Terça, 26 de maio de 2026
O chá de Xi Jinping com Trump não contemplou Yizhou
Da antiga Yizhou à Taiwan contemporânea, entenda a formação histórica da China e a projeção global de Xi Jinping
A espécie humana, como a identificamos, teve origem na África, espalhando-se pelo Oriente Médio e pela Ásia até o sudeste asiático e a Indonésia. Não eram exatamente como os homens atuais, pois se deslocavam pelas próprias pernas e necessitavam de dentes e aparelhos mastigadores adequados à sua alimentação. Também se miscigenaram com outros hominídeos em diferentes estágios de evolução, alguns dos quais sequer vieram a constituir espécies classificadas pela antropologia.
Faz-se esta referência técnico-científica para que, mais uma vez, a soberba e a arrogância europeias não tentem diminuir a relevância da África e da Ásia para a humanidade.
“A importância da China”, escreveu o professor Jacques Gernet, da Universidade de Paris, em 1972, para a primeira edição de Le Monde Chinois, na coleção Destins du Monde, “se faz notar no passado e no presente”; “foi a inspiradora de larga parcela da humanidade, dando-lhe sua escrita, suas técnicas, suas concepções do homem e do mundo, e suas instituições políticas”.
Logo se destacam sua extensão territorial e sua população. Com 9.706.961 km², ocupa a quarta posição entre os países do mundo em dimensão territorial e, em 2025, a segunda posição em população, com 1,405 bilhão de habitantes, número que vem diminuindo desde 2022, em razão do rápido envelhecimento populacional.
Embora a etnia Han reúna cerca de 90% dos chineses, Jacques Gernet ressalta, na publicação citada, que: “Tal como as populações da Europa, as da China são o produto de inúmeros movimentos humanos provocados por guerras, invasões, esforços de penetração colonial, transferências de populações e contatos entre vizinhos. As etnias turcas, mongóis, tungues, coreanas, tibetano-birmanesas, thai, miao, yao, mon-khmers e, por vezes, populações mais longínquas, vindas dos confins da Índia, do Irã e do sudeste asiático, contribuíram para a formação das populações Han”.
Atualmente, a China está organizada em 23 províncias, cinco regiões autônomas (Mongólia Interior, Ningxia, Xinjiang, Guangxi e Tibete), quatro municípios administrados diretamente pelo governo central (Pequim, a capital, Xangai, Tianjin e Chongqing) e duas regiões administrativas especiais (Hong Kong e Macau).
Essa subdivisão do território da República Popular da China, excetuando-se as regiões administrativas especiais – Hong Kong, desde 1997, e Macau, desde 1999 -, perdura, em linhas gerais, desde a Dinastia Qin (221 a.C. – 207 a.C.), que precedeu a Dinastia Han e o período dos Três Reinos (Cao Wei, Shu Han e Wu Oriental).
Houve, ao longo da história, profundas alterações políticas, especialmente durante o chamado “século da grande humilhação” – iniciado em 1839, com a Primeira Guerra do Ópio, e encerrado em 1949, com a fundação da República Popular da China – , além de transformações no início do século 20. Ainda assim, essas mudanças não tiveram o mesmo significado do ponto de vista geográfico.
Vamos tratar de Yizhou, o primeiro nome registrado para a ilha hoje denominada Taiwan. A Constituição de 4 de dezembro de 1982 trata da divisão administrativa da China sob o seguinte texto:
“«Artigo 30.º
A divisão administrativa da República Popular da China é a seguinte:
- 1.º O país divide-se em províncias, regiões autônomas e municipalidades diretamente dependentes do Governo Central;
- 2.º As províncias e as regiões autônomas dividem-se em prefeituras autônomas, distritos, distritos autônomos e cidades;
- 3.º Os distritos e os distritos autônomos dividem-se em cantões, cantões de nacionalidades e vilas”.
Taiwan sempre fez parte da China
A China continental é banhada por cinco mares: Bohai, Huanghai (Amarelo), Donghai (Oriental) e Nanhai (Meridional). O país possui mais de 5 mil ilhas, com uma superfície total de 80 mil km², sendo Taiwan a maior, com 35,8 mil km². A história de Taiwan começa quando, na época dos Três Reinos, a ilha passa a ser individualizada com o nome de Yizhou. Durante as dinastias Sui, Tang e Song, que perduraram entre 581 e 1279, a mesma ilha foi designada LiuQiu.
Assim se chegou à Dinastia Ming (1368-1644), quando o norte da ilha e o seu sul foram designados, respectivamente e especificamente, por Jilong e Beigang. No entanto, para nós, brasileiros, a ilha Yizhou ficou conhecida, por muito tempo, como Ilha Formosa, nome dado pelos portugueses que lá aportaram em 1542, data anterior à criação dos Governos-Gerais no Brasil, quando ainda vivíamos no período das Capitanias Hereditárias.
O nome Taiwan surge em 1684, durante a Dinastia Qing, após a ilha ter sido considerada parte da província de Fujian, com a qual se defronta no Mar da China Oriental, separada pelo Estreito de Taiwan.
Antes de tratarmos de Taiwan, é conveniente conhecer um pouco sobre a China insular.
Hainan é a segunda maior ilha chinesa e a menor província do país. Fica no extremo sul, no Mar da China Meridional, e é conhecida como o “Havaí chinês”, servindo como Zona Econômica Especial. Hainan, além de ser uma ilha, é a província mais meridional da China, constituída pela ilha homônima e por várias ilhas menores no Mar da China Meridional, sob a administração provincial. O nome significa “Sul do Mar”.
As Ilhas Zhoushan, ou Zhejiang, constituem um extenso arquipélago localizado ao sul de Xangai, com destaque para a ilha Putuo Shan, famosa por abrigar santuários budistas.
As Ilhas Pingtan, pertencentes à província de Fujian e localizadas muito próximas ao Estreito de Taiwan, constituem um polo de desenvolvimento e produção de energia eólica.
Na porção sul, no Mar da China Meridional, a China reivindica quase 90% da área total utilizando a chamada “linha dos dez traços”. Isso inclui o arquipélago formado por: (a) Ilhas Paracel (Xisha), disputadas principalmente com o Vietnã; e (b) Ilhas Spratly (Nansha), reivindicadas por múltiplos países, incluindo Filipinas, Vietnã, Malásia e Brunei.
A “linha dos dez traços” (ou linha das dez raias) é uma delimitação geográfica utilizada nos mapas oficiais da China para reivindicar a soberania sobre quase todo o Mar do Sul da China e outras áreas disputadas. Essa demarcação é uma evolução da histórica “linha dos nove traços”. Em 2023, o governo chinês publicou um novo mapa-padrão adicionando um décimo traço ao leste de Taiwan para reforçar suas reivindicações territoriais.
O estudioso João Lara Mesquita nos possibilitou a seguinte informação a respeito da disputa no Mar do Sul da China: “Estendendo-se ao sul da China e rodeado pelas Filipinas, Vietnã, Brunei e Malásia, encontra-se um corpo de água de 1,35 milhão de quilômetros quadrados: o Mar do Sul da China. Nesse local, as ilhas têm experimentado um frenesi de atividades nos últimos anos. A China construiu uma série de ilhas artificiais em toda a área. Elas são uma vitrine da engenharia chinesa. Mas essa demonstração de força provocou fortes reações dos vizinhos, particularmente das Filipinas, que instauraram uma ação contra a China perante a Corte Permanente de Arbitragem, em Haia. Em 12 de julho de 2016, o tribunal internacional decidiu contra a China. A superpotência recusou-se a reconhecer a decisão ou mesmo a jurisdição do tribunal”.
Chiang Kai-shek fugiu para Taiwan em 7 de setembro de 1949, acompanhado de 2 milhões de refugiados, pouco mais de dois meses após a vitória de Mao Zedong ao proclamar a República Popular da China. O apoio dos Estados Unidos da América a Chiang ocorreu logo após o ataque a Pearl Harbor, localizada na ilha de Oahu, no estado do Havaí, em dezembro de 1941.
Em 1950, dois dias após os EUA entrarem na Guerra da Coreia, os generais estadunidenses Joseph Stilwell e Albert Wedemeyer foram enviados a Taiwan para auxiliar Chiang Kai-shek como membros do Estado-Maior. Em dezembro de 1954, foi assinado o Tratado de Defesa Mútua, que perdurou até a morte de Chiang, em 5 de abril de 1975.
É oportuno recordar o que Liang Qichao, participante da Revolução de 1911 e observador da Europa durante a Primeira Guerra Mundial, afirmou, conforme consta no livro The Great Chinese Revolution: 1800-1985 (1986), de John King Fairbank: “Os ocidentais pregam o ‘amor de Deus’ e o ‘amor ao próximo’ e parecem acreditar em tais coisas. No entanto, fazem guerras com canhoneiras e peças de artilharia para conquistar povos à força, assim como impõem o ópio, um veneno pior que a peste, aos chineses – tudo pelo lucro. Ao que parece, o amor a Deus é menos real do que o amor ao lucro”.
Taiwan no século 21
Para entendermos a China de hoje, devemos retomar o 9 de setembro de 1976, quando faleceu Mao Zedong e assumiu Deng Xiaoping, que dirigiu a China na rota capitalista, de 1978 a 1990, com as seguintes medidas:
- 1978 – Reformas Econômicas;
- 1979 – Política do Filho Único;
- 1980 – Zonas Econômicas Especiais;
e teve início sua destituição, em 1989, pela multidão massacrada na terceira maior praça pública urbana do mundo, a Praça da Paz Celestial, ou Praça Tiananmen, fato que o levaria ao afastamento definitivo em 19 de março de 1990.
É importante assinalar que Deng Xiaoping nunca teve poder semelhante ao de seus sucessores, que acumularam a Presidência do país, o Secretariado-Geral do Partido Comunista Chinês (PCCh) e a Presidência da Comissão Militar Central.
Seu sucessor imediato foi o 8º Secretário-Geral do PCCh, Zhao Ziyang, também primeiro-ministro. Suas políticas de reforma econômica e suas simpatias pelos manifestantes estudantis durante os protestos da Praça Tiananmen, em 1989, colocaram-no em desacordo com membros da liderança do partido, incluindo o presidente da Comissão Consultiva Central, Chen Yun, o presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), Li Xiannian, além do premier Li Peng. Zhao também começou a perder as boas graças do então presidente da Comissão Militar Central, Deng Xiaoping. Após os eventos, Zhao foi expurgado politicamente e colocado em prisão domiciliar pelo resto da vida.
Seguiu-se, de 1989 a 2002, Jiang Zemin, 5º presidente e 9º Secretário-Geral do PCCh, que tentou uma acomodação entre o maoísmo e o capitalismo de Estado.
Já no século 21, foi escolhido Hu Jintao para 6º presidente e 10º Secretário-Geral do PCCh. Ele trouxe como inovação as ideias de Confúcio aplicadas às novas realidades ideológicas e científicas, além de um nacionalismo apoiado em ideias correntes na China desde Deng Xiaoping. Pode-se dizer que, de algum modo, preparou o caminho para o imenso sucesso que Xi Jinping viria a desfrutar com a expansão da China nos campos científico, tecnológico, econômico, comercial e militar, levando o país a ser considerado por muitos analistas uma das maiores potências mundiais da atualidade.
Xi Jinping é o 7º presidente da China, o 11º Secretário-Geral do PCCh e presidente da Comissão Militar Central (CMC). Seu protagonismo internacional se confirma ao receber, neste ano, em Pequim, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump; o presidente da Rússia, Vladimir Putin; o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung; o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez; o presidente do Vietnã, Tô Lâm; o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; e o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, entre muitas outras autoridades estrangeiras.
Embora não lhe seja uma virtude amplamente reconhecida, foi prudente Donald Trump em não tocar na questão de Taiwan. Só teria a perder e nada a ganhar.
Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado

