Quarta, 25 de março de 2026
Brasil precisa de dono e China vence século de humilhações
Entre dependência histórica e projeto nacional, o contraste entre o Brasil e a China revela caminhos distintos de desenvolvimento, educação e soberania no século 21
Samuel Pinheiro Guimarães Neto, carioca, inicia, com as mesmas palavras que começo este artigo, seu capítulo “Quinhentos anos de periferia: a inserção”, de “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes” (2006).
Samuel (1939–2024) foi exonerado de suas funções de diretor da Assessoria de Cooperação Internacional da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) por resistir à interferência da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Já o cearense Roberto Átila Amaral Vieira, Roberto Amaral, nascido no mesmo ano — ambos formados em Direito — foi ministro de Ciência e Tecnologia de janeiro de 2003 a 2004, no governo Lula, além de conselheiro do BNDES e da Itaipu Binacional, membro do Pen Clube do Brasil e da International Political Science Association, bem como da International Association of Judicial Methodology.
Comparar um país comunista que com outros dois (Laos e Camboja), durante vinte anos (1955-1975), lutaram contra o agressor estrangeiro, os Estados Unidos da América (EUA), com o movimento de Hugo Chávez numa colônia estadunidense, que ainda estava em gestação, iniciado com a vitória contra o golpe de 2002, e que sofre com a perda prematura (1954-2013) do líder, se não for maldade é ignorância.
É o que denomino “efeito Globo”. A permanente desinformação do Sistema Globo de Comunicações, que Leonel Brizola denominava “filhote da ditadura”, vem desde Getúlio Vargas combatendo as tentativas de independência do Brasil.
O Brasil sofre de um mal de origem: a colonização portuguesa. O ensaísta e historiador António Sérgio de Sousa Júnior (1883–1969), na notável Breve Interpretação da História de Portugal, cuja primeira edição foi publicada na Espanha (1929), onde António Sérgio se refugiara da ditadura salazarista, escreve: “Um dos males da nação foi que a fidalguia não se enraizou nos seus campos, não exerceu um verdadeiro papel civilizador — um papel de direção e proteção dos seus povos —; antes, fez-se parasita do povo e do Poder Central. Os maus efeitos desse vício sentem-se ainda hoje no país”.
Recordando, Portugal foi dado aos nobres franceses que vieram auxiliar Afonso VI, rei de Leão e Castela, na luta contra os mouros, formando a primeira dinastia, a afonsina (1095-1383), com Henrique de Borgonha.
A educação dos brasileiros foi entregue aos padres jesuítas que aqui chegaram com Tomé de Sousa, em 1549. Portugal queria a defesa da terra descoberta, sua manutenção e sua exploração econômica. Do mesmo modo descrito por António Sérgio, estabelecia no Brasil uma elite ociosa, escravista, pendurada no Governador-Geral. Levamos 341 anos para que, ainda um tanto hesitante, o militar positivista Benjamin Constant Botelho de Magalhães obtivesse, do Marechal Deodoro da Fonseca, a Secretaria de Estado dos Negócios da Instrução Pública, Correios e Telégrafos (19 de abril de 1890), que durou 18 meses.
A educação no Brasil é um capítulo dos fracassos, malgrado os esforços do estadista Getúlio Dornelles Vargas e do criador de escolas Leonel de Moura Brizola. Vitoriosa foi a União Democrática Nacional (UDN) cuja história, como escreve Maria Victoria de Mesquita Benevides (“A UDN e o Udenismo”, 1981): “é a história de um grupo restrito, de uma elite que se queria elite, quer pelas origens sociais ou pelos interesses econômicos, quer pela linha política, ou, ainda, pela autoimagem de excelência”. Interesse nacional? zero. Educação popular? menos ainda.
Udenistas são o piauiense Wellington Moreira Franco (1944), o paulista Jair Messias Bolsonaro (1955), o carioca Roberto de Oliveira Campos Neto (1969), o amapaense David Samuel Alcolumbre Tobelem (1977) para ficar nos vivo e que estão atuando para manter o Brasil colonizado.
A filósofa estadunidense Nancy Fraser (1947), em seu recente livro “Capitalismo Canibal” (2023), descreve o capitalismo financeiro que domina atualmente as relações nos EUA e nas suas colônias: “a visão ampliada do capitalismo expõe uma tendência estrutural à crise política. Aqui, também, o capital quer o melhor dos dois mundos vivendo dos bens públicos pelos quais tenta não pagar impostos. Pronto para sonegar impostos e enfraquecer regulações de Estados, tende a esvaziar os próprios poderes públicos de que depende. A atual forma financeirizada do capitalismo leva esse jogo a um nível completamente novo. Megacorporações com maior poder de fogo acorrentam poderes públicos territorialmente, enquanto o setor financeiro global disciplina Estados, ridicularizando eleições que vão contra ele e impedindo governos anticapitalistas de atender reivindicações populares. O resultado disso é uma grande crise de governança, agora lado a lado com uma crise de hegemonia, conforme massas populacionais de todo planeta abandonam a lógica neoliberal e os partidos políticos estabelecidos”.
E acrescenta: “Quando a produção é delegada às empresas privadas, não somos nós, mas a classe capitalista que controla nossa relação com a natureza e o destino do planeta. Do mesmo modo, não somos nós, mas esta classe que determina o formato de nossas vidas no trabalho e para além dele, decidindo como distribuímos nossas energias e nosso tempo, como interpretamos e saciamos nossas necessidades. Por fim, ao autorizar a apropriação privada do excedente da sociedade, o nexo economia-política do sistema permite que os capitalistas moldem o curso do desenvolvimento social e, assim, determinem nosso futuro”. “O capitalismo também nos canibaliza, devorando nossa liberdade coletiva de decidir em conjunto como vamos viver”.
A oposição se constrói pela vontade coletiva, mobilizando afetos comuns em defesa da igualdade, da justiça social, da defesa do Planeta e no combate às políticas belicosas e demagógicas, farsantes como as do populismo de direita, do Estado de Israel e do Sistema Globo de comunicação.
Do outro lado do mundo, um outro mundo
“Do ponto de vista ocidental, a China é simplesmente o outro pólo da experiência humana” (Simon Leys, “L´Humeur, l´Honneur, l´Horreur. Essais sur la culture et la politique chinoise”, 1991).
O pensamento chinês, ensina Anne Cheng (“História do Pensamento Chinês”, 1997), não procede tanto de maneira linear ou dialética e sim em espiral. Vai descrevendo como círculos ao redor dele, cada vez mais estreitos, numa vontade de aprofundar ou esclarecer o objeto do pensamento. Também ao se referir à natureza, o autor chinês integra aquilo que vive e o que lhe toma coração e mente. No entanto, o pensamento chinês está totalmente imerso na realidade; “não há razão fora do mundo”.
E é por isso que mais de 90% da população chinesa se identifica como não religiosa, descrente dos deuses, ateia. Mais do que “saber o que”, importa “saber como”. Laozi, ou Lao Zi (571- 531 a.C.), filósofo, autor do importante “Tao-Te Ching”, fundador do taoísmo, enunciava: “em vez de sucumbir à tentação fácil de cuidar dos galhos, parte mais visível e agradável para olhar, é preferível cultivar a raiz da árvore, tirando vida e alimento do mais profundo da Terra e cresce em direção ao Céu”.
Os ritos mais antigos dos chineses dizem respeito ao culto aos ancestrais. O Céu confunde-se com o natural e o Homem como continuidade na execução dos ritos. Anne Cheng trata Confúcio como um caso. Mais do que um pensador, um verdadeiro fenômeno que se confunde com toda uma civilização por 2.500 anos.
Na recente história da China ocorreu a Revolução Cultural, impulsionada por Mao Tsé-Tung, destinada a impedir que o capitalismo entrasse na China, morto Mao (1976), Deng Xiaoping abre as portas da China para as empresas estrangeiras, ou seja, para o mundo capitalista entre 1978 e 1989. Cria-se imensa confusão, enorme perplexidade no País. Jiang Zemin (1989-2003) procura estabelecer uma “acomodação” do maoísmo, uma vertente do marxismo, com um capitalismo muito preso ao estado de Deng Xiaoping. Todavia, quem obterá sucesso será Hu Jintao (2003-2013) que buscará o amalgama confuciano, vivo no íntimo do pensamento de todos os chineses.
Este é o momento que vive Xi Jinping e o sucesso que está obtendo em todas as frentes que são empreendidas na China de hoje.
Dirigindo desde 2013 a China, Xi Jinping vem definindo os valores que devem nortear o País, isto é a Governança da China. E extraímos de seu discurso de 4 de maio de 2014, num simpósio da Universidade de Pequim os seguintes trechos.
“A prosperidade, democracia, civilidade e harmonia são os valores exigidos a nível estatal; a liberdade, igualdade, justiça e legalidade fazem parte dos valores a nível social; e o patriotismo, a dedicação profissional, integridade e amizade, os valores a nível individual dos cidadãos”. “Desde a Antiguidade, os chineses percebem a necessidade de estudar a natureza das coisas, retificar os pensamentos com sinceridade, cultivar a própria moral e administrar a família, assim como governar o Estado e buscar a paz sob o Céu”. Esses pensamentos são, respectivamente, exigências a nível individual, social e estatal, e se pode ver neles o confucionismo e o socialismo com características chinesas.
Neste mesmo discurso, Xi Jinping “compartilha” algumas ideias do que entende pela cultura chinesa.
“O povo é a base do Estado”, “Harmonia na Diversidade”, “Cada pessoa, apesar de humilde, tem responsabilidade pelo destino do Estado”, “Governar o país com virtude e educar o povo com cultura”, “O homem bondoso tem a retidão como essência”, “Ser fiel à palavra e resoluto na ação”, “Não se preocupar com a escassez, mas sim com a desigualdade”.
E apresenta os quatro valores-chave: (a) estudar com afinco e assiduidade para adquirir conhecimentos autênticos; (b) cultivar a moral e a virtude e dar maior atenção à prática; (c) saber distinguir o certo do errado e saber tomar a decisão certa; e (d) ser honesto e sincero, trabalhar de forma realista e ser íntegro.
A República Popular da China não é apenas o país que mais cresce no século 21, ela superou tecnologicamente todos demais países, é o melhor país para os quase um bilhão e meio de habitantes morar, pela facilidade de encontrar educação, trabalho, habitação, atendimento à saúde, mobilidade urbana e interurbana, justiça e participação na sociedade. Além de ser um país pacífico, que busca colaborar com todos os demais, para o que desenvolveu a Iniciativa do Cinturão e Rota.
Enquanto no Brasil o que mais existe são entreguistas em diversos meios, na política, na justiça, no governo, na comunicação de massa, e até na marginalidade criminosa, a corrupção, como é consequência óbvia, corre solta e impune, nenhum partido político se apresenta como nacionalista intransigente.
Dos candidatos à presidência um prega abertamente a submissão dos Brasil aos EUA e tem a apoiá-lo o Sistema Globo e toda comunicação de massa, exceto a estatal, que, por dever de ofício, apoia a reeleição do que deseja relações cordiais com os EUA, nenhuma rusga.
E o povo? Ora, o povo continuará sem instrução, sem escola pública, pois é a única que pode garantir verdadeiramente a educação universal, laica, gratuita para que seja para todos, é a do Estado, de horário integral para atividades práticas, artísticas (dança, teatro, música) e esportivas, três refeições, banho e assistência à saúde física e mental e a importantíssima educação para cidadania.
Mas esta escola vem sendo combatida, privatizada pelos algozes do povo brasileiro, e pelos que aceitam serem Ministros de seus governos, sem qualquer ressalva.

