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(Millôr Fernandes)

sábado, 28 de março de 2026

Cultura, memória e a necessidade de resgatar um arquiteto na história de Brasília

Sábado, 28 de março de 2026




A criação do Instituto dos Arquitetos do Brasil, departamento do Distrito Federal (IAB-DF), antecedeu a inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. Ao longo desses anos, o IAB-DF assumiu o compromisso de contribuir para o desenvolvimento e preservação da capital, sempre com a preocupação voltada para a formação e exercício da profissão do arquiteto, uma das premissas de todos os departamentos do instituto no País.

Em Brasília, desde a sua criação, o IAB-DF participou da construção e consolidação da nova capital. Seu quadro de associados era formado por arquitetos que vieram construir e participar da obra monumental que se erguia no Centro-Oeste brasileiro trazendo desenvolvimento para o interior do País.

Cultura, memória e a necessidade de resgatar um arquiteto na história de Brasília

Do Brasil de Fato (DF)

Capital federal é tombada como patrimônio mundial da humanidade pela Unesco | Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

"Resgatar Wilson Reis Netto é reconhecer as camadas apagadas da história de Brasília"

Março de 1960. Um mês antes da inauguração da nova capital, Wilson Reis Netto fundava o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) no Planalto Central, entidade que completou 66 anos no último dia 20 de março. Isso pode parecer trivial à primeira vista. Mas não é.

A fundação de uma entidade de arquitetos em uma cidade nova — uma capital que sequer tinha seus órgãos públicos plenamente instalados — revela a importância que arquitetas e arquitetos brasileiros atribuíam àquele momento. Reconhecia-se ali o caráter singular da nova capital. E fazia sentido: construía-se uma cidade do zero, no interior do país; urbanismo, arquitetura, paisagismo e design eram pensados em sua totalidade, com ampla liberdade criativa. Isso permitiu a adoção de uma linguagem inovadora — algo que, ainda hoje, é difícil de alcançar no Brasil, onde arquitetura e urbanismo de qualidade raramente figuram como prioridade de Estado.

O projeto de Brasília foi escolhido por concurso público nacional em 1956 — novamente com participação decisiva do IAB. Mas essa defesa não começou ali.

Já em 1922, por ocasião do lançamento da Pedra Fundamental da futura capital, no Morro do Centenário (hoje em Planaltina), a então Sociedade Central de Arquitetos — que mais tarde se tornaria o IAB — deliberou, em reunião no Rio de Janeiro, o envio de uma carta ao presidente da Câmara responsável pela mudança da capital. O conteúdo era claro: o projeto deveria ser escolhido por concurso público nacional e a construtora, por licitação.

Se inauguramos, em 1960, uma capital que anos mais tarde se tornou Patrimônio Mundial pela qualidade de seu projeto, isso é, em grande medida, reflexo dessa luta.

Feito esse preâmbulo, retornemos a Reis Netto.

Wilson foi figura central na cena política e cultural dos primeiros anos da capital. Veio do Rio de Janeiro para integrar a equipe de Oscar Niemeyer na Novacap e participou de projetos importantes — com destaque para a Escola da 114 Sul. Mas sua atuação ia além da prancheta. Era uma espécie de embaixador da arquitetura em Brasília. Em sua casa, na 700 Sul, recebia delegações estrangeiras e agentes culturais brasileiros — artistas, arquitetos, músicos. Ele e sua irmã, a artista Gilda Reis Netto, foram figuras centrais na cena cultural brasiliense nascente: promoviam encontros, fomentavam debates, articulavam diversidade. Um bom exemplo aconteceu em 1961, quando receberam o arquiteto nigeriano Augustine Agbor em uma festa que reuniu Mestre Vitalino e sua banda e o conjunto de Luiz Gonzaga — episódio que chegou às colunas de jornal.

E mesmo com tanta presença, desapareceram da historiografia da cultura brasiliense — inclusive da própria história do Instituto que Wilson ajudou a fundar.

Há algumas explicações possíveis.

A primeira, mais evidente, é o golpe militar de 1964. A ruptura foi dura. A nascente cena cultural e intelectual foi profundamente atingida. As equipes da Novacap foram desmanteladas e profissionais altamente qualificados, atraídos por um projeto coletivo de inovação, foram afastados. O impacto — especialmente na arquitetura — foi devastador.

Brasília havia atraído arquitetos, artistas e designers porque oferecia condições únicas para o desenvolvimento das artes. Não por acaso, Mário Pedrosa a definiu como “síntese das artes”: uma cidade planejada em que diferentes campos eram pensados de forma integrada, com forte sentido de unidade e inovação. A ditadura rompeu esse processo.

A Universidade de Brasília (UnB), a cena artística e a arquitetura do Planalto Central nunca se recuperaram completamente. Foi ali que se interrompeu a possibilidade de fazer arte com liberdade dentro da gestão pública — algo que, ainda hoje, se tenta retomar.

Há, porém, uma segunda hipótese para o apagamento de Wilson Reis Netto. O fato de ele ser um homem gay.

Se hoje ganham visibilidade pesquisas sobre mulheres, populações negras e indígenas na construção de Brasília, ainda sabemos pouco sobre outras formas de exclusão. É possível que o fato de Wilson ser abertamente homossexual tenha contribuído para sua invisibilização.

Em relatos de contemporâneos, sua orientação sexual frequentemente aparece antes de suas qualidades profissionais — que incluíam capacidade de gestão, mobilização e liderança. Ainda assim, tornou-se uma figura influente.

Isso revela como construímos nossa memória: quem são os considerados relevantes? Em geral, aqueles alinhados aos grupos hegemônicos.

Resgatar Wilson é reconhecer as camadas apagadas da história de Brasília e recolocar no presente questões urgentes: o papel de mulheres, pessoas LGBTQIA+, populações negras e indígenas na construção da cidade — e também os projetos que não avançaram.

Entre eles, um permanece atual. Já em 1961, Wilson propunha a criação de um centro cultural dedicado à arquitetura, ao urbanismo e ao design — uma “casa da arquitetura” em Brasília. Um espaço de encontro, debate e exposição.

Hoje, a capital, reconhecida enquanto Patrimônio Mundial pela Unesco, tem na arquitetura um de seus principais ativos culturais e turísticos. E, ainda assim, não possui um espaço dedicado a contar essa história em suas múltiplas dimensões, nem a expor e debater a produção contemporânea — que, apesar do pouco incentivo público e das grandes construtoras, segue existindo com resistência e qualidade. Essa arquitetura precisa ser vista, vivenciada, discutida, divulgada. Retomar o sonho de Wilson é um passo evidente.

Resgatar sua memória é também resgatar o espírito, a inquietude e o sensato ético e estético que fez de Brasília um campo avançado de experimentações sem precedentes no país. Brasília precisa de um espaço para mostrar sua arquitetura e urbanismo do passado e do presente para que mantenha sua relevância no futuro.

Nesta sexta-feira (27), na Universidade de Brasília, será lançado o livro Tempestade Tropical: de Brasília à Praia do Forte — a trajetória de Wilson Reis Netto, de Alexandre Benoit, no auditório da FAU. A obra permite conhecer mais profundamente a vida e o trabalho desse arquiteto fundamental — por muito tempo invisibilizado.

*Luiz Eduardo Sarmento é arquiteto e urbanista, servidor de carreira no Iphan e ex-presidente do IAB/DF.

**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.

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Editado por: Clivia Mesquita