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(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Mensagens —Vorcaro disse ter combinado ‘estratégia de guerra’ com Ibaneis para garantir compra do Master pelo BRB

Sexta, 6 de março de 2026

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Vorcaro disse ter combinado ‘estratégia de guerra’ com Ibaneis para garantir compra do Master pelo BRB


Mensagens mostram banqueiro relatando reunião com 'governador' para viabilizar venda do Master ao BRB

Brasil de Fato — São Paulo (SP) — — Redação
Ato mobiliza juventude em Brasília para denunciar relação do governador Ibaneis Rocha no caso Master | Crédito: Brunna Ramos/Brasil de Fato DF

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou em mensagens enviadas à então companheira, no fim de agosto de 2025, que estava em Brasília “com governador” combinando uma “estratégia de guerra” para garantir a aprovação da compra do banco privado pelo Banco de Brasília (BRB). A conversa ocorreu poucos dias antes de o Banco Central barrar a operação, que contava com apoio público do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal nesta quarta-feira (4).

“Estou em Brasília com governador […] estamos aqui combinando uma estratégia de guerra. A partir de segunda iremos para o ataque”, escreveu Vorcaro em mensagem enviada por volta das 21h20.

Na conversa, o banqueiro não cita o nome do governador Ibaneis, que negou que tenha participado de qualquer articulação sobre o negócio e afirmou que todas as tratativas foram conduzidas pela direção do banco público. “Essa reunião nunca existiu. Todas as tratativas relacionadas ao banco foram feitas pelo Paulo Henrique [Costa, ex-presidente do BRB]”, disse à imprensa.

A revelação das mensagens surge em meio à crise enfrentada pelo BRB após sua relação com o Banco Master. Entre 2024 e 2025, o banco público comprou bilhões de reais em ativos da instituição privada, parte deles posteriormente investigados por suspeita de fraude. O rombo decorrente dessas operações levou o governo do Distrito Federal a buscar medidas emergenciais de capitalização para evitar o agravamento da situação financeira da instituição.


Ibaneis foi fiador político da operação

A tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB foi anunciada em março de 2025 e contou, desde o início, com apoio político do governador Ibaneis Rocha. À época, o governo defendia que a operação poderia transformar o banco regional em uma instituição de alcance nacional e ampliar sua presença no mercado financeiro.

Segundo o próprio Ibaneis afirmou posteriormente, o apoio ao negócio teria sido dado após recomendações técnicas da diretoria do banco. “Nessa operação eu só dei apoio político após ser convencido pelo Paulo Henrique [Costa] de que a operação era favorável ao BRB”, declarou.

Nos depoimentos prestados à Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o caso, tanto Vorcaro quanto o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, reconheceram ter mantido contatos com o governador durante o processo de negociação.

Vorcaro afirmou que conversou com Ibaneis “em algumas poucas oportunidades” sobre a tentativa de aquisição. Já Paulo Henrique declarou que costumava prestar contas ao chefe do Executivo local, uma vez que o governo do Distrito Federal é o acionista controlador do banco público.

Como o BRB foi arrastado para a crise

A crise atual do BRB está diretamente ligada às operações realizadas com o Banco Master nos dois anos anteriores à liquidação da instituição privada.

Dados do sistema IF.data, do Banco Central, mostram que a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões em setembro de 2024 para R$ 57 bilhões em setembro de 2025, um crescimento de R$ 20 bilhões em apenas doze meses. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões estão associados a operações com o Banco Master.

Isso significa que mais de 20% do total da carteira de crédito do banco público passou a estar vinculada a ativos adquiridos da instituição privada que viria a quebrar meses depois.

Para o secretário de Organização do Ramo Financeiro do Sindicato dos Bancários de Brasília, Ivan Amarante de Albuquerque, o tamanho da exposição é incompatível com o porte da instituição. Segundo ele, operações dessa magnitude podem comprometer seriamente a estabilidade de bancos de médio porte.

Estimativas iniciais indicavam a necessidade de provisão de cerca de R$ 2,6 bilhões para cobrir possíveis perdas. No entanto, em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, afirmou que o impacto total pode superar R$ 5 bilhões, valor próximo ou superior ao patrimônio líquido do BRB, que era de cerca de R$ 4,9 bilhões no terceiro trimestre de 2025.

Socorro com patrimônio público

Diante da deterioração do balanço do banco, o Governo do Distrito Federal enviou à Câmara Legislativa um projeto para viabilizar a recapitalização da instituição.

A proposta autoriza o uso de imóveis públicos como garantia para operações financeiras e permite a contratação de empréstimos que podem chegar a R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e outras instituições financeiras.

O projeto foi aprovado pelos deputados distritais após intensas negociações com a direção do banco. Durante reunião com parlamentares, o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, afirmou que a aprovação da medida era essencial para evitar uma paralisação das atividades da instituição.

“Se a proposta não for aprovada, o banco para de funcionar”, disse o dirigente em encontro com deputados na Câmara Legislativa.

Parlamentares da oposição, no entanto, classificaram a proposta como um “cheque em branco” e criticaram a falta de informações detalhadas sobre os ativos e as reais condições financeiras da instituição.

Impactos atingem patrimônio público e servidores

O plano de capitalização também gerou controvérsias por incluir áreas públicas consideradas estratégicas entre os ativos que podem ser utilizados como garantia em operações financeiras.

Entre os imóveis citados estão terrenos vinculados à Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e áreas da Terracap, incluindo a Serrinha do Paranoá, região apontada por pesquisadores como fundamental para a recarga de aquíferos e para a preservação ambiental do Cerrado.

Especialistas e movimentos socioambientais afirmam que a utilização dessas áreas em operações financeiras pode abrir espaço para processos de especulação imobiliária e comprometer a proteção de recursos naturais da capital.

A crise também atinge diretamente os servidores públicos do Distrito Federal. Parte das ações do BRB pertence ao Instituto de Previdência dos Servidores do DF (Iprev), responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões. Nos últimos 12 meses, a rentabilidade do fundo foi de apenas 0,36%, índice considerado insuficiente para preservar o valor real dos recursos diante da inflação.




Editado por: Luís Indriunascebook