Da Tribuna da Imprensa
Por Igor Mendes
Uma
breve caminhada pelo centro da cidade, nada mais. Basta isso para nos darmos
conta da complexa situação na qual vivemos. No camelódromo da rua Uruguaiana,
tão tradicional quanto o Saara ou o Teatro Municipal, operação de guerra.
Seguindo pela Av. Rio Branco, caso seja dia de manifestação –no mínimo uma vez
por semana há alguma concentração popular na Candelária –veremos, em cada
esquina, policiais militares fantasiados de Robocop’s, prontos para reprimir
implacavelmente servidores públicos em greve ou jovens secundaristas. O
trânsito está cada dia pior, e devido às obras do VLT as linhas de ônibus são
permanentemente deslocadas, fazendo as pessoas, sobretudo as que moram na zona
oeste, ficarem perdidas à procura da melhor forma de voltar para casa. Se for
noite, perceberemos, facilmente, o pedestre a nossa frente olhar de rabo de
olho quando nos aproximamos, assim como nós olhamos com o rabo de olho aqueles
que se aproximam de nós. Por toda parte, preços caros e nervos à flor da pele.
O
cenário do país não é diferente. Arrivistas controlam os principais postos do
Estado, a economia vai de mal a pior e na televisão “jornalistas” histéricos
exigem mais punição, mais prisão, mais repressão –volta a generalizar-se a
prática dos linchamentos, físicos e morais. De modo que nos acompanha,
permanentemente, a sensação de que algo muito grande e talvez terrível esteja
prestes a acontecer. O futuro, às vezes, parece sombrio.
*
As
situações de crise, como a que vivemos atualmente, e que não é apenas econômica
e política, mas também social e cultural, colocam sempre duas possibilidades.
Há um consenso amplo de que a atual ordem das coisas precisa ser modificada.
Partindo dessa base, apresentam-se duas hipóteses: do ponto de vista dos
oprimidos, que estão ainda bastante desorganizados e desprovidos de alguns dos
seus instrumentos históricos de resistência, como os sindicatos, que são no
Brasil verdadeiras máfias, a saída é mudar o status quo a seu favor, rompendo
ilusões com velhas “direções” traidoras como a de Lula/PT e retomando o caminho
da independência e mobilização classistas; do ponto de vista dos opressores,
tomar todas as medidas para que a primeira possibilidade não se realize sob
nenhuma hipótese, pelo contrário, fazer tudo para que o ônus da crise seja
transferido, ao máximo, para as costas dos trabalhadores.
O
primeiro caminho é o do avanço do protesto e da organização populares; o
segundo caminho é o da reação, da retirada de direitos sociais e aumento da
repressão. Ocorre freqüentemente, na história, deles coexistirem por um tempo,
até que o equilíbrio seja rompido para um lado ou para o outro. As jornadas de
junho de 2013 representam o primeiro caminho; a repressão implacável contra os
movimentos e ativistas que são os filhos legítimos daquelas jornadas, a redução
da maioridade penal e contrarreformas trabalhistas aplicadas pelo PT
representam o segundo caminho.
Um
é o caminho da liberdade, que abrange desde os democratas mais ou menos
conseqüentes em todos os setores, assustados com a truculência cada vez mais
ostensiva dos “todopoderosos”, até os revolucionários que vêem claramente como
uma falsidade burguesa chamar de “democrático” o Estado de direito burguês e
latifundiário; outro, o caminho do fascismo, que abrange um amplo espectro que
vai desde os celerados oportunistas (ou oportunistas celerados, como queiram)
como Bolsonaro e Cunha, passa pelo playboy Aécio e chega até o governo de Dilma
e Joaquim Levy, que seria facilmente ministro da fazenda de qualquer dos
governos militares dos anos 60 e 70.
Unidade
Essa
a palavra que deve nortear as ações de todos aqueles que se propõem a barrar o
caminho ao fascismo. Essa unidade exclui, naturalmente, aqueles que há doze
anos ocupam os mais altos postos no aparato estatal, praticando o fisiologismo
mais estreito, governando para as oligarquias que oprimem nosso povo há cinco
séculos. Tão grave quanto ficar cada um no seu quadrado, quando o rolo
compressor da reação ameaça a todos, é chamar de “amigos”, inimigos,
introduzindo um Cavalo de Tróia em nosso meio. Se o cenário é complicado e
parece inevitável que nosso povo terá de passar ainda por muitos sofrimentos,
está colocada, contraditoriamente, a possibilidade de transformação social –por
mais dura que seja a realidade, é melhor a sua percepção do que viver dentro
duma bolha de ilusões.
