Sexta, 8 de agosto de 2014
Akemi Nitahara - Repórter da Agência
Brasil
Até domingo (10),
cerca de 300 jovens que estão acampados no campus da Praia Vermelha da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) debatem cultura e política no
evento República: Encontro de Coletivos e Redes. O encontro reúne seis
caravanas vindas de Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo.
Na mesa O Brasil Que
Nós Queremos, o representante da rede colaborativa de trabalho Fora do Eixo,
Pablo Capilé, disse que a saída às ruas da juventude, ocorrida em massa em todo
o Brasil em junho do ano passado, é o resultado de um processo que começou logo
depois da virada do milênio, quando os jovens envolvidos com cultura começaram
a ter voz e oportunidades, mas o diálogo com as políticas públicas começou a
ser interrompido.
“O junho [de 2013]
foi a soma das insatisfações com essa falta de diálogo, começa um levante
cultural e várias marchas crescem, como a Marcha da Maconha, Marcha das
Bicicletas, das Mulheres, e começam a ocorrer intervenções poéticas, estéticas
e urbanas por causa do descontentamento com as políticas descontinuadas na área
da cultura, criando uma 'desamarra' na cidade dura que é São Paulo”, avaliou.
O ator e dramaturgo
Alexandre Santini, da Comissão Nacional de Pontos de Cultura, disse que é
preciso retomar a cultura como ponto central para discutir a ampliação
democrática no país. “Os pontos de Cultura mobilizaram mais de 3 mil
iniciativas, com mais de 8 milhões de pessoas. Tinha alguns pontos com mais
recursos do que a Secretaria de Cultura do município. A cultura hoje é o campo
capaz de pensar a política sustentável e democrática de verdade, pois é
criativa e inventiva. É preciso retomar a cultura como um ponto central para os
rumos democráticos”.
A professora Ivana
Bentes, ex-diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), ressaltou que a participação popular, como a alcançada com os
pontos de Cultura, pode ser o caminho para executar diversas políticas
públicas.
“O Estado não tem
logística para executar a sua própria política. A gente parte da cultura para
buscar experiências na agricultura familiar, na educação, na saúde. Nessas
práticas culturais, a gente vai encontrar a experiência da participação. Além
disso, não existe participação sem uma formação de mídia, a gente viu isso
explodir no país, passa pelas redes sociais, pelo YouTube, a repactuação com os
movimentos sociais”, listou.
Convidado para o
debate, o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto
Carvalho, lembrou que o movimento da juventude ocorrido no ano passado é
semelhante ao vivido por ele em 1968.
“Eu vivi o Maio de
68, quando houve uma grande ebulição, tudo estava bem e de repente dá um sacode
na juventude, porque a busca do bem-estar lá na Europa causou a exclusão do
Terceiro Mundo. A minha geração viveu a ditadura e o sonho de mudar não só o
Brasil, mas a América Latina. A juventude buscava construir um caminho, com os
sindicatos, as donas de casa, que fizeram o movimento contra a carestia, a
criação das associações de moradores. Acabou com a queda da ditadura e o
nascimento de uma democracia, ainda que pequena, mas poder se reunir e escrever
já era muito. A gente achava que tudo estava muito certo, que o vento da
história soprava a nosso favor, que o processo era irreversível, mas a dura
realidade mostra agora que nada e irreversível”.
Durante o evento, os
jovens montaram um acampamento no campus, com uma cozinha comunitária,
exposição de livros, fotos e CDs, além de apresentações musicais, oficinas e
rodas de conversa, no sistema autogestionado para “ressignificar o nosso
próprio país de maneira propositiva”. Também foram debatidos os temas como
direitos humanos, comunicação, socialização da cultura, regulamentação das
drogas, desmilitarização da polícia, criminalização dos movimentos sociais
e reforma política.
