Pedro Augusto Pinho* |
REALIDADE E CONTEMPORANEIDADE: AS DIFERENÇAS ENTRE VARGAS E LULA
Com a provável eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (1945) para Presidente, em outubro de 2026, ele será o que mais se aproximará de Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954) como o mais longevo Presidente do Brasil. Vargas 18 anos, Lula 16 anos.
No entanto, o Brasil que os recebeu mudou, e muito, neste quase um século que separa os seus períodos de governo.
Pode-se considerar que a aviação comercial moderna teve início com o Boeing 247, em 1933. Mas a era do jato só começa em 1952. Assim, as duas visitas que o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Franklin Delano Roosevelt, fez a Vargas, respectivamente em 1936 e 1943, têm um sentido muito maior do que os treze presidentes de países (apenas quatro fora da América do Sul) que compareceram à posse de Lula, em 2003: África do Sul: Thabo Mbeki; Argentina: Eduardo Duhalde; Bolívia: Gonzalo Sánchez de Lozada; Chile: Ricardo Lagos; Cuba: Fidel Castro; Bolívia: Gonzalo Sánchez de Lozada; Equador: Lúcio Gutiérrez; Moçambique: Joaquim Chissano; Paraguai: Luis González Macchi; Peru: Alejandro Toledo; Portugal: Jorge Sampaio; Uruguai: Jorge Batlle e Venezuela: Hugo Chávez, mesmo sendo o primeiro operário a atingir a presidência do Brasil.
Vargas deixou a herança da “Era Vargas”, título dos três volumes, editados em 2001, que, magnificamente, expõe o jornalista e escritor José Augusto Ribeiro sobre a trajetória do estadista brasileiro.
“O mês de agosto de 1954 marcaria o fim do governo e da vida do presidente Vargas e o início de mais uma tentativa de retrocesso (que só se completaria a partir do golpe de 1964, de novo contra um governo – o do presidente João Goulart – comprometido com o programa trabalhista)” (início do terceiro volume da “Era Vargas”).
Vargas foi verdadeiramente o construtor do Brasil moderno. E, com isso, levantou contra ele os escravocratas, os lacaios do capital estrangeiro no Brasil e a todos que impediam o acesso ao conhecimento, à educação para todos os brasileiros, e a contemporaneidade do uso dos recursos para o desenvolvimento, a atualidade tecnológica.
Tão longe estamos daqueles dias de novembro de 1930, que é necessário recordar. As eleições desde o Império e naquela Primeira República, tal como ocorrem hoje, eram farsantes. Naqueles dias eram os “bicos de pena”, hoje as computações eletrônicas sem meios de comprovação. Somos efetivamente um povo que acredita em milagres.
Porém, mais urgente, pensava Vargas, é dar instrumentos para o povo pensar, e sua primeira mudança institucional no Brasil se deu onze dias após sua posse na presidência do Governo Provisório, a criação do Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública (Decreto nº 19.492, de 14/11/1930).
Mas era também necessário dar recursos legais para que a abolição da escravidão fosse efetiva. E como o fazer? Dando ao trabalho o mesmo peso das iniciativas empreendedoras na indústria e no comércio, o que o faz doze dias depois de criar o Ministério da Educação e Saúde, com o Decreto nº 19.433, de 26/11/1930.
Os entreguistas até hoje não se conformam com estas duas primeiras e fundamentais decisões de Vargas.
Veja o fim da instrução pública com os leilões que o bolsonarista governador do Estado de São Paulo promove para privatizar o ensino. Veja-se também os bolsonarista no Congresso impedindo a semana de cinco dias de trabalho e impondo as derrubadas dos direitos assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) – Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943 – que Lula também combatia em 1990.
O que significa privatizar o ensino e a saúde? Excluir a grande maioria da população dos seus benefícios. Nem saber, nem saúde.
Para que o Brasil atinja o nível de instrução da Rússia (144 milhões de habitantes), da Coreia do Norte (26,2 milhões de habitantes), do Cazaquistão (20 milhões de habitantes), Cuba (11 milhões de habitantes), Quirguistão (7,2 milhões de habitantes), Finlândia (5,6 milhões de habitantes), Noruega (5,57 milhões de habitantes), todos sem analfabetos, ou mesmo de países de alta taxa de alfabetização como a China, 97% dos 1.405 milhões de habitantes, ou o Japão, Espanha e Itália, 1% de analfabetos para, respectivamente, 123,8 milhões, 49,57 milhões e 58,8 milhões de habitantes, a existência da escola pública é fundamental.
No caso da China, não ter atingido 100% de alfabetizados se deve a existência de população rural, maior do que 60 anos, representando 17,72% do total de habitantes.
Getúlio atuou em harmonia com os 26 intelectuais, de diversas ideologias, que assinaram, em 1932, o "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", para existência da escola laica, gratuita e obrigatória.
E nem se passaram dois anos que a fúria entreguista e escravocrata se articulassem contra Vargas no que foi denominado por estes de “Revolução Constitucionalista de São Paulo”. Em junho de 1960, a filha de Vargas, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, publica “Getúlio Vargas, meu pai”, de onde transcrevemos o trecho que segue.
“Positivamente, a Revolução Constitucionalista de São Paulo não era nenhuma dessas três coisas. Não era uma revolução. Era uma represália. Não era constitucionalista, pois apenas contribuiu para perturbar a constitucionalização do país. E, por estranho que pareça, também não era paulista. O fermento veio do Rio Grande do Sul e a massa que se servia da juventude e do solo bandeirantes, como campo de batalha, era feita dos grãos de ódio de todos os reacionários, de todos os tempos e de todos os Estados”.
E Alzirinha, como era chamada esta filha, também nos leva a conhecer os militares que cercaram Vargas. “O “Tenentismo” fora um agrupamento de ordem política, em que os galões não contavam. Chegara a vez dos generais. O momento era de disciplina, de ordem, de comando. Mas, alguns generais não queriam deixar de ser “Tenentes” para não perder a ascendência política. Surgiram diversos pequenos dramas de bastidores por causa da competição entre os generais-tenentes e os tenentes que eram generais políticos”.
Aqui temos a explicação do golpe de 1967 dentro do golpe de 1964: os tenentes assumiram o papel de generais.
Também Alzira dá destaque ao papel que a desinformação teve na Revolta de 1932. Este papel da Igreja Católica, hoje foi substituído pelo das Igrejas Neopentecostais.
O MUNDO EM GUERRA E AS ELEIÇÕES DE 2026 NO BRASIL
Desde o início do segundo mandato presidencial de Donald Trump, era nítido seu interesse belicoso e a falta de conselheiros competentes para evitar, no mínimo, decisões que não se sustentariam, como as taxações sobre as importações estadunidenses.
Mas o pior ainda estava na adesão dos EUA ao Projeto Sionista, que Benjamin Netanyahu propugna para o novo Estado Judeu, de Theodor Herzl (fevereiro de 1896), que levou à guerra por todo Oriente Médio.
Este Estado seria composto pela Palestina, como se encontrava sob “Mandato Britânico”, em 1948, pelo Líbano, Jordânia, Síria, Iraque, parte norte, próxima ao Trópico de Câncer, da Arábia Saudita e pelo Egito, do braço oriental do rio Nilo até a Península do Sinai.
Como é óbvio, em 1896, quase toda aquela área estava sob domínio da Grã-Bretanha, por isso não consta do “Estado” de Herzl: o Kuwait, o Qatar, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos.
Por que os EUA se metem numa guerra que aparentemente não é sua? Primeiro porque as nações que abrigam os judeus são os EUA (50%), Israel (31%), França, Canadá e Rússia (3%, cada), totalizando 90%. Segundo porque os judeus nos EUA têm, em média, as rendas familiares mais altas do País, com cerca de 46% a 50% dos lares relatando rendimentos anuais superiores a US$ 100.000, comparados a 19% da população geral. E porque, mesmo percentualmente poucos na população (3%), representam 30% da lista “Forbes” dos 400 bilionários estadunidenses.
Mas no Brasil, onde os judeus representam menos de 1% da sua diáspora mundial, o que levaria à dúbia posição de repúdio ao genocídio praticado contra palestinos e povos árabes pelo Estado de Israel, ou a condenação absoluta da guerra de conquista por este Estado empreendida.
Neste momento, uma viagem de Lula aos EUA, seja qual for o pretexto, repercutirá como um apoio à guerra e ao criminoso Estado de Israel.
Lembrar que os tempos eram diferentes e as viagens internacionais muito mais raras, mas, nos 18 anos de presidente, só se registraram três viagens de Vargas ao exterior: Argentina (maio de 1935) para assinatura de 12 acordos bilaterais, buscando reduzir tensões e aumentar a cooperação econômica regional; Uruguai (maio/junho de 1935), como retribuição à visita do presidente uruguaio Gabriel Terra ao Brasil em 1934; e Paraguai (julho de 1941) em um momento em que o Brasil se aproximava dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, consolidando sua influência na região. Mas viagens dentro do Brasil foram numerosas, buscando institucionalizar o País e ter, assim, como enfrentar os desafios políticos, econômicos e sociais.
Lula poderia ter sido auxiliado pelo criador de escolas públicas Leonel Brizola. Mas preferiu vê-lo como adversário político. E deixou, assim, as crianças brasileiras sem os Centro Integrados de Educação Pública (CIEPs) que colocariam o Brasil de hoje sem analfabetos e, ainda mais importante, não dando audiência aos canais da Globo e da CNN desinformando os brasileiros e defendendo os interesses do capital apátrida em nosso País.
Com domínio do capital financeiro, os valores foram corrompidos, daí a vergonha que passamos com nosso Congresso, com nossa Justiça e com muitos setores do Poder Executivo.
E, em consequência, com o domínio da corrupção, da marginalidade, dos acordos escusos, do domínio dos traficantes e das drogas, e, igualmente, da pedofilia nas festas dos ricos nacionais. Pensam assim se igualar à nobreza inglesa ou aos frequentadores da ilha caribenha de Jeffrey Epstein, nas Ilhas Virgens Americanas.
Mas o que provoca realmente é o medo, o receio de todos, moradores das favelas e dos condomínios de alto luxo, por todo país, que a desinformação das mídias atribui à falta de governo, logo a Lula.
Enquanto foi no Governo Bolsonaro que se tramou o caso Master, dentro do Banco Central “independente”, se preparou a perpetuidade do governo das “rachadinhas” e da impunidade ao crime.
Há um sério risco para o qual toda sociedade deve se preparar. Ao votar, principalmente nos candidatos dos bolsonaros, mas de todos os partidos, o desprevenido, mal informado ou ambicioso eleitor pode estar construindo um governo onde o crime é mais poderoso do que a polícia, que logo será dominada por ele.
Vamos começar exigindo abertura das urnas, a opinião dos sindicatos, das associações civis, dos movimentos femininos, negros e indígenas a terem espaço em todas as mídias impressas, televisivas, digitais, canais de convivência e sites, portais e todas as formas de acesso à população.
Temos que colocar uma escola de tempo integral, um CIEP, no mínimo, em todos os 10.740 distritos do Brasil, mantidos pelo orçamento federal, e fora do controle do teto de gasto.
Não é tudo, mas um passo no sentido da contemporaneidade do Brasil com o que de melhor existe no mundo, hoje representado pela China, mas dentro da nossa cultura.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.
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