Segunda, 13 de fevereiro de 2012
Do site da Tribuna
O comentarista Mario Assis
nos envia importante artigo do engenheiro Diomedes Cesário,
ex-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET),
reproduzido do site da entidade.
Como se sabe, jornais, revistas e televisões têm apresentado
anúncios da OGX informando o “início da produção de petróleo no Brasil
por uma empresa privada brasileira”.
A OGX faz parte do grupo EBX, de Eike Batista, o empresário mais
rico do Brasil e um dos maiores do mundo. Para o leitor desavisado,
parece tratar-se de uma história de dedicação, esforço próprio e alto
risco, como dos pioneiros da indústria de petróleo em todo mundo.
Infelizmente, a história é bem mais obscura.
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OGX E A QUESTÃO DO TALENTO, CONHECIMENTO E ÉTICA
OGX E A QUESTÃO DO TALENTO, CONHECIMENTO E ÉTICA
Diomedes Cesário
A OGX foi criada após Eike contratar Rodolfo Landim, ex-diretor de
Exploração da Petrobrás, em 2006, e adquirir blocos para exploração de
petróleo no 9º Leilão, promovido pela Agência Nacional de Petróleo, Gás
Natural e Biocombustíveis (ANP), em pleno governo Lula.
Para escolher as áreas, contratou o geólogo Paulo Mendonça, até então
Gerente Executivo de E&P da Petrobrás, responsável pelas locações e
detentor de informações acumuladas pelo corpo técnico da empresa.
No 9º Leilão, em novembro de 2007, a empresa de Eike arrematou
diversos blocos, com o assessoramento da equipe de técnicos da
Petrobrás. Foi exatamente neste leilão que 41 áreas em torno de Tupi
foram retiradas por fazer parte do pré-sal, descoberto pela Petrobrás,
após décadas de estudo, pesquisas e investimentos. A estatal, de posse
das informações recém obtidas nos poços pioneiros, alertou o governo
federal que não fazia sentido mantê-las, pois seria uma doação e não um
leilão. A partir deste episódio, o governo Lula iniciou a discussão que
resultou na mudança do regime do pré-sal de concessão para partilha.
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INFORMAÇÕES RESERVADAS
INFORMAÇÕES RESERVADAS
Segundo Ildo Sauer, professor titular da USP e diretor da Petrobrás
entre 2003-2007, em artigo na revista Retrato do Brasil, de novembro de
2009, “Vários setores do próprio governo lutavam pela manutenção das
regras liberais, mesmo diante de várias descobertas feitas na camada
pré-sal. A primeira se deu no bloco de Parati, em 2005. E o primeiro
poço com resultados espetaculares foi o 1-RJS-628, de Tupi.
Estranhamente, porém, foram mantidos os 11 blocos do chamado ‘arco de
Cabo Frio’, arrematados pela OGX, que recrutara a equipe de exploração
da Petrobras, sem reação por parte do governo.”
A equipe de técnicos da Petrobrás foi paga a preço de ouro, é claro.
Somente Landim – que acabou saindo, em 2009, após desentendimento com
Eike – recebeu 165 milhões de reais nos quatro anos em que trabalhou no
grupo. Em poucos meses ganhou mais que em toda sua vida na Petrobrás.
O salário médio dos diretores da OGX em 2010 foi de 5,96 milhões de
dólares por anos, com um máximo de 11,9 milhões de dólares. O salário
médio de um diretor da Petrobrás no mesmo período foi de 691 mil dólares
– um décimo da OGX – com um máximo de 728 mil dólares, conforme Retrato
do Brasil de outubro de 2011.
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QUESTÃO DE ÉTICA
QUESTÃO DE ÉTICA
A pergunta óbvia é: é legal e moral um empregado ou diretor sair da
empresa, onde foi formado e detendo informações estratégicas, para
trabalhar imediatamente numa concorrente? A questão é ainda mais grave
se esta empresa é controlada pela União Federal.
Em algumas áreas do governo, há períodos de carência que – dizem -,
muitas vezes, acabam sendo burlados por contratos de gaveta. O que
importa, na verdade, é o posicionamento ético, como o relatado por Celso
Furtado, em entrevista no livro “Seca e Poder”:
“Eu me recordo de uma história curiosa com Raul Prebisch, o criador
do Banco Central da Argentina, de tremenda influência na América Latina.
Ele me contou que quando saiu do Banco Central passou por grandes
dificuldades financeiras, teve até de vender o piano da mulher. Eu
arregalei os olhos: quem passara tantos anos chefiando o BC da Argentina
teria o emprego que quisesse! E ele disse: “Mas Celso, eu conhecia a
carteira de todos os bancos, administrava o redesconto por telefone, era
o homem mais bem informado! Todos queriam me contratar, mas eu não
podia trabalhar para nenhum.”
A história de sucesso de Eike termina uma de suas propagandas
afirmando: “Um marco importante para uma empresa que tem como essência
realizar e transformar. Afinal, recursos naturais só se transformam em
riqueza para o país quando se tem talento para descobrir onde estão e o
conhecimento para se chegar até eles.”
Deixou de informar que o talento – se é que se pode chamar de talento
-, ao contrário do que sugere o texto, não foi descobrir o petróleo,
mas, onde estavam os detentores de informações e “o conhecimento para se
chegar a eles”.
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TECNOLOGIA E PATENTE BRASILEIRA
TECNOLOGIA E PATENTE BRASILEIRA
Por fim, a questão tecnológica. Apesar de elogiar a Petrobrás pela
inovação e patente, Eike segue caminho diverso. Em entrevista à revista
Carta Capital de novembro de 2011, informava:
“Eu não ia conseguir montar o FPSO (navio-plataforma) sem a ajuda da
Hyundai. Mas vou trazer isso, com estrutura e tecnologia. Será que só eu
consigo? Nossos estaleiros vão virar a Embraer dos mares. Um estaleiro
com todo o know-how coreano transferido para o Brasil. O bacana é que eu
fiz o inverso. Não precisei de 20, 30 anos de pesquisa e
desenvolvimento para criar know-how. Comprei tudo, e em quatro ou cinco
anos vai estar tudo absorvido e a gente vai virar patente brasileira.”
Como Eike irá descobrir – se permanecer no negócio e não repassá-lo
aos chineses ou às “big oil” – a tarefa é bem mais complicada do que
aparenta.
