Do campo ao prato: o que a gente não vê na alimentaçãoQuando falamos de alimentação adequada e saudável, não estamos falando apenas de comida ou alimentos. Também estamos falando de pessoas produtoras rurais, de meio ambiente e de como os alimentos são produzidos. O que chega ao nosso prato carrega histórias — e, muitas vezes, impactos socioambientais que não aparecem na embalagem. Quando olhamos para a origem dos alimentosDiferentes análises chamam atenção para o avanço do desmatamento ligado à produção de commodities como soja e carne bovina, uma problemática central no agravamento da crise climática. E, apesar de parecer distante, esse problema está diretamente conectado ao sistema que sustenta o que comemos todos os dias. Hoje, a pecuária é a maior responsável pelo desmatamento na Amazônia. Ao mesmo tempo, a expansão da soja, em grande parte destinada à alimentação animal, continua pressionando diversos biomas, sua biodiversidade e comunidades tradicionais. Esse modelo de produção prioriza lucro e volume em detrimento da segurança alimentar e nutricional e da sustentabilidade. E, nesse processo, os impactos socioambientais acabam sendo tratados como custo secundário. O que novo estudo revela sobre esse cenário?Diante desse contexto, nós do Idec, em parceria com a Mighty Earth, analisamos como 14 grandes empresas dos setores de soja, carne bovina e varejo se comprometem com o desmatamento zero em suas cadeias produtivas. Para entender melhor esse cenário, acesse o estudo completo do Idec em parceria com a Mighty Earth
O estudo revela que, apesar de alguns compromissos públicos assumidos, as maiores empresas ainda falham em pontos essenciais. Entre os principais problemas identificados estão: - Compromissos ambientais vagos ou insuficientes;
- Falta de rastreabilidade completa, especialmente sobre fornecedores indiretos - aqueles mais no início da cadeia de produção;
- Auditorias limitadas - comprometendo a veracidade das informações; e
- Ausência de transparência em dados essenciais.
- Na prática, isso significa que ainda é difícil garantir que a carne e a soja que chegam ao mercado estejam livres de desmatamento.
Quando promessas não garantem mudanças reaisOs dados do relatório mostram que, mesmo com avanços pontuais, nenhuma das empresas avaliadas consegue comprovar controle total sobre suas cadeias produtivas. Isso dialoga com dados de outros relatórios importantes, como o do Radar Verde (2025), que mostra que, no Brasil, a maior parte dos frigoríficos e dos varejistas não comprovou controle sobre fornecedores indiretos — como as etapas de cria e recria do gado, que acontecem antes da engorda e são consideradas as mais vulneráveis à entrada de produtos ligados ao desmatamento. Sem esse controle, compromissos de “desmatamento zero” perdem força e podem funcionar mais como estratégia de publicidade do que como mudança real. É nesse cenário que as práticas de greenwashing ganham espaço, dificultando que a gente saiba, de fato, o que está por trás dos alimentos que consumimos. Combater o desmatamento também é garantir alimentação adequadaO relatório evidencia que a atual forma de produção de alimentos não se sustenta e que os responsáveis pela destruição devem ser responsabilizados. Garantir comida de verdade no prato passa, necessariamente, por enfrentar o desmatamento nas cadeias produtivas e lutar por formas de produzir que sejam mais saudáveis e sustentáveis, protegendo territórios, respeitando comunidades e reduzindo impactos ambientais que comprometem a produção de alimentos no presente e no futuro. O papel das pessoas consumidorasComo pessoas consumidoras, podemos contribuir com escolhas mais conscientes, priorizando e fortalecendo produtores locais. Além disso, podemos pressionar por cadeias mais transparentes, rastreáveis e livres de desmatamento, mas reconhecendo que a mudança desse cenário depende de decisões estruturais e políticas públicas. Em um ano eleitoral, isso se torna ainda mais evidente. Escolher representantes comprometidos com a proteção da natureza, o combate ao desmatamento com o direito à informação e à alimentação adequada é também uma forma de transformar esse sistema. O voto é uma ferramenta concreta para pressionar por mudanças reais. Regular é garantir transparência e responsabilidadeO relatório mostra que esses compromissos ainda têm caráter voluntário e reforça a urgência de que isso mude e que políticas públicas avancem em: - Rastreabilidade completa e mandatória nas cadeias da carne e da soja;
- Combate efetivo ao desmatamento, não somente ao desmatamento ilegal;
- Responsabilização de quem descumpre compromissos ambientais, com maior transparência nas informações das empresas.
- Informações claras no momento da compra, permitindo que consumidores e consumidoras entendam os impactos do que estão levando para casa.
Sem isso, seguimos com um sistema que dificulta o acesso à informação e mantém práticas que impactam o meio ambiente e a sociedade. Informação para transformar o que chega ao pratoCompreender o que está por trás da produção de alimentos é um passo essencial para fortalecer esse debate. Nosso estudo em parceria com a Mighty Earth mostra que ainda estamos longe de garantir cadeias produtivas livres de desmatamento, mas também aponta caminhos para mudança. |