GUERRA É GUERRA? PETRÓLEO, PODER, AMBIÇÃO? OU CABE NEGOCIAÇÃO?
Pedro Augusto Pinho*
As guerras de hoje não são as de ontem, certamente não serão as de amanhã. Mas há motivos que, por incrível que pareçam, permanecem; demonstrando que os estágios civilizatórios em que se encontram os países são bem distintos.
No entanto, estes diferentes estágios civilizatórios estão muito mais voltados para as governanças internas do que para as relações internacionais.
É uma situação complexa, que ultrapassa as melhores análises dos comentaristas das mídias, o que acaba por levar a torcidas, como se fosse um jogo em disputa, muito diferente das reações à fria análise dos fatos.
A mais contundente demonstração está nos bolsonaristas desfilando com bandeiras de Israel. Será que algum, um só, um único dos participantes da passeata, saberia nos explicar a razão de portar a bandeira do Estado de Israel numa manifestação política partidária brasileira na Avenida Paulista, na capital do Estado de São Paulo?
O Estado de Israel é um estado belicoso. Desde sua criação, em 14 de maio de 1948, está em guerra contra os vizinhos. É claro que ele trouxe um desconforto ou desalento para os habitantes da Palestina, que certamente almejavam sua independência do Reino Unido, que lá exercia o governo como mandatário da Liga das Nações.
A Liga das Nações teve sua duração entre 1919 e 1946, sendo substituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) que fora constituída em 24 de outubro de 1945, com estrutura mais robusta e maior adesão de países para mais eficazmente manter a segurança internacional. A descontinuidade das datas refletem os processos exigindo concordâncias internacionais de países. Anteriormente toda aquela região, a Palestina, pertencia ao Império Otomano.
A grande maioria dos habitantes da Palestina era constituída de árabes de credo islâmico sunita, também havia árabes cristãos. A presença inglesa fez crescer o nacionalismo e o desejo de constituir um estado dirigido pelos árabes, então habitantes amplamente majoritários.
Esta, porém, não era a ideia do Reino Unido que via se esvair seu domínio no Oriente Médio onde se descobriram as maiores reservas de petróleo, até então sob o controle de empresas inglesas e anglo-holandesas. Criar a cizânia naquela região deve ter sido o modo da aristocracia britânica continuar decidindo o destino do petróleo no mundo árabe.
Os judeus tinham obtido residência na Inglaterra no século XVII para auxiliar na criação do Banco da Inglaterra (1694), como fizera antes a Holanda, levando judeus da Itália para criar o Banco de Amsterdã (1609). Esta expertise financeira fez com que os judeus fossem aceitos, no alvorecer do capitalismo, pelos principais reinos europeus. Já no final do século XIX, Theodor Herzl cria o sionismo e edita seu livro “O Estado Judeu” (1896), onde prega a criação de um estado que ia da margem oriental do rio Nilo até o Golfo Pérsico e do paralelo 20 ao 37 para abrigar o povo judeu. Surge o termo aliá (aliyot) para designar a imigração dos judeus para a Terra Santa.
Distinguimos alguns períodos nesta imigração judaica. O primeiro, ainda quando sob domínio do Império Otomano, fugindo dos pogroms da Rússia Czarista, entre 1882 e 1914, devido a I Grande Guerra, computando-se cerca de 45 mil. Mesmo assim, uma migração marginal, se considerarmos que dos 2.367 mil que deixaram a Europa, 2.022 mil se destinaram aos Estados Unidos da América (EUA), onde reside, hoje, a metade dos judeus, mais do que no Estado de Israel (31%).
Ao final da Primeira Guerra Mundial, com o Império Otomano desmantelado, a Palestina passou para o mandato britânico. A Grã-Bretanha era favorável ao estabelecimento de uma pátria nacional judaica na Palestina. Em carta de 1917, Lorde Arthur James Balfour, Primeiro-ministro (1902–1905) e Ministro das Relações Exteriores (1916–1919), expressou essa concordância, com a ressalva de que “… nada deverá ser feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina...”. A Declaração Balfour forneceu a base legal para a imigração judaica, e a incentivou.
Às vésperas da criação do Estado de Israel, entre 1839 e 1948, chegaram 118.228 judeus à Palestina. Após a criação do Estado foi promulgada a Lei do Retorno pela qual todo judeu tinha direito de residir em Israel. Ao final do século XX havia aumentado a população de judeus em Israel em 3.100 mil pessoas, comprovando o sucesso do empreendimento. Estes imigrantes foram tomando por diversos meios, entre os quais os violentos, pela força, as terras até então residência dos árabes.
Os conflitos com os vizinhos começaram imediatamente após a criação do Estado de Israel contra o Egito, a Jordânia, a Síria, o Líbano e o Iraque, ocupando 78% da Palestina Britânica. Seguiram-se a Guerra do Sinai, quando Israel contou com o apoio do Reino Unido e da França, e a Guerra dos Seis Dias (1967), com a ocupação da Península do Sinai, da Cisjordânia, e das Colinas de Golã. Estas duas últimas vivem permanente escala de violência tendo Israel anexado 1.200 km² das Colinas de Golã em ação unilateral. As guerras prosseguiram com a de Yom Kippur (1973) e duas contra o Líbano, 1982 e 2006, além da permanente contra os habitantes de Gaza.
Os bolsonaristas, participantes da manifestação da Avenida Paulista, estariam propugnando por um estado belicoso e agressivo para o pacífico Brasil? Permanentemente em guerra, ameaçando a todos?
PETRÓLEO, PODER E AMBIÇÃO
Mente quem não vê no petróleo um dos motivos para guerra, principalmente se empreendida pelos países do Atlântico Norte: EUA e Europa Ocidental.
O petróleo foi descoberto em 1847-1848, na região Bibi-Heybat (Baku), no Azerbaijão, pelos suecos irmãos Nobel, Ludwig e Robert, que criaram a Branobel (Companhia de Produção de Petróleo Nobel Brothers). Também célebre foi o outro irmão, Alfred, inventor da dinamite e criador do Prêmio que leva o nome da família.
Onze anos depois, em 1859, na Pensilvânia (EUA), Edwin Laurentine Drake, que ganhava a vida com perfurações de minas de sal, encontra petróleo. Esta descoberta é considerada o início da indústria do petróleo. Neste século e meio, o petróleo revolucionou a indústria e a economia da energia.
Em 2025, o consumo de energia por fontes primárias, no mundo, teve no petróleo (óleo e gás natural) 55% dos recursos (181 milhões de barris por dia – mb/d), ficando as energias solar e eólica com 4% (15 mb/d), pouco abaixo da energia nuclear (16 mb/d).
Por todo período que vai das descobertas iniciais até a década de 1960, foram as empresas (Standard Oil, Royal Dutch Shell, British Petroleum, Texaco) e os grandes gestores (John Rockefeller, Henri Deterding, John Cadman, Walter Teagle), quem comandaram os preços e os volumes negociados do petróleo. Com a criação, no Iraque, da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em setembro de 1960, pela Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, teve início a substituição dos compradores pelos vendedores nas transações com o petróleo e seus derivados.
Os preços congelados do petróleo, desde o Acordo de Achnacarry (17 de setembro de 1928), bases para a formação do cartel das "Sete Irmãs", manteve por toda a II Grande Guerra e o reerguimento da Europa nos mesmos US$ 1,61/barril de Achnacarry, que equivalem hoje, março/2026, US$ 22,72. Mas que a Guerra de Israel contra os países do Oriente Médio colocou a US$ 106,77.
Os defensores de uma “transição energética” ficam sem argumento diante da realidade do petróleo num mundo em guerra. Houve tamanho aumento nos preços das energia eólica ou de painéis solares?
Petróleo, poder e ambições cabem numa negociação? Claro que não. Ao menos no estágio civilizatório em que se encontram Israel, voltado para uma ilusão de 4000 anos; ou os EUA que ainda não acordaram da Guerra Fria, e de uma Europa que perdeu o poder diante das novas tecnologias das teorias matemáticas da informação, no que diz respeito a máquinas e sistemas digitais, e dos usos da lógica gödeliana, alterando sem consciência dos atores os comportamentos sociais.
Neste momento devemos nos voltar para a China. Não apenas por ser o único país a obter, por alguns minutos, um Sol em laboratório, graças aos avanços na fusão nuclear. Mas, principalmente, como se expressou Xi Jin Ping, pela construção de um país bom para os chineses viverem. A jornada de trabalho padrão na China é de 8 horas por dia, com média de 40 a 44 horas semanais. E há trabalho para todos, como há atendimento a qualquer questão de saúde, habitação grátis ou a preço ínfimo e o melhor sistema de mobilidade urbana e interurbana do mundo.
E, ainda mais, porque a China não se arma para guerra, embora tenha o mais eficiente sistema militar do mundo, mas para dissuadir qualquer Israel ou EUA a tentar atacá-la.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.
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