Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 5 de abril de 2024

Primeiro de abril de 1964: a história de um longo golpe

Sexta, 5 de abril de 2024

Primeiro de abril de 1964: a história de um longo golpe
 

     “Eles empurraram a porta, não encontraram nada. Empurraram outras duas portas, não encontraram resistência nenhuma. E assim foram ocupando toda a casa”. Leonel Brizola, depoimento de 1987


Roberto Amaral*


A transição da tutela para o exercício direto do poder, ali um movimento tático, aqui uma estratégia, é projeto da caserna que incomoda a República representativa desde o golpe de 1889, embora suas raízes ideológicas remontem à Guerra do Paraguai e à “questão militar”, artificialmente forjada pelos fardados. Nos anos seguintes,  da ditadura Deodoro-Floriano, inaugurais da República, o exercício do poder castrense seguiu a regra, dispensando intermediações, e assim caminha até o grande acordo da lavoura, que possibilitou a eleição de Prudente de Morais, e os governos conservadores que se seguem.  Com eles sobrevivem as oligarquias rurais  o conhecido consórcio entre a pecuária mineira e o café paulista, subsidiado pelo conjunto da economia do país, para poder encontrar preço no mercado exterior. Por muitos anos essa foi nossa única fonte de divisas. Esse mando do atraso, a preeminência da falsa “vocação agrícola” do Brasil, logrará sobreviver mesmo à modernização varguista, ditada de cima para baixo, pois a via prussiana é o único modelo que as ditaduras professam. No Nordeste e no Norte sobreviverá  mesmo aos anos JK, quando o país opta pela industrialização.

O primeiro enfrentamento republicano nasce com a dissidência inter-oligárquica que a história registrou como “revolução de 1930” e suas diversas e distintas fases, sempre sob  o comando de Getúlio Vargas: o governo provisório (1930-1934), o intermezzo constitucional consentido (1934-1937) e, na consolidação do regime, a ditadura de 1937-1945, o “Estado Novo”, como se denominava, copiando a titulação do salazarismo. O estrategista é Getúlio Vargas, o concerto militar é encargo do general  Góes Monteiro,  e a formulação doutrinária coube ao jurista Francisco Campos, também conhecido como Chico Ciência, redator da Carta de 1937 e,  vinte e sete anos passados, autor do Ato Institucional com o qual a ditadura militar se anunciava ao mundo, como fonte, ela mesma, de seu poder. Na efetividade da força procurava sua legitimação.

O Movimento de 1930, embora tenha tido como estopim  a sucessão de Washington Luís, foi precedido de uma série de levantes militares, no seu conjunto carentes de programas políticos. Seu leitmotiv era a “moralização dos costumes” e a “verdade eleitoral”, quando a fraude mais desabrida campeava em todos os pleitos, das províncias à presidência da República. A artimanha que campeou em 1930, despindo o pleito de  qualquer grama de legitimidade, não foi maior nem menor do que a corrupção reinante em todo e qualquer processo eleitoral anterior,  sem peias às insurreições militares que vão preparando a ambiência política que terminará por tornar, por assim dizer, natural e necessária a fratura de 1930.

São insurreições como o Levante do Forte de Copacabana (1922) e em 1924-1925 a coluna Prestes-Miguel Costa, de onde sairia o estado-maior de 1930. O que, porém, não livraria o novo regime, de base de sustentação militar, de enfrentar contestações armadas como a insurreição paulista de 1932, o levante militar  comunista de 1935, e a intentona integralista de 1938.

Os mesmos generais que haviam implantado a ditadura serão aqueles que, no seu esgotamento, e trazendo para casa as lições políticas assimiladas nos palcos da Europa em guerra, ditam sua sentença de morte, com a deposição de Getúlio Vargas em 1945, após 17 anos de mando direto e absoluto da caserna. No período que se segue, até o Golpe de 1964, os militares são levados a partilhar o poder com os civis. É o período do retorno da tutela, que, nada obstante os seguidos recuos do poder civil, consome-se numa relação pontilhada de choques com a legalidade democrática que se resolve na ditadura de 1964, ou seja, com a retomada do poder direto.

O balanço é esse: poder direto, como até 1945,  ou tutela, como até hoje, desde o recuo a que se concedeu a ditadura em 1985. Ao todo, no século passado, o mando direto dos militares soma 38 anos, a que se seguem a concordata de 2018 e a intentona frustrada de 8 de janeiro de 2023.

Mesmo a preeminência da tutela não foi suficiente para pôr em ordem a caserna, autoritária e indisciplinada. A crônica dos anos seguintes  à redemocratização de 1945-1946 é uma catalogação de “pronunciamentos” de comandantes  e clubes militares sobre as mais variadas questões do cotidiano da vida nacional, que vão de discussões sobre  os valores do salário-mínimo dos trabalhadores, até a legitimidade de pleitos eleitorais, questionada, na democracia representativa, a soberania popular.

Nesse período historicamente curto que caminha da queda do Estado Novo ao golpe de 1964, dois  presidentes da república foram depostos por levantes militares, um deles tendo sido levado ao suicídio; um presidente renunciou, dois outros foram cassados, um foi condenado à prisão. As forças armadas seguidamente tentaram impedir a posse de presidentes consagrados em eleições livres. Em 1955 o veto se aplicava a Juscelino Kubitschek, e assim tivemos o golpe e o contragolpe de 11 novembro, além de dois levantes de oficiais da Aeronáutica. Em 1961, no episódio da renúncia de Jânio Quadros, a truculência militar teve como alvo o  vice-presidente constitucional, João Goulart, cuja posse foi vetada. Para consenti-la, os militares, tendo à frente os três ministros fardados, impuseram  ao Congresso, genuflexo,  a revogação do presidencialismo com a implantação de um parlamentarismo de fancaria, afinal revogado por referendo em 1963. Mesmo dispondo de poder absoluto, a caserna conservou-se indisciplinada. Não foram poucos os golpes levados a cabo ou intentados mesmo no regime de 1964.

Os fatos desnudam a fragilidade da reconstitucionalização de 1985 e os idos de janeiro de 2023 nos mostram, mais uma vez, que  nossa democracia é uma florzinha  muito frágil que precisa ser regada todos os dias, como receitava Otávio Mangabeira.

As traficâncias visando à deposição de Jango, cujo objetivo era, no fundo, a retomada do mando direto, começaram mesmo antes da posse  vice-presidente. Garrastazu Médici (SCARTAZI, A.C, Segredos de Médici. São Paulo. Marco Zero, 1985), ditador luciferino, fala do fio da meada: “Aquela conspiração de 64 nós começamos em 61, com a renúncia de Jânio”.

Na longa preparação do golpe militar (que não lograria  êxito se não contasse com a adesão dos meios de comunicação), a reação criou  na sociedade brasileira a versão  de que o Presidente João Goulart estava preparando um golpe contra a democracia, que seria engolfada, com nossas liberdades, por um projeto bolchevista. Seria o primeiro na história a ser comandado por um estancieiro.

A verdade, porém,  é que o presidente João Goulart não dispunha, em 1964, de esquema militar de qualquer natureza, seja para defender-se do golpe  que se anunciava em prosa e verso, seja  para ele próprio romper com a legalidade, salvando seu governo, como o aconselhavam oficiais fiéis e à frente de tropas, como o general Osvino Alves, do então 1º Exército, sediado no Rio de Janeiro. Pois o decantado “dispositivo militar do general Assis Brasil”, se não era um alçapão, era sem dúvida uma trágica farsa. Com absoluta certeza, e catando a melhor das hipóteses, tratava-se, o engalando chefe da Casa Militar, de um general absolutamente inepto (na definição precisa de Almino Afonso), como parece ser seu símile no quase desastrado início do governo Lula, atarantado, andando sem rumo pelos corredores do palácio do Planalto diante do avanço das hordas fascistas ensandecidas.

O famigerado “dispositivo do general Brasil” foi desmontado em horas, por uma mera coluna de praças que não foi enfrentada, uma tropa militarmente irrelevante, sob o comando de um general de brigada sem qualquer brilho. Quando chegou ao Rio, o general Mourão (que se autointitulava “vaca fardada”) nada mais tinha por fazer:  o governo, sem ensaiar qualquer resistência, já havia caído e não restava mais uma só poltrona para o comandante a caminho da reserva. Assim, os militares abancaram-se no  poder, trotaram pelas avenidas e ruelas  da democracia como o cavalo de Átila, deixando como rasto uma democracia esfrangalhada.

O golpe, em sua fúria, foi o arrombar de portas escancaradas. Apesar de haver encontrado o campo inimigo renunciando à luta, os militares se esmeraram  na violência a mais desabrida, na tortura e nos assassinatos, ainda hoje por serem contados e sempre impunes. 

Almino Afonso era, naquele março, um dos políticos mais influentes do país. Líder estudantil, deputado federal, ministro do trabalho de Jango e, naquela altura,  líder da bancada do PTB (partido do presidente da República) na Câmara dos Deputados. A narrativa que segue é fatual, por isso importantíssima. É um só arrolar de fatos anotados por um observador privilegiado. Recorro ao seu livro “1964 na visão do ministro do trabalho de João Goulart”, que ainda hoje aguarda uma editora apta a comercializá-lo condignamente.

Naquela manhã de terça-feira, 31 de março, contrariando o cotidiano, a Câmara dos deputados, que só se reunia à tarde, estava superlotada e envolta num  burburinho. Circulava a notícia de que o gal. Mourão havia se levantado em  Juiz de Fora, e marchava na direção do Rio de Janeiro. Nada se sabia em nosso campo. Almino se dirige à casa do líder do Governo, senador Arthur Virgílio Filho, também carente de qualquer elemento de informação. Decidem, então, falar com o presidente, que se encontrava no Rio, no Palácio das Laranjeiras. Indagado, Jango desqualifica as versões do levante como uma tentativa da oposição de tumultuar o ambiente político. Os fatos são reduzidos a boatos, apenas isso.  Os parlamentares insistem, e então, Goulart chama o gal.  Brasil (relembro: chefe da Casa Militar), quando se trava o seguinte diálogo, segundo a memória de Almino:

“Presidente (dirigindo-se ao gal. Brasil): O que há de verdade na sublevação do general Mourão filho?

Gal. Brasil: Tudo fantasia, presidente. Trata-se de uma marcha de rotina, como é de hábito no exército.

Presidente (insistindo): Nada mais?

O general Brasil: Nada além disso.

O presidente: Tu ouviste, Arthur? Pois é essa a verdade!”

Esse deplorável diálogo, retrato da abulia do governo, teria ocorrido entre 10 e 11h.  À volta do almoço, Almino se depara com o avanço dos acontecimentos.
Nenhum sinal sobre  a vida do governo.

Por volta das 18h desse longo dia, o presidente, ainda à margem do que ocorria na República e em seu próprio entorno, recebe no Palácio das Laranjeiras, edificação quase colada ao Palácio da Guanabara, onde se aquartelara o governador Carlos Lacerda, as visitas do general Peri Bevilacqua e do brigadeiro Correia de Melo, enviados, a mando do gal. Castello Branco, “na missão de restabelecer a paz nas fileiras”.  

Desta feita a pauta segue o  depoimento do Gal. Mourão (Memórias, o depoimento de um revolucionário. Porto Alegre. L&PM:1978): “Cerca das 18hs, o ministro da Justiça,  Abelardo Jurema, pediu licença e deu ao dr. Goulart um bilhete que ele leu. Finda a leitura, antes que o Gal. Bevilacqua recomeçasse, o dr. Goulart lhe disse: “Gal, o general Mourão Filho revoltou a 4ª. Região Militar em Minas Gerais e pede minha renúncia”.

 A insurreição fôra para a estrada na  madrugada de 31/03. Só ao final do dia, após às 18h, é que o presidente foi informado do golpe, já consolidado.
 

 

* Com a colaboração  de Pedro Amaral

domingo, 11 de dezembro de 2016

CLDF: Todos unidos por Jango

Domingo, 11 de dezembro de 2016
Do Blog Brasília por Chico Sant'Anna
JK e Jango abraçaram juntos o projeto de mudar a capital do Rio de Janeiro para Brasília. Foto do arquivo de família

Por Chico Sant’Anna
Celina Leão (PPS), Wasny de Roure (PT), Joe Vale (PDT) e Professor Israel (PV) estão juntos.
Calma! Não é nenhuma articulação de chapa para conquistar a presidência da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Mas é uma iniciativa que vai incomodar Rodrigo Rollemberg. Trata-se de uma homenagem ao ex-presidente João Goulart, que será agraciado com o título Cidadão Honorário de Brasília, no próximo dia 14.
Perguntarão alguns menos afeitos a História: mas o que Jango fez por Brasília para ganhar tal distinção?
Primeiro é importante lembrar que João Goulart foi eleito vice-presidente de Juscelino Kubitscheck e de Jânio Quadros. À época, a eleição não era por chapa, votava-se separadamente num candidato a presidente e noutro a vice.
Jango talvez tenha sido o presidente que teve a vida mais enraizada em Brasília, a ponto de seus filhos estudarem na escola pública da SQS 108 Sul e na Escola Parque.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Veto ao Memorial da Liberdade e Democracia. Segundo exílio de Jango

Segunda, 28 de setembro de 2015
 Rollemberg Jango
A decisão do governo Rollemberg é um desserviço a Brasília, seus moradores e a toda nação brasileira.

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Publicado em por

A proibição da construção do Memorial  da Liberdade e Democracia representa a edificação, mesmo que virtual, de um Memorial à Intolerância. É triste ver o expoente da geração Brasília responsável pelo segundo exílio de João Goulart

Por Chico Sant’Anna
Imaginem uma cidade que enfrenta uma crise econômica jamais vista em sua história.

Imaginem uma cidade onde o desemprego é um dos mais altos do país, ultrapassando a casa de 200 mil pessoas, principalmente no campo da Construção Civil.

Imaginem uma cidade carente em equipamentos culturais, com os equipamentos públicos fechados por falta de recursos para as reformas, e que necessita demais atrativos turísticos para fazer com que os seus visitantes aumentem sua permanência de estada e gerem mais renda e emprego.

Agora, imaginem que uma instituição se apresente à cidade acima disposta a investir cerca de R$ 19 milhões na implantação de um empreendimento, não poluente. Recursos que viriam de fontes privadas diversas para serem investidas na cidade, dos quais mais de R$ 1,3 milhão seriam destinados ao pagamento de impostos a serem recolhidos aos combalidos cofres locais.

perspectiva memorial jango 
Clique aqui e leia a íntegra do artigo

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Jango vive na permanência de sua mensagem

Segunda, 11 de maio de 2015
Texto transcrito da Tribuna da Internet
Cristovam Buarque
O que faz um grande político é chegar e manter-se no poder. O que faz um grande estadista é usar o poder para transformar seu país na direção de uma economia moderna e dinâmica e de uma sociedade harmônica. Mas o que faz um político e estadista ser um mito é ter sua mensagem mantida ao longo de décadas ou mesmo de séculos.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A deturpação da História, nas mãos de um historiador

Sábado, 24 de janeiro de 2015
Da Tribuna da Internet
Carlos Frederico Alverga
O historiador Marco Antonio Villa torce, retorce e distorce a verdade no seu livro “Ditadura à brasileira”. O que me deixa perplexo é esse senhor obter grande espaço na mídia corporativa, familiar e oligopolista para propagar suas sandices, tais como afirmar que não havia ditadura no Brasil entre 64 e 68 porque nessa época houve os festivais da canção, ou a encenação das peças Opinião e Roda Viva, cujos espetáculos eram interrompidos por agressões perpetradas contra os elencos pelo Comando de Caça aos Comunistas, que espancava os atores. É necessário que outras opiniões sejam veiculadas na imprensa para que as mentiras de Villa não se disseminem e distorçam o conhecimento que as novas gerações estão travando com os fatos desse período. A versão falaciosa do farsante travestido de professor não pode prevalecer. É preciso se contrapor a esse impostor.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Biblioteca Nacional recebe acervo pessoal do ex-presidente João Goulart

Segunda, 8 de dezembro de 2014
Akemi Nitahara - Repórter da Agência Brasil
João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart
Acervo foi entregue por João Vicente Goulart, filho do presidente deposto  Marcello Casal Jr/Agência Brasil
A Biblioteca Nacional recebeu hoje (8) a primeira parte do acervo pessoal do ex-presidente João Goulart, dentro do convênio assinado com o Instituto João Goulart para conservação, catalogação e divulgação do material. O presidente do instituto, João Vicente Goulart, filho do presidente deposto pelo golpe militar de 1964, explica que a parceria vai facilitar a pesquisa histórica sobre o período.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Morte de João Goulart: laudo pericial inconclusivo não afasta outros meios de prova

Terça, 2 de dezembro de 2014
 "A Procuradoria da República no Rio Grande do Sul investiga as circunstâncias da morte do ex-presidente João Goulart por meio de um Inquérito Civil Público. A exumação dos restos mortais constitui um dos elementos da investigação, que conta ainda com outras frentes de trabalho – tais como depoimentos de testemunhas e informantes sobre os fatos relacionados à morte do ex-presidente, ocorrida na Argentina durante o período da ditadura militar”.

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Do MPF
O trabalho de exumação dos restos mortais de João Goulart contou com peritos de diversos países, inclusive dois profissionais independentes indicados pelo Ministério Público Federal.

Foi anunciado nessa segunda-feira, 1º de dezembro, pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o resultado do laudo pericial de exumação das ossadas do ex-presidente João Goulart.

O laudo apresentado pela Polícia Federal é inconclusivo. Segundo a PF, não foram encontradas substâncias tóxicas ou de medicamentos capazes de ter provocado a morte do ex-presidente. Entretanto, o documento informa que também não é possível descartar a hipótese de envenenamento, visto que já se passaram 37 anos entre a morte e a exumação. De acordo com a Polícia Federal, não se pode afirmar que a morte do ex-presidente foi por infarto ou outra causa natural.

O processo de exumação das ossadas de João Goulart teve início em 2013, a pedido da Comissão Nacional da Verdade. O trabalho contou com peritos de diversos países, inclusive dois profissionais independentes indicados pelo Ministério Público Federal.

O MPF esteve presente à cerimônia de anúncio oficial, representado pelo procurador federal dos Direitos do Cidadão, Aurélio Rios, e pela procuradora regional da República Eugênia Gonzaga – atual coordenadora da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Conforme explica o procurador federal dos Direitos do Cidadão, o resultado inconclusivo do laudo não afasta outros meios de prova investigados pelo Ministério Público Federal. "A Procuradoria da República no Rio Grande do Sul investiga as circunstâncias da morte do ex-presidente João Goulart por meio de um Inquérito Civil Público. A exumação dos restos mortais constitui um dos elementos da investigação, que conta ainda com outras frentes de trabalho – tais como depoimentos de testemunhas e informantes sobre os fatos relacionados à morte do ex-presidente, ocorrida na Argentina durante o período da ditadura militar”.

Entenda a atuação do MPF no caso – Em 2007, o Instituto Presidente João Goulart (IPG) solicitou à Procuradoria-Geral da República a abertura de inquérito civil para elucidar as circunstâncias da morte do ex-presidente. Embora a versão sustentada oficialmente seja a de que Jango morreu em razão de um ataque cardíaco, a suspeita do IPG é de que o ex-presidente teria sido envenenado a mando da chamada Operação Condor. O caso foi encaminhado à Procuradoria da República no Rio Grande do Sul, que em 2010 solicitou à PFDC o arquivamento da matéria. Após análise dos 21 volumes que compunham os autos, a então procuradora federal dos Direitos do Cidadão Gilda Carvalho rejeitou o arquivamento do inquérito. Redistribuído, o caso vem sendo investigado desde 2012 pela procuradora da República no Rio Grande do Sul Suzete Bragagnolo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Autópsia para determinar causa da morte de Jango é inconclusiva

Segunda, 1º de dezembro de 2014
Ivan Richard – Repórter da Agência Brasil
O presidente Jango e o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon
O presidente Jango e o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln GordonArquivo Nacional
A autópsia dos restos mortais do ex-presidente João Goulart, morto há 38 anos no Argentina, não identificou a presença de medicamentos tóxicos ou veneno que pudessem ter causado a morte de Jango, como era conhecido. O laudo final da perícia dos restos mortais concluiu que o ex-presidente, deposto pela ditadura miliar, realmente pode ter sido vítima de um enfarte, como foi informado à época por autoridades do regime militar, devido a histórico de cardiopatias.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Senadores Cristovam, Simon e Requião reapresentam propostas de João Goulart

Sexta, 14 de março de 2014
Requião, Simon e Cristovam apresentam projetos baseados na reforma agrária e no conceito de empresa nacional defendidos pelo ex-presidente. Reformas aceleraram o golpe militar há 50 anos

Ao lado da esposa Maria Thereza, João Goulart defendeu reformas, diante de 200 mil pessoas no Centro do Rio

No dia em que se completou meio século do discurso histórico que acelerou o golpe militar de 1964, três senadores reapresentaram, em conjunto, duas propostas que faziam parte das chamadas reformas de base que o então presidente João Goulart pretendia implantar no Brasil. Em 13 de março de 1964, Jango discursou para 200 mil pessoas na Central do Brasil, no Rio. Durante uma hora, ele defendeu a implantação de uma série de medidas e reformas de caráter nacionalista. Ontem (13 de março de 2014), exatamente 50 anos depois, os senadores Roberto Requião (PMDB-PR), Pedro Simon (PMDB-RS) e Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentaram uma proposta de reforma agrária e outra de retomada da definição de empresa de capital nacional nos moldes defendidos pelo ex-presidente. Ele foi deposto pelo golpe militar em 31 de março de 1964 – menos de 20 dias depois do famoso discurso que provocou a reação de segmentos da sociedade, como empresários, industriais e grandes fazendeiros.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Discurso de Jango na Central do Brasil em 1964

Quinta, 13 de março de 2014
Do IHU
Instituto Humanitas Unisinos
Na sexta-feira, 13 de março de 1964, o presidente João Goulart defendeu as reformas de base propostas por seu governo em um grande comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Cerca de 200 mil pessoas participaram do ato político.
Foto: Arquivo Nacional / Correio da Manhã
Confira a íntegra do discurso:


Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.
Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao Brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.
Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.

domingo, 2 de março de 2014

O último carnaval de Jango antes do golpe

Domingo, 2 de março de 2014
Do Congresso em Foco
Às vésperas de ser deposto pelos militares, o presidente curtiu os dias de folia isolado do mundo, pescando numa ilha do Espírito Santo. Mas o clima era de apreensão. Na quarta de cinzas, ele já buscava nas ruas o apoio que lhe faltava no Congresso

O último carnaval de Jango no Brasil

POR FLÁVIO BORGNETH
Há 50 anos o Espírito Santo teve o carnaval mais político de sua história. Na iminência de ser deposto, o presidente João Goulart passou os dias de folia escondido do país pescando na ilha do Boi, em Vitória, enquanto a família permanecia na praia da Costa, em Vila Velha. Os confetes oficiais ficaram por conta da primeira-dama. Maria Teresa Goulart causou frisson nas matinês, bailes e colunas sociais da capital.
A família presidencial veraneou por aqui em 1964, a menos de dois meses do golpe militar que o tiraria do poder e o levaria ao exílio, junto com a família, no Uruguai e depois na Argentina, onde morreu em 1976. Foi o último carnaval de Jango ao lado da família no Brasil. Um carnaval envolvido pela candente atmosfera política que imperava no païs.
O anfitrião Chiquinho
De qualquer modo, o presidente e família, naqueles dias de prazeroso descanso aqui, gostaram tanto que esticaram a estadia até o carnaval. Não por acaso. O Espírito Santo era longe e perto do Rio de Janeiro, onde ainda funcionava boa parte dos ministérios que Brasília ainda não suportava. Maria Teresa e seus filhos, João Vicente e Denise, se hospedaram na residência oficial do governo do Espírito Santo, na Praia da Costa, em Vila Velha. Também passaram uns dias em Guarapari. Ocupado com sua presidência criticada acerbamente pela oposição por causa de decisões de caráter nacionalista tomadas por ele como a nacionalização de empresas estrangeiras , Jango vinha nos finais de semana a Vitória. E enquanto isso, núvens negras se acumulavam no seu horizonte político.
Quem recebia o presidente era o então governador Francisco Lacerda de Aguiar. Chiquinho, como era conhecido, era opositor do PSD – partido que dominou a política capixaba no século passado. O ruralista Lacerda de Aguiar comandou o Estado por duas ocasiões em um período onde a disputa do poder era reflexo de uma força econômica que mudava de mãos. O café precisava ser substituído pelas indústrias. Isso deixava uma vitrine política sem dono.
O futuro dos políticos capixabas dependia de como esse espaço seria ocupado. Na verdade, essa conjuntura era ainda mais complicada. Afinal, além do Estado, existia o país. Por isso, naquele verão, Chiquinho recebeu seus ilustres convidados com medo do futuro. Cada gentileza oferecida aos hóspedes poderia voltar-se contra ele caso o Brasil mudasse de mãos, como de fato mudou logo depois daquele carnaval.
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 Flávio Borgneth, de Vitória *
Há 50 anos, o Espírito Santo teve o carnaval mais político de sua história. Na iminência de ser deposto, o presidente João Goulart passou os dias de folia escondido do país pescando na ilha do Boi, em Vitória, enquanto a família permanecia na praia da Costa, em Vila Velha. Os confetes oficiais ficaram por conta da primeira-dama. Maria Teresa Goulart causou frisson nas matinês, bailes e colunas sociais da capital.

A família presidencial veraneou por aqui em 1964, a menos de dois meses do golpe militar que o tiraria do poder e o levaria ao exílio, junto com a família, no Uruguai e depois na Argentina, onde morreu em 1976. Foi o último carnaval de Jango ao lado da família no Brasil. Um carnaval envolvido pela candente atmosfera política que imperava no país. Leia a íntegra

O último carnaval de Jango no Brasil

POR FLÁVIO BORGNETH
Há 50 anos o Espírito Santo teve o carnaval mais político de sua história. Na iminência de ser deposto, o presidente João Goulart passou os dias de folia escondido do país pescando na ilha do Boi, em Vitória, enquanto a família permanecia na praia da Costa, em Vila Velha. Os confetes oficiais ficaram por conta da primeira-dama. Maria Teresa Goulart causou frisson nas matinês, bailes e colunas sociais da capital.
A família presidencial veraneou por aqui em 1964, a menos de dois meses do golpe militar que o tiraria do poder e o levaria ao exílio, junto com a família, no Uruguai e depois na Argentina, onde morreu em 1976. Foi o último carnaval de Jango ao lado da família no Brasil. Um carnaval envolvido pela candente atmosfera política que imperava no païs.
O anfitrião Chiquinho
De qualquer modo, o presidente e família, naqueles dias de prazeroso descanso aqui, gostaram tanto que esticaram a estadia até o carnaval. Não por acaso. O Espírito Santo era longe e perto do Rio de Janeiro, onde ainda funcionava boa parte dos ministérios que Brasília ainda não suportava. Maria Teresa e seus filhos, João Vicente e Denise, se hospedaram na residência oficial do governo do Espírito Santo, na Praia da Costa, em Vila Velha. Também passaram uns dias em Guarapari. Ocupado com sua presidência criticada acerbamente pela oposição por causa de decisões de caráter nacionalista tomadas por ele como a nacionalização de empresas estrangeiras , Jango vinha nos finais de semana a Vitória. E enquanto isso, núvens negras se acumulavam no seu horizonte político.
Quem recebia o presidente era o então governador Francisco Lacerda de Aguiar. Chiquinho, como era conhecido, era opositor do PSD – partido que dominou a política capixaba no século passado. O ruralista Lacerda de Aguiar comandou o Estado por duas ocasiões em um período onde a disputa do poder era reflexo de uma força econômica que mudava de mãos. O café precisava ser substituído pelas indústrias. Isso deixava uma vitrine política sem dono.
O futuro dos políticos capixabas dependia de como esse espaço seria ocupado. Na verdade, essa conjuntura era ainda mais complicada. Afinal, além do Estado, existia o país. Por isso, naquele verão, Chiquinho recebeu seus ilustres convidados com medo do futuro. Cada gentileza oferecida aos hóspedes poderia voltar-se contra ele caso o Brasil mudasse de mãos, como de fato mudou logo depois daquele carnaval.
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O último carnaval de Jango no Brasil

POR FLÁVIO BORGNETH
Há 50 anos o Espírito Santo teve o carnaval mais político de sua história. Na iminência de ser deposto, o presidente João Goulart passou os dias de folia escondido do país pescando na ilha do Boi, em Vitória, enquanto a família permanecia na praia da Costa, em Vila Velha. Os confetes oficiais ficaram por conta da primeira-dama. Maria Teresa Goulart causou frisson nas matinês, bailes e colunas sociais da capital.
A família presidencial veraneou por aqui em 1964, a menos de dois meses do golpe militar que o tiraria do poder e o levaria ao exílio, junto com a família, no Uruguai e depois na Argentina, onde morreu em 1976. Foi o último carnaval de Jango ao lado da família no Brasil. Um carnaval envolvido pela candente atmosfera política que imperava no païs.
O anfitrião Chiquinho
De qualquer modo, o presidente e família, naqueles dias de prazeroso descanso aqui, gostaram tanto que esticaram a estadia até o carnaval. Não por acaso. O Espírito Santo era longe e perto do Rio de Janeiro, onde ainda funcionava boa parte dos ministérios que Brasília ainda não suportava. Maria Teresa e seus filhos, João Vicente e Denise, se hospedaram na residência oficial do governo do Espírito Santo, na Praia da Costa, em Vila Velha. Também passaram uns dias em Guarapari. Ocupado com sua presidência criticada acerbamente pela oposição por causa de decisões de caráter nacionalista tomadas por ele como a nacionalização de empresas estrangeiras , Jango vinha nos finais de semana a Vitória. E enquanto isso, núvens negras se acumulavam no seu horizonte político.
Quem recebia o presidente era o então governador Francisco Lacerda de Aguiar. Chiquinho, como era conhecido, era opositor do PSD – partido que dominou a política capixaba no século passado. O ruralista Lacerda de Aguiar comandou o Estado por duas ocasiões em um período onde a disputa do poder era reflexo de uma força econômica que mudava de mãos. O café precisava ser substituído pelas indústrias. Isso deixava uma vitrine política sem dono.
O futuro dos políticos capixabas dependia de como esse espaço seria ocupado. Na verdade, essa conjuntura era ainda mais complicada. Afinal, além do Estado, existia o país. Por isso, naquele verão, Chiquinho recebeu seus ilustres convidados com medo do futuro. Cada gentileza oferecida aos hóspedes poderia voltar-se contra ele caso o Brasil mudasse de mãos, como de fato mudou logo depois daquele carnaval.
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Comissão Nacional da Verdade recebe documento que comprova que ditadura argentina monitorava Jango

Sexta, 20 de dezembro de 2013
Luciano Nascimento, repórter da Agência Brasil
Parentes do ex-presidente João Goulart entregaram hoje (19) à Comissão Nacional da Verdade (CNV) documento que comprova que o ex-presidente era alvo de vigilância da Operação Condor.

No documento consta que o 3º Exército pede para o governo argentino monitorar atividades de Jango e outros brasileiros. Para os parentes do ex-presidente, o material reforça a tese de que o ex-presidente foi assassinado pela ditadura, na chamada Operação Condor. "Este documento nos ajuda a rever a história do Brasil. Vemos muitas informações distorcidas que dizem que a operação não existiu. Para nós [parentes] o documento caracteriza que o ex-presidente era sim vigiado pela Operação Condor", disse João Vicente Goulart, filho de Jango. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Memórias de 64: Quando os dólares falam mais alto

Domingo, 6 de outubro de 2013


Mário Augusto Jacobskind
Instituto João Goulart

Engana-se quem pensa que já se conhecem todos os fatos relacionados com o golpe civil militar de 1964 que derrubou o Presidente constitucional João Goulart. Nos últimos meses, graças ao trabalho das Comissões da Verdade, sejam estaduais ou a Nacional, muito fato novo vem sendo divulgado.

Mas um fato desta semana, protagonizado por João Vicente Goulart, ao ouvir uma denúncia do então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, poderá mudar o entendimento de muita gente sobre a ocorrência mais negativa da história recente brasileira. O alerta tem endereço certo, ou seja, aqueles que ainda imaginam terem os golpistas civis e militares agido por idealismo ou algo do gênero.

O Major farmacêutico em questão, hoje anistiado como Coronel, servia em São Paulo em 31 de março de 1964 sob as ordens do então comandante II Exército, General Amaury Kruel (foto). Na manhã daquele dia, Kruel dizia em alto e bom som que resistiria aos golpistas, mas em pouco tempo mudou de posição. E qual foi o motivo de o general, que era amigo do Presidente Jango Goulart, ter mudado de posição assim tão de repente, não mais que de repente?

Mineiro de Alvinópolis, Erimá Moreira, hoje com 94 anos, e há muito com o fato ocorrido naquele dia trágico atravessado na garganta, decidiu contar em detalhes o que aconteceu. O militar, que era também proprietário de um laboratório farmacêutico e posteriormente convidado a assumir a direção de um hospital, foi procurado por Kruel no hospital. Naquele encontro, o general garantiu ao major que Jango não seria derrubado e que o II Exército garantiria a vida do Presidente da República.

MALAS DE DÓLARES

Pois bem, as 2 da tarde Erimá foi procurado por um emissário de Kruel de nome Ascoli de Oliveira dizendo que o general queria se reunir com um pessoal fora das dependências do II Exército. Erimá indicou então o espaço do laboratório localizado na esquina da Avenida Aclimação, local que hoje é a sede de uma escola particular de São Paulo. Pouco tempo depois apareceu o próprio comandante do II Exército, que antes de se dirigir a uma sala onde receberia os visitantes pediu ao então major que aguardasse a chegada do grupo.

Erimá Moreira ficou aguardando até que apareceram quatro pessoas, um deles o presidente interino da Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), de nome Raphael de Souza Noschese, este já conhecido do major. Três dos visitantes carregavam duas maletas grandes cada um. Erimá, por questão de segurança, porque temia que pudessem estar carregando explosivos ou armas, mandou abrir as maletas e viu uma grande quantidade de notas de dólares. Terminada a reunião foi pedida que a equipe do major levasse as maletas até o porta-malas do carro de Amaury Kruel, o que foi feito.

De manhã cedo, por volta das 6,30 da manhã, Erimá Moreira conta que mais ou menos uma hora e meia depois da chegada no laboratório ligou o rádio de pilha para ouvir o discurso do comandante do II Exército. Moreira disse que levou um susto quando ouviu Kruel dizer que se “o Presidente da República não demitisse os comunistas do governo ficaria ao lado da “revolução”.

Erimá Moreira então associou o que tinha acontecido no dia anterior com a mudança de postura do Kruel e falou para si mesmo: “pelo amor de Deus será que ajudei o Kruel a derrubar o Presidente da República?”


Ainda ouvindo o discurso de Kruel, conta Erimá, chegaram uns praças para avisar que tinha uma reunião marcada com o general no QG do II Exército.

Na reunião, vários militares, alguns comandantes de unidades, eram perguntados se apoiavam Kruel. “Eu não aceitei e pedi para ser transferido”.

CASSAÇÃO

Indignado, Erimá Moreira dirigiu-se a um coronel do staff do comandante do II Exército para perguntar se o general Kruel não tinha recebido todo aquele dinheiro para garantir a vida do Presidente. “Me transfiram daqui, que com o Kruel no comando eu não fico”.

Aí então – prossegue Erimá Moreira – me colocaram de férias para eu esfriar a cabeça. Na volta das férias, depois de um mês, fiquei sabendo pelo jornal que o Kruel havia me cassado”.

A partir de então o Major e a família passaram maus momentos com os vizinhos dizendo à minha mulher que era casada com um comunista. “Naquela época, quem fosse preso ou cassado era considerado comunista”.

Algum tempo depois contei esta história que estou contando agora ao General Carlos Luis Guedes, meu amigo desde quando servimos em unidades militares em São João del Rey. Fiz um relatório por escrito e com firma reconhecida. O General Guedes tirou xerox e levou o relato para a mesa do Kruel. Em menos de 24 horas o Kruel pediu para ira para a Reserva. Fiquei sabendo que com o milhão de dólares que recebeu do governo dos Estados Unidos comprou duas fazendas na Bahia”.

Ao finalizar o relato, o hoje Coronel Erimá Moreira mostrou-se aliviado e ao ser perguntado se autorizava a divulgação desse depoimento, ele respondeu que “não tinha problema nenhum”.

Nesse sentido, sugerimos aos editores de todas as mídias que procurem o Coronel Erimá Pinheiro Moreira para ouvir dele próprio o que foi contado neste espaço. Sugerimos em especial aos editores de O Globo, periódico que recentemente fez uma autocrítica por ter apoiado o golpe de 64, que elaborem matéria com o militar que reside em São Paulo.

Fonte: Tribuna da Imprensa

domingo, 4 de agosto de 2013

''Dúvidas sobre a morte de Jango só aumentam''

Domingo, 4 de agosto de 2013
Do Instituto Humanitas Unisinos

Entrevista especial com Lucília de Almeida Neves Delgado

“Se Jango de fato morreu de um problema cardíaco, por que não se fez a exumação e a biopsia? Por que essa resistência tão grande de anos e anos para se analisar seus restos mortais? A ausência de autópsia é mais um dado que sugere que sua morte não foi natural, porque se tivesse sido natural, para o respaldo do próprio governo militar à época, deveria ter sido feita a exumação de seu corpo”, avalia a historiadora.
     Foto de www.rededemocratica.org
Confira a entrevista.

A falta de “explicações sólidas” sobre a morte do ex-presidente João Goulart, fez dele o “político mais injustiçado da história do Brasil”, assinala Lucília de Almeida Neves Delgado em entrevista concedida à IHU On-Line, após comentar o documentário Dossiê Jango, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle. Ao analisar o filme à luz da História, Lucília, que há anos dedica-se à pesquisa sobre os fatos políticos do período militar, enfatiza que ele “reforça exatamente a construção de mais evidências sobre o possível assassinato de João Goulart”. Segundo ela, “de todas as pessoas que se envolveram na procura de provas e evidências sobre a morte de Jango, 18 morreram. Entre elas os políticos uruguaios Zelmar Michelini e  

Gutierrez Ruiz, que eram amigos do Jango e estavam investigando a morte dele. Também o empresário Enrique Foch Diaz, que mais conseguiu reunir muitas informações sobre a morte de Jango e escreveu um livro intitulado Jango: um crime perfeito, faleceu pouco tempo depois de publicado o livro”. E dispara: “Ficamos pensando: o que aconteceu para que todas essas pessoas, de uma forma ou de outra, fossem falecendo? A maioria por problemas cardíacos e alguns em decorrência de acidentes de carro. São coincidências muito estranhas, e as indagações sobre a morte de Jango só aumentam”.

De acordo com Lucília, Jango poderia ter retornado ao Brasil em 1974, dois anos antes de sua morte, período em que seu processo de cassação havia expirado. “Não havia mais razão legal para que ele continuasse no exílio e excluído da vida pública nacional. Uma interpretação que tem ganhado força é a de que com a distensão do regime, seguida de possíveis pleitos eleitorais, João Goulart e outros líderes políticos do pré 1964 poderiam se candidatar a algum cargo público. Como o governo militar não assimilava seu retorno à ativa, a opção teria sido  a de eliminá-los”, esclarece. E acrescenta: “havia um temor do governo de que lideranças excluídas em 1964 e que estavam no exílio voltassem para o Brasil com uma força muito grande. Esse temor era maior especialmente no caso dos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, ambos mortos em 1976”.

Leia a íntegra

sexta-feira, 29 de março de 2013

Lançado o documentário sobre o golpe de 64 - 'O dia que durou 21 anos’

Sexta, 29 de março de 2013
Carlos Newton
Tribuna da Imprensa
Começou a ser exibido hoje [quinta, 28 de março] em sete capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis e Salvador) o documentário longa-metragem “O Dia que Durou 21 Anos”, do diretor Camilo Tavares.
Como vocês bem sabem, neste domingo o golpe militar completa 49 anos. Esse documentário, utilizando informações recentemente liberadas pelo governo americano e entrevistas com militares e integrantes da resistência ao golpe no Brasil,  reconstitui toda a atmosfera que precedeu o golpe.

Em um país onde a memória histórica é tão pequena, este filme certamente pode e deve servir de instrumento privilegiado em escolas, faculdades etc, para a recuperação de fatos tão decisivos à construção de nossa nação. Explicitar (de forma jornalística e sem recalques) a participação dos EUA no golpe e seu modus operandi é certamente uma das virtudes desse filme.
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