Quinta,
3 de janeiro de 2013
Por
Ivan de Carvalho
Ainda é muito recente para
deixar de ser mencionada a surpreendente (para os desatentos) e espetacular
queda do império comunista construído a partir da revolução de 1917 na Rússia.
Sem prévia sinalização, Mikhail Gorbachev, o líder máximo do grande império
militantemente ateu, sai do Kremlin, é cercado por populares e jornalistas na
Praça Vermelha e começa uma conversa espontânea com a óbvia determinação de
pronunciar, em russo, a propósito de alguma coisa, uma pequena e gigantesca frase
mágica: “Graças a Deus”.
Pronto.
Ali fora posto abaixo, politicamente, um dos dois pilares do marxismo – o “materialismo
histórico”, com seu corolário, o ateísmo. Qualifiquei de surpreendente para os
desatentos a queda do grande império soviético porque atentos observadores já
teriam notado no livro do profeta Isaías, no Antigo Testamento, a frase que
terá parecido enigmática quando foi produzida: “E quebrou-se o martelo de toda
a Terra”. Mas, no tempo próprio, seu significado tornou-se claro,
principalmente para bons entendedores, aos quais meia palavra basta – a
ausência de referência à foice não desqualificava a profecia.
Para
quem não foi atento ou não foi informado. O estigmatizado italiano Giorgio
Bongiovanni encontrou em Assunção, no Paraguai, a rainha Sofia, da Espanha.
Mostrou a ela os estigmas de Jesus crucificado. Em 27 de outubro de 1990, em
Madri, a rainha Sofia apresentou Bongiovanni a Gorbachev, presidente da União
Soviética e a sua mulher, Raissa. O estigmatizado pede a Gorbachev permissão
para dar a conhecer a Terceira Mensagem de Fátima na URSS. Mais tarde, o
italiano vai à URSS e tem acesso a rede nacional de televisão. Gorbachev, em
outra ocasião, também recebe em Moscou o papa João Paulo II e o apresenta,
publicamente, como “o santo padre”. Foi assim destroçado o ateísmo oficial soviético.
Demonstrada,
em um único exemplo, a instabilidade natural da política (apesar de restar o
mistério da profecia multimilenar de Isaías para o caso citado), vale uma
referência para o que parece ser, de longe, o fato político mais importante na
Bahia neste início de ano – a posse e início da administração do democrata ACM
Neto à frente do governo de Salvador.
A
perspectiva é a de que ele exercite integralmente seu mandato de quatro anos e,
chegando com boa aprovação ao final, busque a reeleição. Aí, sim, cumpriria
apenas uma parte do mandato para disputar uma outra eleição majoritária em
2018. Preferencialmente para governador, mas, por conta mesmo das
instabilidades da política a que estamos nos referindo, eventualmente a
senador, para buscar o governo mais adiante. Mas isso já jogaria as coisas para
2022 e é querer especular além dos limites razoáveis.
De
qualquer modo, ainda por conta da instabilidade da política, é improvável, mas
não se pode descartar absolutamente uma candidatura de ACM Neto a governador em
2014. Se o governo Wagner estiver com muita dificuldade político-eleitoral, se
o governo Dilma Rousseff tiver fortes dificuldades na economia em 2013 e 2014,
se Lula estiver bem menos popular que hoje, se a coalizão governista estadual
liderada pelo PT escolher um candidato política e eleitoralmente difícil.
No
entanto, se Neto – que começou bem na posse e seguiu bem ontem, no primeiro dia
efetivo de governo – eventualmente quiser partir para o grande desafio da
candidatura a governador em 2014 (já disse isso antes neste espaço) terá que
convencer o eleitorado da capital (e até do estado) de que é responsável, de
que estará deixando a cidade em mãos competentes. Esse é um ponto crucial.
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Este artigo foi publicado
originariamente na Tribuna da Bahia desta quinta.
Ivan de Carvalho é jornalista
baiano.
