“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Uma lição de realismo da imprensa


Fevereiro
24

Uma lição de realismo

Em 1815, Napoleão Bonaparte fugiu de sua prisão na ilha de Elba e fez a viagem de reconquista do trono da França.
Marchava passo a passo, acompanhado por uma tropa crescente, enquanto o jornal Le Moniteur Universel, que havia sido seu órgão oficial, assegurava que os franceses estavam loucos de vontade de morrer defendendo o rei Luís XVIII, e chamava Napoleão de violador à mão armada do solo da pátria, estrangeiro fora da lei, usurpador, traidor, praga, chefe de bandoleiros, inimigo da França que ousa sujar o solo do qual foi expulso, e anunciava: Este será seu último ato de loucura.
No final o rei fugiu, ninguém morreu por ele, e Napoleão sentou-se no trono sem disparar um único tiro.
Então o mesmo jornal passou a informar que a feliz notícia da entrada de Napoleão na capital provocou uma explosão súbita e unânime, todo mundo se abraça, os vivas ao Imperador enchem o ar, em todo os olhos há lágrimas de alegria, todos celebram o regresso do herói da França e prometem à Sua Majestade o Imperador a mais profunda submissão.

Eduardo Galeano, no livro ‘Os filhos dos dias’. L&PM Editores. 2ª ed., folha 72.

sábado, 29 de julho de 2017

Documento histórico: muito além do Cidadão Kane [vídeo]

Sábado, 29 de julho de 2017
Da Tribuna da Internet
Iluska Lopes


Proibidão, veraz, didático, minucioso, aterrorizante. “Beyond Citizen Kane” ou “Muito Além do Cidadão Kane” – em tradução livre - é um documentário britânico dirigido por Simon Hartog e exibido em 1993 pela emissora pública do Reino Unido, a BBC de Londres.

O documentário mostra as relações entre a mídia e o poder do Brasil, focando na análise da figura de Roberto Marinho, fundador da Globo. Embora o documentário tenha sido censurado pela justiça, em 2009 a Rede Record comprou os direitos de transmissão exclusiva, por 20 mil dólares, do produtor John Ellis.

domingo, 2 de abril de 2017

A fabricação da opinião pública

Abril
2

A fabricação da opinião pública

Em 1917, o presidente Woodrow Wilson anunciou que os Estados Unidos entrariam na Primeira Guerra Mundial.
Quatro meses e meio antes, Wilson tinha sido reeleito por ser o candidato da paz.
A opinião pública recebeu o seu discursos pacifistas e sua declaração de guerra com o mesmo entusiasmo. 
Edward Bernays foi o principal autor desse milagre.
Quando a guerra terminou, Bernays reconheceu publicamente que tinha sido inventadas as fotos e as histórias que acenderam o espírito bélico das massas. Esse êxito publicitário inaugurou uma carreira brilhante.
Bernays se transformou no assessor de vários presidentes e dos empresários mais poderosos do mundo.
A realidade não é o que é, e sim o que eu digo que ela é: Bernays desenvolveu melhor que ninguém as técnicas modernas de manipulação coletiva, que empurram as pessoas para que comprem um sabonete ou uma guerra.

Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias. 2ª Edição, 2012, página 116. L&PM Editores.
 

sábado, 16 de julho de 2016

A guerra do Iraque não foi um erro: Foi um crime

Sábado, 16 de julho de 2016
Do Esquerda.Net
Seja o que for que a lei decida, este foi - a partir de qualquer ponto de vista moral - um dos mais graves crimes do nosso tempo. Os responsáveis serão para sempre condenados. Depois de hoje, podemos apontá-los e chamá-los pelo nome. Artigo de Owen Jones, The Guardian.
16 de Julho, 2016
Tony Blair está condenado. Assistimos a branqueamentos por parte do establishment no passado: do Domingo Sangrento a Hillsborough, as autoridades têm conspirado repetidamente para esconder a verdade em interesse dos poderosos. Mas desta vez não. A investigação Chilcot estava a converter-se em alvo de sátira ao demorar um tempo ridiculamente longo para executar uma tarefa; mas Sir John passará sem dúvida à história por ditar o veredicto mais devastador e exaustivo sobre um primeiro ministro moderno.

Nós, que nos manifestamos contra a calamidade do Iraque, não podemos sentir-nos satisfeitos, só tristes por não termos conseguido evitar uma calamidade que roubou centenas de milhares de vidas, entre elas as de 179 soldados britânicos, e que feriu, traumatizou e deslocou milhões de pessoas, numa catástrofe que cultivou extremismo a um nível catastrófico.

domingo, 26 de junho de 2016

Imprensa em questão > Viés informativo: Manipulação e suavização do noticiário

Domingo, 26 de junho de 2016
Deu no Observatório da Imprensa
Por Elstor Hanzen em 21/06/2016 na edição 908 
Desde que o governo interino assumiu a administração nacional, há grande esmero por lado dos principais grupos de comunicação na “coloração” dos fatos, mesmo que tal entonação não condiz com a mudança da realidade. Esse comportamento se observa em estágios mais sutis – como a substituição de palavras negativas por positivas –, e outros exemplos escancarados de deturpação dos acontecimentos – como manchetes desequilibras para ressaltar aspectos menos relevantes e ocultar os mais importantes –, sendo que muitos casos já viram piada nas redes sociais.

No artigo “A manipulação de contextos na montagem de notícias”, Carlos Castilho faz uma excelente análise de como as Organizações Globo, por meio do JN, usam com mestria e perspicácia a manipulação na edição do conteúdo. Castilho lembra que “um editor ou jornalista pode criar um contexto sem alterar dados, fatos ou eventos”. Para ilustrar sua citação, usa uma comparação: “Um dado não existe fora de um contexto. Ele pode ser exato, mas manipulado conforme a imagem do copo meio cheio ou meio vazio. O copo é o mesmo, o volume de água idem, mas o profissional pode descrever o fato de maneiras diferentes o que vai induzir o leitor, telespectador ou internauta a desenvolver percepções e opiniões condicionadas pela descrição jornalística.”
Manchete no dia após Cerveró revelar propina ao filho do FHC
Manchete no dia após Cerveró revelar propina ao filho do FHC

A imagem acima reproduzida no Facebook pelo escritor Fernando Morais, ganhou repercussão e virou piada nos espaços virtuais: “Não consigo entender a perseguição do jornal o globo ao fernando henrique cardoso. Basta aparecer qualquer denúncia sobre escândalos no governo do ex-presidente que o jornalão escancara, dá com o maior destaque. Olha essa capa de hoje. Só um cego não vê isso”, ironizou o escritor. Para ler “só com lupa”, finalizou.
Título da Folha omitiu Temer da chamada
Título da Folha omitiu Temer da chamada

A capacidade de uma leitura crítica

Destaque da Folha de S.Paulo também obteve a atenção dos internautas pela deliberada tentativa de poupar o nome do presidente interino Michel Temer no contexto da crise. Neste exemplo, o público online resolveu sinalizar com seta vermelha onde deveria constar “de Temer” na edição do título.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Goebbels e seu legado que se danem!!!

Quarta, 20 de abril de 2016
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti
 
Quanto recrimino a opção do PT e da rede chapa branca por uma propagandaiada altamente falaciosa, imposta pela repetição massacrante e tendo tudo a ver com as práticas do ministro da Propaganda nazista Joseph Goebbels, não me refiro apenas às mentiras cabeludas da campanha presidencial de 2014 ou à insistência em chamar de golpe o que não passa de mais um impeachment como o de Collor.

Há também o amoral utilitarismo que norteia sua atuação. Os princípios e valores tradicionais da esquerda foram todos jogados no lixo e, ao sabor das conveniências e interesses imediatos, os personagens mais repulsivos da nossa política são apresentados como exemplos e suas opiniões, enaltecidas e difundidas.

Assim, p. ex., quando se tratou de desqualificar Marina Silva, o site petista Brasil 247 não se vexou de reproduzir com destaque as críticas que Reinaldo Azevedo a ela fazia. Ele, o mais notório porta-voz jornalístico da direita. Marina, uma herdeira de Chico Mendes e do petismo idealista de outrora. Foi uma opção chocante para quem ainda consegue fazer avaliações isentas, ao invés de apenas seguir o rebanho.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O New York Times é pura propaganda

Sexta, 5 de junho de 2015
Da Tribuna da Imprensa
Por NOAM CHOMSKY - Via AlterNet
O jornal aceita acriticamente a doutrina aprovada: os EUA são os donos do mundo, e o são por direito e por boas razões.


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Uma reportagem de primeira página é dedicada às falhas jornalísticas expostas pela principal revista acadêmica de crítica da mídia em uma matéria publicada na revista Rolling Stone sobre um estupro em um campus americano. A derrapagem jornalística é tão grave que também é o tema da principal reportagem na editoria de negócios, com uma página interna inteira dedicado à continuação das duas matérias. Em tom de choque, ambas fazem referência a vários crimes já cometidos pela imprensa: alguns casos de invenção, logo desmascarados, e casos de plágio ("numerosos demais para citar"). O crime específico da Rolling Stone foi "falta de ceticismo", que é, "em muitos aspectos, o mais insidioso" entre as três categorias.
É reconfortante ver o compromisso do Times com a integridade do jornalismo.
Na página 7 da mesma edição, há uma matéria importante escrita por Thomas Fuller intitulada "A Missão de uma mulher para libertar o Laos de bombas não detonadas". Relata o "esforço único" de uma mulher Laociana-americana, Channapha Khamvongsa, "para livrar sua terra natal de milhões de bombas ainda enterradas lá, legado de uma campanha aérea americana que durou nove anos e que fez do Laos um dos lugares mais bombardeados na terra" – que logo seria superado pelo Camboja rural, segundo as instruções de Henry Kissinger para a força aérea dos EUA: "Campanha de bombardeio maciço no Camboja. Qualquer coisa que voe sobre tudo o que se mova”. É difícil encontrar algum registro comparável em termos de convocação de um virtual genocídio. Foi mencionado no Times em uma reportagem sobre a revelação de gravações do Presidente Nixon, e recebeu pouca atenção.
Fuller relata que, como resultado do lobby da Sra Khamvongsa, os EUA aumentaram generosamente o gasto anual com remoção de bombas não detonadas em 12 milhões de dólares. As mais letais são as bombas de fragmentação, projetados para "causar o máximo de baixas nas tropas" pulverizando "centenas de pequenas bombas no chão”. Cerca de 30% permanecem intactas, e vêm a matar e mutilar crianças que encontram as peças, agricultores que esbarram nelas durante o trabalho, e outros casos de falta de sorte. Um mapa completa a reportagem, com destaque para a província de Xieng Khouang, no norte do Laos, mais conhecida como Planície de Jars, principal alvo do bombardeio intensivo, que atingiu o ápice de sua fúria em 1969.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A estrutura do caos

Segunda, 30 de março de 2015
A taxa de juros SELIC, a taxa base para títulos do Tesouro Nacional já estava demasiado alta em 11.25 pontos percentuais em novembro de 2014. Após sucessivas elevações, o COPOM (Conselho de Política Monetária),  “orientado” pelo BANCO CENTRAL a elevou para 12.75 pontos percentuais.
2. A taxa efetiva, basicamente determinada pelo cartel de bancos credenciados como dealers desses títulos oficiais, fica, em média, três pontos acima da taxa básica (hoje quase 16% aa.), ou ainda mais em períodos turbulentos.
3. Tais juros – sem paralelo em países não submetidos ao império financeiro, controlado pela oligarquia angloamericana – causam intensa hemorragia nas finanças públicas, um de cujos efeitos é elevar a conta dos juros a cada ano e fazer crescer incontrolavelmente o estoque da dívida.
4. Isso se dá em função da capitalização dos juros através da emissão de novos títulos para liquidar os que vão vencendo, pois as receitas tributárias (das quais vem o superávit primário) são, de longe, insuficientes.
5. Para uma ideia do estrago desencadeado por poucos pontos percentuais na taxa, basta fazer simulações com a composição anual dos juros.
6. Os juros incorporados ao principal – supondo que não se liquidassem juros e amortizações, em dinheiro, durante 30 anos – fariam ascender os 3  trilhões de reais, no momento, da dívida interna), para os seguintes montantes:
1) 12% aa. = R$ 89,9 trilhões, (multiplicaria a dívida por 30);
2) 15% aa. = R$ 198,6 trilhões, (a multiplicaria por 66);
3) 18 % aa. = R$ 430,1 trilhões (a multiplicaria por 144).
7. Portanto, a cada três pontos percentuais de aumento, o multiplicador mais que dobraria. Do jeito que vai a presente taxa efetiva (18% aa.), a dívida atingiria quantia equivalente a US$ 143 trilhões, ou seja, quantia igual a duas vezes a soma dos PIBs de todos os países do mundo.
8. Tenho explicado que os formadores de opinião, montados no monopólio da comunicação social – cujo negócio é desinformar – fazem a maior parte do público comprar a ideia de que as elevações das taxas de juros seriam necessárias para conter a inflação dos preços.
9. As artes da desinformação incluem fazer acreditar numa  entidade misteriosa chamada “mercado”, a que se atribui exigir os injustificáveis juros estratosféricos. Então, aos olhos do público esses juros deixam de ser o instrumento do saqueio cometido pelo cartel dos bancos e são imputados ao abstrato “mercado” e a supostas leis econômicas, igualmente abstratas.
10. A armação a serviço dos concentradores financeiros desvia a  discussão do terreno dos fatos para o das teorias econômicas e para o das doutrinas político-filosóficas.
11. A questão não é doutrinária: não são neoliberais nem necessariamente partidários da direita os defensores e aproveitadores da política de juros altos, tal como os da política de  subsidiar trilionariamente os carteis transnacionais.
12. Trata-se simplesmente de arrancar do Brasil quantias e recursos naturais incalculáveis. É pirataria, assalto, extorsão, reminiscente das proezas imperiais do século XIX, como as guerras do ópio, que o império britânico desencadeou contra a China, de 1839 a 1842 e  de 1856 a 1860.
13. O objetivo inicial dessas guerras foi deixar de pagar em ouro (mesmo dispondo a Inglaterra abundantemente do metal proveniente do Brasil e alhures) as importações das manufaturas produzidas na China, bem como apropriar-se das indústrias e roubar-lhe as técnicas de produção, tal como já havia feito na Índia.
14. Falando nesta, para produzir o ópio destinado à China, era só explorar os trabalhadores e a terra da Índia, saqueada de 1757 a 1863, em recursos equivalentes ao dobro dos investimentos feitos na Inglaterra, inclusive em imóveis.
15. A Grã-Bretanha havia transformado o grosso de suas importações da Índia em pilhagem escancarada, deixando de pagar o que quer que fosse por elas. Vide André G. FRANK, Acumulação Mundial 1492-1789. Rio de Janeiro, 1977, pp. 178 et segs.
16. Ao contrário do que se imagina, a Índia não era pobre e só no Século XIX é que afundou na miséria extrema, com milhões com fome, dormindo na rua em Calcultá. Os incautos admiradores brasileiros do império angloamericano não percebem que, no curso atual, é para algo assim que o País se encaminha.
17. Os juros abusivos nos títulos públicos – e mais ainda no crédito a empresas e a pessoas físicas, bem como os espantosos subsídios às aplicações financeiras e às empresas transnacionais – são apenas alguns dos mecanismos montados para tornar falido o Brasil e acelerar sua dilaceração sob as bicadas de vorazes abutres financeiros.
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Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Adriano Benayon: Momento decisivo

Segunda, 23 de fevereiro de 2015
Resultado de imagem para foto adriano benayon
1. O momento é decisivo, pois exige resposta urgente da sociedade: aproxima-se o ponto da irreversibilidade do processo de exploração predatória do povo brasileiro e de seus recursos naturais.
2. Nos últimos 60 anos, a oligarquia mundial tem regido sucessivos golpes – com e sem participação militar – para desnacionalizar a indústria e impedir o desenvolvimento tecnológico do Brasil.
3. Desse modo, os carteis financeiros e industriais transnacionais lograram alcançar extrema concentração de poder econômico em suas mãos, o que lhes proporcionou também o crescente controle do sistema político, abrangendo todos os poderes do Estado.
4. Só os que não se indagam sobre a essência das coisas, iludem-se com as aparências da democracia supostamente instaurada em 1988.
5. A Constituição foi produto híbrido das articulações reacionárias do Centrão e de avanços democráticos. Só que a maioria destes se tornou letra morta. Além disso, os mais importantes foram suprimidos por emendas constitucionais.
6. Outra não poderia ter sido a evolução (involução), dadas as relações de poder real, correspondentes às estruturas de mercado, econômicas e financeiras, caracterizadas pela concentração e pela desnacionalização, muito grandes desde o final dos anos 60.
7. Esse quadro não cessou de se agravar, foi acelerado, de 1990 a 2002, e prossegue em marcha.
8. Isso lembra o conceito de enteléquia, de Aristóteles: um princípio de “desenvolvimento” ou programa (como um software), que contém, desde a origem, os elementos conducentes à sua plena realização. No caso, um processo de degradação, como uma doença degenerativa.
9. Na Constituição promulgada em 1988, há, pelo menos, dois pontos incompatíveis com a soberania nacional: o artigo 164 e a inserção fraudulenta – durante o processo da Constituinte – do acréscimo ao art. 166, em seu parágrafo 3º.
10. O art. 164 sujeita o Tesouro – portanto a União Federal e o próprio País – a endividar-se junto aos bancos privados e demais concentradores de capital, pois: 1) dá ao Banco Central a competência exclusiva para emitir moeda; 2) o dinheiro que o BACEN cria, só o pode repassar aos bancos privados, sendo proibido de provê-lo ao Tesouro ou a qualquer ente público.
11. O acréscimo ao § 3º do art. 166 (“excluídas as que incidam sobre: a) …; b) serviço da dívida; c) …”) libera os juros e amortizações da dívida dos requisitos a que estão sujeitas outras despesas para serem autorizadas.
12. Em consequência desses dispositivos e do desequilíbrio nas relações de poder econômico e político, o serviço da dívida já nos custou, de 1989 a 2014, em moeda atualizada, mais de R$ 20 trilhões. Sim, mais de R$ 20.000.000.000.000,00, o equivalente a quatro PIBs de 2014.
13. Apenas doze dealers (10 bancos e duas distribuidoras de títulos) determinam as taxas efetivas dos juros dos títulos públicos vários pontos percentuais acima da já injustificadamente elevada SELIC, novamente em aumento, todo mês, desde novembro.
14. Embora só uma parte dos mais de R$ 20 trilhões tenha sido paga com recursos tributários, a maior parte é paga com a emissão de novos títulos do Tesouro. Por isso, a dívida mobiliária interna cresce sempre e ultrapassou R$ 3 trilhões.
15. Muitos dos manipuladores da opinião publicada (como diz o ex-ministro Roberto Amaral), negam os números reais do serviço da dívida, pretextando que ela se paga com novos títulos do Tesouro, mas, se fossem coerentes, deveriam negar também a própria dívida, pois foi assim que ela cresceu.
16. Além do serviço da dívida, há mais mecanismos – também escondidos do conhecimento público – através dos quais o Brasil se descapitaliza em dezenas de trilhões de reais, a cada ano, e transfere renda em favor dos concentradores, principalmente os sediados no exterior, estrangeiros e brasileiros.
17. Em contraste, escancaram-se e magnificam-se, perante o público, casos de corrupção na Petrobrás e nas empreiteiras, a fim de fulminar o que resta da indústria e da tecnologia nacionais.
18. Esses são casos reais, e sua repetição tem de ser coibida, punindo exemplarmente todos os indivíduos responsáveis e sem privilegiar os corruptíssimos delatores premiados.
19. Mas isso não será viável, sem modificar profundamente o presente sistema político, em que as instituições e os partidos estão viciados no fisiologismo.
20. As eleições são movidas a dinheiro grosso e pela corruptíssima grande mídia, que abusa da exposição sensacionalista da corrupção, inerente ao sistema, como arma a serviço dos interesses da oligarquia transnacional. E as propostas só tem chances de ser aprovadas no Congresso, à base do “é dando que se recebe”.
21. É imperioso fortalecer a Petrobrás, o maior dos patrimônios do País, bem como os conglomerados privados nacionais que desenvolvem valiosas tecnologias, como fornecedoras da Petrobrás e prestadoras de bens e serviços em áreas de igual significação estratégica.
22. Não fazê-lo implica decretar a queda do Brasil à condição de subdesenvolvido irrecuperável, intensificando a política que vem destruindo o País, ao eliminar seu capital humano e moldar a infra-estrutura segundo o interesse dos carteis transnacionais estrangeiros.
23. O modelo subjacente a essa política determinou nulo ou pífio crescimento do produto interno bruto (PIB), nos últimos anos, e ele teria sido muito negativo, não fossem os desempenhos da Petrobrás, da mineração e da agricultura.
24. Ora, isso reflete a desindustrialização, subproduto da desnacionalização da economia, que se manifesta brutalmente, fazendo o Brasil regredir, de modo devastador, à infra-estrutura colonial e desintegrar economia nacional.
25. O minério de ferro é explorado, há decênios, em quantidades absurdas, mesmo considerando as fabulosas reservas do País, de resto, desnacionalizadas, desde a privatização da Vale do Rio Doce, em 1997.
26. A Vale, que tem 85% da produção brasileira, planeja chegar a 450 milhões de toneladas/ano até 2018. A exportação do Brasil atingiu 340 milhões de tons/ano em 2014.
27. O que fica no País são buracos e poluição, inclusive no caso dos minerais estratégicos como o nióbio e o quartzo, cujos produtos finais são importados por cerca de cem vezes o preço dos insumos exportados, afora o descaminho desses minérios e dos preciosos.
28. Enquanto a produção de bens de alto valor agregado retrocede, a primária cresce. Um dos maiores escândalos é a soja a ocupar 50% das terras em uso. De sua produção (90 milhões de toneladas), 80% são exportados sem processamento e 10% transformados em produtos de baixo valor agregado, como o farelo.
29. Sobra para o Brasil o empobrecimento dos solos, com emprego excessivo de fertilizantes químicos e de agrotóxicos, gasto descomunal de água, além da poluição de solo e águas.
30. Em suma, a desnacionalização da economia – dominada por carteis aqui instalados e por suas matrizes no exterior – acarreta prejuízos anuais ao País assim estimáveis:
1) diferença entre a taxa de juros efetiva da dívida pública e a adequada: 0,13 [13%] x R$ 2,5 trilhões = R$ 320 bilhões; 2) diferença entre a taxa média dos juros, no crédito às empresas e pessoas físicas, e a que deveria prevalecer: 0,2 [20%] x R$ 2,6 trilhões = R$ 520 bilhões; 3) sobrepreços nos bens e serviços produzidos para o mercado interno = 80% do PIB = R$ 4,2 trilhões; 4) sobrefaturamento das importações de produtos finais e insumos para a indústria, e de serviços: 60% de US$ 229 bilhões (bens) = US$ 137,4 x 2,8 = R$ 385 bilhões + R$ 115 bilhões (serviços) = R$ 500 bilhões; 5) subfaturamento das exportações: 50% de US$ 225,1 bilhões = US$ 112,5 bilhões x 2,8 = R$ 315 bilhões; 6) perdas na relação de troca (terms of trade), devidas à primarização da economia: importar, por preços até cem vezes superiores, bens acabados produzidos com matérias-primas exportadas a preço vil.
O item 6 é difícil de quantificar, mas corresponde certamente um múltiplo (2 ou 3) do presente valor do comércio exterior do País, a que se deve aplicar outro múltiplo (no mínimo, 10) decorrente de comparar o atual PIB, com o que teríamos, se o País não se tivesse submetido ao modelo dependente, desde os anos 50: R$ 800 a 1.200 bilhões x 10 = R$ 8 trilhões a R$ 12 trilhões anuais.
Mesmo sem adicionar o item 6, que equivale ao dobro dos cinco anteriores, a soma destes totaliza R$ 5,85 trilhões, cujo cálculo não é exagerado: embora possa conter algumas duplas contagens, aplica alguns percentuais provavelmente subestimados.
As perdas acima resumidas incidem a cada ano. Não incluem as pontuais, como as enormes transferências fraudulentas para o exterior através do BANESTADO nos anos 90, nem os prejuízos superiores a R$ 50 trilhões, decorrentes das privatizações de FHC, afora os que prosseguem, desde então, em função delas.
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Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Mídia silencia sobre atos ilícitos do HSBC e milionários brasileiros

Domingo, 22 de fevereiro de 2015
Ouça aqui a entrevista com o filósofo Vladimir Safatle.

O professor de Filosofia da USP, Vladimir Safatle, questiona o silêncio da mídia tradicional sobre negócios ilícitos que envolvem o HSBC e milionários brasileiros que possuem contas na sede do banco, em Genebra. Para o filósofo a elite rentista é blindada no Brasil pela mídia e por políticos. Reportagem Marilu Cabañas, da Rede Brasil Atual.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Uma breve história da luta da grande mídia contra os interesses nacionais

Segunda, 9 de fevereiro de 2015
Do Blog do Siro Darlan / Carta Maior
Por Leandro Severo (*)
Em 1941, enquanto milhões de homens e mulheres derramavam seu sangue pela liberdade nos campos da Europa e da União Soviética, a elite dos círculos financeiros dos Estados Unidos já traçava seus planos para o pós-guerra. Como afirmou Nelson Rockefeller, filho do magnata do petróleo John D. Rockefeller, em memorando que apresentava sua visão ao presidente Roosevelt: “Independente do resultado da guerra, com uma vitória alemã ou aliada, os Estados Unidos devem proteger sua posição internacional através do uso de meios econômicos que sejam competitivamente eficazes...” (COLBY, p.127, 1998). Seu objetivo: o domínio do comércio mundial, através da ocupação dos mercados e da posse das principais fontes de matéria-prima. Anos mais tarde o ex-secretário de imprensa do Congresso americano, Gerald Colby, sentenciava sobre Rockefeller: “no esforço para extrair os recursos mais estratégicos da América Latina com menores custos, ele não poupava meios” (COLBY, p.181, 1998).
Neste mesmo ano, Henry Luce, editor e proprietário de um complexo de comunicações que tinha entre seus títulos as revistas Time, Life e Fortune, convocou os norte-americanos a “aceitar de todo o coração nosso dever e oportunidade, como a nação mais poderosa do mundo, o pleno impacto de nossa influência para objetivos que consideremos convenientes e por meios que julguemos apropriados” (SCHILLER, p.11, 1976). Ele percebeu, com clareza, que a união do poder econômico com o controle da informação seria a questão central para a formação da opinião pública, a nova essência do poder nacional e internacional.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A guerra pelos media e o triunfo da propaganda

Domingo, 14 de dezembro de 2014
Fonte: resistir.inf
por John Pilger [*]
Por que tão grande parte do jornalismo sucumbiu à propaganda? Por que a censura e a distorção são a prática padrão? Por que a BBC é tão frequentemente uma porta-voz do poder rapinante? Por que o New York Times e o Washington Post enganam os seus leitores?

Por que não ensinam os jornalistas jovens a entender as agendas dos media e a desafiar as afirmações altissonantes e os baixos objectivos da falsa objectividade? E por que não lhes ensinam que a essência de grande parte do que se publica nos media de referência não tem a ver com informação e sim com poder?

Estas são questões urgentes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O relatório da CNV e os obnubiladores de opinião

Sexta, 12 de dezembro de 2014
Por Celso Lungaretti

Para tentarem diminuir o impacto do relatório final da Comissão Nacional da Verdade,  os remanescentes e as viúvas da ditadura, os cuervos que ela criou e os oportunistas que fazem do anticomunismo seu ganha-pão lançaram uma verdadeira blitzkrieg de demagogia e simplismos tendenciosos, que fariam a delícia do Sérgio Porto. O material por eles expelido em apenas dois dias seria suficiente para o saudoso Lalau acrescentar um quarto volume à série Festival de Besteiras que Assola o País. 

Como não estou no ramo das análises clínicas, evitarei colocar sob o microscópio o material em questão, até para poupar quem tem olfato mais delicado. Irei diretamente ao âmago da questão.

A resistência à tirania é um direito inalienável dos povos, que remonta à Antiguidade e hoje se tornou axiomático para os civilizados.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Mentiras ajudaram a derrubar Jango


Quinta, 14 de agosto de 2014
Por Mauro Malin em 14/08/2014 na edição 811 do Observatório da Imprensa
A sociedade brasileira se especializou em contornar problemas. É uma tradição muito enraizada. Marcos Nobre, da Unicamp, declarou ao Valor: “No Brasil, não estamos acostumados a polarizações reais. Tenta-se, ao máximo, acomodar todo mundo no condomínio de poder” (13/8; “Mudanças no transporte público ficam para 2015”). Bem fez Chico de Oliveira quando se lançou, dois anos atrás, ao estudo sério do jeitinho brasileiro (ver “Jeitinho e jeitão”, artigo publicado na revista piauí).
Sempre que, no Brasil, se pode tomar uma consequência como causa, para evitar o verdadeiro problema, isso é feito. Veja-se o exemplo atualíssimo dos candidatos “ficha suja”. São apenas ingredientes inevitáveis de um sistema político perempto, mas rapidamente campanhas cívicas fervorosamente secundadas pela mídia os colocam na berlinda.
Não tem grande proveito, a não ser disfarçar a sujeira presente em toda e cada instância dos processos eleitorais. Se a má literatura serve para que se saiba discernir a boa literatura (ou música, pintura etc.), a interdição de “fichas sujas” pode criar a falsa imagem de que os demais são “fichas limpas”, o que é, na melhor das hipóteses, uma farsa complacentemente aceita.
PCC, PT, Rota, PSDB