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(Millôr Fernandes)

domingo, 22 de março de 2026

Cerco econômico —Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

 Domingo, 22 de março de 2026

Cerco econômico Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

Victor Cairo rebate declaração de Trump, revela três meses sem combustível e pede apoio material a aliados

Brasil de Fato — Brasília (DF)
Camila Araujo

Embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na UnB | Crédito: Camila Araújo/BdF DF

Cuba completa três meses sem receber combustível, enfrenta a mais severa ofensiva dos Estados Unidos em 50 anos e vive uma situação de “guerra”, não de crise. O alerta é do novo embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na Universidade de Brasília (UnB) nesta terça-feira (17).

“Vivemos 60 anos de cerco econômico; agora vivemos uma guerra”, afirmou o diplomata durante a abertura do curso Processos históricos de Cuba e Contexto atual, promovido pelo Núcleo de Estudos sobre Cuba (Nescuba).

Atuando há menos de um mês no Brasil, após exercer a função diplomática no Panamá desde 2022, Cairo rebateu diretamente a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a ilha seria um “estado falido”.

“Cuba é um estado em guerra, não um estado falido”, declarou. Em recente fala, Trump chegou a dizer que tem o direito de fazer “qualquer coisa” com Cuba, ameaçando tomar o controle do território.

Segundo o embaixador, os Estados Unidos tentam, “pela primeira vez em 50 anos, agredir Cuba pela via armada”. O instrumento principal seria o que chamou de “cerco econômico, comercial e energético”, intensificado desde o final de 2025 com a promessa de sanções a países que vendam petróleo à ilha socialista.

“O cerco econômico, comercial e energético nos obriga a pensar que existe uma intenção do presidente dos EUA [Trump] e do secretário de Estado [Marco Rubio] hoje em sufocar e assassinar Cuba de fome, miséria e ruptura da vida, e crise humanitária”, denunciou.

A situação energética é particularmente grave no país caribenho. Com cerca de 80% da energia gerada por termelétricas alimentadas por combustíveis, a nova medida do governo Trump reduziu drasticamente a possibilidade de compra de petróleo no mercado global.

O quadro foi agravado pelo bloqueio naval dos EUA à Venezuela, implementado a partir do final de 2025. A Venezuela, aliada histórica de Cuba, era responsável por suprir grande parte da demanda energética da ilha em condições preferenciais. O bloqueio tornou-se, assim, um golpe direto na já fragilizada matriz energética cubana.

Abertura do curso "Processos históricos de Cuba e Contexto atual", promovido Nescuba
Abertura do curso “Processos históricos de Cuba e Contexto atual”, promovido Nescuba | Crédito: Camila Araujo/BdF DF

‘Catástrofe humanitária’

Segundo o embaixador, a falta de combustíveis não é um problema setorial, mas uma catástrofe humanitária em curso. “Impacta a saúde, a educação, o transporte de alimentos, a cadeia de distribuição de medicamentos e o turismo, diminuindo a quantidade de aviões que podem chegar ao país”, enumerou.

Ao descrever o cotidiano dos cubanos, Cairo falou em hospitais que reduzem operações, em transporte público parado, em cadeias de distribuição de medicamentos rompidas. “Lutamos e trabalhamos com o mínimo recurso e temos que reduzir o transporte público, as horas de trabalho, as operações nos hospitais, tendo que parar o processo de produção”, revelou.

Como consequência direta da pressão norte-americana, os governos de Honduras e da Jamaica encerraram acordos de décadas que permitiam a atuação de brigadas médicas cubanas em seus territórios.

O Brasil tem um papel estratégico neste momento. “Se o Brasil joga forte, Cuba não estará sozinha”, declarou o embaixador, reconhecendo a posição do presidente Lula em defesa da soberania cubana e as doações brasileiras de medicamentos e alimentos, com a expectativa de uma nova remessa com soja, feijão e arroz. Cairo, no entanto, descreveu o limite da ajuda: o governo brasileiro não envia combustível à ilha, temendo os efeitos das sanções.

Solidariedade

O evento reuniu solidariedade internacional e vozes de diferentes gerações em defesa da soberania cubana.

A professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César, que visita Cuba desde 1994, trouxe a perspectiva histórica. Ela contou que nunca viu o país em uma situação tão preocupante como a de agora.

“Estive em Cuba na década de 1980, estive no período especial. Cuba conseguiu sobreviver porque, mesmo sendo um período muito difícil, a solidariedade cotidiana é algo maravilhoso. Agora, Cuba depende de uma batalha de ideias e uma batalha material. Cuba necessita muito mais.”

Professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César
Professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César | Crédito: Camila Araujo/BdF DF

Na mesma linha, o representante da embaixada do Irã no Brasil, Ali Mir, prestou solidariedade ao povo cubano e reagiu a uma fala do embaixador. “Se a única coisa que resta para os Estados Unidos é o poder militar, acho que o Irã vai acabar com isso também”, disse, seguido de aplausos.

O venezuelano Freddy Meregote, que protagonizou uma resistência contra a tentativa de invasão à embaixada da Venezuela em novembro de 2019, afirmou: “Temos que fazer esforço, os povos do mundo, para retirar o bloqueio contra Cuba.”

Já a jovem Yara Flor, estudante do ensino médio, de 17 anos, representou a voz da nova geração. Ela afirmou que “é uma barbaridade e uma coisa terrorista que os Estados Unidos fazem em Cuba” e que é preciso “conscientizar as pessoas nas universidades e escolas, já que muitas pessoas não sabem o que está acontecendo”.

Flotilha Nossa América

Uma campanha de solidariedade tem mobilizado parlamentares, dirigentes sindicais e representantes estudantis brasileiros que participam de uma caravana internacional de solidariedade a Cuba. O grupo pretende levar mais de 20 toneladas de produtos para ajuda humanitária ao país caribenho.

Flotilha Nossa América está marcada para partir no sábado (21), por via marítima, aérea e terrestre.

No sábado, 21 de março, mais de 20 toneladas de alimentos, medicamentos e insumos deixarão o Brasil em direção a Havana. A Flotilha Nossa América não leva apenas ajuda humanitária. Leva, nas palavras da professora Maria Auxiliadora, “a certeza de que a solidariedade cotidiana ainda é capaz de furar bloqueios”.


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Editado por: Flavia Quirino