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(Millôr Fernandes)

terça-feira, 24 de março de 2026

Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta

Terça, 24 de março de 2026

Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta

Diante de adversário muito menos poderoso, porém coeso e sagaz, maior máquina militar da História sofre e hesita. O que isso revela sobre a mudança nos campos de batalha e – muito mais importante – a inconsistência dos planos de Trump

OUTRASPALAVRAS                           Geopolítica & Guerra



James Galbraith, entrevistado por Thiago Gama

Ao começar a quarta semana da guerra, Donald Trump piscou – ou por insegurança, ou por ardil. Na madrugada de 23/3, os mercados financeiros estavam em pânico, com quedas que poderiam ter efeitos devastadores. O presidente precisava agir. Pouco depois das 7 da manhã, ele “anunciou” em rede social que os EUA haviam aberto negociações com o Irã; que desejava um acordo; e que, por isso, resolvera suspender os ataques à infraestrutura do país. As autoridades iranianas negaram, em poucas horas, a existência de negociações. Mas os cassinos globais estavam sedentos de boas notícias – verdadeiras ou falsas. O barril de petróleo recuou um pouco, para a faixa dos 100 dólares (com alta 40% desde o inicio da guerra) e as bolsas, que despencavam, amenizaram as perdas.

Um conjunto de sobressaltas alarma a economia do Ocidente, desde que Trump interrompeu negociações e agrediu com selvageria o Irã em 28/2, esperando uma vitória rápida. A interrupção do tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz afetou 33% do comércio mundial de petróleo, 20% do de gás natural liquefeito, 40% do de fertilizantes e quase metade do de hélio e enxofre, indispensáveis para a produção de microchips. A revista “Economist” prevê que, ainda que a guerra terminasse hoje, o abastecimento de petróleo tardaria meses para se normalizar e o cenário seria catastrófico. As grandes empresas de aviação, cuja receita ampara-se em boa medida nas receitas dos ricos e movimentadíssimos aeroportos dos Emirados Árabes, temem uma crise semelhante à da pandemia.

Outro terremoto, ainda pouco visível, alastra-se nas entranhas do sistema financeiro. Devido às pressões inflacionárias e à ortodoxia dos bancos centrais, ninguém mais crê num corte rápido de juros no Norte Global. A quebra destas expectativas expôs o endividamento colossal de grandes corporações, em especial as big techs. Elas recorrem preferencialmente, para se financiar, ao chamado empréstimos não-bancários, fornecidos por mega-fundos como o Black Rock. A perspectiva de quebras está levando parte dos aplicadores que alimentam estes fundos a tentar retirar seu dinheiro antecipadamente. Analistass como Richard Bookstaber sugerem, no “New York Times”, que “os sinais de estresse sistêmico [das finanças globais] estão emergindo.

Por que Donald Trump enganou-se tão flagrantemente acerca de seu suposto “passeio” na campanha contra o Irã – e colocou tanto em risco? O norte-americano James Galbraith é um estudioso tanto da economia global quanto da geopolítica. Filho do economista John Kenneth Gralbrait (que participou ativamente da implantação de políticas keynesianas sob Franklin Roosevelt), professor na Universidade de Austin e de seu Projeto de estudo da Desigualdade, James é, há décadas, um crítico atuante e arguto do neoliberalismo, do “Consenso de Washington” e das políticas de “livre mercado”. Mas soma a esta condição a de crítico a postura imperial dos Estados Unidos.

Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade a nosso colaborador Thiago Gama, James Galbraith explora dois aspectos da vulnerabilidade dos EUA diante do Irã, aparentemente muito mais fraco do ponto de vista militar. Nos campos de batalha, a tecnologia está criando uma nova geração de armamentos, capaz de anular a vantagem antes oferecida às grandes potências por porta-aviões e bases aéreas. São, por exemplo, os mísseis e drones produzidos por Teerã – que foram capazes de fechar o Estreito de Ormuz e afugentar a “escolta” da marinha dos EUA, prometida por Trump e em seguida abandonada.

Mas o impasse de Trump é ainda maior no campo da geopolítica. De um lado, afirma Galbraith, “todo o projeto que estabeleceu o direito internacional – as Convenções de genebra a Nuremberg, a Carta das Nações Unidas e a Convenção do Genocídio – tudo isso está em crise” sob o ataque de Trump. Ainda assim, o império não pode tudo. “Permanece real o fato de que a guerra agressiva tem custos severos, que levam ao final à derrota da potência agressora. Não há contraexemplo duradouro – se houvesse, o mundo ainda estaria dividido entre impérios”.

Ao fim, sustenta Galbraith, “se o cenário nuclear for evitado, esta guerra terá repercussões muito importantes”. Ao contrário do que imaginou Trump, ela “fortalecerá a posição dos Estados que enfatizam capacidades defensivas usando novas tecnologias”.

O diálogo com Thiago Gama abordou ainda temas como o risco de os EUA e ou Israel, em desespero, apelarem para armas nucleares; a resistência crescente de parte da base de Trump a sua aventura insana; a tibieza do Partido Democrata; o papel dos BRICS e a crise cubana. Fique com a entrevista, a seguir (A.M.)

Galbraith: “A guerra expôs a obsolescência das principais ferramentas do poder dos EUA”

À medida que as tensões envolvendo o Irã o Oriente Médio atingem um ponto de inflexão, o senhor percebe o risco de “Terceira Guerra Mundial”?

Vou tentar oferecer um comentário sobre o significado da guerra agora em curso. Ainda não sabemos como o confronto militar se desenrolará. No entanto, os seguintes pontos podem ser feitos:

(a) O Irã é um país muito grande, com um território montanhoso que não pode ser conquistado (e não o é há milênios), e que é ideal para esconder grandes estoques de mísseis e drones avançados, que são produzidos lá em quantidade há pelo menos dezesseis anos.

(b) O território do Irã margeia o Golfo Pérsico de uma ponta à outra, e o coloca no controle firme do Estreito de Ormuz.

(c) todas as bases dos EUA no Golfo estão bem ao alcance dos mísseis e drones iranianos.

(d) Israel, sendo pequeno e dependente da ajuda dos EUA, é igualmente vulnerável a graves perturbações, enquanto (e) o Estado iraniano e sua grande população parecem resilientes, até agora, sob as bombas. A guerra, em suma, expôs a obsolescência das principais ferramentas do poder dos EUA – bases e navios de superfície – ao mesmo tempo que confirma uma lição muito antiga de que uma nação-Estado unificada não pode ser subjugada por bombardeio aéreo.

Portanto, em minha opinião, a presença dos EUA no Golfo já foi efetivamente neutralizada, e os EUA não podem retornar enquanto o Irã mantiver as capacidades que atualmente possui e a intenção de negar essas bases aos Estados Unidos. Há um risco considerável de eventual escalada para uma guerra nuclear, o que discuti recentemente aqui: https://www.defenddemocracy.press/87373-2/

No entanto, se o cenário nuclear for evitado, esta guerra terá repercussões muito importantes: fortalecerá a posição dos Estados que enfatizam capacidades defensivas usando novas tecnologias. O poder dos EUA fora deste hemisfério terá então de depender em grande parte de ferramentas informacionais e financeiras, à medida que a obsolescência de suas estruturas militares é finalmente compreendida, por mais tardio que seja.

A devastação prolongada em Gaza significa uma erosão permanente do direito internacional, estabelecendo um precedente em que a guerra assimétrica e o castigo coletivo se tornam as ferramentas padrão para manter hegemonia?

Todo o projeto de estabelecimento do direito internacional, desde as Convenções de Genebra até Nuremberg, a Carta das Nações Unidas e a Convenção do Genocídio, está obviamente em crise. Só se pode esperar que a maioria das nações continue a observar essas leis em seus relacionamentos mútuos, e que aqueles que agora violam massivamente os princípios básicos aprendam que isso não é vantajoso a longo prazo. O fato permanece que a guerra agressiva tem custos severos, que levam eventualmente à derrota da potência agressora. Não há contraexemplo histórico duradouro – se houvesse, o mundo ainda estaria dividido entre impérios.

Portanto, acredito que, no final, o mundo terá que restaurar as funções do direito internacional e as instituições de gestão pacífica de conflitos.

Não tenho certeza do que significa guerra assimétrica neste contexto, pois quase toda guerra é assimétrica. A natureza da guerra assimétrica é que ela pode permitir que a parte ostensivamente menor e mais fraca contrarie o poder da parte maior e mais forte. Especificamente, novas tecnologias (atualmente drones e mísseis) permitem que países mais fracos minem os paradigmas militares rígidos (como bases e porta-aviões) aos quais países grandes e poderosos, por sua própria natureza, tendem a se comprometer. A história dessa dinâmica é muito, muito longa; é a própria história da guerra.

Além do caos institucional percebido, existe uma lógica estrutural coerente nas ações de Trump que os analistas políticos tradicionais não estão conseguindo identificar?

A base política de Trump tem um elemento de eleitores antiguerra e anti-imperialistas, com voz dada por figuras como Marjorie Taylor Greene e Thomas Massie, com uma base popular especialmente entre veteranos e vítimas das “guerras eternas” da era Bush-Obama-Trump-Biden.

Os representantes dessa base – no mais alto nível, J.D. Vance – desempenharam um papel ao pressionar pelo desengajamento da Ucrânia, e foram a única força política dentro dos Estados Unidos a assumir essa posição. Alguns deles também foram movidos pelo genocídio em Gaza. Em relação ao Irã, eles foram superados na jogada, por enquanto, pelos doadores de Trump, por fanáticos religiosos, pelos lobbies bem conhecidos e pelo Governo de Israel.

As estruturas de política externa e militar – superficialmente neutras e talvez céticas em particular – desempenharam o mesmo papel que a Grã-Bretanha, a França e os EUA na Guerra Civil Espanhola.

Quando Trump desaparecer de cena, a luta sucessória revelará a força relativa dessas facções. Até agora, no entanto, a guerra do Irã expôs a incompetência da facção agora dominante e sua incoerência diante do fracasso de sua estratégia de curto prazo baseada no engano e na decapitação. Pode terminar com o colapso deles, bem como o do próprio Trump, que em declarações públicas recentes parece ter perdido qualquer vestígio de autocontrole.

Por que as salvaguardas institucionais tradicionais e as vanguardas morais nos EUA, como a ala progressista liderada por Bernie Sanders, não conseguiram montar uma resistência coordenada contra a ascensão de uma Presidência Imperial?

A ala de Sanders do Partido Democrata endossou a posição de Biden sobre a Ucrânia e a Venezuela, em troca de várias nomeações e iniciativas de política doméstica durante esse governo. Isso incapacitou qualquer capacidade dos chamados “progressistas” de assumir uma posição baseada em princípios contra a marcha para a guerra no Irã.

O apoio tradicional do Partido Democrata a Israel também desempenhou um papel óbvio. Até agora, as queixas sobre a guerra de Trump são amplamente dirigidas a questões de procedimento, custo e ausência de estratégia; não há, ainda, uma articulação de uma posição anti-imperialista, como a que foi articulada no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 pelos senadores Wayne Morse, Ernest Gruening, William Fulbright, e por Eugene McCarthy e George McGovern.

Mais geralmente, a noção de um dever internacional de apoiar os direitos humanos tem sido instrumentalizada pelos Estados Unidos desde o início dos anos 1980. Provavelmente, a última autoridade do governo a buscar os direitos humanos com alguma honestidade foi a primeira designada para essa função, Patricia Derian, no governo Carter, que pressionou contra os regimes de tortura daquela era na Argentina, Brasil e Chile.

O governo Reagan converteu a defesa dos direitos humanos na cruzada anticomunista na América Central, Europa Central e URSS. Clinton a usou contra a China, e assim tem sido desde então. Portanto, a noção de uma “vanguarda moral” foi profundamente desvalorizada.

Estamos testemunhando o declínio terminal das aspirações multipolares (BRICS+/ G20) em favor de uma nova Pax Americana imposta pelo terror absoluto, ou esta é meramente a soleira violenta de uma ordem mundial nascente?

Seria tolo oferecer uma resposta confiante. A unidade e o propósito do conjunto do BRICS parecem ter perdido parte de seu ímpeto inicial e estar aquém das aspirações que alguns lhe atribuíram. Por exemplo, até agora, o dólar permanece no centro do sistema financeiro global, não obstante a emergência de uma zona não-dólar e não-euro diante das sanções.

No entanto, a mudança subjacente de poder afastando-se dos Estados Unidos parece, aos meus olhos, profunda e irreversível. Exemplos-chave são China, Rússia e Irã. A China demonstrou tanto poder econômico quanto vontade política, usando várias alavancas – notadamente a cadeia de suprimentos de minerais estratégicos – para desarmar as facções mais hostis e agressivas dentro do Estado americano, para grande frustração delas.

A Rússia, embora progrida lentamente, está se movendo inexoravelmente em direção à conquista de seus objetivos na Ucrânia. O Irã, até agora, está demonstrando a força de seu poder militar assimétrico no Oriente Médio. A Índia, por sua vez, opera em seu próprio interesse. Não tenho comentários a fazer sobre o Brasil. A Europa, tendo-se comprometido com a dependência dos Estados Unidos, está em apuros profundos, desindustrializando-se devido às suas políticas energéticas enquanto se prepara para uma guerra contra a Rússia que não pode lançar e nunca poderia vencer. Mais cedo ou mais tarde, a Europa terá que confrontar o fato de que sua posição é insustentável, e suas políticas terão que mudar. Esse reconhecimento já é visível na Hungria, Eslováquia e República Tcheca.

Os Estados Unidos, com uma base energética forte, separação hemisférica, estabilidade demográfica (relativa) e outras vantagens, poderiam prosperar dentro de um quadro multipolar. Não podem fazê-lo enquanto tentam dominar o mundo militarmente ou por intimidação financeira.

Infelizmente, as elites dos EUA estão teimosamente comprometidas com o projeto de dominação mundial, um projeto no qual acreditam pelo menos desde o colapso da URSS no início dos anos 1990. Assim, a crise para o povo americano consiste na incompatibilidade entre seus interesses de longo prazo e os das elites que passaram a controlar a vida política dos EUA e a direcionar a política nacional. Não prevejo uma resolução fácil para esse problema – pode levar mais uma geração. Mas, com o tempo, mais americanos podem perceber que é aí que reside o problema e que ele não pode ser resolvido com protestos vazios, combinados com a entrega do país a oligarcas e demagogos.

Dado o colapso energético em Cuba e os relatos de uma intervenção externa iminente, a resistência da ilha hoje espelha a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) como uma fronteira existencial definidora para a esquerda global?

A Guerra Civil Espanhola foi, de muitas maneiras, uma guerra por procuração, colocando as forças da Alemanha Nazista e da Itália Fascista ao lado dos insurgentes e, do lado da República, as da União Soviética, além de voluntários internacionais. As grandes democracias da Europa, notadamente França e Grã-Bretanha, assim como os Estados Unidos, fingiram neutralidade, de uma forma que favoreceu Franco: entre outras coisas, a força aérea rebelde era abastecida com combustível do Texas e o ouro da República foi sequestrado pelo Banco da França.

Nenhuma potência externa parece capaz, ou disposta, a fornecer apoio ao governo cubano diante de um bloqueio naval, interrupção de energia, escassez de combustível e alimentos e as consequências maiores de sete décadas de guerra econômica. Estive em Cuba em várias ocasiões, mais recentemente na primavera de 2024. O espírito do povo é impressionante, mas o panorama geral é deprimente.

O fracasso da administração Biden em dar continuidade ao processo de normalização iniciado sob Obama (e revertido no primeiro governo Trump) permitiu que as condições se deteriorassem, e isso deu à administração Trump a abertura que agora busca explorar.

Não posso falar sobre o humor em Cuba ou as capacidades do governo e da população, mas não vejo de onde poderia vir uma coalizão capaz de defender Cuba. Angola, Namíbia e África do Sul, cuja libertação nos anos 1980 dependeu do exército cubano, parecem estar muito distantes. E, embora o povo americano em geral não tenha hostilidade em relação a Cuba, não há aqui resistência política organizada à política de Trump, nem defesa baseada em princípios das normas de conduta internacional e do direito.

Considerando as vastas reservas brasileiras de nióbio, terras raras e petróleo do pré-sal, como o Estado deve calibrar sua defesa diplomática contra um Washington cada vez mais inclinado a intervenções motivadas por recursos?

O Brasil é um país grande e pode cuidar de sua própria segurança sem conselhos meus.


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Esta matéria foi originalmente publlicada no OUTRASPALAVRAS em 23/03/2026 às 19h33 -e atualizado em 24/03/2026 às 08h09
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