
Por
Ivan de Carvalho
Ah, como demoram os tucanos de descer do muro. E
tanto se esforçam nisso que estão experimentando, em conformidade com a teoria
de Charles Darwin, uma mutação evolutiva.
Trata-se de, após uma
prolongada temporada em cima do muro, descer para um lado e depois – aí está a
mutação – subir outra vez e ficar novamente empoleirado (petistas ficam “empoderados”,
tucanos empoleirados), à espera de novos dados para decidir se descem para o
outro lado, se voltam a descer para o lado pelo qual já haviam optado antes ou
se aguardam o muro cair para não sofrerem o incômodo de decidir.
Esta mutação está
evidenciando-se no comportamento de um dos três mais emplumados tucanos do
país. Considerando que esses três são o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, Aécio Neves e José Serra. Este último é que experimenta a mutação.
Depois de tempos de
silêncio, indecisão e, justiça se faça, falta de apetite, José Serra comunicou
ao PSDB que não seria candidato a prefeito de São Paulo. Caso resolvesse
disputar a prefeitura que já ocupou uma vez e tem o terceiro maior orçamento
público do país (superado apenas pelo da União e o do Estado de São Paulo),
teria automaticamente o apoio do PSD, o novo partido nacionalmente presidido
pelo prefeito paulistano Gilberto Kassab e que tem em seus quadros outra
relevante liderança paulista, o vice-governador Afif Domingos.
Mas Serra, além de não ter
muito apetite pela prefeitura – dela, saltara em meio ao mandato para o governo
do Estado de São Paulo, de onde, em 2010, tentou (pela terceira vez) alcançar a
presidência da República, perdendo no segundo turno para Dilma Rousseff – tinha
e tem dúvidas sobre se seria ou será eleito prefeito, concorrendo nas eleições
deste ano.
Então, comunicara seu “não”
ao partido. E o PSDB, então, ao invés de fazer com o PSD de Kassab a aliança
que este propunha, com o apoio dos tucanos a Afif para prefeito e do PSD ao
governador tucano Geraldo Alckmin à reeleição em 2014 e o apoio a Serra dentro
do PSDB na sua disputa com Aécio Neves para determinar o candidato tucano a presidente
em 2014, o PSDB fez o impensável, o absurdo.
Mesmo sabendo que Lula e o
PT têm como prioridade eleitoral máxima deste ano a conquista da prefeitura
paulistana, o governador Alckmin não aceitou a proposta do PSD de Kassab e permitiu
que o PSDB se envolvesse em eleições prévias com quatro candidatos
inexpressivos, o que dificilmente seria algo diverso de uma pura e simples
entrega da prefeitura ao PT.
Vendo o quadro, Kassab fez
uma manobra que pode lhe permitir aliar-se ao PT – apesar do esperneio da
militância deste partido e da senadora Marta Suplicy –, declarou que aceita ser
candidato mesmo sem o apoio do PSDB (elemento que antes considerava
indispensável à sua candidatura) somente para dar a seu partido, o PSD, uma
alternativa à aliança com o PT.
E então o que acontece? Há
uma semana, se muito, José Serra sobe no muro outra vez. Diz ao governador
Alckmin que admite ser candidato a prefeito. Mas impõe duas condições: 1) que
Alckmin providencie a desistência dos quatro candidatos às prévias ou, talvez,
uma decisão partidária que acabe com as prévias (como o PT está jogando essa
sua antes tão decantada prática no lixo); e 2) que Alckmin dê garantia de que
vai se empenhar a fundo no apoio a sua candidatura a prefeito, especialmente
trabalhando na construção de um importante arco de alianças eleitorais.
Se for atendido nas duas
coisas, Serra desce para “o outro lado” do muro. Topa a luta eleitoral. Se não
atendido, desce do muro para o mesmo lado para o qual já descera antes e do
qual saíra para o empoleiramento atual.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta quarta.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.
